quinta-feira, 15 de maio de 2014

VISÃO DA PSICOLOGIA ANALÍTICA DE CARL GUSTAV JUNG

VISÃO DA PSICOLOGIA ANALÍTICA DE C. G. JUNG

Estudos de Geraldo de Souza, parte dos  Comentários a partir da apostila sobre “Carl Gustav Jung”, do Prof. Waldemar Magaldi da Facis
“A minha vida é a história de um inconsciente que se realizou....”
Para Jung, o grande daimon que existe em cada um de nós está no inconsciente. Descobrindo o daimon dá para desenvolver a potencialidade de cada um.
A doença é a possibilidade que o indivíduo tem de parar e repensar a própria vida.
A vida flui em busca de uma realização. E a Analise Junguiana faz com que o indivíduo repense a sua própria vida. A realização se dá quando encontramos equilíbrio em três aspectos.
O espírito, a totalidade, o sagrado vem do equilíbrio destes três aspectos.
O desequilíbrio nestes três aspectos decorre dos aspectos teleológicos para a realização do daimon.
A realização do daimon depende de 6(seis) aspectos, que são as causas dos problemas, presentes no desequilíbrio. No consultório tudo “se resume” nestes seis aspectos. Há pessoas que se fixam em um deles e não conseguem sair. (A leitura da tabela parte do corpo)
Do Corpo para cima e para dentro
sagrado / Espiritualidade
Questões existenciais, temáticas de morte, doença, liberdade, etc.
Sentimentos / Emoções
Este é o segundo aspecto  do trinômio que pode desequilibrar
Relação do indivíduo com o Corpo
Cuidado, respeito, amor e não  obsessão ou exclusividade. Eu tenho um corpo mas eu não sou um corpo. Aprender a usar o corpo e respeitar seu ritmo. O corpo tem uma sabedoria porque carrega toda a história evolutiva da vitalidade, desde as primeiras manifestações da vida. O processo evolutivo do corpo nos chama tanto para seres muito simples quanto para seres muito elevados. Todos temos os mesmos recursos. A questão é saber como usar.
Do Corpo para fora
Relação familiar
Nossa relação familiar é diferente da de todos os outros seres vivos. Temos uma longa e intensa gestação extra-uterina (até 25-30 anos). O filhote humano é muito dependente da mãe. Até dois anos ele fica submerso no self materno. Este ser tem uma relação familiar da qual é difícil sair. A co-transferência é a história da sexualidade em busca de sua afirmação.
Trabalho
O trabalho é um instinto e é necessário. O homem precisa se sentir produtivo e transformador. Esta é a sua capacidade de interagir e de se sentir útil.
Inserção social
Segundo Durkheim esta é um das grandes causas do suicídio.
A teleologia humana tem uma busca de significado que se manifesta nestes seis aspectos. Sempre que um deles fica descuidado ou supervalorizado os outros aspectos entram em conflito, o que provoca o desequilíbrio que se manifesta ou no soma (corpo) ou no psicossmo (alma) ou na energia. (ver desenho anterior). Para alcançar a realização é preciso trabalhar a integração e o equilíbrio dos seis aspectos.
Jung viu aí a internalização / externalização da energia psíquica. Só assim há a realização total do indivíduo. Para facilitar a realização teleológica, eventos sincrônicos começam a surgir.
Assim como não há experimento livre do experimentador, não há processo psicoterápico sem interferência.
Os eventos que surgem no mundo têm a ver:
  • com o que eu preciso e
  • com o que eu atraio
A individuação é um processo da pessoa para se tornar o que ela é realmente. Implica diversos aspectos:
  • Percepção da sombra (o outro de mim que eu não reconheço)
  • Readequação da persona
  • Integração do animus / anima
  • Disponibilidade á consciência do eixo Ego-Self
Tudo acontece via ego, que é o gestor da consciência enquanto não se faz o processo. O ego só perde a sua importância à medida que o processo evolui.

O processo da individuação leva à tolerância e ao desenvolvimento da compaixão. Talvez seja esta a grande meta da visão junguiana.

Nossa história civilizatória passou por diversas etapas:
  • Influência preponderante das religiões (A religião decidia sobre o belo e o verdadeiro)
  • A preponderância da ciência, que começou a se manifestar desde a revolução de Copérnico. Este maior poder da ciência trouxe uma noção de “inadequação” da religião. A ciência ficou presa no verdadeiro e começou a querer arbitrar o que é bom e belo.
  • Hoje o belo (a Estética) tende a querer arbitrar sobre o bom e o verdadeiro, assim como já aconteceu na Grécia clássica (os defeituosos físicos eram exterminados) ou na era hitleriana.
Qualquer uma destas predominâncias é esquizofrênica. Arte, religião e ciência precisam se integrar. Daí vem a noção de quaternidade, que é a união dos quatro elementos em busca da transcendência.
Para o indivíduo se perceber, segundo Jung, a capacidade de imaginação é muito importante. Tudo o que fazemos é precedido de uma imagem. Há uma elaboração imaginal até nos psicóticos. (o que acontece, no caso dos psicóticos, é que o tempo entre a imaginação e a ação fica muito reduzido e isto provoca distúrbios).
Jung desenvolveu a teoria da imaginação criativa, dos símbolos pessoais e coletivos. Através da expressão simbólica o indivíduo pode reorganizar os seis aspectos. (Ver tabela anterior)
O processo de cura está dentro de cada um, na relação com o self. O que o indivíduo expressa é o seu caminho para a individuação.
Tudo começou no mundo interno de Jung. (“Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou”[1])
Existe um potencial a ser realizado em cada ser humano, que Heráclito chamou de DAIMON. Este termo foi retomado mais tarde por Jung. Ver também J. Hillmann – O Código do Ser, onde ele conta a história de vida de grandes homens que realizaram seu daimon.
Em alguns indivíduos este daimon está muito bem fundamentado. Em outros aparece menos claramente.
Pitágoras (500 a.C) já mencionava a espiral logarítmica que existe em tudo que há na natureza. Esta espiral é matemática e é musical. Hoje se sabe que o som do universo lembra o mantra OM.
A evolução precisa acontecer primeiro do ponto de vista físico para depois chegar ao mental, à alma e ao espírito.
Dentro dos estudos sobre o ser humano, Jung está ligado à quarta vertente. A primeira é o comportamentalismo (behaviorismo), a segunda é a psicanálise, a terceira, o humanismo e a quarta, o transpessoal. Aqui se fala da reunião de ciência, religião e arte, que correspondem aos conceitos de verdadeiro, bom e belo.
Jung é um fenomenólogo: “eu não provo, mas a vida vai mostrando que existe”. No caso dos sonhos, por exemplo, até hoje não se sabe bem o que é. Tem algo de psíquico e tem algo de físico. Para Freud eram restos reprimidos de desejo. Para Jung os sonhos são direcionadores do caminho de auto-realização.
Todo processo de auto-conhecimento só pode se realizar sozinho, no sentido de “alone” = all-in-one. É só e é na totalidade.
O processo de imaginação (imagem – ação) é um processo de auto-cura. Jung enlouqueceu três vezes ao longo da vida.
O mito do curador ferido.
Quíron era um centauro imortal, um sábio que estudou muita coisa, entre as quais a naturopatia e a cura. Era mestre de diversos deuses e mortais, entre eles Hipócrates, que se tornou o pai da medicina. Em um dos trabalhos de Hércules uma das flechas mortais do semi-deus o atinge. E Quíron ficou com uma dor imensa e incurável, visto que era imortal. Ele foi atrás de auto-conhecimento para aliviar a própria dor e descobriu que quando começou a aliviar a dor do outro, a sua própria dor diminuía.
(Ver Mito de Quíron, ver filme O Valor da Vida, que conta o início dos AA)
A humanidade está vivendo um momento em que se faz necessário um salto de consciência para que o planeta não afunde na poluição e na extinção de seus recursos. Já existe massa crítica e ela está se formando e crescendo em uma velocidade cada vez maior.
Este momento também provoca angústia. E as pessoas que buscam as drogas na realidade procuram uma falsa sensação de contato com o sagrado. Uma pesquisa indicou que 40% dos jovens americanos consomem regularmente alguma espécie de droga, lícita ou ilícita.
Segundo Jung, existem 5 (cinco) instintos no ser humano. Na natureza não humana só os três primeiros se manifestam. Os dois últimos são tipicamente humanos.
Instinto
Características
1. Sobreviver
Necessidade de alimento: ar, água, comida. Para Freud é o instinto da fome. Tem base biológica
2. Crescer
Trabalhar; construir o espaço para evoluir e crescer. Na natureza todos trabalham. Não dá para perpetuar a espécie se antes você não está cuidado. Ex. da aranha: primeiro chega à idade adulta (sobrevive) e aí faz a sua teia (trabalho de crescimento). Só depois da teia feita é que ela vai procurar acasalamento (perpetuar a espécie). Porém a teia tem que ser feita na justa medida: se for pequena demais a aranha não consegue pegar alimento suficiente; se for grande demais, ela corre o risco de pegar um outro animal que a coma. A partir destas constatações Marx construiu a teoria da menos / mais valia, da exploração do homem pelo homem, etc. Ver tb. Hanna Arentz, que distingue trabalho e labor. Este último aparece quando se começa a querer mais do que o necessário para a sobrevivência.
3. Perpetuar
Sexo. A dança cósmica de acasalamento. União, junção, troca para produzir a junção das partes.
4. Reflexão
(instinto tipicamente humano)
Reflexão vem de fletir, dobrar-se em todas as dimensões e ver aspectos seus em tudo isso: no profundo e no superficial, no superior, no dentro, no fora, no antes e no depois. Este instinto tem a função de nos deixar angustiados. A capacidade reflexiva leva à angústia. Portanto, a angústia[2] é um instinto. Esta é a base da psicanálise. Ninguém se livra da angústia mas ela pode ser alavanca de crescimento.
A angústia se fundamenta nas três grandes perguntas:
  • De onde eu vim, se é que eu vim?
  • Para onde eu vou, se é que eu vou?
  • Quem eu sou, se é que sou?
5. Criatividade (instinto tipicamente humano)
Base de toda a ciência, religião e arte. Aqui está o verdadeiro, o bom e o belo. As produções criativas servem para aplacar o instinto de reflexão. Servem para responder ao irrespondível. Por isso não se pode dissociar ciência, religião e arte. É preciso resgatar a dimensão científica, religiosa e artística do ser humano. É preciso saber sobre as novas conquistas científicas. Hoje se sabe que nada se opõe à luz: o que existe é ausência de luz. Esta afirmação científica se reflete na questão religiosa do bem e do mal. Não existe o mal: o que existe é a privação do bem, já dizia Sto. Agostinho. Jung se debateu nesta questão.O mal existe no plano da consciência mas não no do self.
A luz é a consciência, o divino. É preciso levar luz. A religião é a comemoração festiva do homem frente a si mesmo (comemorar= com+memorar, lembrar junto, com festa)

Tudo isso faz parte dos desejos da alma. A alma deseja resposta para as perguntas trazidas pela angústia.
Os três primeiros instintos são necessidades. Necessidades são saciáveis. Os dois últimos são desejos. Desejos não podem ser saciados jamais. (Por isso o marketing transformou necessidades em desejos que passaram a ser mundanos, profanos. Não tenho necessidade de abrigo e sim “daquela” casa; não tenho necessidade de comida e sim “daquele” restaurante, etc.
Os mitos nascem em resposta às angústias. A religião é a produção criativa para aliviar a angústia e o medo frente ao desconhecido.
A alma vive ao mesmo tempo a pressão de quatro fatos:
  • A certeza da morte física
Ao nascer lidamos com essa certeza
  • O medo da liberdade
Todos querem ser livres, mas na hora H bate a angústia: você tem dúvida, você está preso. O indivíduo absolutamente livre é autista; não tem consciência egóica. “Liberdade é poder escolher – apesar da angústia da escolha – escolher com quem e como você vai estabelecer uma relação de dependência e servidão.” (W. Magaldi)
  • A percepção da solidão (solitude)
Nós somos seres solitários. Posso falar do gosto do vinho mas nunca terei a certeza de que o meu gosto é o seu gosto. A nossa experiência é solitária
  • A falta de sentido existencial
Qual o sentido da minha vida? Por que eu tenho liberdade de escolha?
 A grande magia é transformar o ordinário em extraordinário, mas continuar vivendo o ordinário. O cotidiano é uma grande aventura, mas você tem que ter o olhar aventureiro, sem se deixar anestesiar. Tudo é leitura e crescimento. Tudo pode ser maravilhoso.
Jesus disse: “Eu sou o escândalo!” Em aramaico, “escândalo” é a pedra de tropeço. E o tropeço é a queda, a tomada de consciência, a lapidação para encontrar o seu próprio cristal. Os tropeços chamam a atenção para a própria vida.
Nós vivemos em um mundo em que, na Idade Média, a Igreja (religião) definia o verdadeiro (ciência) e o belo (arte). Com a cisão, a ciência ganha espaço. Surgem novas teorias: Copérnico, Darwin, Freud – sonhos, inconsciente, pulsões sexuais infantis,) Virou vergonhoso para os cientistas se dizerem religiosos. Só o científico tinha valor.
O ciclo de predominância do belo pode ser encontrado na Grécia que cultuava a beleza apolínea, e não a beleza dionisíaca. A época hitleriana também é um período de predominância do belo.
Deus, na estética externa de simetria perfeita é Apolo. Apolo não se relaciona. Seus amores se transformam: Dafne vira um loureiro; Jacinto vira uma flor. Dionísio busca outra beleza. Ele faz nascer o teatro e o drama, mas também a moral e a ética. [3]
Atualmente, pode-se dizer que os políticos são seguidores de Apolo: só valorizam a beleza exterior e a estética, sem olhar para a ética
O self é incorruptível e ele usa tudo para nos fazer tropeçar e nos dar aprendizado. A gente tem um sensor / instrutor interno.
As estruturas dos instintos básicos estão registradas biologicamente no homem. Nós fazemos o percurso evolutivo desde o ser unicelular até chegar à nossa complexidade cerebral bioquímica.
Importância da relação familiar:
Nenhum ser vivo tem a dependência extra-uterina que tem o ser humano. A formação dos seres vivos normalmente tem uma duração extra-uterina equivalente a três vezes a gestação intra-uterina. Por exemplo: o cachorro tem uma gestação de 3 meses e aos 9 meses é um adulto. No ser humano, uma criança de 27 meses (3 x 9 meses de gestação) é super dependente. Somos seres familiares e relacionais, o que nos leva também a uma absorção das neuroses de pai e mãe. As feridas narcísicas provocadas por pai e mãe são profundas porque estão totalmente absorvidas pela criança.

Temos uma estrutura complexa:
1. axial ganglionar
Similar à ameba: encostou, reage. São atos reflexos

2. complexo reptilíneo
Sistema oriundo dos répteis. São estruturas voltadas para os três primeiros instintos: sobreviver, crescer, perpetuar. É o sistema neuro-vegetativo
3. sistema límbico
Aqui reside o núcleo emocional, oriundo dos mamíferos. (Emoção quer dizer “movimento para fora”). Este sistema é que permite o aparecimento dos sonhos.
4. sistema neo-cortical
Junto com o sistema límbico, dar ao ser humano a capacidade de reflexão e criatividade. Capacidade de linguagem e de abstrair simbolizando
5. Neo-cortex complexo
É formado do corpo caloso e da glândula pineal, a qual já foi chamada de “ponto Deus”. É o sistema que permite a transcendência integral, que é o que integra tudo isso.
O ser humano metaboliza as emoções através do próprio corpo. As alterações são físicas e bioquímicas. O organismo produz as substâncias que as emoções exigem.
O ser humano (sua mente) tem poderes enormes sobre o corpo. Do ponto de vista psíquico é possível dizer que a serenidade é melhor que a raiva. Mudando o seu estado, a pessoa muda o composição bioquímica do seu corpo. Jung tinha este conhecimento.
Segundo Jung existe uma lógica à distância que vem (talvez) desde o Big Bang. Este é o plano teleológico para a evolução psíquica, afetiva e emocional.

“O homem parece ser expresso através de um mito.”
Toda a psicologia junguiana defende a idéia do símbolo. O símbolo é o grande propulsor de energia que ajuda o homem a se encontrar consigo mesmo. Quando tenho uma queixa (física, emocional, mental, espiritual...[4]) há um desequilíbrio e a possibilidade de encontrar um símbolo que ajuda o indivíduo a se realizar.
A idéia de símbolo vem do latim syn (junto) + ballem (projétil, movimento, confronto de forças). O símbolo é portanto um confronto de forças que se opõem, que são antagônicas, e que deste modo revela algo para o indivíduo.
Aparece então a noção de SIZÍGIA, que é a hora em que os opostos se unem.

Todo o trabalho do analista junguiano consiste em aprofundar – ampliar – diluir.
Por exemplo: o cliente chega com uma dor de cabeça. Procura-se uma imagem para representar esta dor. O cliente chega a um torniquete.
O que representa o torniquete? – Tortura.
Para que está ocorrendo esta tortura? – Preciso confessar. Que segredo?
O cliente busca uma imagem e se lembra da mãe que beija um homem que não era o pai. Nesta hora ele confessa ao analista que está tendo um caso extra-conjugal.
A dor de cabeça veio para que ele fizesse o confessional dele para ele mesmo. É o confronto com a sombra.
Depois desta primeira fase vêm: a fase elucidativa, a fase pedagógica e a fase transformadora. Alguns pacientes não ultrapassam o confessional, ou não conseguem chegar à fase transformadora.
A sizígia é o processo de juntar os opostos.

Sintomas são expressões simbólicas que revelam de forma violenta algo que está em desequilíbrio em um dos seis aspectos e possibilitam o auto-conhecimento ou a destruição total. Toda tomada de consciência está ligada à queda. No paraíso havia inconsciência; não era vida. Se todos os nossos desejos forem atendidos, o que advirá será a apatia, o inferno inconsciente. Estar no céu é ser co-autor da criação, é ter compromisso com a minha própria transcendência. O estado do numinoso é o transpessoal.
Sintomas são caminhos para a cura. (Syn = junto + ptose = queda). Por isso, os médicos junguianos não receitam remédios: para não mascarar os sintomas. Nós não curamos os doentes; as doenças é que nos curam. A mudança interna leva à mudança externa.

O processo evolutivo da humanidade acontece até nas doenças. Cronologicamente, temos:
Histeria

O grito desesperado do feminino querendo espaço no mundo patriarcal
Esquizofrenia
Quando o feminino ganha espaço, a esquizofrenia aparece para poder relativizar a vida maniqueísta. A arte e a vida ficam esquizofrênicas porque a vida vira um paradoxo.

Depressão
A inserção e o retorno do sagrado

A doença mostra o caminho da evolução, o crescimento e a transformação da própria humanidade.
Freud explica (define, dá fim). Jung compreende (aceita, acolhe).

Toda a estrutura capitalista impõe valores e nos leva a “vestir roupas que não são nossas”: consumo desenfreado, busca de um padrão de perfeição que é um simulacro. Este reino virtual nega o sentido da ética e do humano.

O símbolo é a antinomia, são pares de opostos que precisam ser integrados no processo de sizígia. O maior destes processos de integração é a harmonização animus / anima.

Harmonia é a consonância dos dissonantes. Este conceito é diferente do de equilíbrio, que é dinâmico.

Existem 4 reinos, que reagem diferentemente quando são estimulados:

Reino
Quando é estimulado......

Mineral
Dissolve e coagula

Vegetal
Sexualiza ou morre (a flor é a expressão de vida)

Animal
Ataca ou foge

Hominal
Permanece ou transmuta

O reino humano tem os quatro reinos dentro de si. Algumas pessoas ficam fixadas em um dos reinos acima. Mas temos o arbítrio de lidar com os quatro.

Relacionando estes reinos com a estrutura neuro- cerebral temos:
Reino mineral
axial ganglionar
Atos reflexos
Reino vegetal
complexo reptilíneo

Os instintos animais: sobreviver, crescer, perpetuar.
Reino animal
sistema límbico
Movimentos emocionais
Reino hominal
sistema neo-cortical primário
Abstração, simbolismo
Integração dos quatro elementos
neo-cortex complexo

Transcendência
Todo o trabalho de psicanálise junguiana tem uma dimensão de busca do sagrado.
A citação transcrita reafirma a existência de um daimon. O sentido da própria existência é permitir que o ego aceite este fato e possa progredir. Não se pode falar do humano-psíquico se usarmos uma imagem matemática-científica.

O humano é um processo.
Pela metáfora do mito vê-se que há todo um movimento de adequações / inadequações. O mito mexe nas bases do indivíduo; é exuberante. Nietzsche se chateou quando percebeu que estavam transformando os mitos em romances.

Quando se pega um caso e se faz uma análise, fica claro que existe um mito por trás, existem temáticas de vida que nem sempre são pessoais e sim trazidas da estrutura familiar. São indivíduos que ainda estão tentando superar o drama da própria criação, a vida psicológica não vivida dos pais, os dramas da própria inadequação paterna.

Usa-se o símbolo para permitir que o indivíduo supere a culpa, sem se culpar.
O inconsciente não está preso nem à dimensão temporal nem à dimensão espacial. O self nos manda “recados” para que o indivíduo atinja a totalidade. Tudo o que acontece são possibilidades de auto-conhecimento. Como disse o próprio Jung: “Até hoje Deus é o nome pelo qual designo todas as coisas que cruzam o meu caminho e modificam o curso da minha vida, para melhor, ou para pior.”

O processo de realização é de confronto e não exige perfeição. Por isso, não se pode endeusar Jung (nem ninguém). Evidentemente, aos 86 anos, quando ele morre, Jung não era o mesmo que aos 30 ou aos 40. Ele vive situações de embate em que lida com as imperfeições, correndo os riscos normais de quem se entrega para a vida
.
É muito importante avaliar a obra de Jung no seu conjunto, analisando a cronologia, o contexto, etc.
Quem está trabalhando no mundo psíquico acaba recebendo muitas projeções e precisa aprender a trabalhar com elas. A análise junguiana trabalha muito a questão da co-transferência, tema que será aprofundado ao longo do curso.

Na abordagem junguiana, o terapeuta se entrega para a exposição transferencial. O analista fica de frente, olho no olho, face to face, estabelecendo troca intensa. E esta troca intensa tanto expõe o analista quando o analisando. E o processo do desnudar-se mostra o quanto a exposição transferial é grande. Essa exposição pode despertar paixões (e até atuações sexuais, que estão muito presentes dentro da prática psíquica, em qualquer abordagem).

 Na abordagem junguiana isto ocorre mais intensamente ainda porque está muito exposto, muito vivo. E o desejo de formar a comunitas, de formar união é inconsciente, porque está no âmago de cada um de nós e a gente fica sempre exposto a esta possibilidade.
Por isso é fundamental a análise do analista. Se ele não tiver este processo de análise bem resolvido ele vai atuar todas as vezes, porque em qualquer frustração é melhor partir para a atuação, com as fantasias todas (“Eu vou te iniciar”, “vou te dar prazer”, “vou mostrar como faz”...)

A obra de Jung é ecológica. Jung vê o homem como um todo. Como Jung trabalhou vários aspectos da natureza humana, ele permite que nós, analista junguianos, percorramos todos os aspectos em todas as fases e demandas da vida humana. A gente tem recursos para trabalhar o indivíduo que está desde a fase do Uroboru, do pleroma[5], até a fase da busca de transcendência, respeitando os momentos da vida.

Obviamente, uma criança de 6 anos está lidando com os conflitos maternos; uma criança de 10 anos, com os conflitos paternos, um adolescente, com os conflitos da sociedade, de inserção no meio,
 um adulto de 20-30 anos, com a estruturação do ego, e um homem ou uma mulher madura, pós metanóia, depois dos 40-45 anos, está lidando com as questões existenciais.
A gente tem que respeitar estas fases, e nós temos base, nós temos que interagir para que isso aconteça de forma natural. A gente pode passar por tudo isso, respeitando as etapas da própria evolução do ser humano.
Existe um acoplamento estrutural onde tudo está ligado a tudo. Não dá para fazer campos cirúrgicos estanques. É preciso encarar a relação total do indivíduo nos seis aspectos mencionados anteriormente (corpo, família, trabalho, sociedade, dimensão afetiva-emocional, dimensão espiritual). É bobagem imaginar que posso atender um indivíduo e deixar de lado um aspecto ético, por exemplo. Eu tenho que lidar com todas as questões[6].
Através das brechas deixadas por uma análise que não contemple todos os aspectos do indivíduo, as neuroses encontram uma forma de drenar o embate energético entre o eu e o inconsciente.
Além disso, como a gente tem ferramentas como as questões simbólicas, as questões arquetípicas, as questões do inconsciente coletivo, os aspectos de sincronicidade, os tipos psicológicos, e toda a dimensão mítica, a gente vai usando as ferramentas adequadas a cada fase. O tipo psicológico é muito bom, principalmente quando o indivíduo está buscando esta relação com o meio e uma reconfiguração da própria persona, para depois integrar a sombra.

Jung tenta conceituar, mas não se ocupa em definir. Este detalhe é interessante, porque permite sempre a transformação. À medida que nós definimos, nós matamos, por isso buscamos conceitos e não definições. As definições são estanques e tiram a possibilidade criativa.
A obra junguiana consegue acolher, conter e transformar os casos de surtos psicóticos, sem precisar colocar o indivíduo em uma camisa de força física ou química. Do mesmo modo, ela também acolhe uma emergência espiritual.
“A persona científica, vestida com as roupas da arrogância do saber, nos afasta deste processo, projetando uma enorme sombra, que se expressa através do capitalismo selvagem”. (página 2, §

1) Existe uma enorme necessidade de “venda” do novo, que no fundo é raso. E esse “novo raso” tira o indivíduo da profundidade.
O profundo é ser simples e não simplista. O “novo raso” é simplista, e o indivíduo perde a conexão.
“A negação do si mesmo nos induz ao consumo desenfreado.” Os objetos de consumo são transformados em desejos da alma. Como os desejos jamais são saciados, estes desejos provocam movimentos de obsessão compulsiva de compra, de aquisição desvairada. O indivíduo acredita que, adquirindo algo, conseguirá de alguma maneira lidar com o vazio que o assusta e o assola. E aí as pessoas passam a se preocupar mais com o acúmulo de bens do que com a qualidade potencial de vida. Nós estamos vivendo isso inclusive agora na era do conhecimento. Há indivíduos que só fazem acumular conhecimento mas não conseguem trocar. A pessoa fica entulhada de conhecimento e se esvazia de Vida.
Cria-se um reino virtual ou reino do simulacro. Parece que o mundo adora o simulacro. As pessoas acreditam que no simulacro a angústia fica menos evidenciada, a dúvida fica menos presente, porque na idéia do simulacro você tem o perfeito. É comum a gente ver alguém ver uma planta bonita, tocar a planta e se espantar por ela não ser artificial (Não acredito!!! É de verdade?!?!) Parece que a beleza só pode ser um simulacro, porque a pessoa não consegue lidar com o perfeito vital.
O ser humano tem que lidar com os três grandes gigantes da alma, as três demandas, que são:
  • Estética – a busca do belo (arte)
  • Ética – a busca do bom (religiões, sistemas morais, Estado)
  • Realidade – a busca do verdadeiro (ciência)
Freud ficou preso na estética, no prazer sensorial. Mas, na realidade, nós precisamos integrar estas demandas. Percebe-se que a humanidade, ao longo do seu processo evolutivo, passa um tempo trabalhando uma destas demandas e esquecendo as outras. De repente vem uma influência civilizatória e há uma mudançaO feminino é a ponta de lança da mudança, e isto geralmente assusta o masculino. A gente sabe, por exemplo, que toda a revolução francesa só pôde acontecer por causa da força da mulher. Só que, depois da revolução, elas voltam a ficar na condição de submissas. (Na França, por exemplo, as mulheres só puderam votar depois da 2ª. Guerra Mundial.)

No início tínhamos Lilith, que era igual ao homem, sem nenhuma relação de submissão ou de poder. Mas virou a Lua Negra depois que casou com Lúcifer. Ela não pôde se manter.

Aparece então a Eva, criada da costela de Adão. É uma mulher submissa ao masculino, porém ela se deixa seduzir pelo veneno, pelo presente e convida o masculino a adquirir conhecimento e cair do paraíso para entrar na realidade, lidar com a polaridade.

A Lilith transgride o masculino e a Eva transgride a proibição. A mulher Lilith/Eva deixa o homem desesperado: ele não dá conta. Então ele beatifica a mulher, e a transforma em santa.
O feminino passa a ser representado pela Virgem Maria, e aí o homem se sente seguro de novo. A mulher lhe dá filhos, cuida dele e da prole, etc. Mas esta mulher vive presa: não tem direito ao prazer.
Aí se produziu o primeiro grande sintoma psiquiátrico do mundo ocidental: a histeria. No Oriente, onde a mulher ainda está transformada em Virgem, a histeria está presente. Uma quantidade enorme de mulheres, na Índia e na Ásia, se queima histericamente para ficarem mutiladas e saírem da opressão do masculino. Existe uma atitude extremamente machista no mundo, ainda hoje. Na China já 40 milhões de jovens, entre 19 e 23 anos, sem mulher – conseqüência da política do filho único.
O masculino do mundo tem medo da mulher.
Por isso a inquisição queimava as bruxas.
Quando a mulher ganha espaço, ela vai para a ciência. Ela sai da dimensão ética e vai para a dimensão da realidade. Surge então a mulher que, do ponto de vista junguiano, é chamada de Helena – a mulher que vai para a batalha. Ela seduz; ela rompe com uma relação inadequada para buscar uma relação mais intensa; ela faz planos com o homem; trabalha. No fundo é uma mulher que volta a ser mais forte do que o homem.

Helena é a mulher contemporânea. É a “mulher tecnológica”, é a mulher da ciência. Agora ela vai ter que ser bonita, sedutora, trabalhar, tomar conta das atividades domésticas, cuidar dos filhos, e ainda – de alguma forma – cuidar do companheiro. Isso vai gerando, junto com toda a tensão, um outro aspecto que é a esquizofrenia.

A histeria inseriu o feminino no mundo e a esquizofrenia fez com que o mundo aceitasse esta divisão toda de papéis, onde a mulher tem, simultaneamente, a relação de prazer e de trabalho, sendo também aquela que se doa. É essa dimensão esquizofrênica que produziu, na ciência, a aceitação da dimensão da relatividade (tempo e espaço são relativos; matéria e energia é a mesma coisa em estados diferentes, o inconsciente é atemporal e é aespacial – tudo isso é esquizofrênico)

Então, hoje, temos estes três aspectos: no primeiro momento, as “hordas humanas”, como Freud dizia, buscavam puramente experiência estética, sensorial, de prazer. Depois veio toda uma evolução social, política, que fez com que a ética anulasse toda a estética (a religião decidia o que era bom, e o bom era o árbitro da beleza e da verdade).

Depois dos anos 60, a mulher começou a ganhar espaço e o mundo começou a aceitar a esquizofrenia e a relatividade como uma realidade, começou a aceitar que existem mistérios de que a gente não dá conta. Por exemplo, as pesquisas sobre a genética nos levaram a compreender que o papel do mensageiro e do receptor era mais importante do que se imaginava, porque eles também podem intervir na carga genética. Por trás de tudo está a mente, que é um outro plano de energia, que não está no nível da razão, e por isso escapa ao controle do ser humano.
Este é um momento muito crucial de vida, e por isso está surgindo a terceira grande doença psiquiátrica, que é a depressão. A depressão está vindo para permitir o aparecimento de outra mulher – Sofia.
Sofia (a sabedoria) vai ter que integrar os três aspectos que a antecederam: Helena, Maria e Eva/Lilith. Ela vai transitar pelos três aspectos anteriores. A mulher sábia vai conseguir lidar com o bom, o belo e o verdadeiro de forma harmoniosa. Ela não vai se entregar só para a experiência do belo, do estético, em detrimento do bom, da ética, por exemplo. Esse é o grande desafio do feminino.
A mulher tem mais facilidade para lidar com a sua feminilidade. Tem mais facilidade de mudar porque tem muito mais recursos, até fisiológicos. Ela muda e acolhe (o útero acolhe). Mas aí o homem se assusta: o masculino é assustado. E por isso, o homem divide e foge.
Esta evolução da mulher se espelha em uma evolução do masculino:

BIBLIOGRAFIA
Obras de Jung em ordem didática de leitura: (ed. Vozes)
  • O Eu e o Inconsciente
  • Psicologia do Inconsciente
  • A natureza da psiquê (arquétipo, complexo, símbolo)
  • A prática da psicoterapia
  • Fundamentos da psicoterapia analítica
  • Abreação, análise dos sonhos e transferência
  • Civilização em transição
Obras de referência
  • Nise da Silveira – Jung, vida e obra (Ed. Paz e Terra)
  • Jung e contemporâneos – O homem e seus símbolos (Ed. Nova Fronteira)
  • Jung – Memórias, sonhos e reflexões
  • Hillman e M-L Von Franz – Tipos psicológicos
  • Edward Witmont – Sonhos, um portal para a fonte (Summus)
  • Edward Edinger – Anatomia da psique (Cultrix) – idéias de alquimia. Exige leitura prévia de Jung propriamente dito, para dar base
  • Maggy Anthony – As mulheres na vida de Jung
  • J.J. Clark – Em busca de Jung (Ediouro)
Educação e Jung
  • Carlos Bygton – Pedagogia simbólica
  • Cláudio Saiani – O professor ferido
Outras obras citadas / indicadas
  • Amit Goswami – Universo auto consciente / Uma janela visionária (todas as religiões se reunirão pela ciência...)
  • J. Hillman – Tipos de poder


[1] in Memórias, sonhos e reflexões – livro autobiográfico

[2] Houaiss: Angústia: estreiteza, redução de espaço ou de tempo; carência, falta. Etim.: deangère 'apertar, afogar, estreitar'

[3] Quem integra Apolo e Dionísio é Hermes, o mensageiro, que na cultura hindu aparece como o deus elefante Ganesh e na cultura yorubá é Exu. Todas as culturas procuram em seu inconsciente a sua simbologia para representar suas necessidades (no caso, a necessidade de integração)

 [4] Na realidade só há 6 (seis) áreas de queixa: corpo físico, emocional/afetivo, espiritualidade, relação familiar, trabalho/profissão e inserção social (ver tabela anterior)

 [7] Na idéia oriental, surgirá agora uma nova “Kaliuga”, que seria a grande transformação: mais um caos, mais um fogo, mais um dilúvio, etc. Na Índia, Kali é uma deusa que poderia estar próxima de Sofia. (ver http://www.exoticindiaart.com/kali.htm)

 Fim









Toda a dimensão do inconsciente – e o arquétipo está dentro do inconsciente – vem no primeiro momento da mãe. Porque a criança, nos primeiros dois anos, está submersa no self da mãe. Então, toda referência de pai, de homem, de mulher, de vida passa pelo viés da mãe. Só depois é que a criança começa a reconhecer que existe um pai.

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