A ÁRVORE DA VIDA
UM
ESTUDO SOBRE MAGIA
ISRAEL REGARDIE
Dedicado
com pungente memória do que
poderia ter sido
a MARSYAS
“Deves
compreender, portanto, que esse é o primeiro caminho para a felicidade,
concedendo às almas uma plenitude intelectual de união divina. Mas a dádiva
sacerdotal e teúrgica de felicidade é chamada, realmente, de portal para o
Demiurgo das totalidades, ou a sede, ou
o palácio, do bem. Em primeiro lugar, outrossim, possui um poder de purificação da alma. . .
posteriormente provoca uma coaptação do poder da razão com a participação e
visão do bem e uma liberação de toda coisa de natureza oposta, e em último
lugar produz uma união com os deuses, que são os doadores de todo bem”
JÂMBLICO
INTRODUÇÃO
Em virtude da bastante difundida
ignorância a respeito da soberana natureza da Teurgia Divina e a despeito de
freqüentes referências quase em toda parte ao assunto magia, permitiu-se que ao
longo dos séculos se desenvolvesse uma total incompreensão. São poucos hoje os que parecem ter sequer a mais vaga
idéia do que constituiu o elevado objetivo de um sistema considerado pelos
sábios da Antigüidadea Arte Real e a Alta Magia. E por ter existido
quantitativamente ainda menos pessoas
preparadas para defender até o fim a filosofia da magia e disseminar
seus verdadeiros princípios entre aqueles julgados dignos de recebê-los, o
campo de batalha tomado pelas reputações destroçadas de seus Magos foi cedido
aos charlatães. Esses, ai de nós,
fizeram bom uso de sua oportunidade de esbulho indiscriminadamente, a tal ponto
que a própria palavra magia se tornou agora sinônimo de tudo que é desprezível,
sendo concebida como algo repulsivo.
Durante muitos séculos na Europa autorizou-se esse incorreto estado
de coisas, que se manteve até em torno de meados do século passado, quando
Éliphas Lévi, um escritor dotado de certa facilidade de expressão e talento
para a síntese e a exposição, se empenhou em devolver à magia sua antiga
reputação grandiosa. Até que ponto teriam seus esforços obtido êxito ou não
caso não tivessem sido sucedidos e estimulados pelo advento do movimento
teosófico em 1875 em associação com a discussão aberta do oculto e de temas
místicos que a partir de então se seguiram, é extremamente difícil dizer. E
mesmo assim, não foram coroados de muito êxito, pois apesar de quase oitenta
longos anos de atenção e discussão aberta da filosofia e prática esotéricas em
vários de seus ramos, não é possível descobrir no Catálogo da Sala de Leitura
do Museu britânico uma única obra de
magia que tente apresentar uma exegese lúcida, clara e precisa, desembaraçada
do emprego exagerado de símbolos e figuras de linguagem. Oitenta anos de estudo
do oculto e nem sequer uma obra séria sobre magia!
Por algum tempo tornou-se conhecido em
vários lugares que este escritor era um estudioso de magia. Conseqüentemente
indagações acerca da natureza da magia seriam amiúde endereçadas a ele. Com o
passar do tempo tais indagações tornaram-se tão numerosas e tão abismal a
ignorância involuntária sobre o assunto contida em todas elas que parece ser a
hora exata para tornar disponível a esse público uma exposição sintética e
definitiva. Visto que nenhuma outra pessoa tentou executar essa tarefa de
tremenda importância, recai sobre este escritor essa difícil tarefa. Ele não se
propõe limitar-se mediante observações plausíveis acerca da incomunicabilidade
de segredos ocultos. Tampouco mencionará a impossibilidade de transmitir a vera
natureza dos mistérios da Antigüidade, como alguns autores recentes fizeram.
Embora tudo isso seja verdadeiro, não obstante há de comunicável na magia o
suficiente. A despeito de centenas de páginas com o fito de elucidar, é
preciso também dirigir a esses
escritores a severa acusação de terem realizado muito para confirmar a opinião
pública na já firme crença de que a magia era ambígua, obscura e uma tolice. Dificilmente
poder-se-ia sustentar uma concepção mais errônea do que essa, pois a magia, que
me permitam insistir, é lúcida. É definida e precisa. Não há fórmulas vagas ou
dubiedades compreendidas dentro da esfera de sua exatidão; tudo é claro e
concebido para o experimento prático. O sistema da magia é absolutamente
científico, e cada uma de suas partes é passível de verificação e prova sob demonstração. A árvore da vida é
publicado, admito, com uma certa hesitação, com o único objetivo de preencher
essa lacuna existente. Este escritor deseja tornar inteligível e compreensível
para o indivíduo leigo, inteligente e comum, para o aprendiz dos Mistérios e aqueles versados no saber de outros sistemas místicos e
filosofias os princípios radicais a
partir dos quais a formidável estrutura imponente da magia é construída. Com
uma exceção, não conhecida ou adequada ao público em geral, infelizmente, essa tarefa necessária jamais
foi realizada anteriormente.
A freqüência de longas citações
provenientes de escritos de autoridades em magia que o autor aqui inseriu se
explica de modo bastante simples, devendo-se apenas ao desejo de demonstrar que
os mais amplos pontos essenciais desta exposição não são o resultado de
qualquer invencionice do autor, estando, pelo contrário, firmemente enraizados
na sabedoria da Antigüidade. É desnecessário que se apontem para o autor
expressões rudes, possíveis interpretações equivocadas de fatos ou teorias e
pecados de omissão e cometimento. Em razão disso ele se desculpa humildemente,
devendo ser perdoado em função de sua juventude e inexperiência. Que seus
esforços incitem outra pessoa mais sábia, dotada de melhores recursos para
escrever e detentora de um conhecimento mais profundo da matéria e seus
correlatos de modo a produzir uma melhor formulação da magia. Este escritor
estará dentre os primeiros que aclamarão essa realização com boas-vindas e
louvores.
É também necessário registrar a atitude
cortês dos senhores Methuen & Co.
que deram a permissão para reproduzir as ilustrações dos quatro deuses egípcios
de Os deuses dos egípcios, de
Sir E. A. Wallis Budge.
Israel Regardie
Londres, agosto de 1932.
INTRODUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO
É possível que um pai tenha um filho
favorito? Existirá um entre todos os demais que secretamente ele sinta ser a
menina de seus olhos? Com maior freqüência que o caso negativo, a despeito de
todos os protestos em contrário,
certamente existe.
Pois é isso que ocorre comigo. Ao me
pedirem que escrevesse uma introdução para esta nova edição de A árvore da vida, senti um entusiasmo
interior que combina muitas emoções bem distintas. Este livro tem um
significado especial para mim que nenhum dos meus outros escritos jamais teve.
Primeiramente, há o fato elementar de ele ter sido o primeiro livro que emergiu
de meu espírito em botão. A garden of
pomegranates [Jardim das romãs], publicação anterior, simplesmente se
desenvolveu a partir de um conjunto de notas cabalísticas que eu guardara por vários anos – e isto é tudo o que
sempre foi.
Comentou-se ser A
árvore da vida a mais abrangente
introdução disponível aos numerosos, complexos e por vezes obscuros escritos
místicos de Aleister Crowley. Ambos os livros mencionados foram a ele
dedicados, para quem trabalhei como secretário durante muitos anos.
Simbolicamente, esses dois livros vieram a representar a minha independência
dele.
A árvore da
vida gerou também uma correspondência pelo mundo
todo que resultou em várias amizades profundas e duradouras, pelas quais me sinto sumamente grato.
Embora este livro apresente muitos erros
tipográficosde menor importância – devidos, sobretudo, à pressa e o descuido da
juventude – tem sido considerado útil como um guia para o extenso, complicado e
maravilhoso sistema de iniciação Golden
Dawn [Aurora Dourada], cuja gratidão que sinto por ele precisa ser aqui
registrada. Alguns aprendizesalegam que os dois volumes de The Golden Dawn (Llewellyn Publications, St. Paul, Minn. 1970)
contêm uma tal massa diversificada de informações que um guia dotado de clareza
constitui pré-requisito para abrir uma senda inteligível através de seus
documentos, rituais e instruções. Esta nova edição deve vir a servir a tal
finalidade.
Escrevendo A árvore da vida aprendi muito. Este livro combinou muitos
fragmentos isolados de conhecimento e experiência desconexos. A correspondência
indicou que serviu a outros igualmente bem.
A despeito de
sua extravagância e pendor para o emprego excessivo de adjetivos, que foram as
marcas de minha juventude – trinta e cinco anos transcorreram desde que foi
escrito – afirmou-se como um guia sincero e simples para uma arte intricada e,
em outros aspectos, obscura. Um psiquiatra britânico foi amável a ponto de
admitir um sentimento de espanto e real admiração pelo fato de alguém de vinte
e poucos anos de idade ter sido capaz de demonstrar a compreensão espiritual e
capacidade para síntese evidenciadas neste livro. Se essa avaliação for válida,
dever-se-á muito a Aleister Crowley, a quem muito devo. À sua derradeira defesa
da estupidez de biógrafos e jornalistas sensacionalistas devotei muitos anos de
minha vida. Sua obra jamais perecerá, permanecendo como uma inspiração aos
aprendizesde um futuro remoto, como o foi
para mim.
Crédito é devido também ao meu Gênio
superior e divino – para usar a bela linguagem da Golden Dawn – pois sem essa diretriz interna nenhuma literatura,
mesmo profunda, atraente e arrebatadora, significaria muita coisa. Visto que a
orientação obtida posteriormente da Hermetic
order of the Golden Dawn resultou da publicação de A árvore da vida, sua redação não foi influenciada pela Ordem. Mais
tarde, todavia, a Ordem desempenhou efetivamente um papel preponderante no meu
desenvolvimento íntimo e na redação de livros mais posteriores.
Rememorando, este testemunho de minha
independência de Crowley resultou numa carta do chefe de uma seção da Golden Dawn condenando tanto a mim
quanto ao livro em termos nada indefinidos. Por outro lado, resultou num
convite, que partiu de um chefe de outra unidade da Ordem, para que eu me
tornasse membro dela. Aceitei esse convite, embora os anos posteriores tenham
produzido uma separação da Ordem, hoje eu lamento minha presunção e arrogância
juvenis. Contudo, o destino deve ter interferido, resultando numa reedição dos
ensinamentos secretos da Ordem, a primeira exposição de tal reedição tendo sido
ensaiada logo antes da Primeira Guerra Mundial por Crowley no Equinox.
Com o devido respeito ao imenso gênio de
Crowley, foi dito que minha apresentação fez mais justiça à Ordem do que a sua.
Vale a pena reiterar pela segunda vez que esta nova edição de A árvore da vida propiciará ao
aprendizuma visão geral da tradição mágica ocidental. Nesse sentido, a despeito
de desvios doutrinais e ritualísticos menores, Crowley se enquadra numa linhagem direta de descendência dos Adeptos da Golden Dawn; nada que ele tenha escrito pode ser compreendido sem
referência aos ensinamentos da Ordem. Tanto a Golden Dawn quanto Aleister Crowley ganham em estatura e
profundidade se o principiante nesses estudos lograr primeiramente uma visão
sinóptica de A árvore da vida.
Finalmente, uma antiga observação se faz
ainda essencial. Há muito compreendi que a análise psicológica moderna deveria
ser associada aos métodos da Grande Obra – uma tarefa ainda a ser plenamente
realizada. Recomenda-se incisivamente que o aprendizsério se submeta a um
processo de alguma modalidade de tratamento psicoterapêutico antes de
aprofundar-se nessas práticas. No mínimo, terá com isso conquistado
autoconsciência e eliminado algumas tensões corporais e emocionais exacerbadas
pela arte mágica.
Assim, para esta nova edição de A árvore da vida, só me resta dizer com
humildade, sinceridade e convicção: vá em frente e propague a palavra. Ela
expõe um bom ensino, uma nobre filosofia e um sistema arcaico porém prático de
se atingir alturas embebidas de sol para
as quais toda a espécie humana finalmente terá de se elevar e repousar. Que
possam todos os leitores obter toda a satisfação, ajuda e conforto espirituais
e esclarecimento que eu obtive na redação inicial deste livro e nos anos que se
seguiram.
Adeus!
Israel
Regardie
12 de maio
de 1968.
Studio
City, Califórnia, 91604
PRIMEIRA PARTE
“A MAGIA É A CIÊNCIA TRADICIONAL DOS
SEGREDOS DA NATUREZA QUE A NÓS FOI TRANSMITIDA
PELOS MAGOS.”
Éliphas Lévi
CAPÍTULO I
É expressão comum nos lábios de muitos a reiteração de que a
espécie humana hoje, com todas suas enfermidades e aberrações, chafurda às
cegas num terrível pântano. Mensageiro da morte e munido de tentáculos de
destruição, esse pântano colhe a espécie humana com crescente firmeza para seu
seio, ainda que com grande sutileza e furtivamente. Civilização, por mais
curioso que seja, civilização moderna é o seu nome. Os tentáculos, que são os
instrumentos inconscientes de seus golpes catastróficos, partem da estrutura
enferma, falsa e repugnante do sistema social decadente e do conjunto de valores
em que estamos envolvidos. E agora, toda a textura do mundo social parece estar
em processo de desintegração. Pareceria que a estrutura da ordem nacional está
mudando da ruína econômica para aquele abandono derradeiro e insano que pode
contemplar a extinção dessa estrutura num precipício escancarado rumo à
completa destruição. Enraizados firmemente na plenitude da vida individual, os
até aqui robustos bastiões de nossa vida estão sendo ameaçados como jamais o
foram. Parece cada vez mais impossível diante do poente de cada sol para
qualquer um reter mesmo a mais ligeira porção de seu legado divino e
individualidade e exercer aquilo que faz de nós homens. Apesar de terem nascido
em nossa época e tempo, aqueles poucos
indivíduos que estão cientes mediante uma certeza isenta da dúvida de um
destino que os impulsiona imperiosamente rumo à realização de suas naturezas
ideais, constituem, talvez, as únicas exceções. Estes, a minoria, são os
místicos de nascimento, os artistas e os poetas, os que contemplam além do véu
e trazem de volta a luz do além. Encerrada dentro da massa, contudo, existe
ainda uma outra minoria que, embora não
plenamente consciente de um destino imperioso, nem da natureza de seu eu mais
profundo, aspira ser diferente das massas complacentes. Presa de uma ansiedade
íntima, mantém-se inquieta na obtenção de uma integridade espiritual duradoura.
É impiedosamente oprimida pelo sistema social do qual constitui parte e
cruelmente condenada ao ostracismo pela massa de seus camaradas. As verdades e
possibilidades de um contato reintegrador com a realidade que pudesse ser
estimulado aqui e agora, durante a vida e não necessariamente por ocasião da
morte do corpo, são cegamente ignoradas. A atitude singularmente tola adotada
pela maior parte da moderna humanidade européia “inteligente” para com essa
aspiração constitui um grave perigo para a raça, a qual se permitiu com
demasiada impaciência o esquecimento daquilo de que realmente depende, e de que
é continuamente nutrida e sustentada tanto em sua vida interior quanto
exterior. Agarrando-se avidamente à evanescência flutuante da precipitada
existência exterior, sua negligência com relação aos assuntos espirituais
somada à sua impaciência para com seus semelhantes mais perspicazes constitui
um marca de fadiga e nostalgia extrema.
Embora desgastado, o adágio “onde não há visão as pessoas perecem” não deixa de ser verdadeiro e digno de ser
repetido porquanto expressa de maneira peculiar a situação hoje preponderante.
A humanidade como um todo, ou mais particularmente o elemento ocidental, perdeu
de algum modo incompreensível sua visão espiritual. Uma barreira herética foi
erigida separando a si mesma daquela corrente de vida e vitalidade que, mesmo
atualmente, a despeito de impedimentos e obstáculos propositais, pulsa e vibra
ardentemente no sangue, invadindo a totalidade da estrutura e forma universais.
As anomalias que se nos apresentam hoje se devem a esse rematado absurdo. A
espécie humana está lentamente cometendo seu próprio suicídio. Um auto-estrangulamento
está sendo efetivado mediante uma supressão de toda a individualidade, no
sentido espiritual, e de tudo que a tornou humana. Prossegue sonegando a
atmosfera espiritual de seus pulmões, por assim dizer. E tendo se separado das
eternas e incessantes fontes de luz e vida e inspiração, eclipsou-se
deliberadamente diante do fato – com o qual nenhum outro pode comparar-se em
importância – de que existe um princípio dinâmico tanto dentro quanto fora do
qual se divorciou. O resultado é letargia interior, caos e desintegração de
tudo o que anteriormente era tido como ideal e sagrado.
Formulada há séculos, a doutrina ensinada
por Buda é vista por mim como aquela que apresenta uma possível razão para esse
divórcio, esse caos e essa decadência. Para a maioria das pessoas, a existência
está inevitavelmente associada ao sofrimento, à tristeza e à dor. Mas embora
Buda tenha, com efeito, ensinado que a vida era repleta de dor e miséria, estou
inclinado a crer, ao lembrar a psicologia do misticismo e dos místicos, dos
quais era ele indubitavelmente um par, que esse ponto de vista foi por ele
adotado tão-somente para impulsionar os homens fora do caos rumo a obtenção de
uma modalidade de vida superior. Uma vez superado o ponto de vista do ego
pessoal, resultado de eras de evolução, o homem pôde ver os grilhões da
ignorância caírem por terra revelando uma paisagem desimpedida de suprema
beleza, o mundo como uma coisa viva e júbilo infindável. Não será visível para
todos a beleza do sol e da lua, o esplendor das estações alternando-se ao longo
do ano, a doce música do romper do dia e o fascínio das noites sob o céu
aberto? E o que dizer da chuva escorrendo pelas folhas das árvores que se
elevam aos portais do céu, e o orvalho
na madrugada insinuando-se sobre a relva, inclinando-a com pontas de lança prateadas? A maioria dos leitores terá ouvido
falar da experiência do grande místico alemão Jacob Boehme, que, após sua visão
beatífica, penetrou os campos verdejantes próximos de seu povoado contemplando
toda a natureza flamejante de luz tão gloriosa que até as tenras folhinhas de
grama resplandeciam com uma graça e beleza divinas que ele jamais vira antes.
Considerando que Buda tenha sido um grande místico – superior, talvez, a
qualquer outro de que o leitor médio tem conhecimento – e que detinha uma
grande compreensão da atuação da mente humana, é-nos impossível aceitar em seu
valor aparente o enunciado de que a vida e o viver constituem uma maldição.
Prefiro sentir que essa postura filosófica foi por ele adotada na esperança de que mais uma vez pudesse a humanidade ser induzida a buscar a
inimitável sabedoria que perdera a fim de restaurar o equilíbrio interior e a
harmonia da alma, cumprindo assim seu destino desimpedida pelos sentidos e pela
mente. Obstando este gozo estático da vida e tudo o que o sacramento da vida
pode conceder, existe uma causa radical da dor. Em uma palavra, ignorância. Por
ignorar o que em si é realmente, por ignorar seu verdadeiro caminho na vida, o
homem é, como ensinou Buda, tão acossado pela tristeza e tão duramente afligido
pelo infortúnio.
De acordo com a filosofia tradicional dos
magos, cada homem é um centro autônomo único de consciência, energia e vontade
individuais – numa palavra, uma alma – como uma estrela que brilha e existe
graças à sua própria luz interior,
percorrendo seu caminho nos céus reluzentes de estrelas, solitária, sem
sofrer qualquer interferência, exceto na medida em que seu curso celeste seja
gravitacionalmente alterado pela presença, próxima ou distante, de outras estrelas.
Visto que nos vastos espaços estelares raramente ocorrem conflitos entre os
corpos celestes, a menos que algum se extravie de sua rota estabelecida –
acontecimento bastante esporádico –, nos domínios da espécie humana não haveria caos, haveria pouco conflito e nenhuma perturbação
mútua se cada indivíduo se contentasse
em estar firmado na realidade de sua própria consciência superior, ciente de
sua natureza ideal e de seu verdadeiro propósito na vida, e ansioso para
trilhar a estrada que tem de seguir. Por terem os homens se desviado das fontes
dinâmicas a eles e ao universo inerentes, por terem abandonado suas verdadeiras
vontades espirituais, e por terem ainda se divorciado das essências celestiais,
traídos por um prato de guisado mais repugnante que
qualquer um que Jacó tenha vendido a
Esaú, o povo que o mundo hoje nos apresenta exibe aspecto tão desesperançado e
uma humanidade vincada na sua aparência
pelo desalento. A ignorância do curso da órbita celeste e do seu significado
inscrito nos céus perenemente constitui a raiz que se encontra no fundo da
insatisfação, infelicidade e nostalgia da raça, as quais são universais. E
por isso a alma viva brada por socorro
aos mortos, e a criatura a um Deus silente. De todos esses brados geralmente
nada resulta. As mãos erguidas em súplica não trazem qualquer sinal de
salvação. O frenético ranger de dentes resulta tão-somente em desespero mudo e
perda de energia vital. Só existe redenção a partir de nosso interior, e ela é
lavrada pela própria alma mediante sofrimento e no decorrer do tempo graças a
muito empenho e esforço do espírito.
Como, então, poderemos retornar a essa
identidade estática com nossos eus mais profundos? De que modo pode ser
realizada essa necessária união entre a alma individual e as Essências da
realidade universal? Onde o caminho que conduziria finalmente ao aprimoramento
e melhoramento do indivíduo e conseqüentemente à solução dos desconcertantes
problemas do mundo dos homens?
---
O aparecimento do gênio,
independentemente dos vários aspectos e campos de sua manifestação, é marcado
pela ocorrência de um curioso fenômeno acompanhado quase sempre por visão e
êxtase supremos. Essa experiência a que faço alusão é indubitavelmente a
indicação de qualidade e legitimidade e a marca essencial de realização
genuína. Essa experiência apocalíptica não é concedida à mediocridade. À pessoa
ordinária, carregada como se acha com o dogma e a tradição fatigada raramente
ocorre esse lampejo de luz espiritual que faz sua descida em esplêndidas
línguas de chama como o Espírito Santo de Pentecostes, radiante de alegria e da
mais elevada sabedoria, prenhe de inspiração espontânea. Os sofisticados, os
saturados pelos prazeres, os diletantes – esses estão excluídos por barreiras
intransponíveis dos méritos de sua bênção. Para os que têm talento tão-somente
essa revelação não acontece, embora o talento possa ser um ponto de partida
para o gênio. O gênio não é e nunca foi no passado simplesmente o resultado de
zelo e paciência infinitos. Mas penso que pouca importância necessite ser dada
à definição reiterada freqüentemente relativa a uma certa alta percentagem de
transpiração associada a um reduzidíssimo restante de inspiração. Por maior que
seja o valor da transpiração, ele não pode produzir os efeitos magníficos do
gênio. Em todo campo do empreendimento na vida cotidiana, em toda parte vemos
realizada uma imensa quantidade de excelente labor, indispensável como tal, em
que se vertem literalmente litros de suor sem que se evoque, de fato, uma
fração de uma idéia criativa ou de uma exaltação. Essas expressões
exteriorizantes do gênio – zelo, paciência, transpiração – são simplesmente as
manifestações de uma superabundância de energia procedente de um centro oculto
de consciência. Não passam de meios pelos quais o gênio se distingue,
esforçando-se para tornar conhecidos aquelas idéias e aqueles pensamentos que
foram arremessados para dentro da consciência e penetraram aquela linha
divisória que logra demarcar e separar o profano daquilo que é divino. O gênio
em si é produzido ou ocorre concomitantemente com uma experiência espiritual da
mais elevada ordem intuicional. É uma experiência que, trovejando do empíreo
como um raio ígneo proveniente do trono de Júpiter, traz consigo uma inspiração
instantânea e uma retidão duradoura, com uma realização de todos os anseios da
mente e da constituição emocional.
Não pretendo investigar a causa
primordial dessa experiência, familiar àqueles raros indivíduos cujas vidas
foram assim abençoadas desde a sua tenra infância até os seus derradeiros dias.
Uma tal investigação me levaria longe demais, conduzindo ao domínio de
impalpabilidades metafísicas e filosóficas, no qual de momento não desejo
ingressar. A reflexão, contudo, produz um fato bastante significativo. Aqueles
indivíduos que receberam o título de “gênio” e foram chamados de grandes pela
espécie humana foram os receptores de uma tal inimitável experiência que
mencionei. Embora possa muito bem ser uma generalização, trata-se, não
obstante, de uma generalização que traz consigo a marca da verdade. Muitas
outras pessoas inferiores cujas vidas receberam alegria e brilho de maneira
similar foram capacitadas conseqüentemente a realizar uma certa obra na vida,
artística ou secular, que, de outra forma, teria sido impossível.
Agora constitui um postulado mais ou
menos lógico aquele que se conclui como uma direta conseqüência da
premissa precedente, a saber: supondo
que fosse possível através de uma espécie detentora de treinamento psicológico
e espiritual induzir essa experiência ao interior da consciência de vários
homens e mulheres dos dias de hoje, a humanidade como um todo poderia ser
elevada além das aspirações mais sublimes, e surgiria uma poderosa nova raça de
super-homens. Na realidade, é para essa meta que a evolução tende e o que é
encarado por todos os reinos da natureza. Desde os primórdios, quando o homem
inteligente surgiu pela primeira vez no palco da evolução, devem ter existido
métodos técnicos de realização espiritual por meio dos quais a verdadeira
natureza humana poderia ser averiguada, e por meio dos quais, ademais, o gênio
da mais alta ordem desenvolveu-se. Este último, poderia acrescentar, foi
concebido como sendo apenas o subproduto e a eflorescência terrestre da
descoberta da órbita do Eu estrelado, e em tempo algum, pelas autoridades desta
Grande Obra, foi em si considerado um objeto digno de aspiração. O “Conhece-te
a ti mesmo” foi a suprema injunção impulsionando o elevado esforço deles. Se a
criatividade do gênio se seguia como um resultado da descoberta do eu interior
e da abertura das fontes da energia universal, se a inspiração das Musas
resultava ou de um estímulo na direção de alguma arte ou filosofia ou da
ocupação de leigo, tanto melhor. No começo do treinamento, todavia, esses
místicos – pois foi com esse nome que essas autoridades passaram a ser
conhecidas – eram completamente indiferentes a qualquer outro resultado além do
espiritual. O conhecimento do eu e a descoberta do eu – a palavra “eu” sendo usada num sentido
grandioso, noético e transcendental – eram os objetivos primordiais.
Se as artes têm sua origem na expressão
da alma que escuta e vê onde para a mente exterior existem meramente silêncio e
trevas, então evidentemente o misticismo é uma e talvez a maior das artes, a
apoteose da expressão e do esforço artísticos. O misticismo, graças a algum
suave decreto da natureza, tem sido sempre e em todos os tempos a mais sagradas
das artes. O místico realmente abriga em seu peito aquela tranqüilidade que com
freqüência se registra no rosto sereno do sacerdote exaltado ao altar. Ele é um
reconhecido intermediário e porta-voz, as duas chaves sendo colocadas em suas
mãos. Ele é, tanto as eras quanto seus colegas nas outras artes o admitem, mais
diretamente introduzido ao interior do Santuário e mais imediatamente
controlado pela psique. É por essa razão que seus sucessos são o sucesso de
toda a humanidade em todos os tempos. Mas seus fracassos bastante freqüentes,
quase como uma nova ruína de Lúcifer, são amargamente reprovados. Um mau poeta
ou um mau músico é apenas alvo da
censura daqueles de sua arte em particular, e seus nomes logo se apagam
da memória de seu povo. Uma charlatão ou um falso mago, entretanto, põem em
perigo o mundo inteiro, arrojando um pesado véu sobre a luz translúcida do
espírito, a qual era sua principal tarefa trazer aos filhos dos homens. É por
essa razão, também, que ele é em toda época somente para os muito poucos; mas,
do mesmo modo, ele é para todos os poucos em todas as épocas. Glorificado com
as beatitudes de todos os artistas e profetas de todas as épocas, sofre
ignominiosamente com o vilipêndio deles, pois eles, como ele próprio, são
místicos. Ele é solitário. Afastou-se para o seio das solidões subjetivas. Para
onde ele foi – aonde poucos podem segui-lo a não ser que também tenham as
chaves – ele é elogiosamente aclamado com canções e ditirambos.
Não é um conhecimento teórico do eu que o místico busca, uma filosofia puramente
intelectual sobre o universo – embora isso, inclusive, tenha seu lugar. O
místico procura um nível mais profundo de compreensão. A despeito da retórica
sobre a poder absoluto da razão, os lógicos e os filósofos de todos os tempos
estavam intimamente convencidos da impropriedade e impotência fundamentais da
faculdade do raciocínio. Dentro dela, acreditavam eles, existia um elemento de
autocontradição que anulava seu uso na busca da realidade suprema. Como prova
disso toda a história da filosofia se apresenta como eloqüente testemunho.
Acreditaram os místicos, e a experiência o confirmou reiteradamente, que apenas
transcendendo a mente, ou com a mente esvaziada de qualquer conteúdo e
tranqüilizada como uma lagoa de serenas águas azuis, um relance da Eternidade
podia ser refletido. Uma vez acalmadas ou
transcendidas as alterações do princípio pensante, uma vez subjugado o
turbilhão contínuo que é uma característica normal da mente normal,
substituídos por uma serena quietude, podia então, e agora somente, ocorrer
aquela visão de espiritualidade, aquela experiência sublime das épocas, que
ilumina todo o ser com o calor da inspiração e da profundidade, e uma
profundidade de imagens do tipo mais
elevado e que tudo abarca.
A técnica do misticismo se subdivide
naturalmente em duas grandes classes. Uma é a magia, da qual nos ocuparemos neste tratado, e a outra é a
ioga. E aqui é necessário registrar um veemente protesto contra os críticos
que, em oposição ao misticismo – por cujo termo se compreende um tal processo
como a ioga ou contemplação –, posicionam a magia como algo completamente à
parte, não-espiritual, mundano e grosseiro. Julgo essa classificação contrária
às implicações de ambos os sistemas e inteiramente incorreta, como tentarei
mostrar daqui para a frente. Ioga e magia, os métodos de reflexão e de
exaltação, respectivamente, são ambos fases distintas compreendidas no único
termo misticismo. Apesar de freqüentemente empregado de maneira indevida e
errônea, o termo misticismo é utilizado ao longo de todo este livro porque é o
termo correto para designar aquela relação mística ou estática do eu com o
universo. Expressa a relação do indivíduo com uma consciência mais ampla ou no
interior ou exterior de si mesmo quando, indo além de suas próprias necessidade
pessoais, ele descobre sua predisposiçã a finalidades mais abrangentes e mais
harmoniosas. Se essa definição estiver em consonância com nossos pontos de
vista, então será óbvio que a magia, igualmente concebida para executar essa
mesma necessária relação, porquanto mediante diferentes métodos, não pode
satisfatoriamente ser colocada em oposição ao misticismo e às vantagens de um
sistema laudatoriamente celebradas em oposição às impropriedades do outro, pois
os melhores aspectos da magia constituem uma parte, tal como o melhor da ioga
constitui também uma parte daquele sistema completo, o misticismo.
Tem-se escrito muito sobre ioga, de
tolices e algo digno de nota. Mas todo o segredo do Caminho da União Real está
contido no segundo aforismo dos Sutras de Ioga de Patanjali. A ioga busca
atingir a realidade solapando as bases da consciência ordinária, de maneira que
no mar tranqüilo da mente que sucede a cessação de todo pensamento, o eterno
sol interior de esplendor espiritual possa brilhar para derramar raios de luz e
vida, e imortalidade, intensificando todo o significado humano. Todas as
práticas e exercícios nos sistemas de ioga são estágios científicos com o
objetivo comum de suspender completamente todo pensamento sob vontade. A mente
precisa estar inteiramente esvaziada sob vontade de seu conteúdo. A magia,
por outro lado, é um sistema mnemônico de psicologia no qual as minúcias
cerimoniais quase intermináveis, as circumambulações, conjurações e
sufumigações visam deliberadamente a exaltar a imaginação e a alma, com a plena
transcendência do plano normal do pensamento. No primeiro caso, o machado
espiritual é aplicado à raiz da árvore, e o esforço é feito conscientemente
para minar toda a estrutura da consciência com o fito de revelar a alma abaixo.
O método mágico, ao contrário, consiste no empenho de ascender completamente
além do plano de existência de árvores, raízes e machados. O resultado em ambos
os casos – êxtase e um maravilhoso
transbordamento de alegria, furiosamente arrebatador e incomparavelmente santo
– é idêntico. Pode-se compreender facilmente então que o meio ideal de
encontrar a pérola perfeita, a jóia sem preço, através da qual pode-se ver a
cidade santa de Deus, é uma judiciosa combinação de ambas as técnicas. Em todos
os casos, a magia se revela mais eficiente e poderosa quando combinada ao
controle da mente, que é o objetivo a ser atingido na ioga. E, da mesma forma,
os êxtases da ioga adquirem um certo matiz rosado de romantismo e significado
inspiracional quando são associados à arte da magia.
Desnecessário dizer, portanto, que quando
falo de magia aqui faço referência à teurgia divina louvada e
reverenciada pela Antigüidade. É sobre uma busca espiritual e divina que escrevo;
uma tarefa de autocriação e reintegração, a condução à vida humana de algo
eterno e duradouro. A magia não é aquela prática popularmente concebida que é
filha da alucinação gerada pela
ignorância selvagem, e que serve de instrumento às luxúrias de uma
humanidade depravada. Devido a ignorante duplicidade dos charlatães e a reticência
de seus próprios escribas e autoridades, a magia durante séculos foi
indevidamente confundida com a feitiçaria e a demonolatria. Salvo algumas obras
que foram ou demasiado especializadas em sua abordagem ou distintamente
inadequadas para o público em geral, nada foi até agora publicado para estabelecer em definitivo o
que a magia é realmente. Neste trabalho não se pretende tratar de maneira
alguma de encantamentos de amor, filtros e poções, nem de amuletos que impeçam
que a vaca do vizinho produza leite, ou que lhe roubem a esposa, ou da
determinação da localização de ouro e tesouros ocultos. Tais práticas vis e
estúpidas bem merecem ser designadas por aquela expressão tão abusivamente
empregada, a saber, “magia negra”. Este
estudo não tem nada a ver com essas coisas, pelo que não se deve concluir que
nego a realidade ou eficácia de tais métodos. Mas se qualquer homem estiver
ansioso para descobrir a fonte de onde brota a chama da divindade, caso haja
alguém que esteja desejoso de despertar em si mesmo uma consciência mais nobre
e sublime do espírito, e em cujo coração arda o desejo de devotar sua vida ao
serviço da espécie humana, que essa pessoa se volte zelosamente para a magia.
Na técnica mágica talvez possa ser encontrado o meio para a realização dos mais
grandiosos sonhos da alma.
Do ponto de vista acadêmico, a magia é
definida como a “arte de empregar causas naturais para produzir efeitos
surpreendentes”. Com essa definição – e também com a opinião de um escritor
como Havelock Ellis, que é um nome dado a todo o fluxo da ação humana
individual – estamos de pleno acordo, visto que todo ato concebível no período
inteiro que dura a vida é um ato mágico. Que efeito sobrenatural poderia ser
mais espantoso ou miraculoso do que um Cristo, um Platão ou um Shakespeare que
foi o produto natural do casamento de dois camponeses? O que haveria de mais
maravilhoso e surpreendente que o crescimento de um minúsculo bebê que atinge a
completa maturidade de um ser humano? Todo e qualquer exercício da vontade – o
erguer de um braço, o proferir de uma palavra, o germinar silente de um
pensamento – todos são por definição atos mágicos. Entretanto, os efeitos
“surpreendentes” que a magia procura abarcar ocupam um plano de ação um tanto
diferente daqueles que foram indicados, embora estes, apesar de tão comuns,
sejam, não obstante, surpreendentes e taumatúrgicos. O resultado que o mago,
acima de tudo, deseja concretizar é uma reconstrução espiritual de seu próprio
universo consciente e secundariamente aquela de toda a humanidade, a maior de
todas as transformações concebíveis. Mediante a técnica da magia, a alma voa,
reta como uma flecha impelida por um arco tenso, rumo à serenidade, a um
repouso profundo e impenetrável.
Mas é apenas o próprio homem quem pode
esticar a corda do arco; ninguém além dele mesmo pode realizar essa tarefa para
ele. É logicamente nesta cláusula de qualificação que o temporal fica à
espreita. A “salvação” tem que ser auto-induzida e auto-inventada. As essências
universais e os centros cósmicos estão sempre presentes, mas é o homem quem tem
que dar o primeiro passo na sua direção e então, como disse Zoroastro nos Oráculos Caldeus, “os abençoados
imortais chegam rapidamente”. Quem causa e faz a sorte e o destino é o próprio
homem. O curso de sua existência vindoura resulta necessariamente de seu modo
de agir. E não apenas isso, pois na palma de sua mão reside a sorte de toda a
espécie humana. Poucos indivíduos se sentirão aptos a despertar a coragem
latente e a rígida determinação que comanda o universo, para que assim por uma
estrada direta e isenta de obstáculos a espécie humana pudesse ser conduzida a
um ideal mais nobre e a um modo de vida mais pleno e mais harmonioso. Houvessem
tão-somente alguns homens se empenhando para descobrir o que realmente são, e apurando sem qualquer sofisma a refulgência
cintilante de glória e sabedoria que arde no mais íntimo do coração, e
descobrindo os vínculos que as ligam ao universo, e penso que não teriam apenas
realizado seus propósitos individuais na vida e cumprido seus próprios
destinos, como também o que é infinitamente mais importante, teriam cumprido o
destino do universo considerado como um vasto organismo vivo de consciência.
O que significa acender uma vela? Nesse
processo somente a porção mais superior da vela mantém a chama, mas, embora
apenas a mecha esteja acesa, é hábito dizer que a própria vela está acesa,
difundindo a luz que elimina as trevas à sua volta. Nisso podemos encontrar uma
sugestiva referência que se aplica significativamente ao mundo em geral. Se
apenas algumas pessoas em cada país, cada raça e cada povo pelo mundo afora encontrarem a si mesmas e entrarem em
comunhão sagrada com a própria Fonte da Vida, graças à sua iluminação, elas se
tornarão a mecha da humanidade e lançarão uma resplandecente e gloriosa auréola
de ouro sobre o universo. Nesses indivíduos que constituem uma minoria
minúscula, quase microscópica da população do globo, desejosa e ansiosa de se
devotar a uma causa espiritual, reside a única esperança para a suprema redenção
da espécie humana. Éliphas Lévi, o celebrado mágico francês, arrisca uma
opinião nova que acho pode ter alguma relação com esse problema e projeta um
raio de luz sobre essa proposta. “Deus cria eternamente...”, escreve ele, “o
grande Adão, o homem universal e perfeito, que contém num único espírito todos
os espíritos e todas as almas. As inteligências vivem, portanto, duas vidas
imediatamente, uma geral, que é comum a todas elas, e outra especial e
individual”.
Esse Adão protoplástico é chamado nessa
obra qabalística intitulada O livro dos esplendores*, de Homem
Celestial e compreende em um ser, como observa o erudito mago, as almas de
todos os homens e criaturas, e forças dinâmicas que pulsam através de toda
porção do espaço estelar. Não é meu desejo tratar de metafísica neste momento,
discutindo se esse ser universal primordial é criado por Deus ou se
simplesmente se desenvolveu do espaço infinito. Tudo o que quero considerar
agora é que a totalidade da vida no
universo, vasta e difundida, é esse ser celestial, a Super-Alma como alguns
outros filósofos o conheceram, criado para sempre nos céus. Nesse corpo cósmico
nós, indivíduos, bestas e deuses, somos as minúsculas células e moléculas, cada
uma com sua função independente a ser cumprida na constituição e no bem-estar
sociais dessa Alma. Essa teoria filosófica admiravelmente sugere que como no
homem da terra há uma inteligência que governa suas ações e seus pensamentos,
da mesma maneira, em sentido figurado, há no Homem Celestial uma alma que é sua
inteligência central e sua faculdade mais importante. “Tudo o que existe na
superfície da Terra possui sua duplicata espiritual no alto, e não existe nada
neste mundo que não esteja associado a algo e que não dependa desse algo.”
Assim escrevem os doutores da Qabalah. Tal como no homem a substância
cerebral cinzenta é a mais sensível, nervosa e refinada do corpo, do mesmo modo
os seres mais sensíveis, desenvolvidos e espiritualmente avançados no universo
compreendem o coração, a alma e a inteligência do Homem Celestial. É nesse
sentido, em suma, que os poucos que empreendem a realização da Grande Obra,
isto é, encontrar a si mesmos de um
ponto de vista espiritual e identificar sua consciência integral com as
Essências Universais, como Jâmblico as chama, ou os deuses, que constituem o
coração e a alma do Homem Celestial – esses poucos são os servos da espécie
humana. Executam a obra da redenção e cumprem o destino da Terra.
* Publicado no
Brasil com o título As origens da cabala,
pela. Ed. Pensamento, tradução de Márcio Pugliesi e Norberto de Paulo
Lima. (N. T.)
O misticismo – magia e ioga – é o
veículo, portanto, para uma nova vida universal, mais rica, mais grandiosa e
mais plena de recursos do que jamais o foi, tão livre como a luz do sol, tão
graciosa quanto o desabrochar de um botão de rosa. Ela é para ser tomada pelo
homem.
CAPÍTULO II
É bastante provável que de maneira
tonitruante seja emitida de certas fontes a condenação de que o sistema
indicado nesta obra como magia faz somente referência ao princípio da
constituição humana pertinente
exclusivamente à natureza inferior. Em decorrência dessa classificação, não é
difícil antecipar que toda a técnica teúrgica venha a ser inteiramente
condenada como “psiquismo”, por exemplo, nos círculos teosóficos. Na verdade, como poucas considerações
bastariam para demonstrar, tal condenação é mal colocada e injustificada. A fim
de retificar esse ponto de vista de uma vez por todas, apresentamos A árvore da vida ao público leitor.
Abomino essa loquacidade teosófica. Permitam que registre aqui minha
repugnância por suas classificações demasiado simplistas, sua contínua
disposição de aplicar rótulos de mordaz opróbrio a coisas parcialmente
compreendidas. Não fosse o caso de sentir-me tão profundamente envolvido com a
magia – sustentando que nela possa ser encontrado o meio de tomar o reino dos
céus de assalto – esse abuso e propositada censura dos teósofos seria
merecidamente ignorado e relegado àquela esfera de desprezo a que com justiça
pertencem. Tem havido em geral excessiva incompreensão quanto ao que é a magia
e qual a ação por ela orientada. É tempo de esclarecer de uma vez por todas
essa fonte contínua de confusão por meio da formulação dos princípios
elementares de sua arte.
Em sua renomada obra Estâncias de Dzyan, em torno da qual toda a A doutrina secreta* se acha organizada como um comentário, Madame
Blavatsky nos informa que cada homem é uma sombra ou centelha de uma divindade
de sabedoria, poder e espiritualidade superlativos. Esses seres sensíveis são
chamados de deuses ou Essências universais por uma das autoridades em teurgia.
Uma autoridade em teosofia da atualidade, o dr. Gottfried de Purucker escreve o
seguinte: “A parte mais refinada da constituição do ser humano é, em cada caso,
um filho da parte espiritual de um ou outro dos gloriosos sóis espalhados pelo
espaço sem fronteiras. Vós sois deuses em vossas partes mais interiores, átomos
de algum sol espiritual...” A definição conferida a um deus em A doutrina secreta é a de um ser
hierárquico que nas épocas mais remotas do empenho evolutivo, há muitíssimo
tempo, era um ser humano tal como o somos agora. Por meio de esforço e
progresso consciente uniu-se àquela Realidade Espiritual difundida através das
ramificações e fundações do universo. Por ocasião dessa união, entretanto, a
individualidade essencial da experiência foi retida. Mas transcendida a
personalidade, o ser retomou seu papel natural de dirigente, por assim dizer,
ou Regente do universo, ou de alguma porção ou aspecto particular do universo.
Visto que, baseado nessa definição, o homem é a centelha de uma tão grandiosa
consciência, um filho dos deuses cósmicos, o curso de sua vida só poderá se
orientar para o aspirar pela união com seus progenitores espirituais. Tanto a
origem da magia quanto sua raison d’être se encontram na efetivação
dessa união.
* Publicação da
Ed. Pensamento. (N. T.)
Espero mostrar nestas páginas que a
técnica da magia está em estreito acordo com as tradições da mais remota
Antigüidade, e que conta com a sanção, explícita ou implícita, das mais
excelentes autoridades. Jâmblico, o divino teurgo, tem muito a dizer em seus
vários escritos sobre a magia; do mesmo modo em Proclo e Porfírio, e mesmo na
moderna literatura teosófica oficial, há obscuras referências, embora inexplicadas
e jamais desenvolvidas, à magia divina. Diversas boas invocações procedentes
dos registros gnósticos e as várias recensões
do Livro dos Mortos serão apresentadas próximo à conclusão deste livro,
e pesquisas baseadas nas concepções mágicas egípcia e qabalística nos demais capítulos deste livro.
Resumir, portanto, a magia de maneira vaga com a única palavra
“psiquismo” é um completo absurdo, para dizer o mínimo. Conheço teósofos,
todavia, e percebo a necessidade de antecipar suas objeções com ampla
contraposição. O mago tem que estar no controle de toda sua natureza; todo
elemento constituinte em seu ser precisa ser desenvolvido sob a vontade ao auge
da perfeição. Princípio algum deve ser
reprimido, já que cada um é um aspecto do espírito supremo, tendo que
cumprir seu próprio propósito e natureza. Se o teurgo se envolve, por exemplo,
com viagem astral – parte da Grande Obra à qual as objeções da teosofia serão
mormente dirigidas – assim será por três razões principais. Primeira, na chamada luz astral ele pode perceber um exato reflexo de si
mesmo em todas as suas várias partes, qualidades e atribuições, sendo que um
exame desse reflexo tende naturalmente para uma espécie de autoconhecimento. Segunda, a definição da luz astral do
ponto de vista mágico é extremamente lata, incluindo todos os planos sutis
acima ou no interior do físico, o objetivo do mago sendo ascender
constantemente aos domínios mais fervorosos e mais lúcidos do mundo espiritual.
Os elementos mais grosseiros da esfera de Azoth, com suas imagens sensórias e
visões opacas obscurecidas, precisa ser sempre transcendido e deixado bem
atrás. Éliphas Lévi chega a estabelecer, por razões de ordem prática, apenas
duas grandes classes de planos no universo: o mundo físico e o mundo espiritual.
Terceira, antes que essa porção
particular do mundo invisível possa ser transcendida, é necessário que seja
conquistada e dominada em cada um de seus aspectos. Todos os habitantes dessa
esfera têm que ser submetidos ao mago, aos seus símbolos mágicos e obedecer
inequivocamente à realidade da Vontade Real que esses últimos simbolizam. No
nosso plano e em nosso domínio de vigília da experiência ordinária, os símbolos
são meramente representações arbitrárias de uma significação inteligível
interior. São as assinaturas visíveis de uma dignidade metafísica ou
espiritual, por assim dizer. Na luz astral, entretanto, esses símbolos assumem
existência independente revelando sua realidade tangível, e conseqüentemente
são de máxima importância. As evocações são empreendidas pelo mago não por
curiosidade ou para satisfazer a uma sede pelo poder, mas sim com a finalidade
única de trazer essas facetas ocultas de sua própria consciência para o âmbito
de sua vontade, submetendo-as então ao seu domínio.
Pode-se, talvez, definir como objeto do
psiquismo o estímulo e a preservação do eu inferior às expensas ou na
ignorância do eu superior. Trata-se de uma abominação merecedora da mais severa
censura. Na magia não se fazem tentativas para aquisição de poderes em proveito
próprio, ou com qualquer propósito abjeto ou nefando. Qualquer poder adquirido
deve instantaneamente ser subordinado à vontade, e mantido em seu próprio lugar
e adequada perspectiva. Essa questão de poderes é bastante curiosa, tendo
obtido, devo acrescentar, maior destaque em meio ao público somente a partir do
advento do culto ao espiritualismo e da formação das organizações teosóficas.
Por que os indivíduos – particularmente alguns teósofos – cobiçam ou encaram
como encaram os poderes astrais ou outros poderes ocultos para sua própria
vantagem e uma morbidez patológica que escapa a minha compreensão. No início de
sua carreira, o mago é compelido a compreender que sua exclusiva aspiração diz
respeito ao seu eu superior, ao seu Santo Anjo Guardião, e que quaisquer
faculdades que sejam obtidas precisam ser subordinadas a essa aspiração.
Qualquer trabalho menor que seja realizado necessita ter um motivo espiritual
definido. Uma aspiração por qualquer coisa que não seja o Santo Anjo Guardião*
constitui realmente, salvo raras
exceções, um ato de magia negra que é, portanto, sumamente abominável. Deve
ficar, por conseguinte, óbvio para todos que o psiquismo, entendido como o
desejo de poderes psíquicos anormais que sirvam como fim em si mesmos, é
absolutamente estranho à intenção e meta dessa técnica.
* A respeito do
Santo Anjo Guardião, consultar O livro da
magia sagrada de Abramelin, o Mago, publicado por esta mesma editora. (N. T.)
Uma outra objeção a ser levantada
provavelmente é que a magia pode levar à mediunidade. Esta é também uma crítica
improcedente por várias razões. Tem sido observado corretamente que tanto o
médium quanto o mago cultivam o transe. Mas a exatidão da observação pára por
aí, pois entre os respectivos estados de consciência do médium e do mago há uma
colossal diferença. Na linguagem popular encontramos a idéia vulgar segundo a
qual gênio e loucura estão associados. A distinção efetiva é que num caso o
equilíbrio de gravidade está acima do
centro normal da consciência; no outro encontra-se abaixo, e a consciência de vigília foi invadida por uma horda
inicial de impulsos subconscientes descontrolados. Idéia idêntica se aplica
ainda com maior força à comparação do médium
com o mago, pois o médium cultiva um transe passivo e negativo que arremessa
seu centro de consciência para baixo, para o interior do que podemos chamar de Nephesch. O mago, por outro lado, é
intensamente ativo tanto de um ponto de vista mental quanto espiritual, e
embora ele também se empenhe no transe noético para manter os processos de
raciocínio em suspensão, seu método consiste em elevar-se acima deles, abrir-se
para os raios telésticos do eu superior de preferência a descer a esmo ao limo
relativo de Nephesch. É esta a única
diferença. O cultivo da vontade mágica e a conseqüente exaltação da alma é a
técnica da magia. O transe espírita não é nada mais nada menos que uma descida
não-natural à inércia e à consciência animal. Abdica-se de toda humanidade e
divindade no transe passivo negativo a favor da vida animal e da obsessão
demoníaca. A abdicação do ego racional
no caso do mago ocorre em favor de uma realização espiritual noética, não do
torpor da vida instintiva e vegetativa. Por conseguinte, a magia não está
associada sob qualquer ponto de vista à mediunidade passiva.
Antes de passar à exposição dos
princípios fundamentais da magia, é necessário esclarecer minha posição no que
concerne às fontes de filosofia teórica que estão na base de minha
interpretação pessoal da técnica da magia. Ficará bastante óbvio que estou em grande
débito com a teosofia. Muitas práticas mágicas encontram sua base na Qabalah Prática dos filósofos hebreus e
na teurgia sacerdotal dos egípcios. Fragmentos foram selecionados de várias
fontes e sou grande devedor de um grande número de pensadores anteriores a mim
e também contemporâneos, e a todos sou grato.
No que diz respeito a teosofia, acho uma
questão de honestidade confessar – a despeito das observações depreciativas
aqui registradas contra a conduta de certos teósofos – que por Blavatsky só posso
alimentar a maior admiração e o maior respeito. Muito da superestrutura
filosófica exibida em A doutrina secreta só
indica tácita aquiescência e sincera concordância com minhas idéias. Minha
própria concepção da filosofia mágica deve o que há nela de concatenado e claro
aos desenvolvimentos em religião e filosofia comparadas dos quais Blavatsky me
muniu. Todavia, minha postura é eclética, selecionando aqui, rejeitando ali, e
formando a partir do todo uma síntese coerente e consistente que agrade ao intelecto
e satisfaça à alma. Sinto que não posso
aceitar a totalidade do ensino de Blavatsky em várias de suas comunicações. Há
muito com o que simpatizo inteiramente, com o que se experimenta a um tempo
orgulho e felicidade assimilando-se a própria filosofia pessoal, e, ao mesmo
tempo, há muito que desagrada e repugna o senso interior.
Também muito devo, e não em menor grau,
às obras de Arthur Edward Waite, em particular a seus resumos do ensino qabalístico. Há uma quantidade
considerável de boa literatura escrita por esse agora idoso contemporâneo que é
sumamente encantadora, informativa e sublime, entoando cantos por vezes de
incomparável eloqüência. E é esse aspecto de excelente erudição e lirismo que
acho não deve ser esquecido, embora algumas vezes pareça arruinado pela
freqüência de passagens em seus escritos que provocam justificável reprovação.
São de uma turgidez e pomposidade abismais, e exibem uma tendência
desnecessária à crítica destrutiva. Mas eu, no que diz respeito aos sentimentos
pessoais, tenho um lugar cálido no fundo de meu coração para o sr. Waite, e lhe
devo bem mais do que meras palavras são capazes de expressar, e a título de
suplementação ao presente estudo recomendo enfaticamente a todos os leitores o
seu Doutrina
secreta em Israel e A Santa Cabala.
Embora
nas obras do eminente mago francês cujo pseudônimo era Éliphas Lévi Zahed
haja muita tagarelice sem sentido que não tem a menor conexão com a
magia, percebe-se aqui e ali no Dogma e
ritual da Alta Magia* e em suas outras obras, cintilando como estrelas no bojo do firmamento, reluzentes pepitas do
mais puro ouro no negro minério da obscuridade e da trivialidade. Devo
confessar, contudo, estar pouco impressionado em todos os aspectos com sua
própria ficha como mago prático, visto que, ao que tudo indica, a sua chamada
evocação da sombra de Apolônio de Tiana resultou em pouquíssimo. Lévi constitui
um problema difícil para a maioria dos leitores. Ademais, ele sobrecarregou a
si mesmo com uma confusão, ou uma tola tentativa de reconciliar a magia com o
catolicismo romano. Assim, sem uma sólida compreensão dos princípios
fundamentais da Qabalah e da filosofia comparativa ficará
sujeito a ser arremessado de cabeça
nos vários fossos que ele supre
para os incautos.
* Publicado no
Brasil pela Ed. Pensamento, tradução de Rosabis Camaysar, e pela Madras,
tradução de Edson Bini. (N. T.)
S. L. McGregor Mathers e W. Wynn Westcott
também me forneceram muito que servisse de fundamento nesta filosofia mágica,
particularmente o primeiro, e muito material útil pode ser reunido a partir das
obras de ambos. O mundo terá de ser eternamente grato a Mathers por sua
tradução de O livro da Magia Sagrada de
Abramelin, o Mago** e A Introdução ao Estudo da Cabala, de
Westcott é talvez um dos mais atraentes textos elementares a respeito desse
assunto. Entretanto, a aceitação da totalidade das opiniões desses escritores
levaria a uma crise aguda de indigestão mental. Em cada um há vários elementos
da verdade – verdade, ao menos para cada aprendiz – mas sondando o fundo observa-se um ligeiro
resíduo de exagero, mal-entendidos e erro.
** Publicado no
Brasil por esta editora, tradução de Norberto de Paula Lima, Márcio Pugliesi e
Edson Bini. (N. T.)
Observar-se-á, igualmente, que faço
freqüentes citações de Aleister Crowley, e é imperioso que eu defina claramente
minha posição relativamente a esse homem genial. Deixando de lado o opróbrio de
magia negra que lhe foi dirigido violentamente por muitos indivíduos
completamente ignorantes do que ele ensinou, há muita coisa importante em
Crowley, muita filosofia e pensamento original tanto sobre Qabalah quanto sobre magia belamente expressos em prosa e verso e
de concepção profunda. Acho lamentável que o público seja privado dessa
novidade e originalidade superlativas que pertencem a Crowley e despojado
daqueles aspectos de seus ensinamentos que são bons, enaltecedores e
duradouros, simplesmente por causa de uma certa parte de sua produção literária
que é certamente banal, insignificante, sem importância e indubitavelmente
repreensível.
As personalidades e vidas particulares
desses indivíduos não me dizem respeito em absoluto, e não me sinto inclinado a
discuti-las. Quase todos eles, numa ocasião ou outra, foram atingidos pelas ferroadas e setas do
mau juízo de uma multidão maliciosa. Também não me dizem respeito nem esta
multidão nem a natureza das invectivas que lançam, pois a magia nada tem a ver
com elas.
A cada aprendiz, portanto, cabe a tarefa
de determinar para si mesmo o que deve ser verdadeiro e confiável e estabelecer
por sua própria conta um padrão de referência sem controvérsia. E esse padrão
deve ser experiência espiritual. Por isso, a Árvore da Vida Qabalística foi adotada como a estrutura
da magia prática, visto que está, em primeiro lugar, aberta à classificação
sintética e construtiva, e porque fornece aquilo que pode ser apropriadamente
chamado de alfabeto mágico. É preciso notar que a palavra “alfabeto” é
empregada, e empregada de preferência à palavra linguagem e aos seus
desdobramentos. A Qabalah não procura
suprir uma completa linguagem mágica ou uma inteira filosofia. Essa última só
pode ser conquistada mediante experiência espiritual. Mas a partir do alfabeto
de idéias, números e símbolos e das sugestões apresentadas por ele, o aprendiz
poderá se achar capacitado, com o auxílio da pesquisa mágica, a construir um
edifício satisfatório de elevada filosofia que o conduzirá ao longo da
vida.
CAPÍTULO III
Insistem todos os teurgos do passado que
a augusta filosofia que serve de base à teoria e técnica da magia, sendo tão
importante quanto o trabalho prático e uma necessidade radical que deve
preceder esse trabalho, constitui um pré-requisito para qualquer discussão
adicional. Na verdade, dificilmente teremos um efetivo entendimento da base
racional da magia e certamente nenhuma compreensão das complexidades que
ocorrem no interior e no exterior da constituição do mago se o fundamento
filosófico não estiver firmemente assentado em sua mente. Se há perigo na busca
da magia, esse perigo só surge quando o operador não dispõe de conhecimento
preciso do que está fazendo. É de uma compreensão inteligente do significado
dos símbolos do oculto e das realidades que eles, em primeiro lugar, visam a
comunicar que a eficácia dos ritos depende muito. Os símbolos e acessórios da
magia nas mãos profanas de alguém não familiarizado com os fundamentos da arte indubitavelmente não produziriam os
corretos efeitos taumatúrgicos. Contudo, o mero conhecimento intelectual desses
princípios arcanos é de pouca valia se não houver experiência espiritual. Em
contrapartida, a investigação mágica do universo e sua conseqüente compreensão
espiritual na consciência assumem maior dignidade, e implicação e profundidade
mais férteis se apoiadas numa compreensão teórica.
Em sua recente obra, Os mistérios do Egito, Lewis Spence afirmou que o sistema
filosófico da magia reuniu “e tornou
manifestos toda a sabedoria e conhecimento arcano do mundo antigo, que foram
assim cristalizados e sistematizados de
tal maneira que tivessem sido eles
preservados de uma forma não adulterada, teriam certamente poupado
épocas posteriores de muitas catástrofes religiosas e muito falso misticismo.
Mas graças à indolência e negligência de seus preservadores e talvez através
das cínicas influências que lhes eram impingidas de fora, sua primitiva beleza
divina foi gradualmente perdida até, finalmente, restar apenas o esqueleto de
seus rituais e cerimônias”.
Foi nas religiões esotéricas ortodoxas
que alguns dos vários fragmentos esparsos do esqueleto mágico foram retidos, em
sua maior parte ineficazes e incompreensíveis para a maioria devido à inescrupulosa adulteração. Mas a essência da
magia, sua “primitiva beleza divina”, foi preservada por mãos altruístas e
cuidada zelosamente em mentes sublimes, e se houver muita aplicação, pode até
ser compilada em publicações. Nos trabalhos gnósticos, inclusive nos escritos
neoplatônicos, nas propositais obscuridades dos alquimistas, em meio à
literatura procedente dos rosacruzes – em tudo isso temos a possibilidade de
encontrar vestígios luminosos da filosofia e prática dessa magia da luz que,
cuidadosamente reunidos sobre a base sintética suprida pela Árvore da Vida, formam um sistema sublime e
funcional que concede a luz da compreensão a todos aqueles que queiram
contemplá-la. Os principais ingredientes do sistema mágico são a Árvore da Vida
qabalística, que é a fonte de
referência, e a religião hierática da casta sacerdotal do Egito. Existe, devo
mencionar – deixando a interpretação a critério do leitor – a lenda segundo a
qual a Qabalah foi recebida por
Moisés como uma custódia sagrada no Sinai, que ele a entregou a Josué, o qual a
entregou, por sua vez, aos juízes, e estes ao sinédrio, até que finalmente os Tanaim e rabinos posteriores se
apoderaram dela e a trabalharam. Outras pessoas sustentam com convicção que se
essa pessoa chamada Moisés existiu historicamente e se a Qabalah e seus corolários se originaram dele, ele
a obteve dos sacerdotes egípcios, em companhia dos quais ele sem dúvida estudou
nos templos do Nilo. Poucos países no mundo, exceto a Índia, talvez, podem se
gabar de uma crônica de tradição mística e mágica tão eloqüente quanto o Egito,
que com justiça recebeu o título de matriz
da magia. Se a Qabalah é ou não
realmente oriunda dos egípcios ou qualquer outro povo é um ponto discutível,
não havendo, apesar da lenda e da especulação extravagante, nenhuma evidência
histórica autêntica nesse sentido. E contudo, a teurgia prática dos egípcios se
harmoniza notavelmente bem com as teorias filosóficas da Qabalah, e a experiência de
uma multidão de magos tende a nos fazer crer que dificilmente poderia haver uma
combinação mais adequada ou mais satisfatória.
Conseqüentemente, apresentaremos aqui uma
exposição dos princípios subjacentes do universo tais como concebidos pelos
magos e um estudo daquilo que forma necessariamente a base de todo o trabalho
prático.
Essa concepção do universo será
resumidamente enunciada nos termos
filosóficos da Qabalah, e entremeada
em torno da estrutura central da Árvore da Vida. “Quem penetra no santuário da
cabala é tomado de admiração à vista de um dogma tão lógico, tão simples e ao
mesmo tempo tão absoluto. A união necessária das idéias e dos signos, a
consagração das realidades mais fundamentais pelos caracteres primitivos, a
trindade das palavras, letras e números;
uma filosofia singela como o alfabeto, profunda e infinita como o Verbo;
teoremas mais completos e luminosos que os de Pitágoras; uma teologia que se
condensa contando pelos dedos; um infinito que pode caber na palma da mão de
uma criança; dez algarismos e vinte e duas letras, um triângulo, um quadrado e
um círculo: aqui está a totalidade dos elementos da cabala. São os princípios
básicos do Verbo escrito, reflexo desse Verbo discursante que criou o mundo!” –
Assim pensava Lévi, e na verdade é preciso concordar sinceramente com ele, pois
o admirável fundamento da Qabalah é
uma simples estrutura matemática de símbolos, números e nomes, que emprega dez
números e as letras do alfabeto dos anjos,
como foi denominado o alfabeto hebraico. A matemática sempre foi considerada
uma ciência divina pelos discípulos da filosofia esotérica, particularmente
entre os pitagóricos, prefigurando, como o faz por meio do número os processos
criativos tanto do universo quanto do desenvolvimento do ser humano. Diversos
magos sustentaram que foi pelas idéias expressas no número que a natureza foi
concebida no seio do espaço infinito. Dessas idéias universais brotaram os
elementos primordiais, os imensos ciclos do tempo, os corpos cósmicos e toda a gama de transformações celestes.
Como os números eram os meios ou os
símbolos pelos quais o significado das
idéias universais abstratas podia ser compreendido, ao longo do tempo
acabaram sendo substituídos pelas próprias idéias. Os filósofos do número eram
ensinados no início de seus estudos a
pensar em crescimento e desenvolvimento em termos do número, a
considerar as realidades cósmicas em seus estados progressivos como a seqüência
da progressão numérica. Os números se tornaram identificados com esses vários
estados. Conseqüentemente, na filosofia mágica aludir ao zero, por exemplo,
significa sugerir em primeiro lugar a
essência imanifesta do universo antes mesmo do nascimento das palavras, o
ilimitado e a imutabilidade do espaço infinito no qual não há
nem estrelas nem sóis, nem planetas nem homens. O círculo, um zero (0)
na sua forma, era assim considerado como sendo uma representação adequada daquela
realidade primordial que proporcionara existência a todas as coisas vivas e
seres vivos em toda a vastidão do espaço. O ponto, metafísico e espiritual, que
aparece num acordo estrito com a lei cíclica, era representado por um traço ou
uma linha estendendo-se do alto à base do círculo, uma figura ereta do um. O
próprio número passou então a indicar o processo de germinação dos mundos. Cada
número, em virtude do processo evolutivo ao qual originalmente se aplicava,
conseqüentemente significava o próprio processo. Por conseguinte temos a base
racional das figuras geométricas, dos selos e dos símbolos empregados nas
cerimônias mágicas. À medida que a filosofia da Qabalah for revelada, o leitor perceberá quais são as implicações
fundamentais na raiz dos signos e símbolos usados pela teurgia. E será
percebido claramente que não se trata mais de signos arbitrários de conotação
dúbia, mas sim de realidades rigorosas investidas de uma augusta verdade. Devo
pedir insistentemente ao aprendiz, entretanto, que seja paciente comigo por
enquanto neste e nos capítulos subseqüentes, visto que estou lidando com um
assunto sumamente complexo e difícil. Não importa quão bem se apresenta uma
simplificação para o estudo geral, ela sempre exigirá uma detida atenção e
muita aplicação.
Acima de tudo a filosofia da Qabalah é uma filosofia da evolução. O
universo, com todos seus planetas, mundos e seres independentes, foi concebido
como a emanação de um princípio-substância primordial que alguns chamaram de
Deus, de Absoluto, de Infinito, de Todo e assim por diante. Na Qabalah, esse princípio, que é a Realidade
Única, é chamado de Ain Soph, o
Infinito. O Sepher haZohar, talvez o
mais importante dos textos qabalísticos,
o concebe imutável, incognoscível para a mente, ilimitado, imanifesto e
absoluto. Além de toda compreensão intelectual em Si, visto que jamais poderia
ser abarcado por uma mente que é apenas um segmento de Sua toda-inclusividade,
afirma-se ser Ele Ain – nada. Visto que ultrapassa efetivamente toda compreensão
finita, sendo suas vastidões imutáveis e ilimitadas para a mente humana, cuja
especulação mais profunda seria incapaz de aproximar-se do mais vago esboço do
que Ele é em Si, forçoso é que permaneça sempre um vazio misterioso – nada, nenhuma coisa. Nesse sentido, a
concepção gráfica dos antigos egípcios mostra-se bastante expressiva, bem como
pitoresca. O céu, ou espaço anterior a toda manifestação, era concebido como o
corpo nu da deusa Nuit, a rainha do espaço infinito, de seus
seios brotando o leite das estrelas, as águas primordiais da substância.
Tudo o que pode ser dito de verdadeiro
dessa Realidade Absoluta e Suprema é que ELA É. Isto tem que bastar.
Onipresente, eterno e auto-existente – essas são idéias que transcendem mesmo
os mais sublimes vôos da imaginação treinada, abstrações além da apreensão das
mentes mortais. Um dos símbolos dessa potencialidade do Ain durante um período de repouso é um círculo, significando que
tudo tendo sido recolhido à homogeneidade, o movimento retorna perpetuamente
para si mesmo, como no glifo a cauda da serpente se recolhe e é tragada pela
cabeça. O círculo só é interrompido, por assim dizer, pela lei da
periodicidade. Essa lei, que a tudo afeta e que é inerente à própria natureza
das coisas, governa o constante fluxo e refluxo, aparecimento e desaparecimento
dos mundos. A potencialidade do Ain Soph é
apenas refletida mediante a emanação de si mesmo do alento de criatividade, com
o começo de um ciclo quando a Vida Una é polarizada no espírito e matéria. A
ruptura do círculo de movimento incessante é realizada por uma contração de sua
Luz Infinita, por uma colocação de um ponto minúsculo de refulgência cintilante
nos confins do espaço. Como foi efetivada essa concentração de luz num centro
cósmico, qual sua obscura origem, somos incapazes de dizê-lo. Há explicações
confusas quanto à Vontade do Ain Soph ou
à lei dos ciclos, mas elas realmente não nos conduzem a uma satisfatória
compreensão inteligente. Num caso, é inteiramente impossível conceber uma
condição espiritual tão infinita e tão abstrata como o Ain Soph possuindo uma Vontade que possa ser posta em operação,
tanto quanto possuindo uma mente ou um corpo. Segundo a tradição
filosófica, Ain Soph não é nem Espírito nem Vontade, mas sim a causa subjacente
de ambos; não é força ou matéria, mas aquilo que serve de base a elas, sua
causa última. No segundo caso, o postulado da lei cíclica que pretende dar
conta do aparecimento do centro de luz
trata de algo independente do Ain
Soph ou que impõe necessidade sobre ele. Se a lei cíclica é identificada
com o Absoluto, o postulado se torna idêntico à Vontade de manifestação. Em
qualquer dos casos, desde que concordemos no domínio da teurgia que a razão não
pode ser o árbitro final no que diz respeito a isso e questões metafísicas
similares, a tradição filosófica será simplesmente aceita como afirmação árida,
sem a pretensão de esforçar-se para suprir explicações racionais para um centro
cósmico de esplendor surgido no espaço.
Esse centro metafísico cósmico é chamado
de Kether, a coroa, e é a primeira
manifestação do Desconhecido, uma concentração de sua luz infinita. Kether é, também, num certo sentido
desconhecido, o Zohar o chamando de o Oculto. Blavatsky o considera como o
primeiro Logos, imanifesto, pois a
partir dele tanto o espírito quanto a raiz da matéria cósmica ainda nascerão.
Seu número é um, pois o ponto no
círculo alongado e traçado como um traço reto é esse número.
Como a coroa que está acima do sistema de
emanação, como o ápice da Árvore da Vida
que tem sua raízes nos céus, descendo em desenvolvimento rumo à terra, Kether é o sentido mais profundo da
egocidade, constituindo o substrato da consciência humana e a raiz última da
substância. Esse ponto central, sensível e espiritual, este centro metafísico
ou mônada metafísica de consciência, preenche essas duas exigências, existindo
como a real individualidade e a divisão última da matéria. Da mônada brota a
dualidade, dois princípios distintos de atividade permanentes através de um
período inteiro de manifestação, co-existente e co-eterno. Trata-se da
consciência e da base substantiva metafísica
sobre a qual a consciência sempre atua, substância da raiz cósmica. Um é
chamado de Chocmah – sabedoria, e ao
outro atribui-se o título de Binah –
compreensão. Com o intuito de tornar coisas abstratas um pouco mais
compreensíveis às mentes que se esforçavam para instruir nessa metafísica, uma
das características dos filósofos cabalistas era explicar, na medida do
possível, seus complexos e difíceis teoremas em termos de conduta humana,
atividade humana e emoção humana. Assim notamos que é dado o título de Pai
a Chocmah
e de Mãe a Binah.
Todas as Sephiroth, como são chamadas
essas emanações, abaixo daquela que é chamada de Coroa, recebem atribuições
masculinas e femininas, e a atividade entre Sephiroth
masculinas e femininas em reconciliação é um “filho”, por assim dizer; uma Sephirah neutra atuando em equilíbrio. Assim, a Árvore da Vida, compreendendo
essas dez emanações, se desenvolve a partir da mais elevada abstração até o
mais concreto material em várias tríades de potências e forças espirituais.
Masculino, feminino e criança; positivo, negativo e sua resultante mescla num
terceiro fator reconciliador.
Esses dois princípios ou Sephiroth,
ao serem intitulados o Pai e a Mãe, são também atribuídos a letras do chamado
Tetragrammaton, do qual as quatro letras são YHVH. Relativamente a essa
doutrina do Tetragrammaton, devo lembrar o leitor que as atribuições desse nome
e os modos de emprego exegético são sumamente importantes, e quanto mais clara
e precisa for a compreensão desses, mais claro e preciso será o discernimento
das fórmulas práticas de magia a serem consideradas posteriormente. O Pai
recebe a letra “Y” desse nome e o primeiro “H” é atribuído à Mãe. Da união de Y
e de H flui o resto de todas as coisas
criadas. Em outras palavras, da consciência e seu veículo todas as coisas são
formadas, e todo ser concebível, deus ou homem, divino ou animal, tem sua base
no Y e no H do nome divino.
Deve-se mencionar, de passagem, que a
postura adotada pelo que é conhecido
como Ciência Cristã ao negar a existência da matéria não é ratificado pela
filosofia dos teurgos. É verdade que esta última afirma que o mundo físico é
uma ilusão, a saber, no sentido de que suas formas externas estão em constante
mutação, que se encontra num estado de fluxo perpétuo. Desse ponto de vista,
quando observado “de cima”, acredita-se ser o universo uma ilusão. Mas sua
existência está fundada numa realidade, a substância-raiz de Binah, distinta e separada do aspecto consciência de Chocmah. Nesse ponto apenas, deixando de lado várias outras brechas
para discussão, a magia não tem qualquer interesse pela Ciência Cristã ou algo
em comum com ela. Tanto o espírito quanto a matéria são reais, quer dizer,
reais durante um período de manifestação; em si mesmos são apenas modos
passageiros da atividade, por assim dizer, do
Ain Soph.
Expandindo através da totalidade do
espaço, usando Binah como um veículo
imediato, as energias de Chocmah dão
origem às sete emanações restantes que resultam no aparecimento do mundo físico
tangível. Em Chocmah, o plano de
mundo ideal ou imaginativo pelo Logos que
está em Kether, as idéias sobre as
quais o “mundo que virá a ser” se baseará. No Livro dos Mortos do Antigo Egito, o deus Tahuti ou Thoth*, a
divindade atribuída a Chocmah, visto
que as características essenciais de ambos são idênticas, é ali concebido como
tendo sido a “língua” do criador Ptah, e ele
sempre proclamou a Vontade do grande Deus, falando as palavras que
ordenavam a todo ser e toda coisa no céu que adentrasse a existência. Sir E. A. Wallis Budge, o eminente
egiptologista, observa no folheto informativo do Museu Britânico que trata de O Livro dos Mortos que “Thoth concebeu
as leis pelas quais o céu, a Terra e todos os corpos celestes são mantidos; ele
ordenou os cursos do sol, da lua e das estrelas”. Isso está em harmonia total
com a natureza de Chocmah, a ideação
ou imaginação do cosmos, em que todas
as coisas foram primeiramente concebidas e então realizadas e tornadas
manifestas em substância.
* Tahuti ou Tehuti é egípcio, Thoth é copta. (N. T.)
A Mãe de todas as formas, esta é Binah, a terceira Sephirah.
De acordo com o grande qabalista do século XVI, rabi Moisés
Cordovero, esse número é a raiz das coisas. Substância-raiz cósmica e energia
primordial são as expressões usadas por Blavatsky para designar essa
manifestação particular, chamada na Qabalah
de Grande Mar. O formato das letras da palavra hebraica para mar é um glifo
eloqüentemente indicativo da elevação e expansão das ondas no seio das águas.
Os antigos simbolizaram muito sabiamente com o mar a substância virgem intocada
espalhada espaço afora, pois a água é plástica, de forma sempre cambiante, e
assume a forma de qualquer recipiente em que é despejada. O mar é um símbolo
sumamente adequado dessa substância plástica a partir da qual todas as formas
devem ser compostas e representa uma energia ininterrupta, a despeito de ser
passiva. Diz-se que a cor de Binah é
o preto, visto que o preto absorve todas as outras cores tal como todas as
formas materiais após inumeráveis transformações e mutações retornam à
substância-raiz e por ela volta a ser absorvidas.
Essas três emanações são únicas de uma
maneira especial. A Coroa, com seus dois derivados, o Pai e a Mãe, é concebida
como Sephiroth suprema, não tendo
relação com as emanações que dela procedem. No diagrama da Árvore da Vida, as
supremas são vistas como existindo além do Abismo, aquela grande voragem fixada
entre o ideal e o real, separando-as das emanações que são as inferiores, o acima do que está abaixo. Tal como as ondas se
alçam e afundam abaixo do nível normal das águas sem produzir qualquer efeito
duradouro nas próprias águas, assim é considerada a relação do universo real
com as Sephiroth supremas, pois elas
repousam num plano completamente afastado de qualquer coisa que possamos
compreender intelectualmente. É somente com o aparecimento da quarta emanação
que temos algo que é realmente cognoscível pela mente humana.
Por essa razão, há um segundo método de
numeração que se soma àquele que já apresentamos. As Sephiroth supremas são consideradas inteiramente independentes das
inferiores, e enquanto estas são geradas a partir de sua própria essência
divina e no seu interior, o ser das supremas não é de maneira nenhuma afetado.
Como a luz brilha na escuridão e ilumina sem sofrer diminuição de sua própria
existência, do mesmo modo as obras das supremas transbordam de seu ser central
sem com isso diminuir em grau algum a realidade de sua fonte. Conseqüentemente,
elas existem sozinhas além do Abismo, embora através do espaço seja difundida
sua essência, sua numeração se
completando em Três. Começando com as inferiores abaixo do Abismo, o plano da
existência finita condicionada, a numeração começa mais uma vez com o número
Um. Assim, cada Sephirah, nesse sentido, possui dois
números, indicando um distinto desenvolvimento duplo da corrente de vida. Chesed é tanto o número Quatro quanto o
número Um, porquanto é a primeira Sephirah
no plano da causalidade abaixo do abismo. Júpiter, como o pai dos deuses, é
às vezes atribuído a Kether no alfabeto mágico. Mas também
pertence a Chesed de uma outra
maneira, visto que Chesed num plano
inferior é o reflexo da Coroa. A numeração direta é conservada para evitar a
confusão de duas séries numéricas, continuando de um a dez sem interrupção. É
apenas mencionada porque este fato por si só pode explicar os fragmentos
isolados do sistema de numeração pitagórico que, quando aplicado à Árvore da
Vida sem lembrar-se da dupla numeração, pode levar à imensa confusão.
Da primeira tríade, então, uma segunda tríade de emanações é refletida ou
projetada abaixo do Abismo. Estas, do mesmo modo, são compostas de uma potência
masculina e feminina com uma terceira Sephirah
produzida em reconciliação direta de maneira a harmonizar e equilibrar seus
poderes. A quarta é chamada tanto de Chesed,
que significa graça, quanto Gedulah,
que significa grandeza, tendo os antigos filósofos lhe designado a qualidade
astrológica denominada Júpiter. Quatro é um número que significa sistema e
ordem, qualidades atribuídas pela tradição astrológica ao planeta Júpiter.
Segundo certas autoridades, esse é o primeiro número a mostrar a natureza da
solidez, e como vimos acima que Chesed é
a primeira Sephirah abaixo do Abismo,
e é a primeira das Sephiroth “reais”,
essas observações são justificadas. A Sephirah
masculina Chesed simboliza as
potencialidades da natureza objetivizada, e através da confirmação da
atribuição astrológica, incluindo a figura mitológica da divindade tutelar com
esse nome, os pitagóricos chamavam o Quatro de “o maior prodígio, um deus
segundo uma maneira diferente da tríade”.
A quinta Sephirah é Geburah,
poder, e apesar de ser uma emanação de qualidade feminina, sua natureza se
afigura sumamente masculina. Alguns antigos afirmavam que o cinco era um
símbolo do poder criativo e que nesse conceito de criatividade e poder se
achava o caráter de Geburah. É uma
força formativa, como o seu nome Poder e a atribuição planetária a Marte
sugeririam, pela qual o plano formulado na imaginação cósmica e projetado como
uma imagem na substância-raiz abaixo do Abismo em Chesed é impulsionado celeremente à atividade e manifestação. O
cinco é composto de três e dois, o primeiro representando a energia passiva da
Mãe e o segundo, a sabedoria do Pai. Não expressa tanto um estado de coisas mas
um ato, uma passagem ulterior e uma transição da idealidade para a realidade.
Seis é a Sephirah desenvolvida para proporcionar harmonia e equilíbrio às
forças anteriores, e seu nome é Tiphareth,
uma palavra hebraica que significa beleza e harmonia. O número é um símbolo de
tudo que é equilibrado, harmonioso e de boa proporção, e como é o dobro de
três, reflete novamente as idéias variadas representadas por esse número.
Considerando-se, portanto, que o três representa os reais poderes motivadores
da evolução, o Macroprosopus ou o Logos, da mesma maneira em Tiphareth encontramos uma reflexão
devida e uniforme num Logos menor, o Microprosopus. A essa Sephirah os qabalistas atribuíram o sol, o senhor e centro do Sistema Solar. Ao
consultar o diagrama da Árvore da Vida, o leitor pode perceber que Tiphareth ocupa uma posição destacada no
centro da estrutura da Árvore da Vida como um todo. Os filósofos pitagóricos
asseveraram que seis era o símbolo da alma, e mais tarde descobriremos que no
ser humano Tiphareth, a harmoniosa
emanação do sol é a Sephirah da alma do homem, o centro do
sistema microcósmico e a luminosa intermediária entre o Espírito meditativo
acima e o corpo com os instintos abaixo. Os doutores do Zohar da divina
filosofia atribuíam a terceira letra “V” do nome divino a Tiphareth, e visto que a Tiphareth
é o filho do Pai e da Mãe Celestiais, é chamada de Filho. O selo de
Salomão, os triângulos entrelaçados, um verdadeiro símbolo de equilíbrio, é o
símbolo apropriado.
Os processos de reflexão continuam, e a
segunda tríade composta dos números quatro, cinco e seis – embora tenham sido
eles mesmos projetados pelas Sephiroth supremas
–, por sua vez, gera uma terceira tríade reproduzindo a si mesma num plano
ainda mais inferior. A primeira dessas Sephiroth
é masculina – Netzach, que
significa triunfo ou vitória. Concebe-se que o sete é um número inteiro que
representa uma consumação das coisas, a conclusão de um ciclo e seu retorno
para si mesmo. Assim, na sétima Sephirah,
começando uma nova tríade e concluindo a segunda série de Sephiroth, são resumidas novamente todas as potências anteriores.
Sua natureza é a do amor e da força de atração; o poder de coesão no universo,
unindo uma coisa à outra e atuando como a inteligência instintiva entre as
criaturas vivas. O planeta Vênus, emblema do amor e da emoção, é atribuído
pelos filósofos da magia a essa Sephirah;
da mesma maneira, a cor verde, tradicionalmente pertencente a Afrodite, como as
forças pertencentes a essa Sephirah estão
peculiarmente ligadas ao cultivo, à colheita e à agricultura.
Em oposição a Netzach como segunda Sephirah
da terceira tríade está Hod, esplendor
ou glória, que é uma qualidade feminina repetindo as características de Chocmah num plano menos exaltado e sublime.
Representa essencialmente uma qualidade mercurial das coisas – sempre fluindo,
em metamorfose constante e fluxo contínuo, tendo sido denominada, acredito,
“mudança na estabilidade”. Com ela, detentora de natureza bastante similar,
esta a nona Sephirah, Yesod, o fundamento, que é “estabilidade em mudança”. Tal como a
tremenda velocidade das partículas eletrônicas assegura a estabilidade do
átomo, do mesmo modo as formas fugazes e o movimento de Yesod constituem a
permanência e a segurança do mundo físico. É a nona Sephirah e por conseguinte o nono dígito, compreendendo em si todos
os números precedentes. Comumente chamada de plano astral ou alma do mundo, Yesod é aquele fundamento de sutil
substância eletromagnética no qual todas as forças mais elevadas estão
focalizadas, constituindo a base ou o modelo final sobre o qual o mundo físico
é construído. Yesod tem natureza lunar, a lua sendo o luminar
atribuído visto haver uma curiosa relação entre o satélite morto da Terra e a
luz astral. Yesod completa as três
tríades, cujo apêndice é Malkuth, a
décima e última Sephirah, que
representa em forma concreta, numa completa cristalização visível e tangível
aos sentidos, todas as qualidades dos planos precedentes. A própria palavra
significa reino, o reino do mundo
físico e o cenário das atividades e encarnações das almas exiladas de cima, a
morada do Espírito Santo. No Zohar é dada a letra “H” do nome divino a Malkuth, que é chamada de Filha, sendo o
reflexo mundano do primeiro “H”, que é a
Mãe. Essa décima Sephirah é chamada
alhures de Noiva, de Filha e de Virgem do Mundo.
Reconhecidamente, esse esboço acima
oferece somente uma vista resumida e geral do sistema numérico de evolução e
desenvolvimento cósmico que tanto fez jus ao respeito de Lévi e dele teve uma
admiração tão grande e extremada. Nesse esboço elementar será possível perceber
claramente que os números se vinculam a processos criativos ou evolutivos, e
que fundamentalmente compreendida, a natureza do número é o ritmo. Essa última
afirmação é importante, já que proporções e atividades harmoniosas realmente
conduzem e marcam as primeiras manifestações da Vida Una nos elementos e substâncias diversas
presentes em toda parte. Essas diferenciações são corretamente simbolizadas
pelo número, que se concebe como sendo glifo precisamente dos processos de
revelação. Representam o desenvolvimento de um universo tangível explícito a
partir de uma essência intangível implícita; de uma concepção ideal à
consumação da forma construída na qual o ideal encontra sua morada terrestre.
Assim, para o teurgo, os números simbolizam o próprio ritmo do universo, e com
seus signos apropriados eles representam poderes e entidades com os quais o
teurgo procura comungar.
Há um outro aspecto da Árvore da Vida que eu gostaria de abordar.
Diz respeito ao que é chamado de Quatro Mundos. Esses mundos são regiões
metafísicas tanto de consciência quanto de matéria, pois a teurgia sustenta que
cada estado de consciência possui seu próprio veículo, um estágio apropriado de
substância. Esses mundos podem ser encarados sob dois pontos distintos de
análise, sendo que o primeiro coloca uma Árvore em cada um dos quatro mundos,
oferecendo-nos assim quarenta Sephiroth no
total. Os quatro mundos são chamados de Mundo Arquetípico, no qual os arquétipos
ou emanações primordiais são desenvolvidos sob a forma de uma Árvore da Vida.
Pode-se imaginar também essa Árvore da Vida arquetípica representando uma forma
humana que, no Livro dos Esplendores, é chamada de Adam Kadmon, o Homem Celestial, que contém em seu interior todas as
almas, espíritos e inteligências em toda parte do cosmos. É a Alma Universal,
mãe e progenitora divina de todas as outras. Essa Alma é o Homem Divino sobre o
qual Lévi fala e ao qual nos referimos anteriormente; essa Alma de cuja grande
vida cada ser individual e consciência independente participam. Os
desdobramentos que emergem desse postulado simples e as idéias sugestivas que
ele suscita são demasiado numerosos para deles tratarmos nesta oportunidade.
Minha intenção primeira foi apresentar apenas um breve resumo da filosofia
mágica, deixando ao leitor a tarefa de preencher por si mesmo muitas lacunas
que foram deixadas em aberto.
A totalidade das Sephiroth em Olam Atsiluth,
o mundo arquetípico, ocupa o plano mais elevado de consciência espiritual, o
primeiro surgir de consciência do Ain
Soph. À medida que os processos de evolução continuam, Adam Kadmon gradualmente projeta a si mesmo ainda mais na matéria
um tanto mais densa, sua unidade sendo aparentemente fragmentada, espelhada em
muitas facetas e formando o Mundo Criativo, Olam
Briah. Nesse mundo, o plano contido na imaginação criativa do Macroprosopus é ainda mais elaborado, as
centelhas ou idéias separadas sendo revestidas daquela condição de substância
sutil apropriada àquela esfera. Aqui, também, uma completa Árvore da Vida é
desenvolvida através da reflexão. Do mundo criativo, a Árvore é projetada para
um terceiro plano, o Mundo Formativo, Olam
Yetsirah, onde as idéias imaginativas do Logos, as centelhas monádicas
espirituais já revestidas na substância mental sutil do mundo criativo se
modelam em entidades consistentes definidas, os modelos astrais que dão origem
ou servem de fundamentos estáveis ao mundo físico. O mundo físico, Olam Assiah, é o quarto e último plano,
e como projeção cristalizada do mundo formativo é a síntese e concreta
representação de todos os mundos mais elevados.
((entra aqui
em página inteira o diagrama da Árvore da Vida))
Está encerrada nessa concepção a
justificativa do axioma hermético “Como é acima, é abaixo”. Pois aquilo que
existe abaixo possui sua duplicata arquetípica ideal nos mundos mais elevados.
Em formas variadas, as idéias arquetípicas encontram sua particular
representação abaixo – pedras, jóias, perfumes e formas geométricas todas sendo
peculiarmente indicativas na esfera mundana de uma idéia celestial. Essa
fórmula metafísica também supre Lévi da devida razão para falar do “dogma único
da magia – que o visível é para nós a medida proporcional do invisível”. O mago
francês também observa alhures que “o visível é a manifestação do invisível, ou
em outros termos, o perfeito Logos está, em coisas que são apreciáveis e
visíveis, na exata proporção com aquelas que são inapreciáveis para os nossos
sentidos e invisíveis para os nossos olhos... A forma é proporcional à idéia...
e sabemos que a virtude inata das coisas criou palavras, e que existe uma exata
proporção entre idéias e palavras, as quais são as primeiras formas e
realizações articuladas das idéias”. É essa afirmação filosófica da relação
entre idéias e coisas que proporciona a base lógica fundamental de muito que é
verdadeiro em magia. Quanto a esse ponto, teremos que voltar a ele mais tarde,
pois há ao longo do caminho algumas outras idéias que exigem aprimoramento.
A fórmula do Tetragrammaton é também
aplicada aos Quatro Mundos e aos quatro elementos primordiais. A letra “Y” é
atribuída ao mundo arquetípico, sendo conseqüentemente o Pai, o gerador de
tudo, o todo devorador dos mundos. O “Y” também representa, nesse caso, o
elemento fogo, anunciando a natureza impetuosa, ativa e espiritual do Pai. O
primeiro “H” do Tetragrammaton é atribuído ao mundo criativo, ao qual,
receptivo e passivo, pertence o elemento água. Esse plano representa a Mãe que,
antes que o Filho possa ser gerado, aguarda a energia criativa e o influxo da
vida divina proveniente do Pai. A letra “V” cabe ao mundo formativo, o Filho
que, como o Pai, é ativo, masculino e energético, daí ser o elemento ar sua
atribuição. Completando o nome divino temos um segundo “H”, similar à Mãe,
passivo e inativo, recebendo quaisquer influências que sejam derramadas em seu
interior. Em O Livro dos Esplendores, “H” é chamado de Palácio do Rei e de a
Filha, representado o mundo físico, que é a síntese de todos os mundos.
O segundo método é ligeiramente diferente
do que acabamos de esboçar. Nesse caso, emprega-se uma única Árvore, sendo os
quatro planos assim colocados sobre ela. Kether, a Coroa, ocupando sozinha um
plano inteiro, é o mundo arquetípico, o domínio do Logos. A segunda e a
terceira Sephiroth, o Pai e Mãe supremos, constituem o mundo criativo,
recebendo e executando a divina imaginação. O terceiro plano, ou mundo
formativo, o plano astral propriamente – do qual falaremos mais no próximo capítulo
– é compreendido pelas seis Sephiroth seguintes,
em cujo mundo tudo é preparado para a manifestação visível. Malkuth, o reino, é
o mundo físico. Todas as atribuições relativas à primeira descrição dos quatro
mundos são válidas para este segundo método, salvo o que já observei, a saber,
que estão dispostas numa única Árvore.
Antes de encerrar este capítulo, é
preciso que seja mencionada mais uma série de concepções. Do ponto de vista da
teurgia, o universo todo é consciência, vida e inteligência corporificados sob
forma visível e invisível. Através do cosmos palpita e vibra uma inteligência,
uma consciência espiritual prefigurada em miríades de centelhas ou mônadas,
permeando toda forma, e da qual nada nesse cosmos se acha, de maneira alguma,
isento. Tal como há vários graus de qualidade de vida mineral, animal e vegetal
e inumeráveis estágios de inteligência entre os homens, de acordo com as
tradições mágicas essa mesma escala hierárquica de inteligência existe além e
acima do homem. Não somente se pode dizer verdadeiramente no tocante ao nosso
próprio universo, como também se pode afirmar que alhures nas infinitudes do
espaço existem outras hierarquias de sublimes seres espirituais e inteligências
divinas. Da Escuridão ignota incompreensível, que é Ain Soph, não há senão uma consciência indivisível, semelhante no
mais baixo demônio de feições caninas bem como na mais elevada hierarquia celestial. Há hierarquias de
consciência celestiais e terrestres, algumas divinas, outras demoníacas, e
ainda outras que incluem os mais excelsos deuses e Essências universais. Esse é
o eixo da totalidade da filosofia mágica. Trata-se ao mesmo tempo de um
monoteísmo e de um politeísmo num sistema filosófico único. O universo todo é
permeado por uma Vida Una, e essa Vida em manifestação é representada por
hostes de deuses poderosos, seres divinos, espíritos ou inteligências cósmicas,
chame-se-os conforme se deseje. A condição e a diversidade espirituais
atribuíveis a eles são grandes e intensas; entre eles há aquelas forças
deíficas da aurora rosada da manifestação cósmica da qual brotamos, centelhas
espirituais arrojadas em sentido descendente a partir de sua essência divina.
Diante disso, é possível ampliar a
concepção da Árvore da Vida e dos Quatro Mundos em termos de consciência. As
primeiras manifestações são deuses ou seres da
mais excelsa consciência que, brotando da Coroa, compreendem a Mente do
Logos, ou os administradores imediatos do plano formulado. Esses seres são os deuses,
Dhyan Chohans, Elohim, Teletarchae –
seja qual for a designação escolhida, a idéia fundamental deve ser firmemente
apreendida, ou seja, que há vastas hierarquias de seres no espaço, numa escala
seqüencial ordenada de descenso dos mais excelsos deuses nos mais elevados
mundos às hierarquias menores de seres angélicos dos mundos inferiores.
Conectada a cada Sephirah e cada Mundo emanado de Ain Soph há uma certa hierarquia de
deuses, cada um deles encarregado de uma tarefa específica na evolução e
governo do universo, e detendo uma natureza característica. Tal como Kether, a
Coroa, produziu as outras Sephiroth,
assim os mais excelsos deuses desenvolvem a partir de si mesmos outras
divindades menos augustas e menos sublimes do que eles próprios. Porquanto os
números foram atribuídos às Sephiroth
a fim de simbolizar processos criativos no cosmos, e visto que os deuses são
atribuídos às Sephiroth, os deuses
podem também ser simbolizados por números e as idéias associadas a um processo
cósmico particular podem aplicar-se igualmente bem à natureza de um dado deus.
Pitágoras disse bem que “há uma conexão misteriosa entre os deuses e os
números”.
“Como é acima, é abaixo.” Todas as coisas
sobre a Terra têm seus protótipos eternos nos céus, e todos os seres são
reflexos simples, tímidos e débeis dos deuses. Quanto mais distante (metafisica
e relativamente) estiver qualquer emanação de sua fonte, mais débil e lânguida
será em relação àquilo de que procedeu. Os deuses ou Essências universais
exprimem mais clara e brilhantemente a natureza espiritual inefável de Ain, e nos eidolons* terrestres
deles, os deuses menores, tal brilho límpido se torna mais velado e pálido, e
sua expressão obstada. No homem, a sombra da imagem dos deuses, a irradiação do
esplendor de Brahma, na maioria dos casos, aparece inteiramente reprimida. Tal
como o calor é para o fogo, diminuindo mais e mais à medida que irradia sua
influência a partir da chama, é o homem para os deuses. Quanto mais se
distancia deles, mais leva a cabo um processo de autodestruição. Essa relação
entre a ordem da vida e as Sephiroth,
entre os deuses, homens e números explica a eficácia dos símbolos mágicos e dos
papéis que eles desempenham nos ritos teúrgicos. Os signos e selos são
profundamente indicativos de realidades interiores, e cada símbolo particular representa
algumas das hierarquias de deuses e inteligências espirituais. Mediante essa
doutrina de assinaturas, cada fenômeno** é indissoluvelmente conectado a um
nôumeno***, a eficácia da teurgia sendo assim assegurada.
* Do grego, imagens, retratos, espectros, fantasmas,
simulacros. (N. T.)
** Do grego, aquilo que aparece, se mostra, se
manifesta. (N. T.)
*** Do grego, aquilo que permanece oculto, velado,
imanifestado. (N. T.)
O objeto da magia é, então, o retorno do
homem aos deuses, o unir da consciência individual durante a vida com o ser
maior das Essências universais, a mais abrangente consciência dos deuses que
são as fontes perenes de luz, vida e amor. Somente assim, para o ser humano, é
possível haver liberdade e iluminação, e o poder de ver a beleza e a majestade
da vida tal como ela realmente é. Mediante o retorno em espírito às fontes das
quais proveio, apenas reabrindo a si mesmo a elas como uma flor dourada se abre
e se volta ao sol para absorver ansiosa e avidamente seu sustento e luz, pode o
homem atingir a iluminação e a suspensão das amarras e grilhões terrestres.
Pela descoberta de seu próprio deus interior em primeiro lugar e formando uma
relação indissolúvel com os deuses da vida universal, será encontrada a solução
dos problemas do homem e do mundo. Por meio dessa consciência mais nobre de
iluminação transmitida pela união divina é possível desenredar os emaranhados
do caos mundial. É possível assim romper as amarras que prendem o homem com uma
força superior a todas as cadeias e grilhões mortais. Nenhum rompimento desses
ferros é possível a não ser por meio do conhecimento mágico do próprio eu
interior e dos deuses de toda existência.
“Se a essência e a perfeição de todo bem
estão compreendidas nos deuses, e o
primeiro e antigo poder deles é detido por nós, sacerdotes (teurgos), e se por
meio daqueles que similarmente se prendem a naturezas mais excelentes e
genuinamente obtêm uma união com elas, o início e o fim de todo bem é seriamente ameaçado – se esse for
o caso – é aqui que a contemplação da verdade e a posse da ciência intelectual
devem ser descobertas. E um conhecimento dos deuses é acompanhado do...
conhecimento de nós mesmos.” *
* Mistérios Egípcios, Jâmblico.
CAPÍTULO
IV
“Existe um agente que é natural e divino,
material e espiritual, um mediador plástico universal, um receptáculo comum das
vibrações cinéticas e das imagens das formas, um fluido e uma força, que podem
ser chamados de certo modo de Imaginação da Natureza... A existência dessa
força é o grande arcano da magia prática.”
O agente mágico ao qual Lévi se refere
aqui é a substância do mundo formativo ou, mais particularmente, a esfera de
Yesod – uma palavra hebraica que pode ser traduzida como o Fundamento ou a
Base. O direto equivalente da Yesod qabalística
na filosofia teosófica tal como enunciado por Madame Blavatsky – e nesse
ensejo seguirei o extenso esboço delineado em seu sistema e aquele formulado em
Dogma e ritual de Alta Magia, de Lévi
– é conhecido como luz astral. Definido
em alguns lugares como um fluido ou meio onipresente que tudo permeia,
constituído por matéria extremamente sutil, essa luz está difundida pelo espaço, interpenetrando e penetrando todo
objeto ou forma visíveis. Se quisermos estabelecer tal idéia diferentemente,
trata-se de um plano quadridimensional composto de uma substância etérea
luminosa num estado sumamente tênue, substância em sua natureza elétrica,
magnética e radioativa.
“Esse fluido ambiente e que tudo penetra,
esse raio destacado do esplendor do sol e fixado pelo peso da atmosfera e pelo
poder de atração central, esse corpo do Espírito Santo, que chamamos de luz astral e agente universal, esse éter eletromagnético, esse calórico vital e
luminoso é representado nos antigos monumentos pelo cinto de Ísis que se enlaça
num nó cego ao redor de duas varas, pela serpente de cabeça taurina, pela
serpente de cabeça de bode ou de cão, nas antigas teogonias pela serpente que
devora a própria cauda, emblema da prudência e de Saturno. É o dragão alado de
Medéia, a serpente dupla do caduceu e o tentador do Gênese; mas é também a
cobra brônzea de Moisés que circunda o tao,
isto é, o lingam gerador; é a hyle dos gnósticos e a cauda dupla que
forma as pernas do galo solar de Abraxos.”
É nesses termos simbólicos, eloqüentes e
singularmente expressivos à sua maneira, embora com ressaibo de verbosidade
para o leitor final, que o mago francês descreve a luz astral. Trata-se de
símbolos sumamente interessantes e significativos, e se bastante cuidado e
atenção forem dispensados em sua interpretação, proporcionarão considerável
instrução e poderão servir para revelar muitas informações valiosas, auxiliando
na compreensão intelectual, ao menos, da natureza e das características desse
plano sutil. Vibrando a um índice cinético diferente da substância grosseira do
mundo físico, e existindo assim num plano superior, a luz astral contém o
planejamento ou modelo do construtor, por assim dizer, projetado em sentido
descendente pela ideação ou imaginação do Pai; o planejamento com base no qual
o mundo exterior é construído, e dentro de cuja essência jaz latente o
potencial de todo crescimento e desenvolvimento. Todas as forças e “idéias” dos
domínios criativo e arquetípico são representadas e focalizadas nesse agente
plástico, o mundo formativo. Ele é de imediato substância e deslocamento, sendo
o movimento “simultâneo e perpétuo em linhas espirais de deslocamento em
contrário”. Foi o falecido Lorde Salisbury, posso aqui intercalar, que definiu
o éter como o nominativo do verbo “ondular”.
Em muitos pontos, esse mundo formativo, o
recipiente das forças criativas superiores, é comparável em seus aspectos mais
inferiores ao éter da ciência. Há, contudo, uma ressalva. A luz astral foi no passado e poderá no
futuro ser verificada pela experiência direta visionária. A concepção
científica do éter hoje difere radicalmente daquilo que o cientista de meio
século atrás entendia por éter luminífero. Tanto assim que avaliado por seus
padrões e empregando sua linguagem, a moderna idéia de éter e suas ondas de irradiação
não são realidades em absoluto. E a despeito disso, o que é suficientemente
estranho, observa Sir James Jeans em Os
mistérios do Universo, o éter é uma das coisas mais reais “de que temos
qualquer conhecimento ou experiência, sendo, portanto, tão real quanto qualquer
coisa possivelmente possa ser para nós”. A entidade que os físicos
experimentais hoje definiriam como éter teria que ser algo que reagisse
qualitativa e quantitativamente aos instrumentos e equações matemáticas deles.
Por outro lado, quando os teurgos se referem à substância magnética e elétrica
da luz astral, uma condição ou estado metafísico da substância está implícito –
uma condição ou estado que atualmente não pode ser mensurado ou observado com
instrumentos físicos, embora sua existência seja corroborada nos mesmos
termos por uma série de videntes
treinados e magos. Reside, como já afirmamos, num plano existencial e
consciencial completamente diferente, e suas partículas vibram de uma tal maneira
e a uma tal taxa de movimento que são inteiramente invisíveis e imperceptíveis
aos nossos sentidos comuns exteriores.
Recentemente assistiu-se no domínio da
especulação científica ao desenvolvimento da teoria eletromagnética que, por
motivos de ordem prática da física, descarta como desnecessária a hipótese
vitoriana de um éter luminífero ondulante que tudo penetra. No seu lugar, foi
instalada como se num trono majestoso, coroada e venerada com devoção, uma
concepção matemática ainda mais abstrata: o múltiplo ou contínuo espaço-tempo.
Um grupo de cientistas é inteiramente a favor da manutenção da hipótese do
éter, enquanto muitos outros, não menos famosos e de menor autoridade, estão
igualmente convictos de que uma tal estrutura sutil como o éter inexiste e nem
sequer é possível. Admitem-na apenas como uma estrutura teórica de referência,
caso em que assume o papel de uma hipótese de trabalho destituída de qualquer
grau de realidade objetiva. Um exame das definições científicas desses dois
grupos de cientistas, entretanto, revela o fato de que pelas expressões éter e contínuo espaço-tempo quadridimensional indicam um único e mesmo
conceito. Sir Arthur Eddington, em
uma de suas recentes obras, ao fazer referência a esses dois conceitos
científicos, expressou a opinião de que ambos os partidos querem dizer
exatamente a mesma coisa, sua cisão estando somente nas palavras. Sir James Jeans, em sua obra
anteriormente mencionada, observa cautelosamente com relação a essa obscura
questão que parece apropriado descartar a palavra “éter” a favor dos termos
mais modernos “múltiplo” ou “contínuo”,
apesar de o princípio essencial permanecer quase totalmente inalterado. Em
outra parte, nessa mesma obra de erudição, o sábio cientista assevera que todos
os fenômenos do eletromagnetismo podem ser considerados como ocorrentes num contínuo de quatro dimensões – três
espaciais unidas a uma temporal – no qual é impossível separar o espaço do tempo de qualquer maneira
absoluta. Chamo atenção particularmente para essa observação porque se enquadra
aproximadamente na natureza de uma exata confirmação daquilo que os mais
eminentes magos de todos os tempos escreveram relativamente a Anima
Mundi ou o Azoth. É possível
indicar bem grosso modo as demais observações de Jeans dizendo que se
desejarmos visualizar a propagação de ondas luminosas e forças eletromagnéticas
tomando-as como distúrbios num éter,
nosso éter poderá ser considerado uma estrutura quadridimensional que preenche
todo o contínuo, estendendo-se assim
por todo o espaço e todo o tempo, caso em que todos nós desfrutamos do mesmo
éter.
Esse éter da ciência que todos podem
desfrutar e que se estende ao longo do espaço e do tempo, servindo como o meio
das vibrações de todos os tipos, difere em poucos pontos essenciais da luz
astral de Lévi. A definição em que insistem constantemente os teurgos
relativamente a esse plano etéreo é que se trata de um estágio de substância
plástica refinada, menos densa e grosseira que aquela que vemos normalmente em
torno de nós, de natureza magnética e elétrica, servindo como o fundamento real
sobre o qual as formas e acúmulo de átomos do universo físico se ordenam a si
mesmos. É o plano que, em seu aspecto mais inferior, constitui a verdadeira
cloaca do universo, compreendendo aquela faceta da consciência que dirige os
instintos e as energias dos animais; em suas ramificações superiores,
elevando-se além dessa esfera mundana, realmente faz fronteira com o divino.
Que assim é pode-se compreender por meio da referência à Árvore da Vida, na
qual vê-se que o Mundo Formativo não inclui apenas a esfera de Yesod, mas
naquela classificação da Árvore em Quatro Mundos, ela se estende bem além de
Yesod, de modo a incluir Tiphareth, a casa da Alma, mesmo até a beira do
Abismo. A esfera do Fundamento é somente sua fase mais inferior. Como Yesod apenas,
é aquela região grosseira do cosmos metafísico que contém os restos astrais
rejeitados das criaturas vivas, a sujeira bestial e mental descartada pelos
seres humanos na sua ascensão após a morte a esferas mais
elevadas. Nos seus aspectos de Chesed e Geburah, é a mais pura expressão do
céu, por assim dizer, a morada devachânica.
Relativamente a essa maneira de considerá-lo, é ocasionalmente chamado de
divino Astral, e de Alma do Mundo.
“É em si mesmo uma força cega, mas pode
ser dirigida pelos líderes das almas, os
quais são espíritos da ação e da energia. É de imediato a teoria por inteiro
dos prodígios e milagres. Como, de fato, poderiam tanto o bem quanto o mal
constranger a natureza a expor suas forças excepcionais? Como poderia o
espírito réprobo, desviado, perverso deter em alguns casos maior poder que o
espírito da justiça, tão poderoso em sua
simplicidade e sabedoria, se não supormos a existência de um instrumento do
qual todos podem fazer uso, sob certas condições, de um lado para o maior dos
bens, do outro para o maior dos males?” Quero insistir enfaticamente com
relação a esta dupla interpretação do éter mágico que Lévi aqui apresenta, que
nele estão incluídos um elemento inferior vil e um elemento superior nobre. O
primeiro é a base da causa feita por si mesma de muitos dos males da espécie
humana, o segundo é o fogo central e a
Alma do Mundo. O divino Astral é solar e celestial por natureza,
enquanto que o grosseiro Astral é lunar, reflexivo e puramente automático.
Blavatsky confirma essa hipótese da
natureza dupla da luz astral nos seguintes termos: “A luz astral ou Anima
Mundi é dupla ou bissexual. Sua parte masculina (ideal) é puramente divina
e espiritual, é a sabedoria, é Espírito ou Purusha;
sua porção feminina é maculada num certo sentido pela matéria, é efetivamente matéria, e portanto é já
o mal*.” Desnecessário afirmar que o teurgo diz respeito inteiramente às mais
elevadas regiões da luz astral, os fogos solares.
* A
doutrina secreta, v. I.
Do ponto de vista prático, esse plano é o
agente mágico ao qual a visão treinada e
acumulada dos teurgos atribuiu o poder de transmitir vibrações e impressões não
somente de luz, calor e som físicos, mas também aquelas vibrações mais sutis e
menos tangíveis, que não são, todavia,
menos reais por sua imperceptibilidade, que pertencem a correntes
projetadas de Vontade, pensamento e sentimento. Lévi chama esse instrumento de imaginação da natureza, porquanto está
sempre vivo de ricas formas, sonhos exóticos, imagens luxuriantes, o veículo
imediato das faculdades mentais e emocionais. O controle desse plano constitui
de um certo ponto de vista a Grande Obra. Alguns magos, inclusive o ilustre
Lévi, opinavam que o segredo mágico central é o da orientação sob vontade desse
arcano. Sendo o veículo em que são registradas dinamicamente as paixões e
impressões mentais de toda a espécie humana, a memória da natureza inferior, e
estando presente na Terra todo o tempo, visto que tudo penetra e é um plano
destacado do físico, seu conteúdo deve influenciar muito as mentes de homens
débeis e sensíveis. E não apenas esses últimos, como a maioria das crianças da
Terra é influenciada de alguma maneira pelas correntes que ondulam por sua
substância. Por conseguinte, postar-se isolado em relação às suas cegas ondulações e transcendê-lo
cabalmente a ponto de se mover naquele
estrato mais elevado que é sua alma não constitui realização desprezível, mas
sim digna de todas as energias humanas.
Uma moderna autoridade em magia, aquela
cujo pseudônimo é Therion, declara que nos estratos superiores da luz astral “dois ou mais objetos podem ocupar o mesmo
espaço ao mesmo tempo sem interferência entre si ou perda de seus contornos.
Nessa luz, os objetos podem alterar sua aparência completamente sem sofrer
transformação de sua natureza. A mesma coisa
pode revelar a si mesma num
número infinito de aspectos distintos. Nessa luz é-se célere sem pés e voa-se sem asas;
pode-se viajar sem se mover e se comunicar sem as formas convencionais de
expressão*.” No que diz respeito ao processo de viajar no corpo
de luz, a autoridade que citei acima acrescenta que ali somos insensíveis
ao calor, ao frio, à dor e a outras formas de percepção sensorial, que
nessa luz estamos presos pelo que superficialmente pode parecer uma série
inteiramente diferente de leis. Nesse plano, que é o agente mágico par excellence, símbolos, emblemas e
selos não são convenções intelectuais e nem mesmo representações arbitrárias de
idéias universais e forças naturais; são entidades vivas absolutas, possuindo
nesse plano vida e existência reais e independentes que lhes são próprias. À
primeira vista, isso pode não parecer importante, mas tal afirmação é realmente
de máxima importância no trabalho mágico. Os símbolos representam no plano
astral entidades reais e tangíveis. No capítulo anterior nos esforçamos para
demonstrar que os números indicavam
com profundidade os processos de evolução e de desenvolvimento e expressavam
sinteticamente tanto o ritmo cósmico quanto certas forças e inteligências
ocultas a que damos os nomes de deuses, Dhyan
Chohans e Essências. A esses números que representam forças imensamente
poderosas são aplicáveis vários selos e pictogramas, os quais possuem nesse
Mundo Formativo uma existência que não é em absoluto simbólica no sentido no
qual entendemos normalmente esse termo, mas real, vital e viva. Na substância
plástica e maleável da luz astral esses símbolos podem ser galvanizados à
atividade por uma vontade e uma
imaginação treinadas. Essa substância é peculiarmente suscetível aos
vôos e às obras da imaginação, esta última possuindo o poder de
transformar seu fluxo perpétuo e deformidade em moldes e matrizes que a vontade
é capaz de estabilizar e energizar poderosamente numa dada direção. Entre
numerosos exemplos está registrado aquele de uma mulher grávida que, tendo
experimentado um choque nervoso, a impressão foi imediatamente transferida
através do meio da imaginação atuante sobre a luz astral ao feto em formação
gerado em seu útero. Historicamente, as deusas que presidiam entre os antigos
ao nascimento eram deusas da lua e, conseqüentemente, da luz astral.
Considera-se entre essas raças que a lua
possui maior poder para acelerar o desenvolvimento da vida, das plantas e de toda a vegetação que o próprio
sol. Sempre foi tida como o astro da mudança, da geração e da fertilidade. Em A
doutrina secreta há muita informação e especulação incomuns a respeito da
relação oculta entre a lua e o nosso planeta, embora o mero saber que essa
relação realmente exista seja suficiente para finalidades práticas por parte do noviço. A conexão da lua com a luz
astral é, entretanto, inteiramente válida, a maioria das autoridades nesse
ponto estando de pleno acordo. Astrologicamente, a lua é o planeta que
simboliza mudança e fluxo, e as contínuas alterações das formas, a troca das
condições. No plano astral, a visão treinada registrou que ali as configurações
mudam de forma, cor e tamanho da maneira mais extraordinária; e para o noviço
em Skrying constitui um fenômeno sumamente desconcertante
e enigmático ver um conjunto de percepções desvanecer-se sob seu próprio nariz
para ser substituído por um outro grupo de cenas que terá muito brevemente o mesmo destino. Trata-se de
um caleidoscópio oscilante de fenômenos, sendo que as figuras, formas e
energias nunca estão imóveis. Por conseguinte, estabelecer uma relação entre a
lua e a luz astral é uma correspondência perfeitamente óbvia. Ademais, foi
observado que a lua não brilha graças à sua própria luz interna e autogerada,
mas sim por refletir os raios do sol. Yesod, a esfera da lua na
Árvore da Vida, está colocada imediatamente abaixo de Tiphareth, a
esfera do sol, refletindo assim as forças criativas de cima para baixo. Há
muitas outras razões altamente significativas, demasiado numerosas para aqui
serem citadas, a favor dessa associação da lua com a luz astral, conquanto o
estudo e o experiência mágica provam a validade e precisão da correspondência.
* Magick,
Mestre Therion.
Nas
lendas de todos os povos, mesmo dos das mais primitivas tribos selvagens, está
presente a concepção da luz astral como meio das vibrações do pensamento e dos
atos mágicos. Sir J. G. Frazer, o
eminente antropólogo e autoridade em
folclore, registra muitas delas em sua A rama dourada. Muitos outros autores também discutiram a natureza
dessa força hipotética reconhecida pelos primitivos, sem ter se aproximado de
qualquer clara formulação de sua natureza como o grande agente mágico, o que
dificilmente se poderia esperar, visto que seus estudos e pesquisas jamais
deixam, por um único momento, o plano acadêmico. Os melanésios das ilhas do mar do sul acreditam, segundo afirmação do
professor Bronislaw Malinowsky em seu pequeno livro sobre mitos, num depósito ou reservatório de força sobrenatural ou mágica
a que deram o nome de mana, o qual,
como uma força similar concebida como Orenda pelos índios norte-americanos,
crê-se ter seu centro na lua. Essa última parece, por assim dizer, encerrar um tanque gigantesco desse poder
oculto que pareceria por eles ser associado com a fonte da vida e da energia. Não é difícil perceber que essa
concepção – imperfeitamente registrada pelos antropólogos, ou imprecisamente
descrita pelos primitivos, é difícil dizer, sendo provável que a falha exista dos
dois lados – seja uma formulação muito vaga daquela realidade que em magia
chamamos de luz astral.
Foi, contudo, com absoluta clareza
reconhecida pelos teurgos egípcios,
sendo que em relação a isso não há o transtorno de teorias ou descrições vagas,
pois observamos que quase cada jarda dos chamados mundos superior e inferior, Amentet
e Tuat, que são os dois aspectos,
inferior e superior do plano astral, é cuidadosamente mapeada e suas qualidades
observadas. E como se não o bastasse, em alguns dos capítulos de O livro dos mortos, cada subdivisão é
descrita com precisão em benefício dos mortos – e, conseqüentemente, em
beneficio do teurgo – acrescendo-se os nomes dos guardiões e vigias dos pilões
através dos quais a alma defunta tinha que passar a fim de obter o
ingresso em alguns outros salões do reino
de Osíris. Repetindo a visão egípcia, Budge menciona que o Tuat não era considerado o subterrâneo seja do céu,
seja de seus limites; mas estava localizado nas fronteiras do mundo visível;
que não se tratava da um lugar particularmente feliz, percebe-se pela descrição
de O livro dos mortos, quando o
escriba Ani ali chegou, aparentemente desnorteado, “Não há água ou ar aqui, sua
profundidade é insondável, é tão escuro quanto a mais escura das noites e os
homens vagueiam sem esperança”. Uma observação final do venerável protetor
das Antigüidades egípcias do Museu Britânico é que o Tuat era uma região de
destruição e morte, um lugar onde os mortos apodreciam e se deterioravam, um
lugar de abominação e horror, terror e aniquilamento; que isto coincide
perfeitamente com as esferas astrais inferiores de desintegração ou kama
loka pode-se tomar por certo.
O divino
astral era conhecido como o reino de
Osíris ou Amentet; também chamado
de ilha da verdade onde nenhuma alma
podia ser conduzida após sua morte até que fosse declarada “de palavra
verdadeira” pelos deuses na Grande
Avaliação. Um canto dessa região era especialmente reservado como morada
das almas beatificadas, onde Osíris, na qualidade de deus da verdade, era a esperança e consolo eterno daqueles de
disposição espiritual. Teosoficamente, Amentet poderia ser denominado Devachan, a morada dos deuses, e de um
ponto de vista teúrgico ocuparia aquela parte do Azoth à qual demos o nome de divino
astral. De acordo com O livro dos
mortos há sete grandes salões e
vinte e um pilões que dão acesso a
essa região celestial, havendo para cada um dos vinte e um pilões dois vigias
ou guardiões sagrados. Numa outra parte desse Livro são dados com certo detalhe
os nomes dos arautos e guardiões de portas mais as fórmulas de magia prática
mediante a qual eles podem ser sobrepujados o ingresso à ilha da verdade realizado. Tão precisos eram os magos egípcios em
seu pensamento que imaginavam correspondências entre as várias divisões do
Egito e os domínios metafísicos do Tuat e
Amentet. Cada uma das várias camadas
ou regiões do mundo astral, tanto grosseira quanto divina, era mapeada com uma
precisão que mesmo hoje não encontra com que rivalizar ou se igualar.
Há um outra analogia bastante
significativa para a qual devemos dirigir nossa atenção. Entre psicanalistas
oficiais encontramos o conceito de inconsciente.
Esse termo implica uma corrente dinâmica de pensamento, memória e tendência
que flui abaixo do nível de nossa consciência normal individual, servindo como
o receptáculo de instintos e memórias raciais e aqueles complexos que são com
freqüência o resultado de conflito consciente. Como essa coleção de instintos e
impulsos automáticos possui uma origem na evolução muito anterior à formação e
desenvolvimento do intelecto no homem, é, conseqüentemente, mais poderosa e
urgente dentro dele. É dessas camadas de hábito e consciência racial herdada
que se supõe que os primitivos tenham extraído a elaboração de seus eloqüentes
mitos e lendas. Esses são, assim, não somente um registro de história
pré-histórica da raça, mas também uma expressão dinâmica daquilo que esses
psicólogos chamariam de inconsciente
coletivo, visto que com respeito a toda raça e povo primitivos,
independentemente de ter havido ou não relação e comunicação sociais, mitos e
lendas são essencialmente idênticos. Considerando-se que aquilo que os
analistas chamam de inconsciente é
praticamente sinônimo num certo aspecto do que os cabalistas denominam Nephesch, e considerando-se que este
último se funda na luz astral do mesmo modo que o corpo físico se funda e se
forma a partir da matéria grosseira, há entre a luz astral e o conceito de inconsciente coletivo uma clara
correspondência. Tal como o inconsciente no
caso de alguns indivíduos é uma entidade vulcânica subterrânea que despedaça a
integridade e unidade da consciência, do mesmo modo a tradição mágica assevera
que é ao aspecto inferior da luz astral, o depósito de memórias raciais,
apetites predatórios, instintos e todos os impulsos animais, que uma grande
parte da espécie humana deve seus problemas, enfermidades e lamentáveis fontes
de conflito. É sobre essa parte de Nephesch
ou do inconsciente que o mago,
afirma Lévi, tem que assentar seu pé, de maneira que seja conquistada,
controlada e mantida em seu lugar adequado. Ao mesmo tempo, entretanto, o
chamado inconsciente com sua riqueza
de material animado, sua fertilidade de idéias e sugestões impressivas pode ser
para algumas pessoas a fonte de inspiração poética e artística. Esse aspecto do
inconsciente, o aspecto mais elevado
ou divino da luz astral, ou Neschamah no homem, é o que o mago busca
cultivar e expandir, visto que graças ao seu crescimento, desenvolvimento e
facilidade de expressão ele opera também sua própria integridade individual e a
habilidade de superar a si mesmo.
No interior dessa luz astral que
individualmente trazemos conosco em todas as ocasiões e em todos os lugares,
vivemos, nos movemos e somos. Cada pensamento que temos grava uma impressão
indelével na substância impressionável
daquele plano – na verdade a tradição sustenta que ele se funde com alguma das
criaturas daquele plano e então é transferido de nosso controle imediato para
esse oceano pulsante de vitalidade e sentimento para influenciar outras mentes
no bem ou no mal. Toda coisa viva respira e absorve essa luz livremente, não sendo exclusividade ou
particularidade de nenhuma. De fato nela vivemos muito semelhantemente a um
peixe na água, circundados por todos os lados e em toda direção; e como um
peixe nós constantemente a aspiramos e expiramos através de guelras astrais,
por assim dizer, dela extraindo energia e para ela acrescentando uma variedade
de impressões a cada momento. Não só é este agente mágico a imaginação da natureza, como também
desempenha o papel de memória da natureza,
pois cada ato que realizamos, cada pensamento que atravessa nosso cérebro, cada
emoção ao deixar nosso coração registram a si mesmos na matéria astral,
permanecendo aí por todo o tempo como um registro eterno, de modo que aqueles
que são capazes possam ver e ler. Quanto a isso, Éliphas Lévi observou de
maneira significativa que “O Livro das Consciências, o qual, de
acordo com a doutrina cristã será aberto no dia
derradeiro, nada mais é do que a luz astral na qual estão preservadas as
impressões de todo Logos, que é toda ação e toda forma. Não
há atos solitários e não há atos secretos; tudo o que nós verdadeiramente
queremos, ou seja, tudo o que confirmamos por nossas ações, está escrito
na luz
astral”.
Embora alguns possam pensar que para o
teurgo dificilmente possa haver algo mais interessante e esclarecedor do que
examinar a memória dessa luz, não é esta a ação do teurgo, pois
isso nem o interessa nem lhe é útil na prática. Como seu objetivo é a aquisição
de autoconhecimento e a união divina, seria uma certa perda de tempo precioso
envolver-se na transliteração desse registro. A despeito de ser necessário ao
mago investigar a natureza dessa luz em seu corpo
de luz e familiarizar-se com os aspectos variados de consciência que esse
plano continuamente apresenta, no que diz respeito ao seu próprio trabalho, ele
sempre procura ascender aos domínios espirituais mais ígneos. Seu interesse na luz
astral, sendo esta um plano magnético dinâmico, é no sentido da mesma lhe
servir mais pronta e adequadamente do que qualquer outra coisa para focalizar
as forças e inteligências com as quais ele aspira entrar em contato. Em segundo
lugar, porque nessa luz ou em suas camadas superiores ele pode
perceber a si mesmo em reflexo, como os outros o vêem, por assim dizer, e assim
obter dados confiáveis que o conduzam ao autoconhecimento.
Separando o bem do mal, o éter solar
divino do éter lunar maléfico, ocorre automaticamente uma divisão nessa luz.
Nesse plano parece que os pensamentos impuros dos homens perduram por um
período mais longo que os bons pensamentos, porque esses aparentemente sobem às
camadas mais elevadas, às regiões de harmonia
e às partes superiores do mundo
da formação. O resultado é que a luz
astral, cujo espaço lunar é povoado pelos elementos mais grosseiros e
maliciosos do ser, torna-se gradualmente cada vez mais contaminada, sua sujeira
pairando sobre a espécie humana como uma mortalha tóxica mortífera. Nos livros
da Cabala, os constituintes dessa mortalha venenosa são comparados aos Qliphoth ou cascões excrementais dos
estágios mais baixos de existência. São os córtices adversos, “demônios de
rosto canino” de acordo com os oráculos caldeus “nos quais não há traço
de virtude, jamais mostrando aos mortais qualquer sinal de verdade”. É esse
aspecto da luz astral que é para cada ser humano a serpente sedutora do mal do
Gênese, e é aquele aspecto cego que tem que ser transcendido pelo teurgo, visto
que sendo representado em sua própria constituição é o que obsta a execução da
Grande Obra. Se esse processo de preenchimento do plano astral com os Qliphoth continuasse indefinidamente, sem
qualquer meio adequado de eliminá-lo e proceder a uma purificação, resultaria
no envenenamento total da espécie humana por suas próprias emanações vis. A
despeito de todos os esforços do modesto grupo de místicos e teurgos ao longo
das eras, que transmutam através de suas próprias vidas e realizações
espirituais os elementos baixos em bem
duradouro e afável, o mal se torna mais pesado em cima do que embaixo, por
assim dizer. A excessiva força maléfica é então precipitada de acordo com as
leis naturais e cíclicas. Essas precipitações de impureza astral ocorrem
realmente sob as formas de convulsões desastrosas da natureza. Terremotos, incêndios e enchentes
elementais, e crimes e doenças cataclísmicas são algumas de suas manifestações.
Escrevendo profundamente para confirmação desse parecer, Éliphas Lévi declara a
convicção de que a luz astral é “a força misteriosa cujo equilíbrio é a vida
social, progresso, civilização e cujo
distúrbio é a anarquia, revolução, barbárie, de cujo caos um novo equilíbrio
finalmente se desenvolve, o cosmos de
uma nova ordem, quando uma outra pomba paira sobre as águas enegrecidas e
turvas. Essa é a força pela qual o mundo é transtornado, as estações são
mudadas, pela qual a noite da miséria e desgoverno pode ser transfigurada no
dia do Cristo... na era de uma nova civilização, quando as estrelas da manhã
cantam em conjunto e todos os filhos de Deus proferem um brado de alegria”.
Assim, ao mesmo tempo, a luz astral é um
nimbo de máxima santidade e uma serpente vil de destruição, a mais excelsa
concepção de um domínio celestial bem como do mais abjeto inferno de
depravação. Se é através dos canais da luz astral que são executadas as
calamidades universais, e se a anarquia e as catástrofes são o produto de seu
desequilíbrio e perturbação, segue-se que através desse meio, também, pode uma
ordem nova e aprimorada de equilíbrio e harmonia ser instituída sobre a Terra
mesmo em nosso próprio tempo. Uma civilização mais amável pode, assim, ser o
resultado da presente passagem a esmo pelo caos e a confusão ignóbil. Eis aqui,
então, uma chave à nossa disposição.
Alguns têm acusado o teurgo de ser
egoísta no sentido de parecer primeiro empenhar-se a favor de sua própria
salvação. Na realidade, seu juramento diz respeito a essa grande realização,
essa transfiguração do mundo de desgoverno num aeon mais claro; ele jurou
ser o arauto invisível e silente de um mundo novo e melhor. Superficialmente
pode parecer que ele tenta lograr um grau de consciência espiritual para si
mesmo apenas, e que não se importa em absoluto com o bem-estar da humanidade.
Mas seus esforços para alcançar a divindade finalmente redundam no sumo
proveito do caminhar normal da espécie humana. “Eu ...”, disse um sábio, “...se
for erguido, erguerei toda a humanidade comigo.” Assim é com o teurgo. Proclo
observou que por meio das invocações mágicas e a união espiritual, as essências
divinas parecem de algum modo descer ao mundo e encarnar entre as fileiras dos
homens. Quando o teurgo consumou a união com a Alma Universal e se tornou uno com as grandes essências que constituem a alma e inteligência diretora de Adão
Kadmon, o homem celestial, está no
domínio de seu poder prestar realmente
um serviço incomparável à espécie humana, pois esta terá sido sumamente
exaltada pela descida dos deuses. Será, então, uma decisiva possibilidade
executar as necessárias mudanças na substância plástica e arquétipos do mundo da
formação, que atuarão eles mesmos conseqüentemente no plano físico e
ajudarão a elevar as mentes dos homens e restaurar a harmonia e ordem eternas
das esferas, fontes da vida e do ser. Mas enquanto o mago não tiver ele próprio instituído harmonia no âmbito de
sua própria consciência, seu poder será limitado. Enquanto a beleza e a
iluminação não constituírem a ordem de sua própria vida e enquanto ele não
tiver equilibrado aquela esfera com as Essências Universais, os centros perenes
da luz e da vida que sustentam o universo em todas
as suas ramificações, não será capaz de
concretizar de maneira cabal esse sonho utópico da humanidade.
CAPÍTULO V
Em relação à complexa controvérsia
filosófica de séculos relativa à subjetividade ou objetividade dos fenômenos, há alguns
problemas sumamente abstrusos a serem resolvidos por cada teurgo. Cada um
desses problemas clama imperiosamente por resposta. A Cabala deixa toda a
questão aberta para ser respondida eventualmente sob a luz da experiência
espiritual. Esse grande problema não é passível de ser descurado, embora a
prática mágica não precise necessariamente ser afetada por uma opinião
sustentada preferivelmente a uma outra. Muitos teurgos preferiram o óbvio ponto
de vista direto isento de todas as complexidades da metafísica. Considera todas
as coisas individuais, os deuses e todas as forças da natureza como existindo
independentemente entre si e exteriores
à consciência individual; que o teurgo não passa de uma porção infinitesimal da
grandeza majestosa da universalidade. Essa teoria pressupõe que as hierarquias
espirituais existem da maneira mais objetiva concebível. Em algum lugar do
universo em algum plano sutil invisível
há uma inteligência chamada Taphthartharath, por exemplo, que é um
ser tão real em seu próprio modo como o alfaiate de alguém o é no seu, e que
como o alfaiate ele responde quando convocado através dos métodos apropriados. Taphthartharath é assim tão independente
dos sentidos e consciência do mago quanto este é independente dos sentidos de
uma mosca doméstica ordinária. Ambos
existem objetivamente cada um em seu próprio plano à sua própria maneira. As
mesmas observações se aplicam aos vários planos sutis da natureza com os quais
o mago entra em contato. Embora sejam invisíveis e compostos de uma substância
sutilíssima e rarefeita, ainda assim, do mesmo modo, são objetivos para sua
própria mente. Assim, o progresso na teurgia implica uma união real entre a
consciência menor do mago e a consciência maior do deus. O primeiro é
assimilado à própria estrutura e natureza do segundo.
Um dos postulados fundamentais da magia é
que o homem é uma imagem exata em miniatura do universo, ambos considerados
objetivamente, e que aquilo que o homem percebe como existente externamente
está também, de alguma maneira, representado internamente. Uma interpretação
dessa idéia fornecida por Blavatsky – e, na verdade, por todos os filósofos
ocultistas, inclusive Steiner e Heindl – é que o homem foi formado pela ação de
diversas hierarquias criadoras, sendo que cada uma delas não apenas contribuiu
com alguma parte de si mesma, como também efetivamente desceu à Terra e se
encarnou em natureza humana. Evidências semelhantes existem no Livro dos
Mortos, demonstrando que entre os egípcios não havia nenhuma parte do homem que
não estivesse relacionada com as essências
universais; que cada membro e parte
de sua natureza era, na verdade, o membro de algum deus. Com base nessa teoria,
os deuses e as essências universais
passam a ser apreendidos no domínio da constituição interior do homem,
prestando-se à interpretação de que a arte teúrgica não envolve a convocação de
entidades exteriores, que é o caso da teoria da objetividade, mas sim a
revelação das faculdades inerentes ao próprio ser humano. Desse ponto de vista,
a experiência mística não se refere primariamente a qualquer assunto externo.
Formulando esse elemento de um modo um pouco mais preciso, a transformação
espiritual da união é fundamentalmente um reajuste de elementos psíquicos entre
si, o que capacita a máquina inteira a funcionar harmoniosamente. Não há
necessariamente introdução através dos canais do ritual mágico de novas idéias,
ou deuses. Graças a esse meio ocorre uma expulsão de idéias decadentes que
obstruíram o processo vital com conseqüências desastrosas. A organização
psíquica ou alma não estivera em harmonia consigo mesma, e através dos
mecanismos da magia ela agora gira verdadeiramente em torno de seu próprio
eixo, e ao fazê-lo encontra simultaneamente sua verdadeira órbita no sistema
cósmico. Tornando-se una consigo mesma, efetuando este reajuste dinâmico, esta
retomada da integridade de sua consciência, ela se torna una com o universo, ou
com alguma porção do universo. O processo é análogo ao que acontece no plano
físico com uma pessoa cuja mandíbula, por exemplo, é deslocada. O infeliz com
uma mandíbula deslocada não está apenas em desarmonia consigo mesmo, como
também com o universo; nem seus próprios esforços nem aqueles de seus amigos
podem ajudá-lo. Mas então surge um cirurgião que, aplicando uma ligeira pressão,
coloca a mandíbula no lugar; aquele homem é devolvido à harrmonia e – é claro –
o universo é estaticamente transformado. Assim, a “união com um deus” e o
êxtase que daí advém são o resultado de harmonizar ou equilibrar por meio da
magia as várias até então conflitantes ou separadas porções da consciência. Nada novo foi
acrescentado à mente ou invadiu a esfera da consciência a partir do exterior
para que um homem devesse estar tão iluminado e capacitado a perceber com fino
arrebatamento a beleza da natureza e a glória esplêndida no coração de todas as
coisas. Certos centros de sua mente ou idéias poderosas, até aqui latentes no
interior dos departamentos de seu próprio ser, foram estimulados a tal ponto
que uma síntese mais elevada e um mundo melhor são revelados.
Visto que é sua própria consciência que o
mago deseja influenciar, expandir e elevar-lhe os limites, é preciso apresentar
uma breve exposição dos métodos pelos quais os teurgos concebem essa consciência. Previamente, a Árvore da Vida
foi considerada como um símbolo numérico da progressão ordenada do universo a
partir da idealidade; como um meio de classificação para referência sistemática
das hierarquias espirituais; e, em terceiro lugar, como a estrutura de
referência para idéias, símbolos e signos que estão presentes na magia prática.
As Sephiroth podem ser pensadas como
forças cósmicas, como emanações cuja esfera principal de operação se acha no
macrocosmo. Por analogia e já que o ser humano é, por definição, o microcosmo,
princípios similares têm preponderância na economia humana. As hierarquias de
deuses, sendo cósmicas em suas atividades, são também, das mais grandiosas às
mais modestas, representadas em alguma parte dos princípios que na sua
totalidade compreendem o que conhecemos como homem, exatamente como elas em si
mesmas, como a totalidade das forças cósmicas, são incluídas na concepção
unificadora do Homem celestial. O
poeta celta A. E. em seu mais recente trabalho, Song and its fountains [A canção e suas fontes], no qual ele se empenha
para descobrir a fonte da criação lírica numa entidade espiritual interna além
da imaginação, percebe com suma beleza essa concepção. “Penso que poderíamos
descobrir se nossa imaginação é profunda fazendo os raios de nossa
personalidade transbordarem para algum zodíaco celeste. E, como em sonho, o ego
é drasticamente dividido em isto e aquilo
e tu e eu, de sorte que na totalidade de nossa natureza estão todos os
seres que os homens imaginaram, aeons,
arcanjos, domínios e poderes, as hostes das trevas e as
hostes da luz, e podemos trazer este ser múltiplo a uma unidade e ser herdeiros
de sua sabedoria imensurável.”
Dos grandes seres que surgiram na
alvorada do tempo ao mais baixo elemental e eon,
todos os deuses e forças celestes estão contidos no homem, que é o templo vivo do Espírito Santo. A Coroa,
a primeira Sephira, representa o espírito auto-existente, eterno,
supremo, que não nasce e não morre, e que persiste sublimemente ao longo das
eras fugazes. Chamado pelos Zoharistas de
Yechidah, o “Único”, é por definição
um ponto de consciência metafísica e espiritualmente sensível, indivisível e
supremo, o centro do qual flui a energia e força do homem. O homem íntegro é um
espírito, um centro eterno de consciência, todos os outros princípios sendo variações
de suas atividades, invólucros de sua própria substância, espiritualidade e
corporeidade sendo tão-só duas facetas de uma e mesma essência. A mônada é como um espelho e, embora
imutável em si mesma, reflete ao mesmo tempo a harmonia de todas as outras mônadas com as quais, no corpo de Adão Kadmon, está em conjunção
indivisível. Seus veículos diretos são os poderes de Chokmah e Binah –
Sabedoria e Compreensão, os dois pólos manifestos do instrumento criador que
ela emprega. E, no entanto, não são apenas instrumentos, mas, na realidade, os
mais elevados aspectos da atividade do ser espiritual cuja luz consagrada é
infinita e eterna. No homem essas duas Sephiroth
são representadas pelos princípios chamados Chiah e Neschamah, a vontade e a alma
espiritual cuja natureza é intuição. Existindo no plano da criação,
refletindo as potências que emanam do Eu
divino no mundo arquetípico, a
vontade e a alma constituem com a mônada o imperecível homem inalterável. Não a
mônada sozinha, pois como princípio é demasiadamente abstrato e espiritualmente
indiferente para ser concebido como homem, mas essa trindade de Sephiroth forma coletivamente uma
unidade metafísica que é o deus interior, o criador
na vida individual, o artista e o poeta, o gênio cujas criações ideais são
projetadas a partir de sua própria essência divina para dentro da consciência de
despertar-de-um mundo de seu veículo imediato. É essa tríade celestial, a
mônada com seus veículos da vontade e intuição, a qual é efetivamente um deus, uma inteligência divina na Terra
para a obtenção de experiência e autoconsciência. Quanto mais se entra em
comunhão com essa entidade e quanto mais firmemente está a consciência
pessoal entrincheirada em sua
consciência mais terna e mais extensiva que tudo abarca, mais se compreende
plenamente o sacramento da encarnação, atingindo o esplendor total daquele
eterno milagre: a humanidade. No
criador do universo individual realmente vivemos, nos movemos e somos. Contudo,
tão absurdos são os caminhos dos homens e a tal ponto nos desviamos do
essencial, que poucos de nós conscientemente compreendem nossa divindade; que
nós, como Cristo, como Buda, como Krishna somos filhos de Deus, deuses em
verdade.
Chiah é
a vontade, o primeiro veículo
criativo da mônada, e sua atividade é sabedoria e discernimento, bem como
aquela força misteriosa de criatividade chamada por Blavatsky de Icchashakti. É também como o aspecto
ativo do buddhi da teosofia,
normalmente o escrínio da mônada, peculiarmente conectada ao esplendor da
serpente enrodilhada, a Kundalini, simbolizada pela Uraeus encontrada na fronte e cobertura de
cabeça de muitas divindades egípcias. Como Chiah
é o poder criativo energético ativo e visto que na magia prática o bastão é o instrumento cerimonial da
criação, o bastão é o símbolo verdadeiro da vontade espiritual, aquele que ereto
ascende aos céus, um poder de criação vigoroso e irresistível.
Estando Neschamah em oposição a Chiah
na
Árvore, é feminina e passiva, representando a verdadeira visão
espiritual da intuição ou imaginação. Como o cálice no altar está sempre aberta para
receber os ditames e comandos emitidos de cima. A ela também se refere a
imaginação espiritualizada chamada Kriyasakti,
que com a vontade constitui o poder por excelência utilizado na magia. Esses
três princípios, como as Sephiroth
superiores, existem além do Abismo,
se refletindo descendentemente no universo fenomênico da consciência humana, no
qual a alma humana provida da vontade inferior, memória e imaginação se agita.
Mas enquanto essas existem abaixo do Abismo,
seus nôumenos existem acima do Abismo sem
a limitação e restrição que a mente inferior e as condições humanas geralmente
impõem a elas. Quanto mais alguém se abre para a vontade divina e a imaginação
divina do deus interior, maior se
torna na manifestação da divindade de si mesmo, um oráculo dos mais elevados,
um veículo imaculado do mais puro fogo espiritual. Tal como um poeta ou um
músico é tão-somente assim e jamais diferentemente quando a inspiração
apocalíptica está sendo nele derramada de sua própria fonte divina, fato que,
entretanto, na maioria dos casos é sequer reconhecido e muito menos
compreendido e encorajado, um homem existe como melhor místico e maior mago na
renúncia em sacrifício devoto à oblação de sua própria vontade e ego humanos,
de maneira que a Vontade de seu Pai no céu possa ser consumada na Terra.
Como as Sephiroth superiores e as Essências
cósmicas se projetam em formas mais densas e em matéria menos sutil, do
mesmo modo atuam as Sephiroth humanas em obediência à lei do macrocosmo.
Abaixo do Abismo, as cinco Sephiroth seguintes recebem o nome de Alma humana ou Ruach, um princípio composto de razão, vontade, imaginação, memória
e emoção centradas na Sephira da harmonia. É este Ruach que é o veículo criado do eu real, um mecanismo, por assim dizer, criado através de
longos eons de evolução, esforço e
sofrimento como um recurso para obtenção de contato com o mundo externo, de
modo que pela experiência assim obtida o eu
possa atingir uma compreensão autoconsciente de seus próprios poderes
divinos e natureza elevada. É em Ruach que
a autoconsciência é centrada, embora seja verdadeira a anomalia psicológica de
que esse mecanismo de percepção, desenvolvido somente como um instrumento,
usurpa o poder daquele que lhe deu origem, colocando a si mesmo num pedestal
como o ego, como aquele que possui
poder real, discernimento, vontade e capacidade de resolver os problemas da
vida. Este Ruach que chama a si mesmo
de “eu”, alterando-se momentaneamente com o passar do tempo, perturbado pelo
fluxo e pela onda premente de pensamentos mutáveis e emoções convulsivas, é
precisamente a coisa que não é “eu”.
Simplesmente um veículo, ele assumiu – como um macaco simula as ações de seu
dono – a prerrogativa de uma existência
independente, divorciando a si mesmo de seu próprio senhor divino, a energia
que exclusivamente lhe concede vida e sustento. Em magia é esse ego empírico, esse eu inferior que tem
que ser oferecido em sacrifício ao Santo Anjo Guardião. Como o conceito de
sacrifício implica que aquilo a que se renuncia deva ser o melhor e maior
sacrifício, um Ruach bem
desenvolvido, bem treinado em todos os processos da lógica e do pensamento, bem
munido de conhecimento e observação, e perfeito na medida do possível nas
coisas de seu próprio domínio, constitui o maior sacrifício que o mago pode
depositar sobre o altar como uma oferenda ao Supremo. “Aquele que perder sua vida a encontrará.”
Normalmente, devido à natureza ilusória
da mente em que está focalizado o centro da consciência, e devido à sua própria
predileção por coisas inexpressivas e ilusórias, a nossa visão do eu superior está obscurecida, impedindo
nosso contato mais estreito com a consciência real, permanente e imortal que
realmente nos pertence. É, portanto, mediante o sacrifício do falso ego que
podemos atingir a conversação espiritual e o conhecimento do Santo Anjo
Guardião. Somente através da renúncia da mente e da completa destruição de sua
natureza ilusória, o desenraizamento daquele elemento que concede egoísmo a uma mera combinação de
percepções, tendências e memórias, pode o deus interior se manifestar e
conferir a magnífica bênção do êxtase místico à alma humana. Para que não haja
uma interpretação errônea relativamente às palavras destruição,
renúncia e sacrifício do ego,
entenda-se que o próprio princípio não é destruído, o que constitui uma
impossibilidade em todos os casos. Mas o falso valor do ego, sua complacência,
a ilusão de que ele apenas é real e permanente, tudo o mais sendo suas criações
– isso é oferecido para a destruição.
Quando a afetação e o falso egoísmo no Ruach são desenraizados, ele
é um instrumento da alma superável por poucos.
A nona Sephira é o fundamento do
homem inferior. É chamada de Nephesch*
e é aquele princípio lunar vegetativo e instintivo que concerne unicamente ao
ato de viver. Essa alma animal é a um único e mesmo tempo um princípio de
energia e substância plástica, a
totalidade das correntes de vitalidade bem como o molde astral invisível na
superfície do qual os átomos grosseiros se arranjam como o corpo físico. Como
um princípio substantivo, ele é o corpo astral, o duplo plástico construído de
substância astral e que serve de base ou
esboço do corpo físico. Nutrido pela luz astral, precisamente como o corpo
físico é nutrido pelo produto e as energias da terra, é comparável ao que é
denominado subconsciente – a despeito
de não possuir nem mente nem inteligência próprias – de maneira que todo
pensamento que temos, toda emoção que sentimos, toda ação que praticamos deixam
uma impressão ou memória indelével sobre aquela substância, preservando assim
no corpo astral o reflexo e registro automático da vida passada. Todas, ou
quase todas, as características atribuídas pelos psicanalistas ao subconsciente são analogamente
atribuíveis a Nephesch, ou ao menos àquele aspecto de Nephesch que diz respeito
aos instintos e impulsos, e que atua como um depósito automático de sensações e
impressões, tal como a expressão inconsciente
coletivo pode muito bem ser aplicada ao nosso conceito de luz astral. Todos os instintos
fundamentais de um homem, os impulsos radicais primários que ele vivencia,
pertencem à Sephira Yesod, o fundamento do qual toda a energia vital
flui.
* A nona Sephira
é Yesod. (N. T.)
Todos esses princípios se mantêm e operam
como um organismo vivo no princípio do corpo físico, Guph, atribuído à decima e última Sephira, o Reino**, a sede de toda força e função de todos os
planos sutis da natureza e de todo poder
espiritual do homem; de toda verdade, e nesse sentido o corpo humano é o Templo
do Espírito Santo.
** Ou seja, Malkuth. (N. T.)
É com respeito a Ruach ou Manas
inferior que desejo, em particular,
me estender um pouco mais. Embora ele compreenda as cinco Sephiroth numeradas de quatro a oito
inclusive, sua sede central é em Tiphareth,
a esfera da harmonia e equilíbrio. E embora, também, a vontade e a imaginação em
seus aspectos vitais estejam colocadas acima do Abismo nas Sephiroth
superiores na constituição imperecível do homem interior, estão em Ruach
os pálidos reflexos daqueles dois poderes que são de particular interesse
para os teurgos na busca de suas artes. Um outro problema que diz respeito ao
mago é o fato de ser inerente a Ruach um princípio de autocontradição que
impede seu uso, independentemente de qualquer assistência superior, para a
busca da verdade e da luz. Alhures eu consegui ocupar-me um pouco dessa questão
da incapacidade do homem racional de transcender o mundo fenomênico, e muito
mais a respeito desse tema pode ser encontrado no esplêndido tratamento de Kant
das quatro antinomias da razão no Prolegômenos, em Aparência e Realidade, de
Bradley; e um resumo excelente se acha no Tertium
Organum de P. D. Ouspensky.
Usando exclusivamente a razão, o ser
humano jamais poderá chegar a qualquer verdadeira compreensão do que ele é em
si, quer dizer, nunca será capaz de
compreender apenas através da mente que ele é uma entidade espiritual eterna,
uma estrela brilhante que resplandece pela luz de sua própria essência no
interior do corpo brilhantemente adornado de Nuit, a rainha do espaço infinito. Para conhecer realmente a si mesmo como
um deus e ingressar na comunhão com o criador pessoal, o homem precisa fazer
uso de outros instrumentos e outras faculdades. Jâmblico formula a lei com
muita clareza em Os Mistérios, que não é só pelo raciocínio
discursivo ou pela reflexão filosófica
que se chega à comunhão com os deuses. É por intermédio do despertar dos
poderes espirituais mais elevados por meio dos ritos teúrgicos que se efetua a
consumação das longas eras. “Pois uma concepção da mente não une os teurgos aos
deuses, visto que se este fosse o caso,
o que impediria aqueles que filosofam teoricamente de celebrar uma união
teúrgica com os deuses?... Ora, na realidade esse não é o caso. Pois a perfeita
eficácia das obras inefáveis, que são divinamente executadas de uma maneira que
ultrapassa toda inteligência, e o poder de símbolos inexplicáveis, que são
conhecidos só dos deuses, é que concedem a união da teurgia. Conseqüentemente,
nós não executamos essas coisas por meio da percepção intelectual.”
Observa-se comumente que o indivíduo que
é detentor apenas de escassa capacidade intelectual tem freqüentemente um maior
contato com uma presença espiritual e está mais aberto a intuições do que o seu
irmão mais aquinhoado intelectualmente. Paracelso nos assegurou que os grandes Mistérios podem, amiúde, ser mais bem
apreendidos por uma mulher simples na sua roca do que pela erudição mais
profunda. E, se a memória não me falha, em alguma parte de seus escritos mágicos
Lévi também observa que com freqüência os verdadeiros magos práticos são
encontrados no campo, entre as pessoas incultas, os privados de
intelectualidade e sofisticação, ou simples pastores. Não é a falta de
mentalidade ou intelecto que torna o camponês superior. A ausência de
capacidade mental por parte do camponês o tornaria realmente inferior, visto
que é obviamente a mente que distingue o homem dos animais do campo. Mas quando
essa capacidade mental é corrompida pela afetação, pelo convencimento de que
ela é suprema, pelo sofisma egotístico, o que é mais freqüente que o caso
contrário, então a falta dela se torna relativamente uma grande virtude.
Havelock Ellis cita um exemplo que corrobora tal afirmação. Ele narra que
durante uma longa cavalgada pelo sertão australiano na companhia de um
tranqüilo e simples fazendeiro, este subitamente lhe confessou que por vezes
subia ao topo de uma colina e ficava perdido para si mesmo e para tudo enquanto
permanecia contemplando o cenário que o cercava. Aqueles momentos de êxtase, de
união pelo esquecimento de si mesmo com a beleza divina da natureza circundante
eram inteiramente compatíveis, observa Ellis, com a perspectiva de um homem
dedicado ao trabalho árduo e não sobrecarregado pela teologia, a tradição dogmática
e a sofisticação dos modos civilizados.
Ora, é bem verdade que os Mistérios eram e são mais facilmente
compreendidos e as intuições mais freqüentemente franqueadas entre os simples e
não-intelectualizados (não digo destituídos
de inteligência) porque neles não existe qualquer barreira racional aos
raios telésticos de Neschamah. Entretanto,
visto que Ruach foi desenvolvido em
virtude de uma longa evolução, não deve ser completamente negligenciado,
devendo-se, sim, encorajar seu desenvolvimento em seu próprio campo e no plano
de aplicação que se coaduna com ele. E é aqui, num certo sentido, que se
infiltra um certo perigo da teurgia. Não
basta ao teurgo intoxicar-se de Deus e envolver-se no conhecimento e na conversação
de seu Santo Anjo Guardião e das Essências
dos deuses. Por mais grandioso que isso seja, ainda não é suficiente; pois
dentro dele, cuja mente está desordenada, ignorante e indisciplinada, os deuses
vertem seu vinho em vão. Pelo fato de se ter renunciado à razão a fim de se
alcançar uma síntese mais elevada e uma espécie mais nobre de consciência, não
há motivo para negligenciar a aplicação daquela faculdade às matérias
pertinentes ao seu próprio lugar na
natureza. Essa é a razão porque no sistema de Pitágoras a gramática, a retórica
e a lógica eram ensinadas para cultivo e aprimoramento da mente, e também a
matemática porque os métodos dessa ciência eram disciplinados e ordenados. A
geometria, a música e a astronomia também eram ministradas, sendo desenvolvido
a partir daí um sistema de símbolos. Não incorrerá em erro o moderno teurgo que
seguir esse plano de treinamento intelectual. O cultivo do discernimento
intelectual é uma tarefa essencial, mas feito isso, restará ainda uma passo a
ser dado. “O rei-mago...”, escreve Vaughan,
“...constrói sua torre de especulação pelas mãos de trabalhadores
humanos até atingir o andar mais alto, e então convoca seus gênios para
confeccionarem as ameias adamantinas e as coroa com o fogo das estrelas.” É
pouco proveitoso contemplar as ameias da torre enquanto a própria torre for uma
possibilidade. Tampouco é particularmente aconselhável construir o ápice da
pirâmide antes de providenciar a base na
qual a pirâmide possa se assentar. Mas uma vez esteja ali a base e a torre da
razão tenha sido construída, as ameias e o ápice da experiência espiritual
passam a ser uma necessidade urgente.
Assim, o objetivo supremo de todo ritual
mágico é a construção do ápice da pirâmide e a instalação das ameias na torre
intelectual; em outras palavras, a comunhão com o eu superior. Para todo homem é esse o mais importante passo e
nenhum outro se compara a ele em importância e validade até que essa união
tenha sido realizada. Traz consigo novos poderes, novas extensões da
consciência e uma nova visão da vida. Arroja um raio brilhante de luz nas fases
até então escuras da vida, removendo da mente as nuvens que inibem a glória da
luz espiritual. Com o atingimento da visão e do perfume percebe-se, como percebeu Jacob Boehme, o campo inteiro da
existência natural literalmente fulgurar com um esplendor divino incomparável,
de modo que mesmo as árvores erguem seus cimos para os céus e as relvas nos
prados verdes gentilmente entoam cantos de louvor e ação de graças, oferecendo
hinos de glória à luz suprema.
Na plenitude do Conhecimento e
Conversação do Santo Anjo Guardião, o teurgo é capaz de prever mediante a
extensão da luz da razão que outros passos têm que ser dados na grande busca
que não findou com a iluminação do Anjo,
mas que, ele percebe, apenas começou. O universo todo é uma vasta gama de
hierarquias espirituais, e o Santo Anjo Guardião se posta em apenas um degrau
da escada que se estende acima e abaixo para o infinito. O teurgo percebe que
ele é somente uma centelha emitida da essência espiritual de um deus, e por mais
estupendamente brilhante que seu próprio anjo
seja, se, como os princípios de sua arte o ensinam, esse anjo seja apenas uma centelha, quão mais
glorioso é o deus que lhe deu origem? Assim, sua aspiração sob a orientação de
seu anjo é sempre dirigida para cima
e para a frente, promovendo sua visão interior para a Vida una, para o Ain-Sof,
a fonte inominável de tudo. A
natureza não procede por solavancos ou por desfiladeiros intransponíveis ou
saltos. Ela progride numa marcha gradual, e essa onda de progresso estável para
a frente o teurgo procura imitar. A união com o Ain-Sof não pode ser efetivada imediatamente; é mister
que ele suba a escada da vida lentamente, unindo-se em cada degrau em amor e
sabedoria com cada hierarquia superior, até que a Luz eterna ilimitada seja
alcançada. Jâmblico concebe o mesmo procedimento nas seguintes palavras: “E
quando a alma O recebeu como seu condutor, o daimon imediatamente preside à alma, concedendo
completamento às suas vidas, e a prende ao corpo por ocasião de sua descida. De
modo semelhante, ele governa o animal ordinário da alma e dirige sua vida
peculiar e nos proporciona os princípios de todo nosso pensamento e raciocínio.
Igualmente executamos tais coisas conforme ele sugere ao nosso intelecto e ele
prossegue nos governando até que através da teurgia sacerdotal, obtenhamos um
deus para guardião supervisor e condutor da alma; pois então o daimon cede ou entrega seu governo a uma
natureza mais excelente, ou é submetido ao deus como colaborador na sua guarda,
ou de alguma maneira é ministrante com ele como se fosse seu senhor. “
Não é bem que o Santo Anjo Guardião cede
o governo da alma humana à presença do deus, e sim que a alma, já unida ao anjo e assim formando um ser completo,
se une de maneira similar ao deus. Ou, talvez, que o anjo que tomou para si mesmo a vida da alma tenha,
correspondentemente, assumido a vida ampla e superior do deus, o qual para o anjo é como o anjo era
primeiramente para a alma. Prosseguindo, Jâmblico acrescenta: “Ademais, depois
dela (quer dizer, a teurgia) ter unido a alma às diversas partes do universo e
aos poderes divinos totais que por ela passam, então guia a alma e a deposita
no íntegro demiurgo, fazendo-a ser
independente de toda matéria e estar co-unida com a razão eterna somente. Mas o
que quero dizer é que ela liga peculiarmente a alma com o deus autogerado e
automovido e com os poderes intelectuais que tudo sustentam e tudo embelezam do
deus, e igualmente com aquele poder dele que eleva à verdade, e com seus
poderes de auto-aperfeiçoamento, de eficiência e outros poderes demiúrgicos, de
maneira que a alma teúrgica se torna perfeitamente estabelecida nas energias e
intelecções demiúrgicas desses poderes. E então a teurgia também insere a alma
no deus demiúrgico integral, findando aqui com os egípcios o assunto da
elevação da alma à divindade pelo sacerdócio.”
Dificilmente se poderia descobrir uma
visão mais grandiosa e mais completa. A teurgia se propõe tomar um homem,
despojá-lo gradualmente, por assim dizer, de tudo que não seja essencial e
penetrar, finalmente, na alma interior. Então essa alma interior é exaltada e
guindada, sempre de maneira gradual, até que ela encontre seu Senhor soberano, o Amado. Guindando-a cada vez
mais alto, embora ainda humano num corpo físico de carne e sangue, o homem é
elevado além dos céus, ingressando na união e comunhão espirituais com os poderes que são o universo, as fontes
que proporcionam vida e sustentação ao conjunto da existência manifesta.
Ultrapassando-os, a alma plana e ascende, transcendendo mesmo aos deuses que
surgiram ao primeiro rubor da aurora dourada, até que com um êxtase
incomparável de silêncio, ela retorna à Grande
Fonte de Tudo.
CAPÍTULO VI
A magia superior, como foi demonstrado,
tem como um dos seus objetivos uma comunhão com o divino tanto aqui quanto no
porvir, uma união para ser obtida não por meio de uma mera doutrina e
especulações intelectuais estéreis, mas sim pelo exercício de outras faculdades
e poderes mais espirituais em ritos e cerimônias. Por divino os teurgos reconheciam um princípio eterno espiritualmente
dinâmico, e sua manifestação refrata em seres cuja consciência, individual e
separadamente, são de um grau de espiritualidade tão grandioso e sublime a
ponto de realmente merecerem o nome de deuses. Essa é, obviamente, a visão
objetiva, e eu me referirei aos deuses neste capítulo somente desse ponto de
vista, deixando ao leitor a liberdade de interpretá-los de modo diverso, se
assim o quiserem.
Uma advertência deve, entretanto, ser
feita aqui. Não se deve pensar que os teurgos e os filósofos divinos eram politeístas em qualquer
sentido comum. Uma tal conclusão estaria, de fato, bem distante do que é
realmente verdadeiro. Mesmo para os egípcios, que possuíam um panteão repleto
de hierarquias e deuses celestiais e que são acusados tão freqüentemente de
serem primitiva e grosseiramente politeístas, E. A. Wallis Budge profere uma
defesa, pois embora os não-instruídos apreciassem uma pluralidade de deuses,
“os sacerdotes e as classes instruídas que eram capazes de ler e compreender os
livros adotaram a concepção do Deus único,
o criador de todos os seres no céu e na terra, os quais, por falta de uma
palavra melhor, eram chamados de deuses”.
Essa é a posição do ponto de vista
empregado na magia. Primariamente, há apenas uma Vida onipresente que penetra todo o cosmos. Permeia e vibra em todo
canto e porção do espaço, sustentando a vida individual de todo ser que existe
em qualquer um dos mundos infinitos. Desconhecido em si mesmo, visto que é
onipresente e ilimitado em toda direção e exaltado além do alcance intelectual,
jamais poderia ser compreendido pela mente humana. Mas é preciso que se
compreenda que a partir Dele procedem todos os deuses, todas as almas humanas e
espíritos e toda coisa concebível que é. De um certo modo, incompreensível ao
nosso entendimento finito, a energia negativa e passiva homogeneamente
espalhada através do espaço se tornou
vivificada, formando ela mesma centros ativos primários que, com o
desenrolar de eons de tempo, expandiu-se
e gradualmente evoluiu para o cosmos. Com esses centros, as primeiras
manifestações, brotou da homogeneidade
latente um grupo heterogêneo de entidades divinas ou forças inteligentes
cósmicas que se tornaram os arquitetos e construtores do universo. Da própria
essência espiritual individual deles, hierarquias menores nasceram, as quais,
por sua vez, emanaram ou criaram a partir de si mesmas ainda outros grupos até
que finalmente as almas humanas vieram a ser a descendência refletida dos
deuses abençoados. Essas forças inteligentes receberam nomes variados, deuses, daimons, essências universais, dhyan
chohans, eons, teletarchae e muitos outros. Todos implicam a mesma idéia
fundamental de centros conscientes (embora não necessariamente autoconscientes,
intelectuais) de força, sabedoria e inteligência que emanam ou criam, de uma
maneira ou de outra, a partir de si mesmos o universo finito manifesto.
Essas forças cósmicas ou deuses eram
estudados pelos teurgos egípcios com muito rigor, e seus atributos
cuidadosamente observados e registrados sob a forma de parábolas, alegorias,
mitos e lendas. Mesmo nos pictogramas convencionais de suas divindades, cada um
dos emblemas tem uma importante significação que é ao mesmo tempo profunda nas
suas implicações e simplesmente eloqüente na descrição das características de
determinado deus. Por exemplo, uma pena azul
levada à mão de um dos deuses, ou encimando a cobertura de cabeça,
implicava a verdade, firmeza e retidão, enquanto um cetro tinha a finalidade de transmitir a idéia
de que um certo deus era detentor de suprema autoridade e soberania. Cada
símbolo e sigillum portados pelo deus
em alguma parte de sua pessoa constituíam uma pista para a natureza inerente a
ele. Os mitos e as lendas relativos aos deuses passados à posteridade pelos
sacerdotes egípcios não eram meras invenções ociosas produzidas por homens
ignorantes, embora imaginativos, que não tinham coisa melhor para fazer,
ocupando-se com a narração de histórias e a urdidura de ficções agradáveis ou
desagradáveis baseadas em invencionice. Pelo contrário, longe de puerilidade,
em cada uma dessas lendas e descrições pictóricas dos deuses está oculto um
patrimônio de conhecimento transcendental para todo aquele que for capaz de
percebê-lo. Relativamente a um povo tão perspicaz como o egípcio, um povo que
desenvolveu uma civilização resistente cujos restos permanecem como nobres
monumentos até os dias de hoje, dificilmente se poderia acreditar que seus
mitos não passem de contos interessantes, como se os deuses reconhecidos por
eles não tivessem existido ou tenham sido, no máximo, fantasias infantis.
Jamais se deve considerar que o panteão egípcio, particularmente os deuses
associados aos cultos teúrgicos, era em qualquer grau mítico no sentido de que era
o resultado do jogo divertido de uma fértil faculdade inventiva. O homem
primitivo não “criou” os deuses, como pensam tantos aprendizes modernos de
teologia comparativa, destituídos de toda simpatia e gênio religioso. O que ele
realmente fez, talvez inconscientemente, foi aplicar nomes (e mesmo esses nomes
eram carregados de significado) e faculdades quase humanas a esses “poderes” ou
grandes forças da natureza que observava com tanta precisão, e que ele
acreditava serem, com justeza suficiente, manifestações ou símbolos do divino.
Todos os pensamentos e idéias, todo o grande saber e conhecimento dos egípcios
encontraram sua expressão pictórica na alegoria, na parábola e nas pinturas.
Assim nós os recebemos hoje. Descartar seu sistema bem desenvolvido de lenda e
mitologia instrutivas como absurdo e infantil só indica a postura de uma
inteligência superficial e pueril. Pode-se demonstrar que basta um pouco de
estudo para revelar uma profundidade de discernimento que nunca se compreendeu
antes existir. Além disso, as vinhetas e os símbolos pintados dos deuses com os
quais os egípcios estavam habituados a decorar seus papiros, pelo mesmo motivo
não são meramente desenhos infantis descritivos de vagas opiniões intelectuais.
Cada deus na mitologia egípcia tinha uma precisa e bem-definida função a
executar no cosmos – criadora,
preservadora ou destruidora, de acordo com o caso – e tal função fora
confirmada com precisão pela observação, tanto secular quanto teúrgica, levada
a cabo por um longo período de tempo, e as qualidades e natureza dos deuses
eram expressas em gravuras. Que os egípcios concebiam que Ra, o deus-Sol,
realmente existia naquela forma artística convencional em que o pintavam, não
estou disposto a acreditar; tampouco que achavam que o sol à meia-noite
assumia a forma de um escaravelho. Em
que realmente acreditavam é que o escaravelho, como símbolo, exprimia de várias
maneiras sutis a natureza do sol após o poente. A vaca, analogamente, era um símbolo de fertilidade exuberante, a
íbis, um símbolo de sabedoria e suprema inteligência. O falcão, devido à sua capacidade de permanecer equilibrado no
firmamento, constituía um símbolo perfeito do eu divino que, desapegado de todas as coisas da terra e da forma,
as observa com o olho da equanimidade. O assunto todo deve ser cuidadosamente
estudado, e se a metade do zelo e atenção que o homem comum dedica ao seu
jornal no dia-a-dia forem dedicados pelo leitor ao estudo dos deuses, muito
conhecimento útil de profunda importância para a magia será obtido.
A evolução e o desenvolvimento do cosmos, espirituais e físicos, foram
primeiramente registrados pelos filósofos em mudanças geométricas da forma.
Toda cosmogonia esotérica usava um círculo, um ponto, um triângulo, um cubo e assim por diante. Esses mais tarde foram
incorporados numa forma geométrica simples que é chamada na Cabala de Árvore da Vida. Aplicou-se a cada
desenvolvimento cósmico um número, e existindo como o significado específico do
número ou a fase particular de evolução, havia a atividade de um deus ou de uma
hierarquia de deuses. Assim, na Cabala temos dez emanações principais. A cada
uma dessas um número é atribuído e em cada número, portanto, está encerrado um
deus. Há dez séries de hierarquias de forças cósmicas, espirituais, dinâmicas e
inteligentes, cujas operações em concerto resultam na formação do universo
físico. A tradição dos teurgos as classifica numa escala descendente de pureza
e espiritualidade, dos deuses aos arcanjos, inteligências e espíritos.
Considerando-se que em magia o objetivo é
obter de uma maneira ou de outra uma união espiritual estreita e duradoura com
essas divindades cósmicas, que são as realidades essenciais e as fontes de
sustentação e vitalidade, é aconselhável dar uma breve descrição delas tal como
entendidas pelos egípcios. Na tabela que se segue elas são classificadas de
acordo com suas hierarquias e escala de graduação, e a interpretação será
auxiliada se o leitor se recordar das afirmações feitas num capítulo anterior a
respeito das Sephiroth.
Com relação a cada um desses deuses,
apresentarei uma curta descrição baseada em textos de egiptologia, deixando a
critério do leitor a interpretação que desejar. A natureza dos arcanjos, inteligências e espíritos
cujos nomes são indicados na tabela, será revelada pelos atributos da divindade
regente.
Correspondendo ao desenvolvimento cósmico
representado entre os cabalistas por Kether, a Coroa, temos a divindade
egípcia Ptah, sendo que o significado
de seu nome é o franqueador. Para os egiptólogos isso parece ter sido um obstáculo
em suas classificações, pois no caso de se supor que ele estava associado com a
abertura do dia mediante o sol, é suficientemente singular o fato de nunca
formar um dos importantes grupos dos deuses solares nos textos hieráticos. Em O livro dos mortos seus atributos não
guardam a menor relação com Ra, Khephra e Tum, os deuses ligados ao nascer do
sol, ao pôr-do-sol e ao seu
obscurecimento à meia-noite. Dentro do delineamento da filosofia mágica,
contudo, não é, em absoluto, difícil compreender em que sentido Ptah é chamado
de O Franqueador. Visto que seu
aparecimento inaugurou ou deu início a um ciclo de manifestação cósmica ele é assim chamado, e é ele o Logos oculto, a essência metafísica
central da qual tudo se originou. Essa interpretação parece ser
corroborada por várias ilustrações nas quais ele é mostrado
confeccionando o ovo do mundo num torno de oleiro. Budge, confirmando, também
salienta que a raiz etimológica de Ptah é cognata com o significado de uma
outra palavra que significa esculpir ou talhar. Essa raiz cognata posiciona o
deus de maneira excelente, como o faz a palavra artífice que aparece nos textos, pois não só abre Ptah o ciclo
evolucionário como é também ele quem, emergindo das trevas triplamente
desconhecidas, é o Grande Arquiteto do
Universo, dando, juntamente com Thoth e Ísis, nascimento às coisas
manifestas. Dizia-se dele que era “o grandioso deus que veio a ser no tempo
mais remoto” e para indicar de modo
conclusivo sua natureza ele também era considerado o “pai dos princípios e criador do(s) ovo(s) do
Sol e da Lua”.
_____________________________________________________________________________________
Número Sephira
Planeta Deus Arcanjo Coro de anjos Inteligência Espírito do planeta
do planeta
_____________________________________________________________________________________
1 Kether –
Ptah, Metraton Chayos – -
Amon
haQadosh
2
Chokmah – Tahuti Ratziel Ophanim – -
3
Binah Saturno Ísis Tsafkiel Arilim Agiel Zaziel
4
Chesed Júpiter Maat
Tsadkiel Chashmalim Iophiel Hasmiel
5
Geburah Marte Hórus Kamael Seraphim Graphiel Bartzbael
6
Tiphareth Sol Ra, Raphiel
Malachim Nachiel Soras
Osíris
7
Netzach Vênus Hathor Haniel Elohim Hagiel Kadmiel
8
Hod Mercúrio Anúbis Michael Beni Elohim Tiriel Taphthartharath
9
Yesod Lua Shu, Gabriel Querubim Tarshishim ve-Ad Hasmodai
Pasht
Ruach Shechalim
10 Malkuth –
Seb Zaziel Ishim – -
______________________________________________________________________________________
Na mesma categoria que Ptah, como uma
correspondência da mesma série de idéias filosóficas ligadas à Coroa, existe o
deus Amon ou Amen. Ele era o poder criativo invisível que era a fonte de toda a
vida no céu, na terra e no mundo inferior, finalmente fazendo a si mesmo
manifesto em Ra, o deus-Sol. O próprio nome indica aquele que é oculto ou
dissimulado, e nos tempos de Ptolomeu essa expressão associou-se a uma palavra
que significa subsistir e também ser permanente. Num dos documentos
sacerdotais o deus é saudado em tais termos de modo a nos fornecer uma
descrição narrativa de sua real natureza.
“A alma santa que veio a ser no
princípio... a primeira substância divina que deu origem às duas outras
substâncias divinas; o ser através do qual todo outro deus existe.”
Há, além disso, uma considerável
quantidade de evidências que nos levam a crer que Osíris poderia ser atribuído
a essa mesma categoria. O prospecto do Museu Britânico do Livro dos mortos afirma que uma princesa egípcia
podia saudar Amen-Ra e Osíris não como dois deuses distintos, mas como dois
aspectos do mesmo deus. Ela acreditava que o poder criador “oculto” de que era
investido Amen era apenas uma outra forma do mesmo poder tipificado por Osíris.
Com toda certeza, entretanto, Osíris tem que ser saudado como a encarnação
humana do poder criador, a assunção em humanidade do deus mais supremo, um avatar, se assim se preferir, do Espírito supremo. Todas as razões levam
a crer que seja este o ponto de vista acertado a respeito de Osíris, pois ele
também permaneceu para a renovação do nascimento e uma ressurreição espiritual,
tipificando o Adepto iluminado,
purificado pela provação e pelo sofrimento; alguém que morreu e, depois de
descer ao mundo inferior, miraculosamente ressuscitou glorificado para reinar
eternamente nos céus. Na medida em que este é o caso, ele será considerado como
um tipo pertencente a Tiphareth. Há, contudo, um aspecto dele, Asar-Un-Nefer, Osíris feito beneficente ou perfeito em cuja forma deífica ele é
uma representação mas adequada daquela fase de Kether que é o aspecto mais real e mais profundo da
individualidade.
A natureza de Thoth ou Tahuti e a
descrição das características que os egípcios atribuíam a ele não deixa o menor
motivo para dúvida quanto à sua imediata atribuição a Chokmah.
Ele é sabedoria e o deus da sabedoria, e como observado por
Budge, é a personificação da inteligência de todo o conjunto dos deuses. O nome
Tahuti parece ser derivado daquele que se supõe ser o nome mais antigo
da íbis, que é uma ave que sugere
pela sua própria postura meditação e conseqüentemente sabedoria. Há uma
excelente descrição dos atributos de Thoth no livro de Budge Os deuses dos egípcios que eu cito a
seguir: “Em primeiro lugar, julgava-se ser ele tanto o coração quanto a língua
de Ra, quer dizer, ele era a razão e os poderes mentais do deus, e o meio pelo
qual a vontade dele era traduzida em discurso; num certo aspecto ele era o
próprio discurso e em tempos posteriores ele pode muito bem ter representado,
como afirmou o dr. Birch, o Logos de
Platão. Em toda lenda na qual Thoth desempenha um papel de destaque, percebemos
que é ele quem profere a palavra que resulta na concretização dos desejos de
Ra, e é evidente que uma vez tivesse ele pronunciado a palavra de comando, esse
comando não poderia deixar de ser cumprido por um meio ou outro. Ele proferiu
as palavras que tiveram como resultado a criação dos céus e da Terra... Seu
conhecimento e seus poderes de cálculo mediram os céus e planejaram a Terra e
tudo o que se acha neles; sua vontade e seu poder mantiveram as forças no céu e
na Terra em equilíbrio; foi sua habilidade na matemática celeste que
possibilitou o uso correto das leis sobre as quais os fundamentos e a
manutenção do universo se apóiam; foi ele quem dirigiu os movimentos dos corpos
celestes e seus tempos e estações”. Ele era, em suma, a personificação da mente
de Deus ou o Logos, e como o poder
todo penetrante, governante e dirigente do céu, ele configura um aspecto da
religião egípcia “que é tão sublime
quanto a crença na ressurreição dos mortos num corpo espiritual, e quanto a
doutrina da vida eterna”.
Palas Atena é a deusa grega da sabedoria
que, segundo o mito, emergiu totalmente armada do cérebro de seu poderoso pai,
Zeus. Urano, o deus dos céus estrelados, poderia também ser colocado nessa
mesma categoria com Thoth e Atena, pois deve ser mencionado que
tradicionalmente Chokmah é também
chamada de a esfera das estrelas fixas.
Ísis, correspondendo a Binah,
era considerada a fonte do universo, a primeira progênie das eras, governante
do céu, do mar, e de todas as coisas na Terra, e era a Mãe
superior que o conjunto do mundo
antigo venerava sob diversos nomes. Foi tão vinculada à rainha do céu como a compassiva e onipotente senhora de ambos os
mundos, que ela atraiu para si uma grande multidão de devotos e sinceros
adeptos. Resumindo concisamente Budge no que concerne a Ísis, podemos afirmar que ela era considerada
a grandiosa e benevolente Mãe cuja
influência e amor dominavam a totalidade do céu, da Terra e a morada dos
mortos, sendo ela a personificação do grande poder reprodutivo passivo que
concebia imaculadamente e gerava toda criatura e coisa vivas. O que gerava ela
protegia, cuidava, alimentava e nutria; empregava sua própria vida usando seu
poder de modo amável e bem-sucedido, não apenas criando coisas novas como
também restaurando aquelas que estavam mortas. Ela era, além de todas essas
coisas, o tipo mais elevado de esposa e mãe fiel e amorosa. Era nessa
qualificação e capacidade que os egípcios a honravam e veneravam mais. Conforme
a lenda, agora familiar, Osíris, seu marido, foi assassinado graças à astúcia
de seu irmão Tífon ou Set (emblemático do aspecto destrutivo da natureza) e seu
corpo forçado para dentro de uma caixa que, após ter sido lançada ao Nilo, foi
conduzida ao mar. Depois de uma longa e cansativa busca, Ísis a encontrou e a
escondeu num sítio que julgava seguro, onde, contudo, foi descoberta por Tífon,
o qual malignamente esquartejou o cadáver. Os incidentes da busca que ela
empreendeu do corpo mutilado e a concepção e nascimento de seu filho Hórus,
impressionavam vigorosamente a imaginação dos egípcios, de modo particular
quando a lenda narra a ajuda na busca dada por Thoth, o deus da sabedoria e da magia, o qual graças à sua
habilidade nas artes teúrgicas foi capaz de comunicar a ela os processos e
palavras de poder que temporariamente ressuscitaram Osíris e o capacitaram a
gerar nela o filho-deus Hórus.
Além do acima exposto há a lenda obscura
relativa à parte da ajuda segundo a qual Ísis paradoxalmente fez concessões a
Tífon na batalha travada por Hórus que, enraivecido pela aparente traição de
sua mãe, matou-a e a decapitou. Entretanto, imediatamente Thoth transformou a
cabeça de Ísis na de uma vaca, a qual ele prendeu ao corpo dela. De maneira
própria, essa lenda indica a relação que existe entre Ísis, a Mãe e a
deusa-vaca Hathor, muitos dos atributos desta parecendo coincidir em muitos
aspectos significativos com os atributos de Ísis. A Árvore da Vida,
prenunciando diagramaticamente o processo de evolução, deve ser de algum
auxílio para a compreensão da idéia subjacente a esta lenda, como deve ser
também a lenda grega referente a Cronos, que é também uma atribuição de Binah. Nessa lenda descreve-se Cronos
destituindo seu pai Urano do governo do mundo, do qual Cronos é destituído, por
sua vez, pelo seu próprio filho, Zeus. Blavatsky dá uma explicação sugestiva
dessa parábola em A doutrina secreta. Grosso
modo, sugere que Cronos significa duração
eterna, sem princípio e sem fim, além do tempo e espaço divididos. Diz-se alegoricamente que esses deuses
que nasceram para atuar no espaço e no tempo, ou seja, atravessar o círculo do
domínio espiritual para o plano terrestre, se rebelaram contra Cronos e
combateram o (então) único deus vivo e supremo. Por sua vez, quando Cronos é
representado mutilando seu pai, o significado da mutilação é simples. O tempo
absoluto é feito para se tornar o finito e a condição; uma porção é furtada do
todo, mostrando assim que Cronos, o pai dos deuses, foi transformado da duração eterna para um período limitado de
tempo. A mesma interpretação pode, igualmente, ser aplicada à decapitação de
Ísis, resultando na transição dela como uma deusa criadora superior a um plano
terrestre inferior.
Maat, a deusa atribuída à esfera de Chesed, é no antigo sistema egípcio
estreitamente aliada a Thoth, tão estreitamente, de fato, a ponto de poder ser
quase considerada como sua contraparte feminina. O tipo de símbolo dessa deusa
é a pena de avestruz, simples ou dupla, que está sempre presa à sua cobertura
de cabeça ou segura em sua mão. Primordialmente indicando “aquilo que é reto”,
a palavra maat era usada num sentido físico e moral, de maneira que
finalmente passou a significar “correto, verdadeiro, probo, justo”. Essa deusa
incorpora então as idéias de lei física e moral, ordem, verdade e regularidade
cósmica. Pode-se observar que muitos desses atributos de Maat são, de forma
semelhante, significados atribuídos pelos astrólogos ao planeta Júpiter, que
constitui uma das correspondências da mesma Sephira a que Maat é atribuída. Como um
poder moral, admitiu-se ser Maat a maior das deusas, e ela chegou a ser a
senhora do salão do juízo no Tuat ou mundo inferior, onde a pesagem
do coração ocorria na presença de Osíris. Geralmente representada como uma
mulher sentada ou de pé, ela segura numa das mãos o cetro da soberania e na
outra o ankh, o símbolo da vida.
Algumas figuras a mostram munida de um par de asas, cada uma presa a um braço,
e em alguns poucos casos ela é retratada portando a pena da verdade sobre sua
cabeça, ereta, sem qualquer cobertura de cabeça.
O Júpiter romano era originalmente uma
divindade elementar, sendo venerada como o deus da chuva, tempestade, trovão e
relâmpago. O senhor do céu e o príncipe da luz, ele era o deus que previa o
futuro, e os acontecimentos que previa ocorriam como resultado de sua vontade.
Zeus é seu equivalente grego e ambos são atribuídos a Chesed.
A tradução da quinta Sephira, Geburah como “força” associada à sua correspondência
astrológica de Marte, de maneira sumamente apropriada resume a característica
de Hórus. Ele é o deus egípcio da força detentor de muitas formas, das
quais duas são as mais importantes: Hoor-paar-Kraat
e Heru-Khuti. Como o primeiro, o
grego Harpócrates, ele é representado usando uma mecha de cabelo, o símbolo da
juventude radiante, do lado direito de sua cabeça; às vezes, também, ele usa a
coroa tripla com plumas e discos como cobertura de cabeça, e ocasionalmente o
disco apenas com plumas. Na maioria dos casos ele é retratado com seu dedo
indicador erguido até seus lábios em sinal de silêncio. Como Heru-Khuti, “Hórus dos dois horizontes”,
é usualmente representado como um falcão, usando um disco solar envolvido por
uma serpente Uraeus, ou uma coroa tripla ou ateph.
Era estreitamente vinculado ao deus-Sol e representava o disco solar em seu
percurso diário através dos céus do nascer ao pôr-do-sol. Mas é como Hórus, o
filho de Ísis e Osíris, que ele se liga a Geburah,
em seu aspecto do vingador do assassinato e da violação dos restos mortais de
seu pai. Representado como um falcão, era capaz, das alturas do céu, de ver os
inimigos de seu pai, que ele perseguia, assim diz a lenda, sob a forma de um
grande disco alado. Com tal fúria e vigor atacava esses inimigos que todos
estes perdiam seus sentidos, não podendo nem ver com seus olhos nem ouvir com
seus ouvidos. As assertivas relativas a Hórus contidas no prospecto do Museu
Britânico são tão interessantes nesse sentido que as transcrevemos a seguir:
“Quando Hórus atingiu a maturidade ele se
pôs a caminho para achar Set e travar guerra contra o assassino de seu pai.
Finalmente eles se encontraram e uma luta brutal se seguiu. Embora Set fosse
derrotado, antes de ser por fim arremessado ao solo, conseguiu arrancar o olho
direito de Hórus e guardá-lo. Mesmo após essa luta, Set pôde perseguir Ísis,
estando Hórus impotente para impedi-lo até que Thoth fez Set entregar-lhe o
olho direito de Hórus que ele arrebatara. Thoth então levou o olho a Hórus e o
recolocou em sua face, devolvendo-lhe a visão cuspindo sobre ele. Hórus, a
seguir, procurou o corpo de Osíris a fim de restituir-lhe a vida, e quando o
achou desatou as bandagens para que Osíris pudesse mover seus membros e
ressuscitar. Sob a direção de Thoth, Hórus recitou uma série de fórmulas à
medida que apresentava oferendas a Osíris ...Abraçou Osíris e assim transferiu
a ele seu ka, isto é, sua própria
personalidade e virilidade vivas, e lhe deu seu olho, aquele que Thoth
resgatara de Set e recolocara em sua face. Logo que Osíris comeu o olho de
Hórus... recuperou com isso o completo uso de todas as suas faculdades mentais
que a morte suspendera. Prontamente ergueu-se de seu esquife e se tornou o Senhor dos Mortos e Rei do mundo inferior.”
Marte e Ares são os equivalentes grego e
romano, sendo venerados como os deuses da guerra e das batalhas, prosseguindo
com a idéia essencial de Geburah,
força, vigor e energia.
É relativamente a Tiphareth e aos deuses a ela
associados que desejo me alongar um pouco mais porquanto são eles que mais do
que quaisquer outros concernem à aspiração do mago. Como Tiphareth é a esfera da beleza
e da harmonia, bem como a “casa da alma”, os deuses tradicionalmente
associados a essa Sephira são, de
modo peculiar, simbolizadores e representativos da alma glorificada, ou o Santo Anjo Guardião. Dionísio, Osíris,
Mitra e muitos outros são todos tipos de imortalidade, beleza e equilíbrio.
Maurice Maeterlinck sintetizou esplendidamente toda a posição filosófica a este
respeito. “Dionísio” diz ele, “...é Osíris, Krishna, Buda; ele é todas as
encarnações divinas; é o deus que desce ao homem, ou melhor, manifesta a si
mesmo no homem; ele é morte, temporária e ilusória, e renascimento, real e
imortal; é a união temporária com o divino que não é senão o prelúdio da união
final, o ciclo infindável do eterno tornar-se.” As divindades típicas de Tiphareth, por conseguinte, representam
a alma iluminada, exaltada mediante o sofrimento, aprimorada mediante a provação e ressurgida em glória e
triunfo. Pode-se supor que Osíris seja distintamente representante dessas
divindades rejuvenescentes, e há evidências favoráveis ao fato de desde o
início Osíris ter sido para os egípcios o homem-deus que sofreu e morreu, e
ressuscitou para ser rei do domínio espiritual. Os egípcios acreditavam que
podiam herdar a vida eterna como ele fizera visto que o que fora feito pelos
deuses para ele, fora feito para eles, o que supria a base racional para a
execução do chamado ritual dramático. Celebravam
rituais de maneira a poderem compelir ou persuadir Osíris e os deuses que
haviam produzido sua ressurreição (a
saber, Thoth, “o senhor das palavras divinas, o escriba dos deuses”, Ísis,
que empregava as palavras mágicas que Thoth lhe concedera e Hórus e os demais
deuses que realizaram os ritos que produziram a ressurreição de Osíris) a atuar
a seu favor tal como tinham atuado a favor do deus.
A veneração de Mitra e Dionísio emerge da
mesma raiz básica. Liga-se, também, ao triunfo espiritual do homem-deus e o
retorno do deus-Sol que, como um símbolo da alma aperfeiçoada, entrou na
consciência humana do ser humano, e tendo iluminado a mente e redimido as
trevas de sua vida, torna o espírito aprisionado leve e jubiloso. Krishna,
igualmente, é um símbolo do homem-deus, pois nele espírito e matéria foram
equilibrados, e se convertendo num avatar, a morada terrestre do espírito
universal, ele resumiu numa personalidade humana as qualidades duplas de um
deus, imortal e estático, juntamente com todas as características típicas da
espécie humana.
O Sol é também atribuído a Tiphareth. Assim, Ra – incluindo Tum e
Kephra, o sol poente e da meia-noite – pertence a essa série de deuses. A
concepção do sol era tão santa para o egípcios que eles concederam a Ra os
atributos de luz e vida divinas; ele era a personificação do correto, da
verdade, bondade e, conseqüentemente, o destruidor das trevas, da noite, da
perversidade e do mal. Suas relações com Osíris, que era parte deus, parte
homem e a causa e tipo de imortalidade para a humanidade, eram de imediato
aquelas de um deus, um pai e um igual. Era em Ra que algumas das mais nobres
concepções religiosas dos egípcios se concentravam e de deus solar, o doador do
sustento e da vitalidade, tanto físicos quanto espirituais, aos habitantes da
Terra, ele se tornou identificado a Amon, o poder criador oculto que dera
origem a todo o universo manifesto.
A natureza de Osíris é bem conhecida nas
lendas. Ele ensinou como usar o cereal e a cultivar a uva aos homens, sendo que
nessa última fase é claramente identificado com Dionísio-Baco, o deus da
vitalidade transbordante e dos êxtases para os gregos. Com o tempo Osíris
passou a ser considerado o rei dos mortos e o guia das almas saindo das trevas
da terra para o domínio venturoso onde, conforme sua teologia, as almas
gozariam da visão plena da divindade, sem restrições. Aquele que partiu desta
vida, se a vida fora bem vivida, é de uma maneira mística identificado com
Osíris. Na vida do deus ele também não desempenha papel sem significação.
Dionísio era venerado na Grécia como o poder que produzia folhas, flores e
frutos nas árvores. A vinha, com seus cachos de uvas das quais procedia o vinho
que alegrava os corações dos homens, era seu maior encargo, mas de modo algum o
único. Como deus das árvores e da vinha, ele é uma divindade afável e gentil,
enobrecendo a humanidade e a vida dessa, comprazendo-se na paz e na fartura,
proporcionando riqueza e exuberância aos seus adoradores. Embora na lenda
fustigado pela tempestade, torturado e dilacerado por seus perseguidores, o
deus portador do tirso foge dos inimigos
que o perseguem e se ergue mais uma vez para vida nova e atividade renovada.
Com o nome de Iacos, o irmão ou noivo
de Perséfone, teve sua participação com ela e Deméter nos ritos de Elêusis.
Pode ser interessante salientar de passagem que Perséfone é uma atribuição do Reino, denominado no Zohar a Virgem, a Noiva do Filho que
está em Tiphareth. Foi esse benevolente
jovem Dionísio, a divindade sofredora e transformada, de imediato evanescente e
perpétuo, morrendo e irrompendo novamente para uma nova vida espiritual que foi
a principal divindade dos poetas e místicos da seita chamada órfica, em cujos mistérios a alma e seu destino quando libertada do corpo se tornou
o objeto preponderante.
((ilustr. HATHOR, a Afrodite egípcia))
Um deus similar, expressando a mesma
idéia de equilíbrio espiritual e transformação, um deus que possui
características quase idênticas às de Dionísio, era Mitra, o deus persa da luz,
a luz do corpo e a luz da alma. Tipificava a força brilhante do Sol que,
infalivelmente, conquista dia após dia e ano após ano os poderes das trevas e
seus terrores. Mitra, comumente venerado numa caverna que, originalmente talvez
representando o recesso sob a terra onde se supunha que o sol à noite se
ocultava, passou a significar para os adoradores devotos o abismo da encarnação
dentro do qual a alma necessita descer. E então, como o próprio deus, eles poderiam
ascender, purificados por muitas provas e sofrimentos com glória e exaltação.
A deusa Hathor, bem como Afrodite e
Deméter, estão associadas à Sephira
Netzach, Vitória. Nos remotos tempos do Egito, Hathor era tida como uma
deusa cósmica e acreditava-se terem elas sido, como a deusa-vaca, a
personificação do poder gerador da natureza que se mantinha perpetuamente
concebendo e criando, produzindo e conservando todas as coisas. Ela era a “mãe de seu pai e a filha de seu filho”, o
que de chofre recorda a fórmula tradicional do Tetragrammaton. Parece ter havido muita conexão entre ela e Ísis e
Nuit, a rainha e personificação do espaço. Já mencionamos a lenda segundo a
qual Hórus matava Ísis cuja cabeça é
transformada por Thoth na cabeça de uma
vaca, a cabeça de Hathor. Isso era sugerido para inferir a transformação
evolucionária das energias geradoras cósmicas de Ísis de acima do Abismo para uma esfera mais mundana de
manifestação. Há várias formas que a retratam, a mais freqüente sendo a de uma
vaca. Às vezes, Hathor é representada como uma mulher com um par de cornos
dentro dos quais repousa o disco solar, outras com uma tiara de abutre à frente
da qual está a serpente Uraeus encimada por cinco outras Uraei. Na parte posterior de seu pescoço é usualmente encontrado um
símbolo que significa alegria e prazer, e às suas costas existe também uma
espécie de xairel com um desenho linear, e o conjunto de seu corpo é por vezes
marcado por cruzes, o que pretende provavelmente representar estrelas. Nessa
última retratação, ela indubitavelmente representa Nuit de cujos seios, se diz,
o leite das estrelas flui. Ela representava, como Hathor, não apenas o que era
verdadeiro como também o que era bom, e tudo o que é mais excelente na mulher
como esposa, mãe e filha. Era também a deusa patrona de todos os cantores,
dançarinos e foliões de todos os tipos, das mulheres belas e do amor, dos
artistas e das obras de arte. É nessa associação que ela é comparável com
Afrodite, a dama do amor. Como
equivalente a Deméter, ela significa a fecundidade aparentemente inesgotável, a
geração de plantas e animais sucedendo-se entre si na terra, à terra tendo que
retornar. Era sem dúvida como a deusa fértil da vegetação e agricultura que ela
era venerada, particularmente porque os antigos consideravam o cultivo e o
desenvolvimento como um ato de amor.
Hermes e Anúbis correspondem a Hod,
a Glória. Hermes é um deus intelectual e representa num grau muito inferior as
qualidades de Thoth. Enquanto esse último é uma divindade cósmica e transcendental,
Hermes é um deus terrestre, descrito como inventor da astrologia e da
geometria, da medicina e da botânica, organizador do governo e instaurador da
veneração dos deuses; inventou algarismos e as letra do alfabeto e as artes da
leitura, escrita e oratória em todos seus ramos. Era também encarregado de
conduzir as sombras dos mortos do mundo
superior para o inferior. Aqui ele é associado na idéia com Anúbis ou Anpu, o deus de cabeça de chacal dos
egípcios, havendo também a combinação grega desses dois nomes em Hermanúbis. A cabeça que constituiu o
tipo e símbolo de Anúbis foi a de chacal. Isso parece provar, de acordo com
Budge, que nos tempos primitivos Anúbis era meramente o deus-chacal associado
aos mortos, simplesmente porque o chacal era geralmente visto rondando pelos
túmulos. Mas ele pode ser, adicionalmente, concebido como o deus cinocéfalo. O
cão é vigia e guardião, função na qual Anúbis é retratado no Tuat. Por analogia, representa a razão
no homem, que é também a guardiã da consciência humana, vigiando impressões e
reações relativamente ao mundo exterior. Segundo a tradição, Anúbis foi o deus
que embalsamou o corpo de Osíris e que o envolveu com as faixas de linho feitas
por Ísis. Com base na leitura das várias passagens de O livro dos mortos, fica
evidente que Anúbis era um grande deus no mundo
inferior, sendo que sua posição e importância parecem ter sido tão grandes
quanto as de Osíris. No cena do julgamento no Tuat, Anúbis, o vigia, parece atuar para Osíris, com o qual está
intimamente vinculado, pois compete a ele a tarefa de examinar o fiel da grande
balança e zelar para que o eixo esteja exatamente horizontal.
A deusa Bast ou Pasht, que é a divindade
que corresponde a Yesod, o
Fundamento, é geralmente representada sob a forma de uma mulher com cabeça de
gato. Por vezes, tem também a cabeça de uma leoa encimada por uma serpente,
segurando na mão direita um sistro e na esquerda uma égide encimada pela cabeça
ou de um gato ou de uma leoa. Ela era uma personificação da lua, especialmente
na medida em que Khensu, seu filho, era também um deus lunar. Com a cabeça de
uma leoa, usualmente pintada de verde, simbolizava a luz do sol, mas quando
representada com cabeça de gato, sua ligação com a lua é indiscutível.
Vinculada à esfera do Fundamento*, expressando o aspecto duplo da luz astral, não era apenas Bast, mas
Shu. Mudança e estabilidade são as duas características paradoxais daquela luz, Bast exprimindo o aspecto lunar de
mudança e fluxo perpétuo, a idéia de estabilidade e de firme fundamento das
coisas sendo expressa sob a forma de Shu. Às vezes ele é visto agarrando um
escorpião, uma serpente ou um cetro cuja extremidade superior é a cabeça de um
falcão, e era adorado como o deus do espaço que existia entre a Terra e o céu.
Era ele quem sustentava o céu com suas mãos, uma o suportando no lugar do
nascer do sol, a outra no lugar do pôr-do-sol. Foi identificado com o princípio
vital das coisas, que está de acordo com a teoria implícita da luz
astra,l que é o veículo direto dos cinco pranas ou correntes vitais. Em sua capacidade de sustentador do céu
há um mito interessante. Quando o grande deus Ra governava os deuses e os
homens, a humanidade na Terra começou a proferir palavras de sedição contra
ele, fazendo com que ele se determinasse a destruí-la. Convocando vários deuses
à conferência, por sugestão de Nuit ele incumbiu Hathor da execução da
destruição universal dos homens. Logo depois disso, ele se aborreceu da própria
Terra, e tendo Nuit assumido a forma de uma vaca, Ra sentou-se sobre seu dorso.
Não demorou para que a vaca principiasse a cambalear e tremer devido à elevação
acima da Terra, e assim foi ordenado que Shu a sustentasse e a erguesse no céu.
Quando Shu tomou sua posição sob a vaca e sustinha seu corpo, os céus acima e a
Terra abaixo vieram a ser e as quatro pernas da vaca se tornaram os quatro
suportes dos céus, os quatro pontos cardeais. E assim teve o deus Seb
existência independente.
* Isto é, Yesod.
(N. T.)
Seb era o deus da terra e a terra formava
seu corpo e era chamada de Casa de Seb,
tal como o ar era chamado de Casa de Shu
e os céus de Casa de Ra. Seb é
representado como um homem que usa a coroa Ateph e às vezes a forma de um ganso é
acrescida. Correspondendo a Malkuth, o Reino, Seb representa a
fertilidade da superfície da terra e na mitologia do mundo inferior ele
desempenhava um papel proeminente, retendo aqueles entre os mortos que não eram
capazes de passar a Tuat. A deusa grega da terra similar ao egípcio Seb era Perséfone,
conhecida entre os romanos pelo nome de Prosérpina.
A história de sua violação por Hades e
seu aprisionamento forçado sob a terra é demasiado conhecida para que
precisemos mencioná-la aqui. Alguns autores a interpretam como a extinção no
corpo e o subseqüente renascimento na alma, enquanto que outros vêem em
Prosérpina um simples mito do culto à vegetação, a deusa sendo o grão empregado
como semente que permanece oculto no solo parte do ano, e quando ele retorna à
sua mãe Deméter, é como o cereal nascendo da terra, o sustento e alimento do
homem e dos animais.
Embora com isso devamos concluir o exame
dos deuses, na medida em que é possível abordar esse assunto aqui, nunca é
demais repetir que essa matéria sumamente complexa deve ser muito bem estudada
em seus vários aspectos e vinculações filosóficas antes de se empreender o
trabalho prático de invocação. Antes que possa haver qualquer grau de sucesso
efetivo na invocação e ao estabelecer firmemente uma união e comunhão com os
deuses, deverá o teurgo estar bem familiarizado, ao menos teoricamente, com a
natureza dos deuses, que princípios ou funções eles desempenham na economia
natural e universal e o que eles são realmente. Todas as lendas e mitos dos
povos antigos vinculadas aos deuses revelam um relato valioso a respeito da
verdadeira natureza deles, se os examinarmos com um pouco de discernimento
acompanhado de uma compreensão dos fundamentos que formam a base da Cabala. O
teurgo deve se esforçar para compreender na medida do possível porque se adotam
as formas de animais como máscaras dos deuses, e visto que existem muitas
interpretações a respeito, deverá ser feita uma síntese daquelas que parecem as
mais prováveis e mais sensatas. E devo acrescentar a título de sugestão que um
estudo das representações pictóricas dos deuses se mostrará bastante
recompensador. É aconselhável que o aprendizinteressado não deixe de visitar as
galerias de egiptologia do Museu Britânico ou qualquer outro museu,
familiarizando-se inteiramente com as formas artísticas convencionais pelas quais os deuses são
representados.
SEGUNDA PARTE
“SENTADO EM
SUA CADEIRA VOCÊ PODE VIAJAR MAIS DO QUE COLOMBO JAMAIS O FEZ E PARA MUNDOS
MAIS NOBRES DO QUE AQUELES QUE OS OLHOS DELE CONTEMPLARAM. NÃO ESTÁ CANSADO DE
SUPERFÍCIES? VENHA COMIGO E NOS BANHAREMOS NA FONTE DA JUVENTUDE. POSSO
INDICAR-LHE O CAMINHO PARA O ELDORADO.”
Candle of Vision
- A. E.
CAPÍTULO VI
O propósito e a função da magia devem
agora estar absolutamente claros. Trata-se de uma ciência espiritual. É um
sistema técnico de treinamento que tem um objetivo mais divino do que mundano e
terrestre. Se alguns observadores casuais pensam que o teurgo se ocupa
exclusivamente de coisas objetivas, isso ocorre apenas porque é através delas e
dos nôumenos que simbolizam que ele é capaz de alcançar seus fins. O
equipamento utilizado pelo mago não é o único recurso empregado por ele e nem o
único instrumento para os seus fins, embora o aspecto invisível de suas
operações não pudesse jamais ser compreendido pelo profano sem elucidação.
Todas as coisas, físicas e mentais, tinham necessariamente que entrar em seu
trabalho, e não foi com a finalidade de ludibriar seja a si mesmo seja aos seus
adeptos que o mago se cercou com o que pode ser considerado um “aparato de
palco” extremamente impressionante de bastões, taças, incensos, perfumes,
sinais e símbolos estranhos, sinos e sonoras invocações bárbaras. Foi se
referindo aos símbolos e sigillae que
Jâmblico escreveu que “...eles (teurgos), imitando a natureza do universo e a
energia produtiva dos deuses, exibem certas imagens mediante símbolos de
intelecções místicas, ocultas e invisíveis, tal como a natureza... expressa
razões invisíveis através de formas invisíveis. ...Conseqüentemente, os
egípcios, percebendo que todas as naturezas superiores se regozijam com a
imitação dos seres inferiores em relação a eles, e assim desejando acumular de
bem os seres inferiores através da maior imitação possível das naturezas
superiores, muito apropriadamente demonstram um tipo de teologização adaptado à
doutrina mística ocultada nos símbolos”. Isso, entretanto, não consegue de modo
algum responder adequada e satisfatoriamente à pergunta ordinária, a saber, por
que o mago é equipado de tais “adereços” como o manto, o sino e o círculo,
todos eles inteiramente incompreensíveis para o indivíduo médio, um tanto
inconsistentes e com grande ressaibo de charlatanismo? Esse parecer é, claro
está, completamente incorreto. Com efeito, seria tão errôneo e tão
injustificável quanto acusar um físico de charlatanice porque em seu laboratório
possui diversos microscópios de diferentes capacidades, providos de mecanismos,
tubos e lâminas, e porque tem sobre sua escrivaninha um monte de papéis
contendo fórmulas físicas e matemáticas incompreensíveis. Estes são apenas
meios pelos quais o físico passa a compreender germes, bacilos, organismos
microscópicos e assim por diante no estudo do qual se ocupou. Os instrumentos
mágicos são, do mesmo modo, os meios – igualmente incompreensíveis para o leigo
– pelos quais o mago se capacita a compreender a si mesmo e comungar com as
partes invisíveis da natureza, nem por isso menos reais. Já definimos a magia
como a ciência que tem como objetivo próprio o treinamento e fortalecimento da vontade e da imaginação.
Mais do que qualquer outra coisa, é o pensamento e vontade o que realmente
conta na magia, e a hipótese mágica é que seja pelo uso dos instrumentos da
arte e os sigillae com os quais o
teurgo se cerca em seu trabalho cerimonial que essa ampliação das faculdades
criativas é obtida. Éliphas Lévi é muito preciso quanto a esse ponto e observa
que “...cerimônias, vestes, perfumes, caracteres e figuras sendo necessários
como dissemos para empregar a imaginação na educação da vontade, o sucesso das
operações mágicas depende da fiel observância de todo rito”. E também,
poder-se-ia acrescentar, da presença e uso preciso de todos os sigillae corretos. Hieráticos,
sugestivos e bastante impressivos, o importante acerca desses instrumentos e
vestes, sinais e símbolos, é que se trata de símbolos que representam ou uma
força oculta inerente ao homem, ou uma essência ou princípio que se obtém como
uma força móvel inteligente no universo. Sua intenção primária é promover uma
corrente automática de pensamento harmonioso ou um ímpeto irresistível na
imaginação que exaltarão o ser do mago na direção disposta pelo caráter da
cerimônia e pela natureza individual dos símbolos.
Em síntese, o ritual mágico é um processo
mnemônico arranjado de modo a resultar no deliberado regozijo da vontade e na
exaltação da imaginação, sendo sua finalidade a purificação da personalidade e
o atingimento de um estado espiritual de consciência no qual o ego se une ou
com seu próprio eu superior ou com um deus. Esse objetivo único de qualquer cerimônia particular é
constantemente indicado por cada ato, palavra e pensamento. Mesmo os sigillae são diferentes para cada
cerimônia de sorte a indicar seu propósito único, e um tipo de símbolo é
aplicável somente à invocação de uma espécie de essência universal. “Não há nada...”, acreditava Jâmblico “que no mais ínfimo grau esteja adaptado aos
deuses para o qual os deuses não estejam imediatamente presentes e com o que
não estejam conjugados.” Para o assalto da Cidade
Santa todo sentido e toda faculdade são deliberadamente mobilizados e toda
a alma individual do operador tem de tomar parte na ação. Cada uma das várias
fumigações, cada mínimo detalhe do banimento, invocação e circumpercurso é, de
fato, para servir de lembrete do propósito único que exclusivamente existe para
o mago, um meio tanto de concentração de seus poderes como de exaltação. Quando
símbolo após símbolo afetaram sua consciência, quando emoção após emoção foram
despertadas para estimular a imaginação do mago, então advém o supremo momento
orgiástico. Todo nervo do corpo, todo canal de força da mente e da alma são
estirados num avassalador espasmo de felicidade, um transbordamento estático da
vontade e a totalidade do ser na direção
predeterminada.
Toda impressão, por meio do método
cabalístico de associação de idéias, é tornada o ponto de partida de uma série
de pensamentos conectados resultando na suprema idéia da invocação. Quando,
durante uma cerimônia, o teurgo permanece no interior de um octágono, os nomes
em torno do círculo, as oito velas ardendo vivamente fora, a predominância da
cor laranja, a elevação do incenso estoraque numa coluna delgada de névoa a
partir do incensório, tudo sugerirá o significado de Mercúrio e Hermes à sua
mente. O misticismo de ordinário considera os sentidos como barreiras à luz da
alma e que a presença da luz tem sua manifestação impedida devido à influência
sedutora e à turbulência dos sentidos e da mente. Na magia, contudo,
considera-se que os sentidos, quando controlados, são os portais dourados
através dos quais o Rei da Glória pode entrar. Na operação
invocatória, todo sentido e toda faculdade têm que participar. “O entendimento
precisa ser formulado por sinais e resumido por caracteres ou pentáculos. A vontade tem que ser determinada por
palavras e estas por atos. A idéia mágica tem que ser traduzida em luz para os
olhos, harmonia para os ouvidos, perfumes para o olfato, sabores para a boca e
formas para o tato.” Essa citação de Éliphas Lévi exprime adequadamente de que
maneira o homem integral tem que participar dos ritos teúrgicos. Visto que o ritualista
egípcio proferia que não há nenhuma
parte dele que não seja dos deuses, a utilização dos sentidos e poderes da
mente num ritual bem ordenado constitui o método ideal de invocação dos deuses.
Toda parte individual do homem, cada sentido e poder precisam ser trazidos à
esfera do rito em que tomam parte. É nossa preocupação, normalmente, com as
perpétuas exigências independentes do corpo, da mente e das emoções que nos
cegam para a presença desse princípio interior, a única realidade da vida
interior. Daí um dos requisitos do ritual ser
ele ou ocupar plenamente ou
tranqüilizar essas porções particulares do ser de alguém, de sorte que a união
transcendental com o daimon não sofra
interferência. O sistema elaborado de formas de divindade, vibração de nomes
divinos, gestos e sinais, assinaturas de espíritos, a preeminência de símbolos
geométricos e perfumes penetrantes, além de seu propósito ostensivo de invocar
a idéia desejada à manifestação, fornecem esse motivo auxiliar. Ocupar
plenamente a atenção de cada um dos princípios inferiores ou vivificá-los é uma
das funções do ritual, deixando a alma livre para ser exaltada e fazer seu
caminho voando até o fogo celestial, onde finalmente é consumida por completo
para renascer em felicidade e espiritualidade. Num certo sentido, o efeito do
ritual e da cerimônia é manter os sentidos e veículos comprometidos cada um com
sua tarefa específica, sem distrair a concentração superior do mago. E,
ademais, ele os separa ao atribuir uma tarefa definida a cada um. Assim, quando
o momento da exaltação chega, quando o casamento místico é consumado, o ego é
despido, despojado inteiramente de todos os seus invólucros, deixado livre para
virar-se para a direção que lhe aprouver. Ao mesmo tempo, a mais importante
função da cerimônia é realizada, tendo sido promovida no coração do operador uma intoxicação tão intensa a
ponto de servir como o ponto preliminar para o êxtase da união com o deus ou anjo.
De um outro ponto de vista, o efeito do
ritual e do aparato é criar de maneira plena na imaginação do mago através dos
canais dos sentidos uma idéia que – em virtude de sua realidade, iluminação e poder supremos quando
evocada – tenha sido chamada de deus ou
espírito. Essa é a posição subjetiva
que, por antecipação, foi esboçada numa
página anterior. “Todos os espíritos e, por assim dizer, as essências de todas
as coisas, jazem ocultos em nós e nascem e são gerados somente pela atuação,
poder (vontade) e fantasia* (imaginação) do microcosmo**.” Barrett, nessa
sentença citada, argumenta que se pode razoavelmente supor que os deuses e as
hierarquias de espíritos sejam simplesmente facetas previamente desconhecidas de nossa própria consciência. A
sua evocação ou invocação pelo mago não são
certamente incomparáveis a um estímulo de alguma parte da mente ou imaginação,
resultando em êxtase, inspiração e expansão da consciência. A observação e
experiência de teurgos, levadas a cabo num longo período de tempo, mostraram
mais ou menos que entre certas palavras, números, gestos, perfumes e formatos
que em si não são particularmente significativos, ocorre uma relação natural
peculiar. A imaginação é um agente criador poderoso, e quando estimulada de
várias maneiras suas criações assumem uma aparência da mais elevada realidade.
Qualquer idéia ou pensamento rudimentar ou latente na imaginação – ou como os
teurgos preferem, espírito – pode ser
convocada ou criada dentro da consciência individual pelo uso e combinação
daquelas coisas que lhe são harmoniosas, expressando fases particulares de sua
natureza ou simpatias com sua natureza. Pouco importa se para descrevê-lo
empreguemos os arcaísmos dos filósofos medievais, a linguagem de laboratório do
psicanalista ou o mundo de sonho e fantasia do poeta. Podemos chamá-lo de
liberação do inconsciente, de restauração do crepúsculo da memória da raça, ou
podemos ousar ser suficientemente corajosos para usar a retumbante palavra
antiquada “invocação” ou inspiração. As palavras não são nada, o fato é tudo.
Tal como as letras “c, ã, o”, que em si mesmas e isoladas umas das outras
carecem de qualquer importância em particular, quando combinadas exprimem a
idéia de cão, do mesmo modo palavras
mágicas, incensos, pentáculos e o estímulo da vontade podem produzir dentro da imaginação uma idéia de grande
poder. Na verdade, tão poderosa essa criação pode se revelar que é possível que
confira inspiração, iluminação e reaja para grande proveito para a mente
humana.
* , imaginação em grego. (N. T.)
** Magus, de Francis Barrett.
Quero agora considerar os vários
acessórios usados. Perfumes e incensos sempre foram utilizados nos ritos
mágicos e os antigos taumaturgos fizeram
um estudo especial da reação física e moral causada pelos distintos odores. Seu
emprego no cerimonial tem tripla finalidade. Em algumas operações por vezes é
necessário suprir um veículo ou base materiais ao espírito que se manifesta.
Quantidades dos incensos apropriados são queimadas, de modo que a partir das
densas partículas que flutuam como uma pesada nuvem esfumaçada na atmosfera uma
base ou corpo físicos possam ser construídos pelo espírito evocado para serem
usados como veículo temporário. Ademais, perfumes são oferecidos como oferendas
aromáticas ou sacrifício ao próprio espírito ou anjo, variando o incenso em
função de cada classe de inteligência. Benjoim e sândalo são empregados para
espíritos venusianos, flor de noz-moscada e estoraque para os mercurianos,
enxofre para os saturnianos, gálbano e canela para as forças solares, e assim
por diante. Em terceiro lugar, há o bastante importante efeito intoxicante dos
incensos potentes e penetrantes na própria consciência, um incenso em separado
sendo indicado para acompanhar a invocação de cada divindade. Existe ainda uma
outra interpretação do uso dos incensos. Cada letra do alfabeto hebraico lhe
atribuiu um grande número de correspondências, envolvendo espíritos,
inteligências, cores, gemas, idéias e os próprios incensos. Tomando-se as letras
no nome de um espírito e consultando-se as autoridades adequadas, um composto
de incensos poderá ser confeccionado, o qual exprimirá através do sentido do
olfato o nome do espírito. Tão-somente a partir desse composto de perfumes
poderá o espírito apropriado ser sugerido na imaginação e convocado pelos ritos
adequados. Resta pouca dúvida a respeito da sugestão essencial desses perfumes,
visto que mesmo para indivíduos comuns alguns incensos são decididamente
sedutores e excitantes, como é o caso do almíscar e do patchuli, havendo ainda
outros sobremaneira fragrantes e generosos, e outros que possuem efeito
sedativo e tranqüilizante.
Quanto ao som, seu poder formativo é mais
ou menos bem conhecido e será abordado um pouco mais detalhadamente numa página
posterior em conexão com os chamados “nomes bárbaros de evocação”. De momento
basta dizer que o som está vinculado à lei da vibração, cujas forças são
suficientemente poderosas para desintegrar ou construir novamente qualquer
forma para a qual se dirija a vibração. O egiptólogo Sir E. A. Wallis Budge observou que os sacerdotes egípcios
conferiam a maior importância às palavras pronunciadas sob certas condições. Na
verdade, toda a eficácia das invocações teúrgicas parece ter dependido da
maneira e do tom de voz nos quais as palavras eram proferidas. Invocação, diz
Jâmblico, “é a chave divina que abre
aos homens o santuário dos deuses; nos acostuma aos rios esplêndidos de luz
superior; e num curto período os dispõe ao abraço e contato inefáveis dos
deuses; e não desiste até que nos erga ao topo de tudo*.”
* Os Mistérios, Jâmblico.
O sacramento do sentido do paladar
constitui um problema mais complexo. Sua base racional como eucaristia corresponde simplesmente a
isso. Uma substância é cerimonialmente consagrada e nomeada segundo um
princípio espiritual que mantém com ela uma especial afinidade. Uma hóstia de
trigo teria estreita afinidade com Ceres ou Perséfone; o vinho com Baco e
Dionísio. Algumas substâncias se harmonizarão mais com inteligências jupiterianas
ou mercurianas do que outras. O estudo do alfabeto mágico capacitará o
aprendiza certificar-se do que deve ser usado. Assim nomeada, a substância é
carregada mediante a invocação daquela presença divina, e sendo consumida se
prevê que através da assimilação dos elementos o deus ou a essência divina
invocada invariavelmente encarna no ser do mago por meio da substância
consagrada. Esta encarnação é uma outra forma da união do teurgo com o deus,
união que segundo a definição das autoridades antigas é um dos aspectos mais
importantes da magia. Essa espécie particular de união, se continuada por um
certo período de tempo, auxilia a comunhão com as essências divinas, à medida
que os veículos se tornam mais refinado e mais altamente sensíveis à presença
do deus.
No que concerne ao sentido da visão, será
necessário abordar mais minuciosamente os diferentes símbolos usados. Alguns
desses símbolos são, naturalmente, comuns a toda cerimônia, enquanto que outros
dizem respeito estritamente a uma cerimônia particular. Por exemplo, a espada é
uma arma marcial à qual se atribui um papel numa operação devotada à invocação
de Hórus e Marte. Numa cerimônia preparada, digamos, para a invocação de
Afrodite ou Ísis, a espada nada teria com comum e estaria em total desarmonia
com a natureza dessas deusas, de modo que todo o procedimento daria em nada. Um
acessório como a rosa, que expressa amor e a declaração da natureza de ser como graça a filha de
Deus, seria sumamente apropriado numa
cerimônia em que o teurgo deseja desenvolver suas emoções mais elevadas. Mas na
operação para invocar a Senhora Maat, a rainha da verdade, a rosa não teria lugar algum.
O principal símbolo comum a toda operação
é o círculo mágico. Por definição,
essa figura encerra um espaço confinante, uma limitação, separando aquilo que
está dentro daquilo que está fora. Pelo uso do círculo, o mago afirma que no
interior dessa limitação auto-imposta ele confina seus esforços; que ele se
limita à consecução de um fim específico e que não está mais num labirinto de
ilusão e mudança perpétua como um viandante cego sem meta, objetivo ou
aspiração. O círculo, além de ser, como é evidente, o símbolo do infinito,
tipifica também a esfera astral do mago que, num certo sentido, é a consciência
individual, seu universo, fora do qual nada pode existir. Nesse sentido, a
título de recurso de explicação, a teoria do idealismo subjetivo se mostra
novamente conveniente. O círculo no
qual o mago está encerrado representa seu cosmos particular; a conquista
auto-inaugurada desse universo faz parte do processo de consecução de completa
autoconsciência. Já que o cosmos é uma criação do ego transcendental, à medida que um mago amplia o alcance de seu
universo, familiarizando-se com sua estrutura e diversidade, muito mais se aproximará
ele da auto-realização. De um outro ponto de vista, o círculo pode ser
considerado o Ain-Sof e o ponto central do círculo o eu, cuja função é expandir a si mesmo
para incluir a circunferência e se tornar, também, o infinito.
Em torno desse círculo são inscritos
nomes divinos. Muitos deles serão diferentes em função da natureza de cada
cerimônia e é com o poder e influência ingênitos inerentes aos nomes que o mago
conta como uma proteção contra os viciosos demônios externos – os pensamentos
hostis de seu próprio ego. A menção dos nomes de guarda em torno do círculo
levanta a questão do processo de proteção do círculo astral interno, o universo
da consciência, e como uma proteção adequada para a esfera astral bem como para
o círculo externo pode ser obtida. Não basta para o mago que pinte os nomes
divinos na circunferência do círculo sobre o chão de seu templo; isto não passa
de uma parte do processo efetivo e um signo visível externo de uma graça
espiritual interior. Para que se produza um círculo
astral que será tão inexpugnável quanto uma fortaleza de aço da qual o
círculo pintado será um digno símbolo, banimentos deverão ser executados
durante meses várias vezes por dia. A consagração e invocação implícitas no ritual de banimento devem ser insistentemente
realizadas dias após dia, e uma sutil substância espiritual proveniente de
planos mais elevados infundida na esfera astral, tornando-a elástica e
rutilante com coruscações de luz. Essa aura agudamente resplandecente constitui
o círculo mágico real do qual o
círculo visível no chão do templo é apenas um símbolo terreno.
Não seria inoportuno tecer mais algumas
observações sobre o círculo mágico com
o fito de esclarecer a posição real da magia contra o opróbrio lançado por
William Q. Judge – um dos fundadores da Sociedade Teosófica com Madame Blavatsky em 1875 – em suas Notas acerca do Bhagavad Gita. William
Q. Judge acalenta a ilusão nesse trabalho, como o fazem tantos outros
escritores alhures, de que todas as operações mágicas são exclusivamente
devotadas à evocação de elementais. Que essa é uma hipótese errônea me
esforçarei neste livro para mostrar. Não é em absoluto incogitável, entretanto,
que Judge tenha dado essa interpretação com a finalidade de conter os irmãos
mais fracos, afastá-los do perigo e da intromissão em coisas que estão além
deles. Judge exprime a crença de que o uso do círculo como um dispositivo de proteção para impedir o ingresso de
demônios e outras entidades astrais se deve ao medo deles, e ele conclui
acertadamente que o medo é o produto da ignorância, que muito corretamente ele
deplora. Teoricamente, essas observações são todas excelentes e plausíveis. A
ignorância dá origem, de fato, ao medo e se encontra na raiz do fracasso e de
uma larga quantidade de problemas. Na vida do dia-a-dia, contudo, censuramos e
proibimos o uso da profilaxia cirúrgica e dos dispositivos de desinfecção
alegando como razão que eles têm suas raízes no medo da infecção? Devem as
calçadas e os passeios serem abolidos e eliminados de nossas ruas porque são
eloqüentes lembretes e expressões de nosso pavor com relação aos acidentes
automobilísticos? Na realidade, todo o argumento nesse sentido é um absurdo.
Num caso ou noutro, ele encerra uma total falta de compreensão da natureza, propósito e função do círculo.
Quando se prevê o perigo a partir de
qualquer fonte, naturalmente tomam-se medidas que se acha que o evitarão,
estando além da questão todas as idéias de medo e ignorância, o que constitui a
razão da existência da humanidade sobre a Terra atualmente. Se, por exemplo,
estou envolvido numa cerimônia que tem por objeto a invocação de meu Santo Anjo
Guardião, deverei eu permanecer satisfeito por ter minha mente, minha alma e a
esfera de operação em geral invadida por uma hoste de entidades abjetas, os
mais baixos habitantes do plano astral que, sem dúvida, seriam atraídos pelas
influências magnéticas que emanam de meu círculo? Agir assim arruinaria todos
os meus esforços, condenando de antemão a operação, se executada
cerimonialmente, a um fracasso sinistro. E como se não bastasse, a obsessão
poderia ser o resultado, estando-se muito distante do propósito original do
trabalho. A função do círculo é simplesmente estabelecer um limite espacial
dentro do qual o trabalho espiritual possa proceder sem interferências e sem o
medo da intrusão de forças demoníacas e estranhas. De qualquer modo, ingressar
numa carreira de mago com medo covarde no coração é simplesmente atrair
problemas. E há geralmente problemas suficientes ao longo de nossa vida normal
sem que tenhamos que assumir o heroísmo de pedir mais.
((ilustr. UM CÍRCULO MÁGICO))
Indicando a natureza do trabalho, dentro
do círculo é geralmente inscrita uma outra figura geométrica, como um quadrado,
um octágono, uma cruz-tao ou um
triângulo. Um figura de cinco pontas denotará uma operação marcial e representa
o império da vontade sobre os
elementos. Um octágono indicará trabalho cerimonial de
uma natureza mercuriana, já que o oito é o número de Hod,
a Sephira à qual Mercúrio é atribuído.
Erigido no interior dessa figura, como o fundamento de todo o trabalho do mago,
o símbolo da vontade inferior, está o altar
sobre o qual estão arrumados os instrumentos mágicos a serem empregados. É o
centro fundamental do trabalho do mago, o pivô ao qual ele retorna
repetidamente depois do circumpercurso. Esse altar deve ser construído de tal
maneira que sua forma e tamanho e os próprios materiais de que é construído
estejam todos de acordo com os princípios fundamentais da Cabala, servindo
assim para lembrar o mago do trabalho em pauta. O cedro, por exemplo, se
empregado na construção do altar,
produziria uma associação imaginativa com Júpiter, enquanto que o carvalho é
uma atribuição de Marte. A madeira do loureiro ou a acácia, ambas atribuídas a Tiphareth, se harmonizariam, entretanto,
com qualquer tipo de operação na medida em que Tiphareth e suas correspondências simbolizam harmonia e equilíbrio.
Este altar deve ser feito de tal maneira que possa atuar como um armário no
interior do qual todos os instrumentos possam ser conservados e guardados com
segurança. Relativamente a esta regra geral, há, contudo, uma exceção. A
lâmpada tem sempre que estar suspensa sobre a cabeça do teurgo, não devendo
jamais ser mantida dentro do armário do altar. Em todo sistema ela simboliza o
brilho não ofuscado do Eu superior, o
Santo Anjo Guardião a cujo conhecimento e
conversação o teurgo aspira tão ardentemente. Sempre que essa lâmpada
estiver brilhando, iluminando o trabalho mágico, a operação manterá o selo
imortal da legitimidade e a permanente sanção e aprovação, por assim dizer, do
Espírito Santo. Ademais, o azeite consumido por essa lâmpada é azeite de oliva,
sagrado a Minerva, a deusa da sabedoria.
Essas armas, as chamadas armas
elementares, são arrumadas no topo do altar antes da operação. Consistem do bastão, da espada ou adaga, da taça e
do pantáculo, representando as letras
do Tetragrammaton e os quatro
elementos dos quais toda a gama de heterogeneidade do cosmos foi constituída. O
bastão é atribuído ao elemento fogo; a taça à água, enquanto que a espada é
atribuída ao ar, o pantáculo simbolizando a fixidez e a inércia da terra. Não
há arma para representação do quinto elemento de coroamento, que é o Espírito ou Akasha,
pois esse é invisível e sua cor tátvica é
negro ou índigo.
Há uma série de correspondências que
podem se revelar interessantes para o mago. Cada um dos deuses é caracterizado
por alguma arma ou símbolo particular que expressa mais clara e perfeitamente
do que qualquer outra coisa sua natureza essencial. Assim, quando o mago brande
o bastão, deve-se conceber que ele assume para si a autoridade e sabedoria de
Tahuti ante o conselho de deuses cósmicos. Com o cetro ele anuncia sua relação
com Maat, a Senhora da Verdade e
Soberania, enquanto o mangual ou açoite denota sua autoridade e
auto-sacrifício associando-o de imediato a Osíris.
O bastão
é a vontade, representando a sabedoria e a
presença espiritual do eu criador, Chiah, devendo ser reto e poderoso, uma
figura digna de sua força divina.
Passiva e receptiva, a taça ou cálice é
um símbolo verdadeiro do Neschamah do
mago, a intuição e compreensão que estão sempre abertas no aguardo do rocio
superior que diariamente desce, de acordo com O livro do esplendor, das regiões mais elevadas para aquele de alma
pura. No cerimonial, a taça é utilizada raramente, e nesse caso somente nas
invocações mais elevadas para conter as libações. Nas evocações a taça não desempenha papel algum.
A espada é arma branca, dura e afiada, e
perfurante como o ar que tudo permeia e penetra, sempre num estado de fluxo e
movimento perpétuos. Por esse símbolo entende-se Ruach, ou a mente, a qual, quando sem treino é volátil e se
acha num estado de contínuo movimento,
sem estabilidade ou fácil concentração. Visto que se trata de um instrumento de
corte, usado para análise e dissecação,
o banimento da magia cerimonial é sua função primordial, não devendo jamais ser
empregada em trabalhos que têm como clímax a invocação do mais elevado.
Arredondado, inerte e construído de cera,
um símbolo adequado da terra, plástico e aguardando o cultivo pela
inteligência, o pantáculo é um sinal
do corpo, o templo do Espírito Santo, na iminência de
receber mediante os ritos teúrgicos e telésticos o influxo do espírito divino.
Um pantáculo, de acordo com Lévi, é um caractere sintético que resume o dogma
mágico total em uma de suas fases especiais. É assim a expressão real de um
pensamento completo e ato da vontade; é a assinatura de uma mente.
O triângulo
da arte no qual o espírito evocado é conjurado à manifestação visível é, em
si mesmo, um símbolo filosófico perfeito de manifestação. Representando as
primeiras manifestações cósmicas ou as três Sephiroth
maiores dos mundos superiores, o
triângulo é a representação ideal da geração, da manifestação em existência
coerente tangível daquilo que anteriormente era pensamento, invisível e
metafísico. Tal como a primeira tríade representa a primeira manifestação
completa do círculo de
Ain Sof, do mesmo modo em
magia o triângulo é responsável pela chamada à luz do dia dos poderes da
escuridão e da noite. “ Há três que dão testemunho sobre a Terra”, e esses três
são as pontas do triângulo, limitadas pelos três grandes nomes de Deus. Do círculo da consciência, que é o universo
do mago, uma idéia partitiva e especial é convocada à manifestação no interior
do triângulo.
O manto usado pelo teurgo representa sua
glória interior ocultada. Como no budismo, o manto amarelo usado pelo bhikku simboliza o esplendor dourado de
seu corpo solar interior, tornado glorioso por meio do despertar dos poderes
superiores, o mesmo ocorrendo com o manto em relação ao mago. A cor deste manto
variará dependendo do tipo de operação, vermelha para o trabalho marcial, azul
para o trabalho jupiteriano e amarela ou dourada para operações solares. Os
outros símbolos empregados em magia poderão agora ser facilmente desenvolvidos
pelo leitor.
Com referência ao bastão, embora muitos
magos, inclusive Abramelin, aconselhem que deva ser um instrumento
razoavelmente longo, Éliphas Lévi observa que não deve exceder o comprimento do
braço do operador e ser feito de madeira de amendoeira ou aveleira, uma única
fiada do melhor arame de aço
atravessando seu centro de extremidade a extremidade. Alguns magos colocam
símbolos no ápice desse báculo. A cabeça da Íbis ocasionalmente empregada se
refere a Tahuti, o Senhor da Sabedoria e patrono da magia. Um dos melhores
símbolos para um bastão é um forcado trino de ouro que representa a letra
hebraica Shin, cuja significação é aquela do Espírito Santo dos deuses.
Outro símbolo é o lótus, o qual, encimando o bastão, indica a regeneração e o
renascimento que o mago busca realizar. Neste caso, o eixo é pintado de duas
cores, a parte inferior de preto e a superior de branco. Bastante similar no
que implica ao bastão do lótus é aquele coroado por uma fênix, o símbolo também
da regeneração através do fogo. Considerando-se que o bastão seja o símbolo da
vontade criadora, sua construção deve ser acompanhada por um distintivo
exercício dessa vontade, residindo nesta idéia a base racional de muitas das
aparentemente absurdas e artificiais prescrições apresentadas pelos teurgos em
conexão com a aquisição de convenientes armas mágicas. De maneira superficial e
à primeira vista, pode parecer que o distúrbio relacionado a esses instrumentos
seja grosseiro exagero e por demais pueril. Mas se essa opinião for acatada, a
idéia subjacente e essencial dessas instruções terá que ser descurada. Se, por
exemplo, as orientações de Lévi relativamente ao bastão tiverem que ser seguidas,
então esse instrumento deveria ser confeccionado de um galho perfeitamente reto da amendoeira ou
aveleira, galho este cortado da árvore sem entalhamento e sem hesitação de um
só golpe com uma faca afiada antes do nascer do sol e na estação em que a
árvore estiver prestes a florescer. O galho deverá ser submetido a um
meticuloso procedimento de preparação, sendo despojado de suas folhas e
brotos, a casca removida, as
extremidades aparadas cuidadosamente e os nós aplainados. Seguem-se a isto
vários outros procedimentos significativos que podem ser confirmados pela
consulta de Dogma e Ritual de Alta Magia.
O desenvolvimento da vontade está
subjacente a todos esses procedimentos. O mago que se incomodou a ponto de se
levantar duas ou três vezes à meia-noite por seu bastão, negando-se repouso e
sono, terá, pelo próprio fato de assim ter agido, se beneficiado
consideravelmente no que diz respeito à vontade.
Num tal exemplo, o bastão realmente será um símbolo dinâmico da vontade criadora, e são estes símbolos e
instrumentos que são necessários em magia. “O camponês que cada manhã se
levanta às duas ou três horas e caminha para longe de casa para colher um ramo
da mesma planta antes do nascer do sol, pode realizar inúmeros prodígios
simplesmente portando essa planta consigo, pois ela se tornará tudo que ele
quer que ela seja no interesse dos desejos dele*.”
* Dogma e ritual de Alta Magia, Éliphas
Lévi.
Procedimentos similares aos mencionados
acima no exemplo do bastão devem acompanhar a construção das outras armas
elementares porquanto elas têm que ser a corporificação visível da própria
condição de alma e mente do mago, sem o que não produzem efeito como símbolos
taumatúrgicos. Se a mente do mago, por exemplo, não for perspicaz e analítica,
e se essa qualidade não contribuir na confecção da espada, como os espíritos
elementais e os demônios de face canina obedecerão a suas ordens para saírem do
círculo de invocação? O cálice, também, como o símbolo da intuição bem como da
imaginação divina, deve, do mesmo modo, ser confeccionado de tal sorte e
cercado de tais elevados pensamentos e proezas a ponto de corporificar alguma
idéia intuicional, ou ostentando no seu exterior um desenho ou palavra de
suprema significação, ou exemplificando pelo formato da taça tão-somente uma
idéia divina. Compete a cada leitor decidir de que maneira os outros
instrumentos portarão o selo da faculdade ou princípio espiritual que estão
destinados a representar.
– - -
Visto que ocorre freqüentemente a alusão
ao fato de que as duas faculdades principalmente empregadas na magia são a vontade e a imaginação, algumas páginas precisam ser devotadas ao exame dessas,
apresentando-se os pareceres de teurgos juntamente com algumas sugestões úteis.
Um dos mais elevados poderes de que dispomos, um poder tão maravilhosamente
criativo que chega a ser indescritível e inexprimível, é a imaginação. É, postula Jâmblico, “superior à toda a natureza e a
geração, através dele sendo nós capazes de nos unirmos aos deuses, de
transcender a ordem mundana e de participar da vida eterna e da energia dos
deuses supercelestiais. Mediante esse princípio, portanto, somos capazes de
liberar a nós mesmos do destino”. E, no entanto, a maioria das pessoas pensa
que essa faculdade é idêntica à fantasia e ao devaneio, sendo que qualquer
valor definido e consistente que possa possuir é negado. Dificilmente se
poderia cometer erro maior. Como a própria palavra indica, trata-se de uma
faculdade produtora de imagens, um poder criador de imagens que quando
desenvolvido pode se mostrar de máxima importância como auxiliar da alma em sua
jornada de avanço. O filósofo cético Hume se refere a ela como uma espécie de
faculdade mágica da alma que é sempre perfeita no gênio, sendo propriamente o
que chamamos de gênio mesmo. Mesmo o metafísico Immanuel Kant, o inventor da
pesada e às vezes rangente maquinaria intelectual a priori, acreditava que se pode falar do entendimento simplesmente
como imaginação que atingiu uma consciência de suas próprias atividades. A
magia propõe um desenvolvimento acelerado da alma através de uma cultura
intensiva na qual a imaginação desempenha um importante papel. É uma
caricatura, portanto, e bastante lamentável considerarmos quão pouco é essa
faculdade utilizada, e quão raramente a maioria das pessoas a faz atuar no
desenrolar da vida cotidiana. E ainda assim, na realidade, sem ela e os
aspectos variados de maravilha e novidade que concede a nossas atividades em
todo campo de trabalho, a despeito de paralisada e tolhida pelos sentidos e a
mente, nada duradouro e efetivo poderia ser feito. Não apenas o poeta, o
artista, o músico, o matemático e o inventor testemunham continuamente e cantam
a sua grandeza, já que as realizações de todos eles se devem ao seu mistério permanente,
como também o magnata dos negócios, o administrador e o chefe de Estado
necessitam utilizar essa faculdade se quiserem que o sucesso cruze seus
caminhos. Mais da metade do sabor rico e colorido da vida está perdida para o
homem sem imaginação, enquanto que aqueles que são suficientemente felizes ou
sábios para empregá-la muito ativamente colhem o mais agudo prazer possível ao
ser humano.
O melhor exemplo de imaginação criativa é
aquele que constantemente desfila eloqüentemente diante de nossos olhos: a
brincadeira das crianças. Alguns pedaços de pau e cordão, algumas pedras, um
pouco de lama e uma poça d’água suprem o
garoto saudável normal de toda a matéria-prima a partir da qual ele construirá
em sua própria mente uma inspiradíssima frota de couraçados e belonaves somada
a um magnífico porto para eles. A boneca mais disforme é geralmente a favorita
e a mais bonita para a garotinha, pois de algum modo o “patinho feio” parece
proporcionar mais espaço para a imaginação da criança, enquanto que a boneca
ricamente vestida de olhos móveis, cabelos louros e bochechas rosadas realmente
destrói o gume penetrante da imaginação ativa e vívida. Observando as crianças
brincando percebe-se com quão poucas propriedades elas são capazes de construir
todo um drama bem como uma tragédia comovente. E assim uma pessoa consegue ver
poesia num repolho ou numa porca com seus filhotes, enquanto outra perceberá
nas coisas mais excelsas apenas seu aspecto mais baixo e rirá da harmonia das
esferas, e ridicularizará as mais sublimes concepções dos filósofos. A razão de
um pintor ser capaz de ver num triste mendigo o tema para uma grande pintura é,
de maneira semelhante, atribuível à mesma causa: o mistério da imaginação. Como
podemos explicar o mistério desse poder criador individual que, por assim dizer
saltando sobre nós, se converte no
mestre das imagens e das palavras?
Assumindo o controle destas a partir da mente raciocinadora,
concede-lhes significados simbólicos e mais profundos até que imagens, idéias e
palavras se movem juntas e se reúnem, tornando-se um organismo por meio de
algum poder formativo transcendental superior a toda razão. É tão misterioso
realmente quanto o crescimento de um organismo na natureza, não menos
maravilhoso que a planta que extrai da terra por meio de algum poder oculto as
essências que transmuta e que torna subservientes a si mesma.
Nos séculos passados, na árdua
investigação intelectual visando a determinar a raiz fundamental da existência,
os filósofos se acostumaram a formular como lei que a existência se funda na
razão e no pensamento, quer dizer,
isso quando não eram monistas materialistas que afirmavam ser a matéria a única
realidade. Diversamente, o ponto de vista mágico, como formulado até aqui, é
que nem a razão nem o pensamento jazem na raiz das coisas, pois o pensamento é
simplesmente um aspecto do próprio cosmos. Trata-se sim de uma essência
espiritual inominável que não é a mente mas a causa da mente, não o espírito
mas a causa da existência do espírito, não a matéria mas a causa à qual a
matéria deve o seu ser. Explicar o abismo intransponível entre a razão e o
universo concreto constituiu um exercício severo para a mente filosófica. A
principal posição idealista era a de que tal como na lógica a conclusão segue rigorosamente os passos da premissa, do
mesmo modo o universo é o produto lógico da razão absoluta e seu desenvolvimento segue
a dedução de categorias racionais do pensamento. Recentemente, entretanto, um
filósofo chamado Fawcett foi presenteado com um lampejo de supremo gênio no
momento em que lhe ocorreu que o processo pelo qual o universo se desenvolveu e
veio a ser foi um processo criador imaginativo
e que a imaginação, não a razão absoluta ou mesmo uma vontade do instinto sempre impelida precipitadamente à manifestação,
era a chave da solução desse desconcertante problema filosófico. Ele define
essa imaginação como a matéria-prima na qual todas as faculdades e atividades
humanas têm o seu ser. Não desejo registrar aqui minha plena concordância com
todas as conclusões de Fawcett, porquanto meus próprios pontos de vista são os
da Cabala, expostos com certos detalhes alhures. Mas vale a pena observar que
essa sua idéia parece em parte concordante com a dos teurgos. Eles postulavam a
ideação como a primeira manifestação,
que o universo veio a ser graças às atividades dessa ideação. Contudo, está
claro que nenhum pensamento ou razão como o entendemos era sugerida, mas sim
uma faculdade criadora mais abstrata ligada de algum modo à imaginação. A razão é para a imaginação o que
a matéria é para a forma, o que o instrumento é para o agente, o que o corpo é
para o espírito que governa, e o que a sombra é para sua substância reflexiva.
É este poder residente no homem que Blavatsky chama de Kriyasakti, definido em A Doutrina Secreta como “o poder
misterioso do pensamento que o capacita a produzir resultados fenomênicos
externos, perceptíveis por meio da própria energia que lhe é inerente”, e assim
sendo parece que estaria também estreitamente vinculado à vontade.
Os rituais e as cerimônias agora
considerados simplesmente uma perda de tempo por aqueles que desconhecem como
conduzi-los e condenados como incapazes de produzir qualquer efeito real,
detinham uma reação sumamente potente quando o simbolismo de cada ação da
cerimônia era inteiramente reconhecido e compreendido e quando a imaginação era ampliada e a vontade firmemente concentrada no
objetivo a ser realizado. Estando todo o ego
humano num estado de excitação teúrgica, o Eu superior ou uma Essência
universal descia sobre o ego ou o elevava, o qual se tornava assim um
veículo luminoso de um poder supra-humano.
O que chamamos tão casualmente de
imaginação no indivíduo comum é, de acordo com os teurgos de todos os tempos, a
faculdade inerente à alma de assimilar as imagens e reflexos do astral divino, e Éliphas Lévi sugere que
por ela mesma e com o auxílio de seu diáfano
ou a imaginação, a alma pode perceber sem a mediação dos órgãos corporais
os objetos, quer sejam eles espirituais ou físicos, que existem no universo. Em
outras palavras, a imaginação é a visão da alma por meio da qual ela percebe
direta e imediatamente idéias e pensamentos de toda espécie. E assim,
inclusive, a clarividência é vista como uma extensão do poder da imaginação.
Admitindo, como o fazemos, a afirmação de
Lévi de que a vontade e a imaginação são as faculdades
criadoras aduzidas para sustentar as forças naturais durante as cerimônias
teúrgicas, as seguintes perguntas podem ocorrer ao leitor: “O que fazer se as
faculdades de alguém são apenas medianas? O que fazer se existe uma pobreza de
criatividade espiritual? Se esses
poderes não são particularmente potentes e capazes de formulação mágica, é
possível que sejam desenvolvidos e fortalecidos?” A resposta é decididamente
afirmativa pois indubitavelmente é possível desenvolvê-los e fortalecê-los. Os
sábios da Antigüidade conceberam vários exercícios cuja prática poderia
transformar um indivíduo mais ou menos comum num indivíduo criativo e
inspirado. Aquele que está espiritualmente morto pode assim refazer-se e
remodelar suas energias de maneira a passar a deter uma faculdade extremamente
poderosa de criatividade e gênio. Ocupar-me-ei aqui de dois métodos, um
predominante entre os hindus e o outro praticado por alguns cristãos, tendo eu delineado e explicado o método
egípcio numa página posterior com um outro título. Embora não advogando o
catolicismo com seu jesuitismo luminar,
devo mencionar a existência de um livro notável, indispensável e valioso para o
aprendiz, da autoria de um místico jesuíta, Sto. Inácio de Loyola. Nesse
pequeno volume é esboçado um sistema extraordinário de treinamento que se
refere especialmente à imaginação; extraordinário, quero dizer, quando seguido
por seu próprio mérito e divorciado de todo dogma e da teologia católica. É,
está claro, cristão na sua intenção, com símbolos que apelam sectariamente aos
católicos. Contudo, mediante um pouco de discernimento, o coração desse método
pode facilmente ser separado do resíduo doutrinário dogmático. Foi por meio
desse método experimental que Sto. Inácio se tornou o homem de supremo gênio
que foi, um homem que conquistou a reputação de ser, conforme o professor
William James, um dos mais poderosos engenhos da organização e construção
humanas já vistos sobre a face da Terra. Nesse livro que citamos, Os exercícios espirituais, aconselha
seus discípulos a reviver na esfera da imaginação todos os eventos da vida
histórica exterior de seu mestre, Jesus Cristo. Pelo método forçavam suas
imaginações a ver, tocar, cheirar e provar aquelas coisas invisíveis e ensaiar
aqueles incidentes há longo tempo acontecidos e desvanecidos, os quais eram
percebidos através dos sentidos de seu Senhor encarnado. Sto. Inácio deseja que
a imaginação seja exaltada até o seu pico. Se você está meditando sobre um
artigo de fé, ele o estimularia a construir a localidade claramente e com
exatidão diante da visão do olho mental, e observá-la cuidadosa e
rigorosamente, a ponto, por assim dizer, de tocá-la. Caso seja o inferno, ele
daria a você pedras ardentes para serem manuseadas; ele faz você flutuar numa
aterradora escuridão tão espessa quanto piche; ele deposita enxofre líquido
sobre sua língua. Suas narinas ficam saturadas de um fedor abominável como o do
próprio inferno e ele mostra a você tormentos terríveis, fazendo você escutar
gemidos lancinantes. Ele faria você construir a visão do calvário com o Cristo
glorificado coroado de espinhos sobre a cruz realizando a redenção da
humanidade, inspecionando os céus com olhos doloridos, chamando ao mesmo tempo
seu Pai no Céu. Ele faria você encarar o milagre formidável da ressurreição e
os prodígios realizados há muito na Palestina
– tudo isso Sto. Inácio manda que sua vontade crie em imaginação pelo
exercício constante.
Alguns anos atrás, Franz Hartman escreveu
a respeito desse mesmo assunto que “os exercícios prescritos por Loyola são
calculados para desenvolver os poderes da alma, especialmente a imaginação e a
vontade. O discípulo tem que concentrar sua mente nas narrativas da Bíblia do
nascimento, sofrimento e morte de Jesus de Nazaré, como se esses fossem fatos
históricos reais. O discípulo assim os considera, por assim dizer, como um
espectador mental, mas gradualmente trabalhando sobre sua imaginação ele se
torna, dir-se-ia, um participante; seus sentimentos e emoções são elevados a um
estado de vibrações superiores; ele se torna ele mesmo o ator da peça,
vivenciando ele próprio as alegrias e sofrimentos do Cristo, como se fosse o
próprio Cristo; e essa identificação com o objeto de sua imaginação pode ser
levada a um tal ponto que até mesmo estigmas ou ferimentos que sangram
aparecerão em seu próprio corpo”.
Embora o teurgo não precise explorar tal
prática a ponto de produzir os efeitos de que fala Hartman, é indiscutível de
que se trata de um método infalível para estimular aquela faculdade criativa de
que se é deficiente. Perseverança e contínua aplicação seguramente
proporcionarão ao aprendiz uma vontade invencível, uma mente capaz de
concentração prolongada e, acima de tudo, uma imaginação que constitui a apoteose
da criatividade. Se o aprendiznão aprovar a importância religiosa que o santo
atribui a esses exercícios – e se revelar uma profunda reprovação pelo dogma e
teologia católicos – que use sua própria imaginação para construir seus
próprios exercícios que sejam mais favoráveis e adequados ao seu temperamento
individual. Que ele pinte para si mesmo a imagem de que está sentado junto a
uma vigorosa queda d’água, uma Niágara, e diante de seu olho interior que ele
crie uma imagem do rio lá em cima em sua nascente murmurando e perambulando no
seu calmo curso. Em seguida que ele conceba a gradual aproximação do
precipício, torrentes selvagens de águas ensandecidas, redemoinhando para cá e
para lá em cascatas agitadas de espuma esbranquiçada, colidindo contra as
rochas, sendo irresistivelmente arremessadas adiante sobre o abismo. Que ele
imagine também essas toneladas, milhares de toneladas de água, subindo e
descendo impetuosamente sobre o precipício sob o contínuo eco reverberante do
trovão. Conceba, então, o borrifo espalhando-se em todas as direções, a beleza
da rebentação cor de neve refratando a luz do sol em arcos-íris iridescentes,
repletos de cores e matizes brilhantes. E que ele ouça, e ao ouvir se
maravilhe, a voz profunda e trovejante produzida pelo impacto formidando do
volume das águas contra as rochas e águas mais abaixo. O aprendiz pode ainda
construir em sua imaginação mais coisas familiares: o ruído de um trem veloz, o
sabor de chocolate em sua boca, os cheiros de suaves perfumes e fragrantes incensos
penetrantes e o contato do carvão incandescente. Não só deve a formulação
imaginativa do sentido ser distintiva, ou seja, o sabor de chocolate e não de
caramelos doces por exemplo devendo ser claramente imaginado, como também o
mago deve treinar-se de modo a suster a imagem ou impressão. Por meio desses
estímulos da imaginação, seu poder germinará e crescerá, desenvolvendo-se de
modo inconcebível, e com o passar do tempo o mago disporá de um novo poder de
construção espiritual.
De maneira semelhante, os hindus
prescrevem a meditação visando ao mesmo, tendo como objeto os Tattvas ou os símbolos coloridos dos
elementos, dos quais eles sustentam cinco. As combinações desses cinco resultam
em trinta elementos e subelementos, cujos símbolos pictóricos produzem objetos
notavelmente bons para o exercício da imaginação. Dispõe-se de um triângulo
equilátero vermelho, Tejas; um
crescente prateado horizontal, Apas;
um círculo azul, Vayu; Prithivi é um quadrado amarelo e Akasha uma forma oval negra. As
combinações de dois símbolos quaisquer, como um triângulo vermelho encimando um
crescente prateado, ou um pequeno círculo azul colocado no centro de um
quadrado amarelo parecem de uma maneira bastante singular se destacarem do
fundo negro da visão interior e estimular todos os poderes da imaginação. Mas
pouco tempo basta para adquirir eficiência na visualização desses símbolos, de
sorte que quando o operador se
aproxima das tarefas mais importantes da magia prática, tais como a formulação
do corpo de luz ou Mayavi-rupa e a construção imaginativa
das máscaras ou formas simbólicas dos deuses, descobrirá que em seu interior há
uma força criativa poderosa que o servirá bem. Todo esse treino, incluindo os
exercícios de Sto. Inácio e os símbolos dos Tattvas, nunca é em vão e nunca se avizinha da
futilidade, visto que tal treino proporciona o fundamento de todo trabalho
teúrgico, sem o qual muito pouco de permanente e significativo pode ser
concretizado.
Concordamos com as observações do mago
francês no que dizem respeito à imaginação, que ela é a maior maga do universo.
É a essa faculdade que devemos as criações imortais da poesia, da música e de
todas as artes. A Canção e suas Fontes,
um dos pouquíssimos trabalhos sensíveis de um poeta que lida com as origens de
sua arte, confirma isso, e constitui uma prova salutar das teorias mágicas que
concernem à imaginação. A. E. se
aproxima bastante da filosofia teúrgica
na medida em que supõe que em
nossa natureza espiritual exista um ser transcendental que acorda quando
dormimos e é conhecido vagamente nos estados dualistas do sonhar, quando a
consciência parece dividida, e confere inspiração e luz através do mundo
estelar da imaginação. É o cristalino do eu criativo, sendo este aquele poder
que opera milagres, curando os enfermos, trazendo socorro aos fracos e
geralmente outorgando as revelações do espírito em benefício dos homens.
CAPÍTULO
VIII
Em sua introdução aos Aforismos de Yoga de Patanjali, William
Q. Judge afirma que os antigos sábios hindus conheciam o segredo do desenvolvimento
da vontade, e como aumentar dez vezes
tanto sua potência quanto sua eficiência. Esse segredo das eras, a ampliação do poder da vontade e da sabedoria jamais
foi perdido. A vontade para o
aprendizda teurgia divina é o fator primordial na produção de quaisquer
alterações espirituais a que ele se proponha, e conseqüentemente qualquer coisa
que tenda a aumentar esse potencial e despertar suas possibilidades latentes,
transformá-lo numa força irresistível absoluta capaz de ser conscientemente
manipulada, pertence à natureza de uma bênção transcendental. A vontade não é boa nem má; é tão-somente poder e vitaliza todas as coisas
igualmente. Há várias sugestões propostas por Lévi em seu Dogma e ritual de Alta Magia, algumas das quais são as seguintes:
“Se ireis reinar sobre vós mesmos e os outros, aprendei como querer... Como
podemos aprender a querer?...
Observâncias que são aparentemente as mais insignificantes e em si
mesmas estranhas ao fim a que se propõem, conduzem, contudo, a esse fim
mediante a educação e o exercício da vontade... O homem pode ser transformado
pelo hábito, o qual, segundo o adágio, torna-se sua segunda natureza. Por meio
de exercícios atléticos persistentes e gradativos, a energia e a agilidade do
corpo são desenvolvidas ou criadas num grau espantoso. O mesmo ocorre com os
poderes da alma”. A essência de suas sugestões, que só pode impressionar pela
sua sensatez, corresponde a isto. Por meio de um ascetismo conscientemente
imposto, negando-se a si mesmo durante o treinamento certas coisas normalmente
consideradas necessárias, para aprender em suma a arte da autoconquista e como
viver, é-se livrado das vicissitudes do eterno fluxo e refluxo que é a vida, e
obtém-se uma vontade altamente treinada. É imperativo que as palavras “ascetismo
auto-imposto” sejam notadas e que precedam a frase “durante o treinamento”;
isto é de extrema importância como a chave de abertura aos Portais da Vontade. Antes de pronunciar esse enunciado vale
refletir em como pode ser chamado de “autonegação” aquilo que nega apenas o não-eu das coisas pelas quais se anseia
para abrir aquelas trevas cegas à luz da vontade
verdadeira, a visão interior e o eu
real. Esse último não é negado em absoluto. São unicamente os desejos de Ruach, essa entidade cujo egoísmo muda com
o passar de cada hora, que são negados e disciplinados de modo a torná-lo um
instrumento útil através do qual o Santo Anjo Guardião e seus pares podem trabalhar sem restrições e
retardamentos inúteis.
O fator digno de nota nesse sentido é que
o voto de ascetismo tem que ser mantido em seu devido lugar. Esse voto deve ser
assumido para uma finalidade bem definida e claramente compreendida além da
qual não se deve jamais permitir desviar-se. Havendo desvio, tudo estará
perdido. Quando o voto realmente ultrapassa os confins da intenção premeditada,
o ascetismo como a extrema voluptuosidade é um vício desordenado, pertencente
às tendências sutis do ego e, por
conseguinte, decididamente para ser desestimulado e suprimido. Há críticos que
afirmam ser o ascetismo uma forma de egoísmo e egocentrismo. Quando essas
críticas severas são dirigidas apenas àqueles que dele abusam, aqueles que
considerariam suas negações e seus flagelamentos flagrantemente públicos como
supremas virtudes e que obtêm muito prazer quando seu vício é aclamado em
público, a acusação é correta. Mas não em caso diverso. Que se entenda que o
ascetismo não é um vício ou uma virtude, tal como a própria vontade
não é boa nem má. Não possui em si mesmo mérito de espécie alguma exceto
ser uma matéria de conveniência para quem quer que seja que o abrace com a
finalidade de treinamento. Tal como no treinamento de um boxeador, por exemplo,
intemperanças como beber e fumar são escrupulosamente eliminadas da lista das
tolerâncias em relação a ele, negações nas quais obviamente não se pode imputar
nenhuma virtude moral, o mesmo ocorre com o ascetismo que o teurgo assume para
si mesmo. O ascetismo ao qual a magia se refere e do qual Lévi
fala é algo inteiramente diferente do vício egotístico ordinário, já que
tem como seu objetivo precisamente o fortalecimento da vontade e a abnegação
mística desse ego. É esse falso ego ao qual o egoísta e
o pretenso asceta em nome apenas se prendem tão devotadamente, a despeito de
ser para seu eterno detrimento, e que o mago procura oferecer em sacrifício de
maneira que o Espírito Santo descendo sobre o altar em penetrantes línguas de
fogo possa consumir a oferenda e nele viver para sempre.
Referindo-se aos mistérios de outrora, Lévi observa que quanto mais terríveis e
perigosos eles fossem, quanto mais severos fossem os rigores que impunham,
maior seria sua eficiência. Assim é com esse ascetismo. Quanto maiores as
negações da personalidade, quanto mais necessidades intemperantes são removidas
do modo costumeiro de vida, maior a aquisição da força de vontade e mais fácil realmente se torna destruir os laços egóicos.
Ainda assim, o ascetismo não deve ser tão terrível a ponto de danificar os
instrumentos com os quais o mago é obrigado a trabalhar. O astrônomo não
destrói seu telescópio num acesso de ira cega. Cortar a garganta para ofender o
próprio cérebro é uma insanidade e é completamente estúpido. Se o aspirante
estiver predisposto a ceder a disparates desse tipo, melhor será para ele
abster-se totalmente da magia e permanecer junto ao calor e quietude da lareira
de sua sala de estar.
Uma técnica extremamente eficiente foi
desenvolvida por um mago contemporâneo*, um sistema sumamente prático isento de
todas as desagradáveis implicações e tendências morais dos sistemas mais
antigos. De acordo com esse sistema**, a técnica é de tal modo arranjada de
maneira a cobrir o campo todo da ação, discurso e pensamento humanos, sendo,
portanto, aplicável à constituição humana inteira. Na base, está de acordo com
a concepção geral do ascetismo de que uma certa ação, palavra ou pensamento,
que se tornou habitual e uma parte de Ruach,
deve ser negado, por exemplo, o voto de por um período provisório de digamos
uma semana abster-se de cruzar as pernas sobre o joelho ao sentar, ou talvez tomar a decisão de não erguer a mão
esquerda até a cabeça ou o rosto. A
grande vantagem desse sistema é que inexiste pendor moral nessas sugestões. Não
é virtuoso abster-se de cruzar as pernas sobre o joelho ou não tocar o rosto com a mão esquerda. Assim o
operador é liberado da tendência de fazer de seu ascetismo uma tola virtude. É
necessário observar, ademais, que não há a sugestão de aplicar o princípio
ascético nesse esquema ao que se denomina comumente mau hábito, como fumar,
beber ou blasfemar. Fazê-lo seria
convidar certos indivíduos a considerar sua abstinência de fumar ou beber uma
virtude, a ser grandemente louvada, em lugar de compreender que a negação é
simplesmente uma questão de conveniência e treino, uma idiossincrasia pessoal à
qual nenhum crédito ou culpa podem ser vinculados. Uma postura inteiramente
impessoal de imparcialidade deve ser mantida e a aplicação do esquema é
necessária àquelas ações, palavras e pensamentos aos quais é plenamente
impossível atribuir um valor moral. É inconcebível que o leitor inteligente
faça uma virtude do fato de abster-se de cruzar a perna sobre o joelho ou de
ocasionalmente não tocar a cabeça com sua mão esquerda. Tal postura,
absolutamente essencial, deve ser cultivada em qualquer ramo da magia.
* Aleister Crowley. (N. T.)
** Liber
Jugorum, O Equinócio, Londres, 1912.
((Ilustrs. a
cores dos quatro símbolos dos Tattvas))
Ora, para cada transgressão do voto ou
juramento de abster-se de um certo procedimento um certo castigo deve ser
infligido. É nessa disciplina que a vontade
conquista seu treinamento e força. Por exemplo, suponha-se que o operador
fez um juramento mágico de abster-se durante um período de quarenta e oito
horas de cruzar a perna esquerda sobre o joelho direito ao se sentar. Num momento
de distração, pode ser que o mago cometa a ação proibida. Essa transgressão
deve ser punida, de maneira a produzir uma impressão profunda e duradoura na
mente, com um corte no braço feito por uma navalha. A ação interditada é assim
gravada no antebraço com um talho penetrante para auxiliar a memória
preguiçosa.
Na segunda seção relativa ao discurso,
alguma palavra freqüentemente utilizada no discurso diário como “eu” ou “e” ou
qualquer outra expressão corrente no falar usual do mago deve ser interditada
durante um período de vários dias, uma semana, ou meses, conforme o caso. No
desenrolar desse período ou a palavra é inteiramente omitida, ou alguma outra
palavra é empregada em seu lugar. Um certo pensamento que seja impessoal e
isento de tendência moral é o tema da última seção quando se adquiriu
suficiente competência e já se tirou proveito das duas seções anteriores. Em
todo caso de esquecimento o castigo e penalidade é um corte pronunciado no
braço. Essa última seção tem implicações de grande envergadura, particularmente
no que diz respeito ao treinamento da mente. Se alguns pensamentos foram
proibidos de ingressar através dos portais não vigiados da mente e alguma
habilidade foi obtida em fazer valer essa decisão, será necessário um
prolongamento adicional da prática para fechar os portais e barrar todos os
pensamentos de qualquer tipo que sejam da mente. Desse modo, alcança-se o
objetivo idêntico da ioga: o esvaziamento pela vontade de todo o conteúdo da
mente.
E agora consideremos o resultado dessa
técnica disciplinar. Acima de tudo, nenhuma questão arbitrária de ética ou
moral entra nessa técnica de ascetismo. Trata-se simplesmente de uma forma
elaborada de treinamento atlético, por assim dizer. O corpo não é torturado com
base no princípio ordinário e conforme o costume usual de que a alma eterna
pode viver e encontrar bem-aventurança em sua libertação do corpo. Essa postura
não leva em conta que se o ascetismo é um estágio na jornada da alma rumo ao
seu ideal, caso seja conduzido a extremos é ao mesmo tempo uma recusa cega da
nutrição de que essa jornada necessita para ser sustentada. O princípio radical
que envolve a prática dos faquires que dormem sobre leitos de pregos ou arame,
mantendo seus braços eretos pelo período inteiro de suas vidas, dilacerando
carne viva de seus corpos submetidos a longo sofrimento, tudo isto é
repreensível do ponto de vista do teurgo e se opõe cabalmente em princípio ao
método esboçado acima. O corpo não é uma coisa do mal; definimos anteriormente
corporeidade e espiritualidade como graus distintos de uma substância divina.
Todos os veículos do espírito são instrumentos através dos quais ele pode
atuar, obter experiência e atingir um conhecimento de si mesmo, e embora em
assuntos pertinentes à comunhão celestial alguns se limitem a ser um estorvo se
não forem treinados, a observação simplesmente demonstra a necessidade de
treinamento e não de destruição cruel e sem sentido.
Mediante a técnica de ascetismo da
teurgia se decide simplesmente a lograr um controle consciente sobre certos
aspectos da organização física e mental, e esse controle tende à aquisição de
um enorme aumento de potencial de vontade.
O corte do braço produz um pouco de dor, é verdade, embora essa dor seja
útil e necessária para estabelecer certas correntes nos centros de inibição do
cérebro ou mente, as quais produzem a instalação de uma curiosa vigilância por
parte da vontade, um fluxo inconsciente livre de força de vontade que está
continuamente presente e pronto para executar os desejos do mestre. Descobrir-se-á no caso de uma
decisão tomada de não cruzar as pernas que ao “bater papo” casualmente com um
grupo de pessoas e numa condição de completo esquecimento do juramento,
qualquer tendência automática das pernas de repetir instintivamente o hábito ao
qual foram acostumadas há muito tempo será imediatamente detectada pela vontade antes que o ato proibido seja
mesmo meio completado e a tendência será interrompida em seu início. Tem sido
observado repetidas vezes que precisamente quando as pernas estão na iminência
de se cruzarem, mesmo durante o sono mais profundo quando o corpo produz
movimentos espasmódicos automáticos, a vontade operando a partir dos centros
inibitórios da mente faz lampejar uma advertência espontânea que resulta no
impedimento da ação. Se adormecido, ocorre um despertar imediato com total
consciência do ato pretendido. Ao menos, essa é a base lógica que prevalece
depois de o operador ter falhado cerca de uma dúzia de vezes e quando seu
antebraço se tornar belamente adornado por uma quantidade igual de cortes.
Sucede particularmente isso no caso da proibição da palavra “eu” que se pode
bem usar como objeto da prática. Normalmente, somos tão pessoais e tão apegados
a todas as coisas egoicamente que nas conversas ordinárias mantemo-nos mais
interessados em falar de nós mesmos, e as frases “Eu fiz isto”, “Eu fiz aquilo”
entram mais no discurso do que quaisquer outras. Conseqüentemente, no início,
quando os benefícios do silêncio criterioso são, de maneira muito enérgica,
transmitidos à personalidade, o braço não sofre pouca coisa. Pode ser até
necessário recorrer à decoração de ambos os antebraços até o ego rebelde e sua
voz responderem ao treinamento, decidindo-se a obedecer incontinenti aos
ditados da vontade.
A conseqüência é óbvia. À medida que o
tempo progride através dessa técnica, o mago realiza duas coisas separadas,
ambas aspectos importantes da Grande Obra. Uma vigilância perpétua que se
avizinha de uma corrente sumamente poderosa de força de vontade foi gerada.
Isso, desde o início, tende a conduzir as atividades multifárias do ser humano
ao controle consciente da vontade. Se, como o Abade Constant observou, as operação mágicas são o exercício de um
poder que embora natural é superior às forças comuns da natureza, esse poder sendo o resultado de um
conhecimento e uma disciplina que exaltam a vontade além de seus limites
normais, então essa prática preenche da maneira mais concebível todos os
requisitos que até mesmo ele teria dela exigido. E a vantagem disso para o
neófito que fez o voto a si mesmo da consecução de nada menos do que o Conhecimento e conversação do santo, o
anjo que o guarda, não pode ser superestimada. Em suas mãos é colocado um
tremendo poder de vontade, de
significação espiritual e de aplicação inconcebivelmente criativa.
O segundo aspecto da realização é que não
apenas o mago se descobre a si mesmo de posse de uma vontade ampliada como também
o próprio Ruach, todas as faculdades
compreendidas no ego anteriormente tão problemáticas e carentes de concentração
gradualmente, graças à vontade dinâmica e à contração proveniente da dor
corpórea, colocam a si mesmas sob controle. O praticante terá sobrevivido ao horror e desagrado iniciais de
infligir esse leve castigo ao seu braço, vendo seu corpo pela primeira vez em
seu devido lugar, como um servo a ser empregado e comandado e cujas recusas
rebeldes a acatar ordens emitidas por uma fonte superior são severamente
reprimidas e penalizadas. Espera-se sinceramente que a base dessa técnica não
seja tão mal compreendida a ponto de fazer surgir observações grosseiras com
relação a Hatha Yoga ou ao masoquismo. Não há prazer
algum em cortar o braço com uma navalha; desse fato unicamente o leitor pode
estar inequivocamente assegurado.
Tal vontade pode tornar-se uma força tão
poderosa pela disciplina e treinamento que nas instruções acrescidas a uma
recente versão de uma invocação, o editor sugeriu que a vontade fosse formulada no mundo criativo sob a forma de um bastão
mágico, seu verdadeiro símbolo, ou um feixe luminoso brotando numa linha reta e
perpendicular do mago na direção e para dentro do infinito. Essa observação
sugere que longe de ser uma impalpabilidade metafísica intangível, uma
incoerência, o que é geralmente o caso com o indivíduo médio, para o mago a vontade
é uma definida força espiritual controlável, que como todas as demais
faculdades da alma, pode ser empregada por seu senhor e mestre.
Há ainda um outro método de treinamento
da vontade. Embora pertença de direito aos processos da ioga, sua importância
não pode ser superestimada. Trata-se daquele ramo da ioga de
oito membros que é chamado de Pranayama, uma prática que proporciona a
quem quer que a exerça uma colheita tripla. Em primeiro lugar, a absorção de
grandes quantidades de oxigênio e prana tem
um efeito indiscutível nas glândulas endócrinas. É incontestável que
particularmente as glândulas intersticiais recebem um estímulo tremendo.
Conseqüentemente, de um ponto de vista puramente físico, a inteira
personalidade é inundada por uma riqueza de energia criativa destinada a reagir
favoravelmente, quando preservada, sobre a mente, a vontade e todos os outros
aspectos da constituição humana. Na verdade, pode-se chegar ao ponto de afirmar
que essa energia criativa, física como possa parecer, colabora para formar a
base da visão espiritual. Em segundo lugar, em sua Raja Yoga, o falecido Swami Vivekananda fornece uma admirável
explicação do efeito da respiração rítmica regulada, que fortalece e estimula a
vontade até uma concentração formidável de
força. Em síntese, sua teoria é a de que se fazendo todas as células de um ser
vibrar em uníssono, uma poderosa corrente elétrica de vontade é estabelecida no
corpo e na mente. E o meio para estabelecer essa vibração em uníssono é uma
aspiração e exalação rítmicas do alento.
Ignorando, para efeito de argumento, a
teoria de que o Pranayama detém efetivamente o efeito
delineado no parágrafo anterior e suspendendo o exame de qualquer teoria
mística, há ainda um outro resultado que não pode ser posto em dúvida por
ninguém. Qualquer indivíduo que tenha tentado o Pranayama mesmo por apenas alguns momentos entenderá imediatamente
o que significa. Poder-se-ia dificilmente imaginar algo mais tedioso, laborioso
e penoso do que esse simples conjunto de exercícios, pois o mago senta-se
sossegadamente duas ou três horas durante o dia por um período de, digamos,
três ou quatro meses na tentativa de
respirar num ritmo regular e calculado, simplesmente observando com cuidado a
inalação e exalação do fluxo do alento, é uma das mais árduas tarefas que a
imaginação pode conceber. Exige o exercício da força de vontade máxima e uma
resolução inabalável para continuar. Ao fazer isto, o indivíduo é levado de
maneira incisiva a encarar a inércia e lassidão do corpo, necessitando-se não
pouca austeridade, autodomínio e uma força de vontade inflexível para persistir
na tarefa em relação à qual ele celebrou um voto. Caso o praticante não tenha
obtido qualquer resultado daqueles descritos nos livros técnicos, tais como a
desaceleração do movimento da mente ou a ocorrência de várias alterações
psicofisiológicas, terá, ao menos, ganho um incalculável aumento de força de
vontade e uma firmeza invencível de propósito por ter treinado a si mesmo na
superação da indolência das condições corporais, a inércia mental e a oposição
ao treinamento. “Aprender o autodomínio é, portanto, aprender a viver, e as
austeridades do estoicismo não eram vã gabolice de liberdade... Resistir à
natureza e sobrepujá-la é atingir para si mesmo uma existência pessoal e imperecível;
é pôr-se livre das vicissitudes da vida e da morte*.” É fato reconhecido e
demonstrável que a disciplina e paciência impostas pelo Pranayama, à parte toda a
teoria da ioga, deixarão o mago em posição vantajosa quando tiver de enfrentar
as tarefas mais complexas e difíceis da magia.
* Mistérios da Magia, Éliphas Lévi.
Há alguns indivíduos sobre os quais a
magia cai como sobre solo estéril. Crentes de que o desenvolvimento consciente
do gênio mediante o treinamento mágico constitui uma impossibilidade na
natureza, asseveram que as façanhas mais grandiosas e as mais excelentes obras
criativas são realizadas inconscientemente e não pela vontade; que os mais
nobres exemplos da arte, literatura e música recebem sua principal inspiração
de uma parte do homem que é independente de sua vontade e conhecimento
conscientes. Esse fato, sem dúvida, é verdadeiro, e é aqui que o mago é
superior ao artista comum. No caso do artista, a inspiração é automática,
independente de seus próprios desejos e conhecimento mesmo, e nesse sentido ele
é um instrumento passivo, um meio. O
mago, entretanto, se propõe um objetivo mais elevado, desejoso conscientemente
de conhecer aquele poder nele que é o criador,
o vidente, o conhecedor. Chega a isso por meio de um ato ou uma série
gradual de atos da vontade. O
objetivo último é a identificação da vontade mágica com o ser todo, de modo que
sua aplicação não exige maior esforço consciente do que o movimento dos lábios
e o erguer da mão, uma força tão constante e continuamente presente como a
gravitação.
A magia cerimonial, que seja entendido,
como um meio de adquirir o potencial requerido de força de vontade, é
principalmente para uso do principiante. “Sendo as cerimônias, como dissemos,
métodos artificiais para criação de um hábito de vontade, se tornam
desnecessárias uma vez esteja o hábito consolidado... Mas o procedimento tem
que ser simplificado progressivamente antes de ser completamente dispensado**.”
Caso se adote rigorosamente uma prática programada, depois de um certo tempo o
mago porá de lado completamente o cerimonial, confiando no trabalho improvisado
no interior dos limites de seu círculo mágico interno, e ainda
posteriormente se aplicará àquela prática mágica chamada de missa do Espírito Santo. A aplicação
habilidosa desse engenho mágico reverberante deve resultar no desenvolvimento
de um centro de alta potência de vontade.
Atingido isso, todas as técnicas poderão ser postas de lado por terem já
servido ao seu propósito melhorando o bem-estar do indivíduo, não sendo mais os
exercícios necessários.
** Dogma e ritual de Alta Magia, Éliphas
Lévi.
O princípio é comparável a um
princípio reconhecido no esporte. Durante uma partida de tênis, por
exemplo, um jogador poderia executar alguns lobs
e voleios realmente maravilhosos numa ínfima fração de segundo, estando a
decisão consciente absolutamente fora de questão. As melhores tacadas no
bilhar, como muitos bem o sabem, são aquelas feitas acidentalmente. Para o
aspirante no tênis, ou um jogador
desejoso de melhorar, somente uma imensa quantidade de prática deliberada produzirá aquela habilidade
consumada que irá operar livremente em todas as ocasiões. Assim é com o mago.
Nesse caso, o verendo da arte que foi ciosamente oculto do olhar do público é
ainda mais guardado nas profundezas de sua consciência espiritual, de sorte que
por ninguém no mundo inteiro é sua existência adivinhada. Tão vigorosamente
poderoso é esse bastão que por um ligeiro brandir do mesmo os mundos poderiam
ser destruídos, e com outro leve brandir novos mundos poderiam ser trazidos ao
ser.
– - –
Unido de maneira peculiar à vontade e à imaginação nas evocações cerimoniais está um outro poder ou uma
outra força cuja presença ou ausência representa o sucesso ou o fracasso da
operação. O segredo de toda magia cerimonial é simples, embora nem sempre óbvio. Celebrar cerimônias mágicas
encaminhando cada mínimo detalhe com cuidado, executando os banimentos,
fumigações e circumpercursos externos, vociferando as conjurações e gemendo os
nomes bárbaros de evocação não é critério para que a invocação tenha êxito em
sua finalidade ostensiva, ou para que o clima estático da operação “aconteça”.
A incapacidade de compreender isso encontra-se no fundo de uma boa quantidade
de histórias mais ou menos humorísticas sobre magia contadas por pessoas que,
tendo se tornado intelectualmente interessadas em sua técnica, e tendo seguido
cuidadosamente as instruções expostas nos engrimanços ordinários de fácil
obtenção, se decepcionaram com a falta de resultados. Todas as precauções
apropriadas foram tomadas. Belos mantos da melhor seda foram providenciados,
candelabros de prata e bronze, incensos compostos dispendiosamente e
conjurações primorosamente escritas. A despeito de todo esse preparo,
entretanto, nada absolutamente aconteceu.
Nem as mais leve pressão foi produzida na atmosfera astral circundante,
e uma mão colocada cautelosamente fora dos limites do círculo não foi
paralisada, como ocorreria segundo a lenda, como se por um raio lançado por um
espírito irado. Há uma esplêndida história que vem à mente de um aprendiz
entusiasta que se empenhou em “praticar magia” antes de ter atingido uma
compreensão dos princípios elementares em que se apóia a magia cerimonial. Ele
desejava, a título de teste, invocar uma ondina, um espírito do elemento água,
e a fim de fazê-lo ocorreu-lhe que uma operação realizada nas proximidades da
água eliminaria muitas dificuldades. Como sítio de operação Eastbourne foi
escolhida e o tal aprendiz, levando consigo o equipamento da arte, embarcou
para essa praia “solitária”. Uma noite, já razoavelmente tarde, quando a
maioria dos cidadãos respeitáveis da praia já dormiam sossegadamente, ele se
dirigiu para a beira do mar, a maré muito ao longe. Traçado o seu círculo, depois do altar e as luzes terem
sido instalados sobre a areia, ele iniciou suas conjurações à medida que uma
névoa se adensava. Suas vociferações eram altas e os sonoros gemidos,
selvagens, fazendo com que os nomes
bárbaros tornassem horrenda a noite, cuja tranqüilidade foi arruinada; nuvens
de incenso espesso se elevavam em espirais do altar, envolvendo todo o cenário
de uma névoa repulsiva de fumaça perfumada. A única ondina que esse mago viu foi
uma enraivecida criatura vestida de azul: um policial.
Desde que o acima exposto foi escrito,
perpetrou-se uma imbecilidade ainda mais grosseira e bem menos desculpável.
Alguns membros de uma famosa sociedade de pesquisas se convenceram de que era
inadiável expor a magia em todos os seus ramos, demonstrar que não possuía
qualquer realidade, e, imbuídos desse nobilíssimo objetivo, tomaram
providências para realizar uma cerimônia com base nas instruções deturpadas de
um certo engrimanço no alto de uma colina no continente. As conjurações foram
devidamente recitadas em conformidade com as ditas instruções por uma virgem de
manto branco junto a um bode, o qual segundo promessa do engrimanço seria
transformado num jovem da mais arrebatadora beleza. Essa transformação, é
claro, não ocorreu, e muita publicidade foi feita em torno dessa cerimônia
cujo fito era pôr um fim a todas as cerimônias. Hordas de
pessoas curiosas afluíram ao alto da montanha, a qual durante o rito estava
inflamada de luzes de arco voltaico de alta potência! Faz-nos lembrar de certo
modo do simplório que depois de encher o bule e colocá-lo sobre um dos bicos de
gás do fogão se esquece, contudo, de usar um fósforo para ligar o gás; quando,
após uma hora, ele constata não haver nenhum sinal de um bule com água
fervente, declara com suma indignação e não pouco desprezo que essas
geringonças modernas não servem para nada.
Não acredito que essa cerimônia farsesca
requeira muito comentário. Mostra o tipo extraordinário de inteligência que não
é capaz de distinguir entre um livro tolo de feitiçaria e a genuína magia
teléstica; e também incapaz de compreender a verdade da injunção segundo a
qual é o pensamento, a vontade e a intenção que atuam de maneira preponderante
na operação mágica cerimonial, os símbolos e sigillae externos sendo
secundários e tendo menos importância. O Magus de Barrett, em todo caso, propõe
para a consideração desses pesquisadores “científicos” que “a
razão de exorcismos, sortilégios, encantamentos, etc. às vezes não atingirem o
efeito desejado é a mente ou espírito não-excitado
do exorcista tornar as palavras fátuas e ineficazes”.
Eis então numa curta frase o segredo do
sucesso. Os Oráculos caldeus afirmam
que se deve “invocar com freqüência”! Abramelin, o Mago, aconselha que se deve
“inflamar-se” com oração. A chave está implícita nessas afirmações concisas.
Invocar freqüentemente denota um certo grau de persistência e entusiasmo, e o
princípio no qual criam os antigos magos era que se um homem orar ou invocar o
tempo suficiente com seus lábios pode acontecer que encontrará a si mesmo um
dia proferindo sua invocação de todo coração. Sucesso implica acima de tudo
entusiasmo. E o entusiasmo que o mago deve cultivar é uma espécie indescritível
de excitação ou arrebatamento, por meio dos quais ele é transportado
completamente para fora de si e além de si. Trata-se de uma qualidade
inteiramente incompreensível e, por conseguinte, indefinível. O mago deve
inflamar a si mesmo, o que é hislahabus ou
auto-intoxicação, o que os cabalistas conceberam como sendo o próprio cálice da graça e o vinho da vida. Cada nervo, cada fibra do
indivíduo, físico, astral, mental; cada átomo em seja qual for departamento da
constituição humana deve ser estimulado a um clímax febril e todas as
faculdades da alma exaltadas ao máximo. Tal como o artista – o poeta, o
dançarino, o próprio amante – é
arrastado numa loucura de paixão inflamada, um frenesi de criatividade, o mesmo
deve suceder com o mago. Deve ser impulsionado em sua cerimônia por um
entusiasmo mântico que embora nele presente e uma parte necessária das forças
que o compõem, não é de modo algum aquilo que ele normalmente inclui em seu Ruach. Não participa do ego mundano do
estado de vigília embora exalte esse ego numa crista de bem-aventurança, de
maneira que toda consciência de sua existência é transcendida, sofrendo um novo
nascimento com um horizonte maior e mais amplo.
Afirma Jâmblico: “...a energia
entusiástica, entretanto, não é o trabalho seja do corpo seja da alma, ou de
ambos conjugados”. É impossível formular regras teóricas para a indução desse
frenesi, para a aquisição desse estímulo, para a produção desse espasmo
mântico. De povo para povo os fatores variarão para produzir o estímulo e a
excitação. Para um indivíduo, poderá vir através de invocações prolongadas e
reiteradas feitas durante um período de várias semanas ou meses. Um aprendiz
pode ficar tão impressionado pelo puro mistério e sugestão, por assim dizer, de
dada cerimônia, que é possível que o resultado seja incluído. Um outro pode ser
curiosamente comovido e alegrado pelo estilo lírico no qual as invocações estão
escritas, por suas imprecações e comemorações, ou mesmo pelos nomes estranhos e
bárbaros de evocação, não importando quão ininteligíveis possam ser para seu
ego consciente. É possível que a despeito de um excelente conhecimento
intelectual da Cabala, tenha lhe
escapado uma interpretação adequada ou satisfatória de alguma dessas palavras
misteriosas; quando de repente, durante
o desenrolar de uma cerimônia, sua significação lampeja arrebatadoramente sobre
ele com um fulgor escarlate, um fulgor de júbilo, e assim excitado ele é
transportado com sua descoberta na onda crescente de êxtase. Talvez o cheiro de
um perfume em particular, a psicologia dos deslumbrantes mantos de seda e
coberturas de cabeça, até mesmo o esgotamento físico que é a conseqüência da
dança – essas são possíveis causas daquela exaltação que o mago tem que
cultivar. No que diz respeito ao mago habilidoso, todos esses fatores estarão
contribuindo para a finalidade, produzindo assim um arrebatamento exuberante,
vasto como o mais vasto dos mares e tão elevado e abrangente quanto os ventos
que sopram dos pólos. E então, como brota a rosa vermelha da terra negra,m crescerá da natureza amorfa do homem da terra, sob a luz
daquela exuberância, a flor de muitas pétalas da alma restaurada. Gradativa e
lentamente se manifestarão os poderes espirituais e as faculdades latentes como
pétalas que procedem do interior. Tal como as flores brancas como neve que florescem
na acácia se desenvolvem até que toda a árvore da regeneração seja coberta e
dobrada sob o peso de muitas flores, do mesmo modo da raiz do êxtase é
desenvolvida a visão e o perfume. Como na lenda rosacruciana a
vida dos filhotes de pelicano é mantida pelo recurso de sacrifício da mãe, as
forças exteriores do mago são alimentadas quando o ego sucumbe à intoxicação,
tanto a partir do espírito interior quanto a partir de seu senhor feudal, os
deuses que são invocados de cima.
Que nunca se esqueça que o segredo da
invocação e de todo ato mágico é
“Inflame-se com oração” e “Invoque com freqüência!”.
CAPÍTULO IX
Há vários aspectos do procedimento mágico
no trabalho cerimonial que é preciso considerar. Que o som, por exemplo, detém
um poder criativo ou formativo, isto é há muito reconhecido e conhecido pela
maior parte da humanidade. O mantra dos hindus e seus efeitos sobre o
cérebro bem como sobre as ramificações nervosas do corpo têm sido o assunto
reiterado de considerável quantidade de experimentos científicos e leigos. Uma
teoria racional referente ao mantra sagrado
sustenta que sua ação no cérebro pode ser comparada à de uma roda que gira
celeremente e por cujos raios nenhum objeto pode passar. Afirma-se que quando o
mantra é firmemente estabelecido e o cérebro tenha absorvido automaticamente
sua tonalidade fluida, todos os pensamentos, até mesmo o do mantra, são
projetados para fora, e na mente esvaziada de todo conteúdo a experiência
mística pode acontecer. Há uma outra teoria sustentada por outras escolas de
ocultismo que afirma que a vibração estabelecida por um mantra possui um efeito
purificador sobre toda a constituição humana; que por meio de sua ação
vibratória os elementos mais grosseiros do corpo são gradativamente expelidos,
um processo de purificação que ocorre e afeta não apenas o corpo de carne,
sangue, cérebro e terminais nervosos como também tanto o corpo de luz quanto a completa estrutura mental
dentro da esfera de sua ação. Na admirável biografia de Milarepa, o iogue
budista, publicada pela Oxford University Press, existe a seguinte nota de pé
de página: “De acordo com a escola Mantrayana
está associada a cada objeto e elemento da natureza... uma taxa particular de
vibração. Se essa for conhecida, formulada num mantra e utilizada habilmente por um iogue aprimorada, como era
Milarepa, afirma-se ser capaz de impelir as divindades menores e elementais à
aparição e as divindades superiores a emitir telepaticamente sua divina
influência em raios de graça.”
Sustenta-se em magia que a vibração de
certos nomes divinos conduz à produção de seus fenômenos psicológicos e
espirituais. “Por quê?” pergunta Blavatsky em A doutrina secreta. Respondendo à sua própria pergunta ela afirma:
“Porque a palavra falada possui uma potência desconhecida, insuspeita e
desacreditada dos modernos ‘sábios’. Porque som e ritmo estão estreitamente
relacionados aos quatro elementos dos antigos, e porque certamente esta ou
aquela vibração no ar desperta poderes correspondentes, sendo que essa união
produz bons ou maus resultados, dependendo do caso”.
A lenda que se refere ao Tetragrammaton hebraico é interessante.
Aquele que conhece a pronúncia correta de YHVH,
chamado Shem ha-Mephoresh, o Nome
impronunciável, detém o meio de destruir o universo, seu próprio universo particular
e arremessar essa consciência individual ao samadhi.
Ademais, a teoria mágica assevera que a vibração estabelecida pela voz humana
possui o poder não só de moldar a substância plástica da luz astral sob várias configurações e formas dependendo de seu tom
e volume, como também de impulsionar a atenção de entidades e essências metafísicas para aquele molde.
O poder do som pode ser comprovado com
absoluta facilidade por meio de alguns experimentos superficiais, mas sumamente
interessantes. O proferir do monossílabo Om em voz alta e penetrante se sentirá, sem
dúvida, vibrando de maneira notável tanto na garganta quanto no tórax. Através
da repetição, a capacidade de aumentar a potência ou freqüência das vibrações e
a área de sua detonação podem ser ampliadas de modo bastante considerável. Por
meio de uma certa quantidade de prática criteriosa, sempre acompanhada do
exercício da inteligência, o praticante se achará capacitado a vibrar uma única
palavra de maneira a fazer o corpo todo estremecer e tremer sob o impacto do
poder da palavra. Por outro lado, a prática também capacitará o aprendiza
limitar, por exercício de sua vontade, a vibração a uma certa área ou
localidade de seu corpo. Desnecessário dizer que se deve ter sempre um enorme
cuidado, pois não se requer nessa prática que o corpo seja fragmentado ou
despedaçado por vibrações catastróficas.
Há famosos exemplos do poder destrutivo
do som causado pela ribombar do trovão ou a explosão de granadas. Temos a
história amiúde repetida, e que vale bem a pena mencionar aqui, de um truque
realizado por um grande cantor. Ele dá uma pancadinha de leve com a unha do
dedo num copo de vinho de modo a fazê-lo retinir; em seguida, captando a nota
com sua voz entoa a mesma nota com sua boca precisamente acima do copo. Passado
um momento, estando sua voz vibrando em uníssono com a nota emitida pelo copo,
ele bruscamente substitui a nota por uma mais alta, e o copo inesperadamente
cai despedaçado. Ele está brincando com a lei da vibração, pois todas coisas,
visíveis e invisíveis, adentram sua esfera, e todo objeto concebível existe num
plano definido, possuindo uma taxa de vibração diferente. Toda massa orgânica e
inorgânica é composta de uma multidão de centros de energia infinitamente
pequenos que, a fim de se aderirem entre si, têm que vibrar conjuntamente. A
mudança desta vibração ou destrói a forma ou produz mutações e alterações de
forma.
E se há um aspecto destrutivo do som,
conclui-se que há outro de formação e criação a ser descoberto mediante
experimentação constante e paciente. O efetivo poder de formação pode ser
demonstrado muito facilmente. Que o leitor espalhe um pouco de areia fina sobre
a caixa de som de um violino, e sem tocar a areia mova o arco levemente sobre
uma das cordas. Constatar-se-á que a vibração exerce uma influência formativa,
visto que com o soar da nota e sua amplificação na caixa acústica a areia
assume curiosas formas geométricas: um quadrado ocasionalmente será formado com
muita clareza, ou um triângulo, uma elipse ou um desenho comparável à estrutura
de um floco de neve, cristalino e uma coisa de rara beleza. O mesmo experimento
pode ser executado sobre uma lâmina de vidro, e dependendo de o arco ser movido
lenta ou rapidamente de encontro à borda, levemente ou com muita pressão, a
areia assumirá uma forma diferente. No violino uma nota suave e profunda
naturalmente produzirá uma forma sonora diferente de uma longa nota lamuriosa e
lancinante; a brusquidão possui um valor-forma distinto de um vibrato lento. Há em algum lugar nos escritos
de Madame Blavatsky o testemunho de que ela própria em uma ocasião, à beira da
morte, foi chamada de volta à vida e curada de suas enfermidades através dos
poderes inerentes ao som. Todas essas coisas vão ao ponto de mostrar que o som
efetivamente possui um valor criativo, devendo ser o objetivo de todo aquele
que se supõe mago apurar mediante a prática que tom de voz é mais adequado ao
trabalho mágico. A experiência mostra que um sussurro penetrante dos nomes a
serem pronunciados constitui o método mais satisfatório, uma voz que mais vibra
do que pronuncia claramente sendo o que é requerido.
A vibração de nomes divinos é portanto um
aspecto essencial na prática da magia porque o conhecimento do nome de qualquer
ser – e no conhecimento está incluída a capacidade de vibrá-lo e pronunciá-lo
corretamente, bem como uma compreensão de suas implicações cabalísticas –
corresponde a deter uma espécie de controle sobre ele. O conhecimento do nome
pode ser adquirido pela aplicação de princípios cabalísticos, de modo que no
nome é possível encontrar um resumo das forças e poderes que lhe são inerentes.
Numa palavra está a magia contida, e uma palavra corretamente pronunciada é
mais forte, diz Lévi, do que os poderes do céu, da terra ou do inferno. A
natureza é comandada com um nome; os reinos da natureza, do mesmo modo, são
conquistados e as forças ocultas que compreendem o universo invisível obedecem
àquele que pronuncia com compreensão os nomes incomunicáveis. “Para pronunciar
esses grandes nomes da Cabala, de acordo com a ciência, temos que fazê-lo com
pleno entendimento, com uma vontade por nada detida, com uma atividade que nada
pode repelir.”
A vibração de nomes divinos, então,
constitui uma das mais importantes divisões de uma invocação cerimonial. Os
incensos, perfumes, cores, sigillae e
luzes em torno do círculo mágico auxiliarão na evocação da idéia ou espírito
desejados a partir da imaginação, e para que se manifestem numa roupagem
apropriada, coerente e tangível ao exorcista. Não somente deve haver intenção e
pensamento, como também a expressão concreta do pensamento numa ação ou numa palavra a qual, para a idéia, tem que
ser como um logos. À guisa de ilustração do modo de
vibração, suponhamos que um exorcista deseje invocar os poderes pertencentes à
esfera de Geburah. Apurar-se-á que
seu planeta é Marte, cuja qualidade essencial é energia e força cósmicas
resumidas na divindade Hórus, seu arcanjo será Kamael, seu espírito Bartsbael e
a Sephira aos quais estes são atribuídos
ostenta o nome divino Elohim Gibor. Quando na cerimônia mágica
que o teurgo impulsiona chega o momento de pronunciar o nome divino, que ele
aspire muito profundamente, lenta e energicamente. No instante em que o ar
exterior tocar as narinas, deve-se imaginar claramente que o nome do deus,
Elohim Gibor, está sendo aspirado com o ar. Figura-se o nome sustentado nas
alturas em grandes letras de fogo e chama e à medida que o ar lentamente enche
os pulmões, deve se imaginar que o nome permeia e vibra através de toda a
estrutura do corpo, descendo gradualmente através do tórax e do abdômen, até as
coxas e pernas atingindo, os pés. Quando parecer que a força toca a parte mais
inferior das pernas, se expandindo e se difundindo para cada átomo e célula do
pé – e a prática tornará essa façanha da imaginação menos difícil do que
aparenta – o teurgo deverá assumir uma das poses características do deus Hórus
exibidas nas vinhetas do Livro dos mortos
do Antigo Egito. Uma delas, o sinal
do ingressante, consiste em arrojar o pé esquerdo para a frente e inclinar
o corpo para a frente, ambos os braços sendo primeiramente levados à cabeça e
atirados à frente como se projetando a força mágica para o triângulo de evocação. À medida que este sinal está sendo assumido,
ao mesmo tempo que os pulmões estão expirando o ar carregado com o nome,
dever-se-á imaginar intensamente que este se eleva rapidamente a partir dos
pés, através das coxas e do corpo, sendo então arremessado energicamente com um
vigoroso grito de triunfo. Se o corpo inteiro do mago sentir-se inflamado de
força e energia, e trovejando no interior de seus ouvidos proveniente de toda
porção de espaço circundante ele ouvir o eco ressonante do nome vibrado
magicamente, ele poderá estar seguro que a pronúncia foi corretamente feita. O
efeito da vibração dos nomes divinos consiste em estabelecer um sinal na luz
astral superior, ao qual responderá diligentemente a inteligência evocada.
Outros gestos e outros sinais existem para cada um dos deuses e poder-se-á saber o que são esses sinais mediante o estudo
das formas divinas egípcias.
Estreitamente aliada à vibração dos nomes
divinos encontra-se um outro ramo da magia. É possível que o aprendiz tenha
notado em alguns rituais muitas palavras incompreensíveis numa língua estranha
ou desconhecida, palavras conhecidas tecnicamente como “nomes bárbaros de
evocação”, as quais os Oráculos caldeus nos
aconselham a jamais alterar “pois são
nomes divinos que possuem nos ritos sagrados um poder inefável”. Originalmente,
tudo que se entendia pelos “nomes bárbaros” era que se tratava de palavras no
dialeto dos egípcios, caldeus e assírios, considerados bárbaros pelos gregos,
e G. R. S. Mead prefere traduzir a
expressão para “nomes nativos”.
Jâmblico, respondendo às indagações de Porfírio sobre esse ponto, declara: “Aqueles
que aprenderam em primeira mão os nomes dos deuses, os tendo mesclado com sua
própria língua, os entregaram a nós, para que pudéssemos sempre preservar
inalterável a lei sagrada da tradição numa linguagem peculiar e a eles
adaptada... Os nomes bárbaros, igualmente, detêm muita ênfase, grande concisão
e participam de menos ambigüidade, variedade e multiplicidade”. A experiência
confirma que as mais poderosas invocações são aquelas em que estão presentes
palavras pertencentes a uma língua estranha, antiga ou talvez esquecida; ou até
mesmo aquelas expressas num jargão degenerado e, pode ser, sem significação.
Nesses conjuros, a qualidade que mais se destaca é o fato de a língua empregada
ser sempre muito vibrante e sonora, sendo esta sua única virtude, pois são
caracteristicamente eficazes quando recitadas mediante entonação mágica, cada
sílaba sendo cuidadosamente vibrada. Por uma razão ou outra, descobriu-se que a
recitação desses nomes conduz à exaltação da consciência, exercendo uma
fascinação sutil na mente do mago. “A magia dos antigos sacerdotes consistia
naqueles dias...”, pensava Madame
Blavatsky, “...em se dirigir a seus deuses em sua própria língua... composta de
sons, não de palavras, de sons, números e figuras. Aquele que sabe como
conjugar os três invocará a resposta do poder
superintendente. Assim essa língua é a dos encantamentos ou dos mantras, como são chamados na Índia,
sendo o som o mais potente e eficaz agente mágico, e a primeira das chaves que
abre a porta de comunicação entre mortais
e imortais”.
A base racional e a explicação da
exaltação não estão muitos afastadas da experiência geral. Não é única e nem se
limita exclusivamente ao trabalho cerimonial ou teúrgico. Lê-se amiúde de
poetas que se tornam enlevados, por assim dizer, pela repetição de versos e
nomes rítmicos; de fato, muitos dos poemas de Swinburne constituem um
esplêndido exemplo de tal poesia. Ouve-se falar, também, de crianças precoces
que são singularmente afetadas por aquelas passagens da Bíblia nas quais
existem longas listas de estranhos nomes e lugares hebreus. Thomas Burke, o
eminente romancista, uma vez informou-me que quando era jovem, os nomes das
cidades e países do continente sul-americano atuavam para ele como fascinações
de quase encantamento, exercendo um poder oculto. Nomes como Antofagasta, Tuerra* del Fuego, Antanonoriva
e Venezuela são efetivamente
nomes bárbaros para conjuração. Lembro-me, também, da leitura em certa ocasião
de um poema da autoria de William J. Turner, o crítico de música, no qual ele
conta que quando menino as palavras e nomes mexicanos exerciam um fascínio
sobre ele, tais como Popocatapetl,
Quexapetl, Chimborozo e similares. Os nomes por si mesmos nada transmitem a
uma imaginação fértil e desenvolvida; a exaltação da consciência se deve quase
que inteiramente ao ritmo e a sua música, a fascinação dos nomes penetrando o
domínio da imaginação, onde é agarrada para despertar um frenesi ou excitação
peculiares. Em todo caso, resta pouca dúvida de que as muitas palavras
bárbaras, formidáveis e de aparência quase medonha que ressoam e são
vociferadas em tantas das melhores invocações provenientes da Antigüidade,
exercem um efeito estimulante na consciência, exaltando-a ao grau exigido pela
magia. A invocação do “não-nascido”,
cujos elementos básicos são encontrados em alguns fragmentos greco-egípcios e
que está reimpressa no último capítulo deste livro, é talvez o mais notável
exemplo. Como ritual é considerada por muitos como um dos melhores, sendo
repleta de palavras estranhas ricas em música e excitações primitivas, sonoras
ao mais alto grau. Muitos dos rituais e invocações utilizados pelo astrólogo
elisabetano dr. Dee, que trabalhava em colaboração com seu colega Sir Edward Kelly, constituem também
espécimes marcantemente bons dessa linguagem. Na verdade, pode-se considerar os
rituais de Dee como únicos. São escritos quase que totalmente, à exceção de
algumas palavras hebraicas, numa língua curiosa chamada angélica
ou enoquiano, segundo Dee ditada a ele pelos anjos. Independentemente de sua origem,
apurou-se que as invocações expressas nessa língua atuam com uma peculiaridade
e uma força constatadas em nenhuma outra língua.
* Ou melhor, Tierra. (N. T.)
Típico das palavras bárbaras, pode-se
fazer citações extraídas de vários rituais. A que se segue é retirada dos
conjuros de Dee:
“Eca, zodocare, Iad, goho. Torzodu odo kikale qaa! Zodacare od zodameranu! Zodorje,
lape zodiredo Ol Noco Mada, das Iadapiel! Ilas! hoatahe Iaida! “
Presente no capítulo CLXV da recensão
Saite do Livro dos Mortos,
encontra-se uma petição a Amen-Ra, onde os mais poderosos dos nomes mágicos do
deus são recitados: “Salve, tu Bekhennu,
Bekhennu! Salve, príncipe, príncipe! Salve, Amen. Salve, Amen! Salve Par, salve
Iukasa! Salve, deus, príncipe dos deuses das partes orientais dos céus,
Amen-Nathekerethi-Amen. Salve tu cuja pele está oculta, cuja forma é secreta,
tu, senhor dos dois cornos nascidos de Nut, teu nome é Na-ari-k, e Kasaika é
teu nome. Teu nome é Arethi-kasatha-ka, e teu nome é Amen-naiu-anka-entek-share
ou Thekshare-Amen Rerethi! Salve, Amen e
permite-me fazer a súplica a ti pois eu conheço teu nome... Oculto é teu
discurso, ó Letasashaka, e eu fiz para ti uma pele. Teu nome é Ba-ire-qai, teu
nome é Marqatha, teu nome é Rerei, teu nome é Nasa-qebu-bu, teu nome é
Thanasa-Thanasa; teu nome é Sharshathakatha.”
Um outro excelente exemplo, quiçá um dos
melhores no que diz respeito à aparente ininteligibilidade dos nomes, acha-se
no Harris Magical Papyrus, do qual uma
tradução inglesa pode ser encontrada nos Fac-símiles
de Papiros Hieráticos do Museu
Britânico.
“Adiro-Adisana!
Adirogaha-Adisana. Samoui-Matemou-Adisana!
“Samou-Akemoui-Adisana!
Samo-deka! Arina-Adisana! Samou-dekabana-adisana! Samou-tsakarouza- Adisana!
Dou-Ouaro-Hasa! Kina! Hama! (Pausa)
Senefta-Bathet-Satitaoui-Anrohakatha-Sati-taoui! Nauouibairo-Rou!
Haari!”
No fragmento a que já nos referimos do
ritual greco-egípcio, editado por Charles Wycliffe Goodwin para a Cambridge Antiquarian Society em meados
do século passado*, aparecem também nomes exemplares: “Eu te invoco, deus terrível e invisível que
habitas o sítio vazio do Espírito: Arogogorobrao, Sothou, Modorio, Phalarthao,
Doo, Apé, O Não-nascido.”
* Isto é, século
XIX. (N. T.)
Entretanto, tanto do ponto de vista da
pesquisa quanto da filosofia concorda-se que o conhecimento da Cabala em todos
os seus ramos constitui um suplemento
importante e considerável à
prática do mago. Como o mago se aplica em
tornar sua vida compreensível e
em interpretar todo incidente que lhe é inerente como uma transação de Deus com
sua alma, de maneira que todas as coisas possam tender para sua iluminação
espiritual, poderia parecer incongruente que ele contradissesse essa decisão
incorporando palavras sem significado e sem sentido em suas invocações. Acima
de tudo, a consistência e a coerência interna tipificam a mente do mago.
Conseqüentemente negligenciar os princípios exegéticos da Cabala é deixar
desprotegidos os canais através dos quais o caos e a incoerência poderão
invadir o sanctum de cognição. Toda
palavra bárbara deveria ser tão
cuidadosamente estudada e compreendida em termos de grau de atenção e erudição
quanto uma análise da Crítica da Razão
Pura de Kant, permitindo-se a significação oculta penetrar abaixo do nível
de consciência onde, durante a cerimônia, possa auxiliar na produção da
excitação requerida. E a revelação do real espírito dos nomes bárbaros não pode
dispensar um bom conhecimento funcional da Cabala.
Por exemplo, consideremos a palavra “Assalonoi” constante numa outra parte
do fragmento greco-egípcio. A primeira letra sugerirá Harpócrates, o Senhor do Silêncio, que é o Bebê no Lótus e o Puro Louco do tarô, o inocente Percival que silenciosamente se põe
em busca do Cálice Sagrado. É apenas ele que, devido à sua loucura mundana mas
também à sua sabedoria e inocência divinas, pode chegar incólume ao fim. O “s”
será visto como se referindo à carta do tarô que representa o Santo Anjo Guardião que ostenta no
peito um sigillum que tem
gravadas as letras do Tetragrammaton. “Al”
pode ser interpretado como sendo a palavra hebraica para deus, bem como “on” é um
nome gnóstico. Pode-se supor que o sufixo “oi” indique o pronome possessivo meu, de sorte que considerada em sua
totalidade, a palavra é, na realidade, um resumo de uma invocação completa do
Santo Anjo Guardião.
Consideremos agora “Phalarthao”, palavra na mesma invocação. “Phal” é obviamente uma
abreviação de falo, que de acordo com
Jung é o símbolo das faculdades criativas de um ser humano. Ele o define,
aliás, como “um ser que se move sem membros, que vê sem olhos e conhece o
futuro; e como representante simbólico do poder criador universal, em todo
lugar existente, a imortalidade está indicada nele. É um vidente, um artista e
um operador de prodígios”. Submetendo-se as duas letras “ar” ao processo
cabalístico denominado Temurah, teremos Ra,
o deus-Sol, que verte sua copiosa generosidade em luz, calor e sustento
sobre todo o mundo da matéria, e que proporciona graça e iluminação espirituais
à vida interior. O “th” é Tes, a
serpente leônica que é a essência da vida física, conferindo substância à visão
espiritual. “A” é o raio de Thor, as forças mágicas do Adepto postas em
movimento e o “o” representa o bode montês e o aspecto fecundo criativo do ser
do homem.
A palavra “Adisana” que aparece com muita freqüência no elenco de nomes
bárbaros fornecidos pelo Harris Magical Papyrus, traz à mente uma
alusão teosófica. As Estâncias de Dzyan apresentadas em A
Doutrina Secreta mencionam a palavra sânscrita Adi-Sanat. Blavatsky explica
que essa sugere equivalência com Brahma e a Sephira da Cabala, Kether, e significa o Criador
uno. O mago pode assim supor que a palavra egípcia, na falta de
conhecimento mais preciso e definido, é, portanto, uma referência à coroa,
a mônada no homem e no cosmos.
Ainda outros métodos podem ser concebidos
para tornar inteligíveis os nomes bárbaros para que nos ritos nenhuma falha
possa desfigurar a integridade e consistência da consciência de alguém.
No que concerne ao uso prático – a exaltação
da alma – um método esboçado por
Therion* pode ser de alguma utilidade. Supondo-se que a cerimônia
culmine numa grande invocação, cujo ápice inclui muitas dessas palavras
especiais, é possível empregar uma técnica específica, a qual, contudo, implica
um pouco de treinamento da imaginação. Essa faculdade deve ser desenvolvida de
modo que qualquer imagem de qualquer objeto possa ser formulada claramente
diante do olho da mente com vívida distinção e completude; e não apenas isso,
mas de maneira que a formulação possa ser sustentada por algum tempo. Durante a
invocação, o teurgo deve imaginar que a primeira dessas palavras intoxicantes é
como um pilar de fogo se estendendo como uma coluna vertical e reta na luz astral. À medida que as letras do
nome deixam seus lábios e são impelidas para o éter, que ele imagine que sua
própria consciência no corpo de luz segue
essas letras em sua jornada pelo espaço sutil e é arremessado violentamente ao
longo daquele eixo. A palavra bárbara seguinte deve ser concebida ocupando uma
coluna talvez duas vezes mais longa ou mais alta que a precedente, de modo que
quando a última palavra de invocação for atingida – ignorando no momento a ação
e poder inerentes à própria invocação – a consciência será supremamente
intoxicada e o ego será subjugado por um sentimento de espanto e fadiga. O eixo
deve ser visto no fim para crescer em estatura diante do olho espiritual,
ascender cada vez mais alto até que a imaginação seja quase fulminada pela
grandeza e imensidão assomadas que gradualmente criou. Esse sentido de temor e
maravilhamento produzido por esse viajar no eixo ígneo de cada palavra bárbara
é o precursor certo da exaltação e êxtase mágicos. E com a prática o teurgo
inventará outros métodos, mais adequados ao seu próprio temperamento e para o
emprego satisfatório dessas palavras.
* Aleister
Crowley. (N. T.)
– - –
Para o avivamento do trabalho cerimonial
a dança, a música e o toque de sinos constituem outros acompanhamentos
complementares. Os toques de sinos e sons produzidos por percussão deverão
estar em harmonia no que diz respeito à
quantidade e ao tipo de operação. Seu uso visa a anunciar o domínio, registrar
a nota do triunfo do mago e recuperar a atenção desviada. Quanto à música,
trata-se de um assunto muito mais complicado porquanto sua apreciação varia
largamente de indivíduo para indivíduo. É, de preferência, omitida em muitas
invocações visto que tende mais ou menos a distrair a atenção do teurgo, embora
como prelúdio possa ajudar no êxtase e exaltação. Exige a presença de um músico
ou músicos e qualquer sinal de embaraço ou falha técnica deste ou destes atrai
discordância e fracasso. O violino ou a harpa, produzindo as notas de maior
transcendência e exaltação, podem, ocasionalmente talvez ser empregados.
O tuntum com seu selvagem e apaixonado
tamborilamento pelos dedos é útil em outros tipos de trabalho nos quais se
requer a excitação da energia, ou até mesmo a tranqüilização da mente. Trata-se
simplesmente de forçar a mente a acompanhar o compasso rítmico do tuntum, que pode ser aumentado ou
gradativamente reduzido até quando tiver desvanecido num silêncio abrandado,
seguir-se-á a paz de uma mente tranqüila. A música oriental consiste
principalmente desse tipo monótono, encerrando assim um motivo religioso ou
místico. Numa apresentação de balé à qual um amigo deste escritor foi convidado
em Java, havia cerca de doze dançarinos que envergavam trajes e máscaras
grotescos embora deslumbrantemente coloridos, típico do Oriente ostentatório. A
orquestra era constituída por cinco músicos: três tocando um instrumento
parecido a um enorme xilofone cobrindo apenas cinco notas, e dois percutindo
tambores javaneses. Num teatro externo a dança, principalmente produzida com as
mãos e os dedos, durou cinco horas sem um único interlúdio. Todo o tempo os
aplicados membros da orquestra nativa fizeram soar seus ritmos monótonos até
que pareceu aos europeus como se os sentidos e a mente sucumbissem ao ritmo
tedioso, passando finalmente ao silêncio.
Uma dança ligeira, de passos curtos,
digamos uma simples dança de dois passos, pode ser útil, e acompanhada por um tuntum e um mantra mental dentro de um círculo ou câmara consagrados poderá ser
utilizada como elemento precursor do êxtase. Essa dança é particularmente
interessante ao mago visto que sua característica é ritmo e a totalidade da
natureza é a corporificação de ritmo e graça, ambos aspectos da dança. A dança
na natureza é mostrada no crescimento e movimento, pois o movimento é o
elemento essencial da vida, o tema representado num palco infinito. Os êxtases
da natureza e suas criaturas passaram ao uso ordinário, reaparecendo
reiteradamente na linguagem popular. A música das esferas e a dança das hostes
dos planetas e corpos celestes nas infinitudes do espaço sempre receberam a
devida atenção nas mãos dos maiores filósofos e poetas que sondaram o coração
das coisas. Com freqüência, também, se fala
– por meio de clichês, é verdade – das cambalhotas dos cordeiros e dos
cabritos saltando nos prados verdes; a dança flutuante das nuvens e a pronta
ressaca e retirada dos vagalões do mar. Esses fenômenos, o que não são senão a
participação conjunta na dança da vida
que diariamente, ano após ano, século após século, prosseguem imutados e
inalterados e que em sua perpetuidade tem que ser considerada como a própria
encarnação do júbilo!
No que concerne ao emprego da dança
em operações mágicas, deveria ser absolutamente suficiente o indício
fornecido pela dança dos dervixes islâmicos. Esses místicos maometanos são
orgulhosos de uma dança que não é, como alguns pensaram, um frenesi
descontrolado. No início é precisamente o contrário. Subjacente à sua
representação há um motivo altamente religioso: êxtase e união com Alá. De uma posição
estacionária eles gradativamente aumentam a velocidade de sua rotação e com os
braços estendidos rodopiam com uma tal celeridade que parecem não estar se
movendo em absoluto. Em pouco tempo, esse movimento rotativo induz a uma
vertigem tanto corporal quanto mental, a qual por puro esforço da vontade, tem
seu efeito adiado e é expulsa da consciência. A dança finalmente culmina no
colapso do dervixe num estado de completa inconsciência, e não somente nisto, o
que acho importante, como também num estado do mais elevado êxtase. Alguns,
ademais, podem estar familiarizados com nomes tais como Shri Chaitanya e seu
discípulo Nityananda que vagavam pela Índia no século XV, cantando e pregando,
e dançando alegremente a doutrina de Bhakta
ou união com Deus por devoção. Houve também em anos relativamente recentes a
figura do eminente mestre religioso Shri Ramakrishna Paramahamsa, cujas
freqüentes canções e danças devotas eram tão carregadas de fervor e forte
emoção que se diz que transformações morais e espirituais foram produzidas
naqueles que tiveram o privilégio de assisti-las. Muitas dessas pessoas, afirma
a reportagem, ficavam tão tomadas pela emoção profunda e o arrebatamento de
bem-aventurança à vista do mestre dançando que caíam em êxtases e desmaiavam.
No que se refere ao moderno teurgo, o
principal objetivo da dança é obter uma exaustão física e uma cessação de todo
pensamento. No domínio dessa negatividade, se tiver sido induzida dentro de uma
área adequadamente consagrada e banida, pela qual nenhuma entidade ousará se
imiscuir exceto a força previamente tornada manifesta mediante as invocações, a
presença espiritual invocada poderá se encarnar. Essa é a idéia fundamental da dança, embora alguns possam preferir omiti-la por completo de suas
cerimônias. Cada tipo de força, pertencente às várias Sephiroth, disporá de seu próprio tipo de dança, com seu próprio
passo e seu próprio tempo.
Um movimento comum à maioria das
invocações, que é menos dança do que um ligeiro movimento a passos curtos ou o
rodopio, é o circumpercurso. De vez em quanto, é exigido do mago que ele ande
de algum dos pontos cardeais um certo número de vezes em torno do círculo, o
número específico determinando a natureza da força a ser invocada. Ademais, a
direção do circumpercurso, seja para o leste ou oeste, determinará se ele está
invocando ou banindo. Um movimento dextrógiro, isto é, horário, invocará, e um
movimento sinistrógiro, o precisamente oposto, anti-horário, banirá.
Tradicionalmente, o circumpercurso no círculo
constitui um método maravilhoso para adquirir potencial e despertar o
entusiasmo e força necessários.
CAPÍTULO X
Nos capítulos anteriores empenhei-me em
mostrar de que maneira a teurgia concebe a vontade
e a imaginação como sendo os instrumentos da reconstrução do ser humano. Entretanto, me proponho a prosseguir
com a questão de tal emprego da imaginação, porquanto a mais fundamental tarefa
da magia a isso concerne. Considerando-se que a substância plástica da luz
astral é de modo peculiar suscetível à manipulação de correntes
imaginativas, e considerando-se que as imagens confeccionadas nessa luz
produzem alterações perceptíveis, se a vontade for suficientemente forte para vitalizar essas imagens, o
mago procurará aplicar esses fatos à sua própria esfera. Atentemos para o fato
de que segundo todas as autoridades, a luz astral é tida como de natureza
dupla. Há o aspecto astral básico, a chamada serpente enganadora, ocupado pelos
cascões decadentes e os fantasmas, e o plano superior, no qual existe uma
riqueza de imagens reais, idéias e sugestões espirituais. Elevar-se além da
serpente astral até o astral superior constitui obviamente uma tarefa mágica
primordial. Invocações do Santo Anjo Guardião e a união teléstica com os deuses
e essências universais constituem os
métodos supremos de transcender os planos etéreos mais baixos, mas essas são
metas máximas às quais todos os métodos e técnicas passam a servir. Visando a
tornar as difíceis metas da invocação e da união mais facilmente obteníveis e
menos árduas, os teurgos recomendam uma prática em que o sucesso confere a
capacidade de conscientemente transcender o astral inferior e deliberadamente
ascender até mesmo além do astral superior rumo aos fogos divinos sem forma dos domínios espirituais. Visto que
todos os planos da natureza e todas as
forças que se mantêm no universo estão representados na constituição interior
do homem, o plano astral em seu aspecto duplo se acha, do mesmo modo, dentro
dele. O aspecto inferior, a fase lunar, corresponde ao princípio humano de Nephesch enquanto que se poderia supor
que o plano superior corresponde a Sephira
central da Árvore da Vida, Tiphareth,
o coração pulsante de Ruach e até
mesmo se estende aos limites de Neschamah.
Com o aspecto lunar inferior do astral, a região dos cascões qlifóticos, demônios e fantasmas em
dissolução dos mortos, o mago tem pouco ou nada a fazer; sua aspiração é
dirigida àquilo que está acima, nas camadas superiores da Árvore viva. “Não te
inclina para baixo”, advertem os Oráculos
Caldeus, “para o mundo tenebrosamente esplêndido, onde repousam
continuamente uma profundidade sem fé e Hades envolvido por nuvens, se
deliciando com imagens ininteligíveis, precipitadas, tortuosas, um abismo negro
sempre rodopiante, sempre desposando um corpo não-luminoso, amorfo e vazio...
Não fiques no precipício com a escória da matéria pois existe um lugar para tua
imagem num domínio sempre esplêndido.” É o “domínio sempre esplêndido” que
realmente diz respeito ao teurgo já que nele estão as forças e poderes que
podem se revelar sumamente prestativos a ele em sua busca. Dentro do Nephesch duplo existe um princípio
energético substantivo e vital. O primeiro é o chamado corpo astral ou a duplicata sutil à qual o corpo físico deve sua
contínua existência e subsistência. Embora o desenvolvimento desse corpo de Nephesch constitua efetivamente um certo
ramo da magia, não é nossa intenção tratar dele aqui já que tem pouca conexão
com a alta teurgia. Pertencente ao domínio de Tiphareth existe um aspecto superior desse corpo astral que
realmente entra de maneira muito ampla na teurgia prática. Não é realmente um
corpo astral no sentido de um modelo vital que proporciona vida ao físico, mas
sim um corpo mental ou de pensamento, o veículo direto das faculdades ideais e
espirituais, cuja substância é aquela do astral superior ou divino. De acordo
com Blavatsky é o Mayavi-rupa, o
corpo de pensamento ou de sonho, o invólucro da mente, memória e emoção,
conhecido e chamado em teurgia de corpo
de luz. Ora, os teurgos sustentam que esse corpo de luz pode
conscientemente ser separado e projetado do corpo, sendo Blavatsky da opinião
de que aquele que é capaz de fazer isso é um Adepto! “Separarás o leve do denso
atuando com grande sagacidade”, aconselha Hermes Trismegistos*. Este corpo de
luz, como o veículo dos princípios superiores, pode ser empregado para
investigar o mundo interior visando a apurar sua natureza real, e assim a
natureza do próprio homem, porquanto as leis do universo são as da mente e
vice-versa. O astral superior, com o qual nos tornamos familiarizados através
da instrumentalidade do corpo de luz é usado assim como uma escada, por assim
dizer, por meio da qual o teurgo ascende ao domínio do espírito supremo, ígneo,
criativo e estático.
* Trismegistos, três vezes grande. (N. T.)
Conseqüentemente constituem naturalmente
um fundamento da magia prática a projeção desse corpo sutil, a aquisição da
faculdade de nele atuar com a facilidade com que o fazemos no corpo denso, o
treinamento e a educação desse corpo de luz no sentido de satisfazer aos
desejos do teurgo. A capacidade de ter êxito nessa fase particular do trabalho
depende inteiramente do fato de o mago ter treinado sua imaginação, pois essa é a
alavanca mágica para a projeção proposta.
A técnica, em resumo, é a seguinte: sentado
confortavelmente numa cadeira – ou, tanto melhor, numa postura de ioga em que se foi treinado,
no que nesse caso é fácil – e
tranqüilizando sua mente e emoções o máximo possível, o mago deverá tentar
imaginar de pé diante dele uma exata duplicata de seu próprio corpo. Caso o
mago tenha se envolvido com muita prática dos símbolos dos tattvas ou com os exercícios espirituais de Sto. Inácio e aqueles
descritos numa seção anterior deste estudo, não se defrontará com nenhuma
grande dificuldade para formular essa imagem. O teurgo deve conceber
vividamente que um simulacro de seu próprio corpo se posta diante dele na
mente; e que está vestido como o mago está vestido, de manto mágico com bastão
ou espada, dependendo do caso, e que se apresenta de pé ereto, ou sentado numa
cadeira, ou numa cômoda e confortável Asana.
Caso o mago esteja sentado, a imagem igualmente deverá ser vista sentada.
Mediante um supremo esforço da vontade deve-se fazer essa imagem se
mover na mente e, observada muito rigorosamente todo o tempo, erguer-se
pondo-se ereta sobre seus pés. A parte mais difícil da tarefa do mago se
avizinha agora. Para o corpo de luz ele tem que transferir sua própria
consciência e é essa transferência que pode se revelar um pouco difícil, pois
por vezes ela simplesmente não ocorrerá.
Nesse caso, exercendo cada milímetro de
sua vontade e aplicando todo o poder de sua imaginação o máximo possível de
maneira que imagine e queira estar no corpo de pensamento, o teurgo deve
fazê-lo executar várias ações. A execução de um ritual como o ritual do banimento do pentagrama é um
esplêndido exercício, visto que por seu intermédio impele-se o corpo de luz ao
movimento, a girar sobre seu próprio eixo e a proferir palavras. Com
persistência, o mago poderá constatar depois de várias tentativas que em vez
desse corpo de luz executando o ritual como um autômato sob sua observação, ele
próprio o estará executando dentro do próprio corpo de pensamento. Esses
métodos soltam as vigas-mestras da alma e abrem os portais fortemente trancados
da mente. Além disso, pode acontecer que à medida que o mago recita uma
invocação, seguindo mentalmente cada um dos pontos do ritual com atenção e
cuidado, ele se descobrirá quase sem sabê-lo no corpo de luz. O efeito estimulante das palavras, as sugestões que
elas incorporam devem, em alguns casos, ajudar materialmente na transferência.
“Eu piso sobre as alturas! Eu piso sobre o firmamento de Nu! Eu ergo uma chama
rutilante com o relâmpago de meu olho, sempre impelindo para a frente no
esplendor do Ra glorificado diariamente, outorgando minha vida aos habitantes
da terra!” “Eu ascendo, ascendo como um falcão de ouro!” As duas primeiras
sentenças, particularmente, se recitadas com entendimento e sentimento devem
muito compreensivelmente bastar no caso de alguns indivíduos para produzir o
resultado desejado. Mesmo fisicamente, essas palavras forçam alguém a se erguer
nas pontas dos pés, como se pisando sobre o firmamento de Nu, e os veículos
sutis, sem dúvida, acompanharão. O sucesso tendo sido atingido, a transferência
deveria ser praticada reiteradamente até que finalmente o mago possa vestir sua
estrutura física e dela despir-se tal como um homem comum se despe de seu
sobretudo. Mas uma vez realizada a projeção efetiva, começa a verdadeira tarefa,
já que o corpo de luz tem que ser treinado para mover-se e ver no plano astral;
isto embora pouco tempo seja suficiente para que responda ao treinamento,
tornando-se então capaz de se mover e ver com a própria rapidez de relâmpago do
próprio pensamento.
Tão logo conseguiu habitar o corpo de
luz, o teurgo deverá empenhar-se em ver com seus sentidos astrais. Deve tentar
ver as coisas e objetos físicos existentes no apartamento que acabou de deixar,
observando o corpo, sua habitação
terrestre anterior, os móveis, as paredes, o teto e tudo o mais. Quando
descobrir que isto pode ser feito de maneira inteiramente simples e que os
sentidos astrais respondem de modo totalmente descontraído, então poderá
elevar-se diretamente rumo aos céus e observar o que de lá pode ser visto. Tudo
é principalmente uma questão de educação. Do corpo de luz, do veículo solar
flamejante do anjo precisa ser feito
um digno instrumento, e tal como se ensina a uma criança de um ano como falar,
engatinhar e andar, deve-se treinar esse sutil corpo de pensamento a atuar
perfeitamente em seu próprio plano.
Será nessa prática que o teurgo
descobrirá que o que eram símbolos convencionais no mundo exterior são
realidades dinâmicas que vivem sua própria existência nesse astral ou mundo do
pensamento. E sua meta deverá ser investigar esse domínio inteiramente na
multiplicidade dos aspectos e departamentos que ele continuamente apresenta,
visto que realmente coincide com os limites de seu próprio conhecimento
consciente e subconsciente. Com esse único objetivo em vista, várias tarefas
abrangentes deverão ser empreendidas. Aqueles símbolos dos tattvas que foram anteriormente os objetos de concentração e o
exercício da imaginação podem ser utilizados como sigillae por meio dos quais sejam produzidas visões que revelarão a
natureza invisível do símbolo. No corpo
de luz uma porta poderia ser imaginada, na qual está inscrito um triângulo
equilátero vermelho de Tejas, como um
exemplo. Atravessando essa porta e observando o tipo de paisagem, os seres
angélicos que falam ao teurgo e as conversações que se seguem devem dar a este
uma boa idéia da significação e do sentido implícitos do símbolo. Ora, parece
haver uma relação absoluta entre símbolos e realidades visionárias no plano
astral. A visão do tattva deve ter
provado isso de forma inquestionável. Estão registrados inúmeros exemplos de um
símbolo que é dado a um skryer,
símbolo com o qual ele jamais esteve antes familiarizado e que nunca vira
antes. O significado do símbolo só é conhecido do detentor do mesmo. O
resultado da visão obtida ilumina e corrobora o conhecimento do detentor do
símbolo. Este procedimento tem sido seguido repetidas vezes e igual número de
vezes uma visão que concerne com precisão à natureza do símbolo tem sido
obtida, sendo aconselhável que o procedimento seja utilizado relativamente aos
outros símbolos e subelementos dos tattvas.
Do mesmo modo devem ser investigados por esses meios os símbolos
astrológicos dos planetas, os signos do
zodíaco bem como as imagens do tarô. Isso deve descortinar um vasto campo de
pesquisa para cada mago já que em primeiro lugar uma espécie totalmente nova de
conhecimento pode assim ser adquirida. A natureza de um símbolo até então
desconhecido para ele pode ser investigada e uma significação baseada na observação
e experiência vinculada a ela. Inúmeros experimentos abrangentes devem ser
concebidos com o propósito de familiarizar o mago com a natureza do plano.
Quando essas visões astrais não conferem
nenhum conhecimento real, devem ser descartadas como meros exercícios técnicos
mediante os quais se obtém competência. A habilidade tendo sido conquistada, e
estas visões de experiência vital não sendo mais encontradas nem um novo
conhecimento adquirido, desaparece o valor da prática. Sabe-se que algumas pessoas
tolas que são capazes de viajar no astral nada mais fazem, nada conquistando e
sem nenhum benefício. Para elas, uma visão astral não tem significação
espiritual, e a intoxicação astral é a forma insidiosa de corrupção espiritual,
que então se apodera delas, e elas vagam perdidas, degenerando em meros
“vagabundos” astrais. Que o aprendiz registre isso no coração: o astral tem que
ser empregado ou para obter conhecimento definido ou para servir de trampolim,
um degrau na escada celestial rumo a planos ainda mais sutis; caso contrário,
só haverá aí estagnação contínua, dominada pela intoxicação, emaranhada nos
laços sedutores serpentinos que tentam o imprudente e o temerário. Trata-se de
um mundo reflexivo onde se pode perder-se facilmente a menos que a aspiração seja pura e forte. Horas, dias e até anos
podem ser gastos em visões fúteis que resultam em tão pouco proveito quanto
permanecer horas a fio olhando-se num espelho. “Para aqueles aos quais em sua
evolução espiritual surgem essas aparições eu diria: tente ser o senhor de sua
visão, e busque e evoque a mais grandiosa das memórias terrenas, não aquelas
coisas que apenas satisfazem a curiosidade, mas as que engrandecem e inspiram e
nos proporcionam uma visão de nossa própria grandeza; e a mais nobre de todas
as memórias da Terra é o augusto ritual dos antigos mistérios, nos quais o
mortal, em meio a cenas de inimaginável grandeza, era despido de sua
mortalidade e tornado membro da companhia dos deuses*.”
* The candle
of vision, de A. E.
É
mister que se informe que existem métodos mediante os quais é possível que o
teurgo teste a exatidão de sua visão e apure se não foi grosseiramente
ludibriado por elementais ou pela natureza de sua própria mente geradora de
fantasias. Graças a esses métodos evita-se, inclusive, a possibilidade de
perder-se no labirinto de fantasmagoria astral. Supondo-se que o teurgo tenha
obtido uma visão de Mercúrio, digamos através dos selos mercurianos de Cornélio
Agrippa ou a Clavícula de Salomão, o Rei, ao retornar
ao seu corpo, sua primeira tarefa deveria ser anotar a experiência num diário
especial mantido para essa finalidade. De passagem, deveria ser feito o pedido
da vida do mago no sentido de conservar um diário cientificamente elaborado com
o registro das visões e experimentos mágicos, já que isso conduz à ordem e ao
equilíbrio que é a direção para a qual sua aspiração tende. Que se frise que
essas visões devem ser registradas de uma maneira verdadeiramente científica
porquanto este registro elimina muitas possibilidades de ambigüidade,
considerando-se, ademais, que a memória nem sempre é infalível ou confiável
após o transcurso de um certo período de tempo, o procedimento que poderá ser
novamente acompanhado na verificação e averiguação da visão devendo ser
registrado por escrito. Imediatamente após cada experiência e visão dever-se-á
dar atenção ao diário.
Nas colunas do Magus de Barrett ou no De
occulta philosofia, no qual se baseia muito do primeiro, no Liber 777 de Crowley e no Garden of Pomegranates de minha autoria
encontrar-se-á uma ampla gama de correspondências naturais e simbólicas a cada
um dos trinta e dois caminhos da Árvore
da Vida. Para a verificação de sua visão o mago deve recorrer a essas
atribuições, visto que a experiência tem revelado, como afirmei anteriormente,
uma conexão real entre os símbolos e as
atribuições do alfabeto mágico e as realidades subjetivas. Se a visão de
Mercúrio encerrar elementos irregulares, de cor ou número, que essas colunas
atribuem, digamos, a Marte ou Saturno, o aprendiz poderá estar certo de que
algo radicalmente errado ocorreu, medidas devendo ser tomadas imediatamente no
sentido de repetir a visão inteira, assegurando-se de que nenhum erro ou
confusão relativamente à visão ocorram novamente. À medida que a experiência se
amplia, o mago retém em sua memória um
amplo alfabeto de correspondências e à medida que se torna mais familiarizado
com a natureza daquele plano passa a perceber instantaneamente se a visão
procede corretamente, sua crescente intuição, inclusive, advertindo-o quando há
alguma ameaça de perigo à coerência. Nunca é demais relembrar que uma das mais
importantes tarefas que cabem ao mago é a verificação da visão por referência
ao alfabeto mágico. Furtar-se a essa verificação científica e exame crítico da
visão resulta em acabar mais cedo ou mais tarde chafurdando no lodo viscoso de
intoxicação astral, com a perspectiva de avanço e progresso desaparecendo
imperceptivelmente no ar.
É necessário, contudo, observar algumas
precauções antes de projetar o corpo de luz. Deixar o corpo físico sozinho sem
a inteligência orientadora e o controle do eu
interior é equivalente em muitos casos a estender um convite aberto a
qualquer entidade astral, maligna ou não, que esteja nas vizinhanças para dele
tomar posse. Não há necessidade de alimentar qualquer apreensão quanto ao
bem-estar do corpo já que Nephesch, a sede das forças vitais e o
corpo de desígnio nele permanece a fim de prover o prosseguimento de suas
funções e da vida física. Mas a obsessão tem que ser, a todo custo, evitada. A
possessão da estrutura humana por um demônio de face canina subverte o objetivo
e procedimento mágicos. Por conseguinte certos métodos foram concebidos para
impedir a possibilidade de obsessão, deixando o corpo absolutamente seguro
enquanto a alma voa rumo aos fogos sagrados. Algumas autoridades acreditam que
circundar o corpo com um círculo imaginário de luz branca constitui um dos
métodos de proteção mais eficientes, visto que sendo o branco a cor do trono do espírito mais elevado, nenhum espírito
menor ousaria tentar desafiar sua guarda. Outros são a favor da projeção no
interior de um círculo mágico adequadamente traçado, pintado em cores com todos
os nomes divinos externamente e as figuras geométricas internamente. Nesse
caso, entretanto, o círculo tem que ser consagrado e cerimonialmente submetido
ao banimento por um ritual apropriado, um procedimento um tanto incômodo e
árduo para uma prática tão freqüente. Por esse motivo assevera-se que o ritual de banimento do pentagrama por si
só é suficiente para assegurar a devida proteção, eliminando toda possibilidade
de possessão demoníaca.
O retorno ao corpo após uma visão deve
ser objeto de muito cuidado e a devida precaução deve ser tomada. Ao entrar na
estrutura física deve-se deliberadamente respirar profundamente algumas vezes a
fim de assegurar a estreita conjunção dos dois organismos, sugerindo-se,
ademais, que se assuma fisicamente uma forma divina e se vibre um nome.
Usualmente basta a forma de Harpócrates, ou seja, postar-se em pé, ereto, o
braço esquerdo à frente do corpo, o dedo indicador pousado nos lábios em sinal
de silêncio, acompanhando-se essa postura da pronunciação audível do nome do
deus. Não conseguir assegurar a união das duas essências do corpo de pensamento
e o corpo físico pode redundar em desastrosas conseqüências.
A consulta do Livro dos mortos do Antigo Egito será de proveito bastante
considerável para o leitor, pois aí o Tuat
e o Amentet, as subdivisões da
luz astral, foram objeto de rigorosa observação e classificação precisa. Na
segunda parte do capítulo CXXV, o deus Osíris é visto sentado numa extremidade
do salão de Maat, acompanhado das deusas da lei e da verdade, juntamente com os
quarenta e dois assessores que o auxiliam. Cada um desses quarenta e dois deuses
representa algum entre os nomos do Egito e ostenta um nome mágico simbólico.
Nessa concepção percebe-se o imenso talento dos sacerdotes-teurgos egípcios que
criaram correspondências entre os planos da luz astral e os nomos ou divisões
distritais do país do alto e baixo Nilo. Mediante o cuidadoso estudo deste e
subseqüentes capítulos o teurgo juntará aos poucos muitas informações úteis
acerca da luz astral e dos Guardiões e
Mantenedores dos Pilones através dos quais ele terá que passar em sua
auto-iniciação. Embora o Livro dos Mortos
represente esses pilones como aqueles através dos quais o morto tem que
passar a caminho do repouso no Amentet,
são também aplicáveis aos portais pelos
quais o Skryer na visão espiritual
tem que entrar. Esses portais guardados com seus vigias semelhantes a deuses não devem ser consideradas ficções, pois como será descoberto no desenrolar
das investigações, o mago se aproximará de alguns desses portais fechados e
nenhuma quantidade de artifícios mágicos ou
bajulação dos guardiões dos santuários e mansões selados lhe
proporcionará o ingresso a estes. A recusa em entrar constitui um sinal certo
de indignidade e indica acima de tudo toda a incapacidade de existir naquele
condição rarefeita. Indica, adicionalmente, que o corpo de luz necessita ser
purificado, tornado incandescente e resplandecente, iridescente e
auto-reluzente, um organismo solar que emite a luz radiante do espírito interior. É somente assim que o
mago pode atingir estados mais ígneos e exaltados e obter permissão dos
anjos-guardiões de espadas flamejantes aos pilones
sagrados e aos portais interiores.
Os meios para efetuar essa purificação são as execuções freqüentes do ritual do pentagrama, formulando dessa
forma mais clara e radiantemente o corpo de pensamento e a celebração diária de
alguma forma da eucaristia que
infunde no corpo de luz a substância purificadora da essência espiritual.
As visões que serão então obtidas serão
de uma elevadíssima ordem. Pode ser que depois de algum tempo transcorrido o
teurgo fique espantado por descobrir que seu papel de observador imparcial de uma visão cessou e que, de algum modo, a visão está ocorrendo
em torno de seu próprio ser, e que ele está mergulhado numa tremenda
experiência espiritual que jamais será apagada da memória consciente por todos
os seus dias na Terra. Iniciações no sentido real e não na implicação de uma
cerimônia formal de sala de loja devem ser aí estimuladas, o teurgo
participando como um candidato aos mistérios sagrados. Relativamente a essas
iniciações, é ocioso dizer, o pedido não é feito sob nenhuma forma escrita.
Elas simplesmente ocorrem. E quando
ocorrem não há dúvida ou incerteza quanto ao que está ocorrendo. Como tipo de
experiência realmente comovente que a espécie mais elevada de visão astral pode
assumir, cito a seguinte:
“Havia um saguão mais vasto do que
qualquer catedral, com pilares que pareciam ter sido construídos de opala viva
e trêmula ou de algumas substâncias estelares que brilhavam com todas as cores,
as cores do anoitecer e da aurora. Um ar dourado incandescia nesse local e no
alto entre os pilares existiam tronos que desvaneciam gradualmente, rubor a
rubor, na extremidade do vasto saguão. Neles se sentavam os reis divinos. Eram encimados pelo fogo.
Eu vi a cimeira do dragão sobre um deles e havia um outro emplumado de fogos
brilhantes que se arrojavam como plumas de chama. Mantinham-se sentados
brilhando como estrelas, mudos como estátuas, mais colossais do que imagens
egípcias de seus deuses, e no extremo do saguão existia um trono mais elevado
onde se sentava alguém maior do que os demais. Uma luz semelhante ao sol
fulgurava com incandescência atrás dele. Abaixo, sobre o chão do saguão, jazia
uma figura escura como se estivesse em transe, e dois dos reis divinos executavam movimentos com as mãos ao redor da figura,
sobre sua cabeça e corpo. Percebi no ponto em que suas mãos oscilavam como
chispas de fogo semelhantes aos lampejos de jóias irrompiam. Daquele corpo
escuro emergiu uma figura tão alta, tão gloriosa, tão brilhante quanto aquelas
sentadas nos tronos. À medida que despertou para o saguão tornou-se ciente de
sua parentela divina, erguendo as mãos numa saudação. Retornara de sua
peregrinação através das trevas, mas era agora um iniciado, um mestre do grêmio
celestial. Enquanto ele as observava, as altas figuras douradas levantaram-se
de seus tronos também, com as mãos
erguidas em saudação, e passaram por mim, e desvaneceram rapidamente na grande
glória atrás do trono*.”
* The candle
of vision, A. E.
Ademais,
a Árvore da Vida da Cabala deve constituir-se como objeto de muita pesquisa e
experimentação nesse plano. O skryer deve
praticar a ascensão de uma Sephira para
a outra, analisando a natureza da esfera cuidadosamente, subindo por todos os
ramos dessa Árvore que brota dos céus resplandecentes acima descendo em glória
para a terra multicolorida abaixo. Todos os caminhos
que irradiam das dez Sephiroth e que as unem devem ser
cuidadosamente explorados e registrados no diário científico. É desse modo que
o autoconhecimento é conquistado porquanto a Árvore é um mapa simbólico não só
da constituição interior do próprio homem como também da estrutura e forças de
todo o universo em cada uma de suas fases numerosas.
“O universo...”, escreveu Crowley, “...é
uma projeção de nós mesmos, uma imagem tão irreal quanto aquela de nossos
rostos num espelho, e no entanto, como este rosto, a necessária forma de
expressão dele, não para ser alterada exceto à medida que alteramos a nós
mesmos... Sob essa luz, portanto,
tudo que fazemos é descobrir a nós mesmos por meio de uma seqüência de
hieróglifos e as mudanças que aparentemente operamos são num sentido objetivo
ilusões... Capacitam-nos a nos ver e, conseqüentemente, a nos ajudar a
iniciarmos a nós mesmos mostrando-nos o que estamos fazendo.”
Estudando esse mapa simbólico no astral
mediante os recursos do corpo de luz, o mago acabará familiarizado com todos os
aspectos de sua própria consciência e do próprio universo. As visões que ele
percebe, evocadas pelo uso dos sigilli, são outras tantas revelações de sua própria
consciência em suas diferentes partes com as quais ele nunca esteve antes
familiarizado. Para descerrar as várias camadas da mente e da alma, juntamente
com seus conteúdos de forma dinâmica, a luz astral e sua investigação no corpo
solar ígneo constitui o meio par excellence, que supera qualquer outro.
Assim é o autoconhecimento granjeado. Assim é também a autoconsciência, no
verdadeiro sentido, atingida servindo como um prelúdio às harmonias sinfônicas
da união celestial.
Os resultados dessa prática são muitos
tangíveis e salutares. Pôr de lado a possibilidade da projeção consciente do corpo de luz e descartar como
destituídos de importância as experiências vitais e o autoconhecimento obtidos
no astral divino mediante a reprovação
superficial de que “é tudo imaginação” é absurdo, para dizer o mínimo. Somente
a experimentação, e nada mais, demonstrará se a aventura no empíreo é uma
realidade suprema ou uma fantasia, mesmo admitindo-se que os passos
preliminares tenham sido dados pelos canais da imaginação. Prometeu liberto foi primeiramente concebido na fértil imaginação
criativa de Shelley, mas quem seria suficientemente tolo a ponto de rejeitar a
beleza intrínseca desse poema ou negar sua realidade imorredoura devido à sua
origem imaterial? Aplica-se aqui uma forma de consideração bastante similar.
Por meio da imaginação, o mago cria um sutil instrumento de pensamento com o
qual pode medir, investigar e explorar um plano de consciência do universo já
existente mas até aqui desconhecido. Em todo caso, em pouco tempo poderá
ocorrer ao mago, por mais cético que ele possa e deva ser, que as entidades
angélicas que encontra no desenrolar de suas visões, suas conversações e o
tratamento que delas recebe dificilmente são produtos de sua imaginação. Nem se perceberá que se trata
de criações subjetivas, especialmente quando, talvez para sua consternação
inicialmente, as coisas “comecem a zumbir”.
Mas desejo agora tratar de um dos mais
importantes resultados que se desenvolve a partir desse importante ramo da
teurgia. Antes da consecução do sucesso na projeção do corpo de luz, a consciência humana era inseparável do corpo físico.
Os apetites e desejos desse veículo tinham se identificado com o próprio Ruach. De posse da capacidade de transferir
a consciência para o corpo de luz criado na imaginação se infere uma
significativa conclusão filosófica. A alma é absolutamente distinta do ser do
corpo, e através dos métodos corretos pode ser separada dele e tornada
independente. A princípio, não se deve tirar a conclusão precipitada de que a
alma é imperecível e imortal, pois isso não foi ainda verificado pela
experiência. É ainda Ruach, entretanto, o falso ego, que se mantém na transferência. Não
há mudança alguma no ser individual ou na natureza da própria consciência pois
a projeção do corpo de pensamento não é análoga à experiência mística que
aniquila a dualidade e traz êxtase e iluminação. O teurgo permanece a mesma
pessoa que era antes, e a dualidade ainda habita sua consciência. Contudo,
consumou-se uma imensa mudança de perspectiva ou ponto de vista. Enquanto está
no corpo de luz, quando a transferência de consciência foi efetuada com êxito,
ele pode ver deitado diante de si, embora adormecido, o corpo físico que há
apenas um momento ou pouco mais ele deixou vago, de modo que sabe, por um ato de observação
ordinária, que ele não é seu corpo,
visto que aquele corpo físico ele pode deixar à vontade. Ele é uma entidade
espiritual, assoma a compreensão, a qual pode funcionar independentemente de
seu organismo corpóreo. O que agora se torna imperativo é o aniquilamento da
dualidade. O objetivo imediato é a transcendência de Ruach, abrir escancaradamente suas portas, de maneira que o verdadeiro ego espiritual possa ser
descoberto. Mediante essa descoberta, quando a iluminação e o êxtase invadem a
esfera da mente, ocorre também a grande compreensão de que a própria alma é
imortal; que a mente, a emoção e o corpo não passam de veículos dessa alma, instrumentos a serem empregados a
serviço de seu próprio alto propósito. E o meio para a descoberta e a busca da senda
mágica. Invocações, formas semelhantes aos deuses assumidas enquanto no
corpo sutil e a ascensão aos planos são estradas para a comunhão com o deus
interior.
Que essas práticas prossigam por mais
algum tempo e o esforço persista para incluir a purificação do envoltório
mental, este se desenvolvendo sempre de forma gradual para uma organização
espiritualizada. O velho princípio de inércia, indolência e negrume, chamado pelos
hindus de Tamas, torna-se rompido e é ejetado da esfera mágica. Os ocos do cérebro,
outrora pesados, impenetráveis e escuros, tornam-se leves e estranhamente
luminosos. E ocorre um curioso fenômeno que traz júbilo ao coração do mago uma
vez sua significação tenha sido compreendida. Enquanto nos velhos tempos a
noite era passada no profundo esquecimento do sono, ou no máximo na fantástica
aventura do sonho, agora a consciência é retida mesmo durante o sono. Não há
nenhum longo hiato de esquecimento; tudo é uma contínua corrente de fluxo livre
de percepção enquanto o corpo dorme, não fragmentado durante o dia ou a noite
por lapsos inconscientes. Não há como superestimar a importância dessa
realização. Uma nova qualidade de pureza no sentido hindu do Sattva gradualmente se manifesta; uma
qualidade de ritmo, continuidade e bem-aventurança. Com esta infiltração da
qualidade do Sattva e a ejeção dos
elementos tamásicos da esfera da
personalidade, a claridade e a luminosidade crescem no cérebro, e a consciência
não de Ruach mas da alma superior
persiste a cada hora. E assim a vida é conquistada, pois a alma está acima de
sua vil compreensão. A morte, o horror cinzento e pavor da humanidade, e
derradeiro desespero dos filósofos, é transcendida. Somente o corpo morre. A
mente e as emoções também morrem. Mas permanece sempre inalterado e impassível
o anjo divino da luz sagrada,
purificado pela prova, triunfante acima das mutações da vida e da morte – calmo, sereno e imperturbável no conhecimento
de sua própria imortalidade.
Portanto, é impossível louvar no justo
merecimento os resultados do skrying na
visão espiritual, pois essa prática pode conduzir o mago às alturas mais
sublimes da Árvore da Vida, onde o ar é puro e o ponto de vista claro e
imaculado. Existe, naturalmente, o perigo inicial de ou perder-se nas rotas
secundárias não-mapeadas daquele plano ou ficar enlaçado no abraço sedutor das
formas reluzentes e visões astrais fugazes das profundezas. Entretanto, tudo
isso é elementar. Se a aspiração for mantida sem mancha e pura e se os
princípios céticos da Cabala forem aplicados, haverá pouco perigo de tal coisa
acontecer. E então poderá o mago tranqüilamente alçar seu caminho além de sua
personalidade, além dos fantasmas resplandecentes do astral, passando pelas
visões esplêndidas e pérfidas dotadas de engodo e fascínio, até o coração
interior do homem celestial, onde o Senhor de tudo está entronado.
– - –
Antes do início de uma visão, ou qualquer
operação mágica, é aconselhável que o aprendizrealize um completo banimento,
que é tanto purificador quanto protetor. O melhor e mais rápido método de
banimento é através do Ritual de
Banimento do Pentagrama. O pentagrama expressa, de acordo com Lévi, “o
domínio da mente sobre os elementos e é por meio deste signo que nós os
prendemos... É o símbolo da Palavra feita carne e, conforme a
direção de seus raios, representa o bem
ou o mal, a ordem ou a desordem... Um signo que resume na significação todas as
formas ocultas da natureza e que sempre tem manifestado aos espíritos
elementares e outros um poder superior ao que lhes é próprio, que naturalmente
os atinge com medo e respeito,
forçando-os à obediência mediante o império do conhecimento e da vontade sobre
a ignorância e a fraqueza.” A fim de compreender o significado da forma
geométrica do pentagrama e entender porque nele está encerrado o poder de banir
todas as forças inferiores a partir de uma dada esfera e porque ele é a
“Palavra feita carne”, faz-se necessária uma breve recapitulação dos aspectos
da Cabala. Um dos nomes divinos pelos quais os judeus concebiam a força
criadora universal era YHVH, o qual
denominado Tetragrammaton acabou por
ser considerado como o equivalente dos quatro elementos do cosmos. Foi também concebido para representar o homem não-iluminado
comum no qual a luz do espírito não fizera ainda sua aparição; o não-regenerado
ser de terra, ar, fogo e água, entregue às coisas do eu não-redimido. Por meio
de magia considerava-se que nesses quatro elementos sobre os quais a carne é
baseada o Espírito Santo descia em
meio a fogo, glória e chamas. Em hebraico o elemento Espírito é tipificado pela letra Shin com seus três forcados
dardejantes de fogo espiritual unidos sob a forma de um princípio. Rompendo em
pedaços o ser carnal e carregando consigo os germes de iluminação, inspiração e
revelação, o Espírito Santo forma por
sua presença no coração uma nova espécie de ser, o Adepto ou Mestre YHShVH.
Essa palavra em hebraico é o nome de Jesus, o símbolo do homem-deus, uma nova espécie-tipo de ser espiritual, do qual não há
nada maior em todos os céus e planos da natureza. Devido a esse fato e às
idéias sintetizadas no signo do pentagrama, o símbolo dos quatro elementos
encimado pela flama coroadora e conquistadora do Espírito Santo, ele detém sua
incomparável eficiência e poder de subjugar toda oposição astral e expulsar
substância grosseira do ser do mago.
O resultado dependerá inteiramente da
direção para e de qualquer das cinco pontas na qual essa figura seja traçada
pelo mago. Procedendo da ponta mais alta e descendo numa linha reta à ponta
direita inferior, os poderes do fogo são invocados. Por outro lado, se o mago
traçar com seu bastão a figura do canto esquerdo para o alto ele banirá os
elementais da terra. Pode-se observar, ademais, que é este último tipo de
pentagrama que é usado no ritual do
pentagrama, geralmente suficiente para banir seres de quaisquer classes. E
a espada para representar a faculdade crítica afastadora de Ruach é geralmente instrumento empregado
nesse sentido. O chamado Ritual do
Pentagrama assumiu o significado de ser puramente um ritual de banimento,
embora na realidade seja uma estrutura composta. Antes de abordá-lo eu o cito:
1. Tocando a
testa, diga Atoh (para ti).
2. Tocando o
peito, diga Malkuth (o Reino).
3. Tocando o
ombro direito, diga ve-Geburah (e o
Poder).
4. Tocando o
ombro esquerdo, diga ve-Gedulah (e a Glória).
5. Apertando as
mãos sobre o peito, diga Le-Olahm, Amen (para
sempre, Amém).
6. Voltando-se
para o leste, faça um pentagrama da terra com o bastão ou a espada, e diga
(vibre) YHVH.
7. Voltando-se
para o sul, o mesmo, mas diga ADNI.
8. Voltando-se
para o oeste, o mesmo, mas diga AHIH.
9. Voltando-se
para o norte, o mesmo, mas diga AGLA.
10. Estendendo os
braços na forma de uma cruz, diga:
11. Diante de
mim, Rafael.
12. Atrás de mim,
Gabriel.
13. À minha
direita, Miguel.
14. À minha
esquerda, Auriel.
15. Pois em torno
de mim flameja o pentagrama.
16. E na coluna
se posta a estrela de seis raios.
17. Repita de 1 a
5, e a cruz cabalística.
Nesse sentido pode revelar-se
interessante ao leitor o fato de Aleister Crowley ter observado que aqueles
“que encaram esse ritual como um mero instrumento para invocação ou banimento
de espíritos são indignos de tê-lo.
Compreendido corretamente é a medicina
dos metais e a pedra dos sábios”. Em sua execução há, como observei, um movimento
complexo. O ritual primeiramente invoca e, tendo banido pelo pentagrama todos
os elementos dos quatro pontos cardeais com a ajuda dos quatro nomes de Deus,
ele então evoca os quatro arcanjos como
guardiões divinos para protegerem a esfera da operação mágica. No
encerramento, mais uma vez invoca o eu superior, de maneira que do começo ao
fim a cerimônia inteira ocorre sob a vigilância do espírito. A primeira parte, que vai do ponto 1 ao ponto 5,
identifica o Santo Anjo Guardião do
mago com os aspectos mais elevados do universo sefirótico; na verdade, afirma a
identidade da alma com Adão Kadmon. Na segunda parte, do ponto 6
ao 9, o mago traça um círculo de proteção ao mesmo tempo que sua imaginação
está formulando um círculo de fogo astral
dentro do qual ele possa proceder ao seu trabalho. Ao norte, sul, leste e oeste
desse círculo pentagramas de
banimento do elemento terra são traçados com o bastão ou a espada. À medida que
esses pentagramas são formados em meio ao ar com a arma elementar, todo esforço
deve ser feito no sentido de transmitir vitalidade e realidade a eles. A
realização cega e insensível desse ritual, tal como se revela verdadeiro em
relação a todo aspecto da teurgia, é absolutamente inútil além de ser uma perda
tanto de tempo quanto de energia. A imaginação, simultaneamente, deve ser
estimulada para criar esses pentagramas em torno do mago no plano astral em
figuras incandescentes, de sorte que através das linhas num jorro de luz e
poder, representantes do ser espiritual nenhuma entidade menor de qualquer
espécie ousa abrir caminho. É necessário que o mago se certifique de não
abaixar a arma elementar depois de formular um pentagrama em meio ao ar. O círculo tem que ser completo,
prosseguindo numa linha ininterrupta de pentagrama a pentagrama. A estrela
fulgurante de cinco pontas é como a espada flamejante que privou Adão do éden. Os quatro arcanjos, os regentes
espirituais dos quatro elementos, são então invocados para dar legitimidade ao
trabalho, e poder e proteção espirituais tanto aos pentagramas circundantes
quanto ao círculo onde o mago se
encontra encerrado. A última frase do ritual declara os pentagramas inflamados
em torno dele e invoca novamente o Santo
Anjo Guardião para que a operação seja selada com o selo da luz divina.
Um dos resultados de grande significação
e importância desse ritual, se corretamente realizado na maneira indicada, é a
limpeza de toda a esfera da personalidade. Bastará um pouco de prática para
demonstrar ao jovem teurgo se está conseguindo atingir o efeito necessário. É
extremamente difícil, lamento dizê-lo, descrever o resultado do banimento, como
seguramente é o caso da maioria das matérias concernentes ao domínio subjetivo
da sensação e percepção. Deve haver um claro senso, inequívoco em sua
manifestação de limpeza, mesmo de santidade e sacralidade, como se todo o ser
fora suave e integralmente purificado, e todo elemento impuro e sujo disperso e
aniquilado. Tal como um mergulho num rio de águas frescas num dia quente de
verão nos deixa abençoados com uma sensação de frescor e purificação, assim
deve ser esse ritual.
A base racional de sua ação depende da
purificação dos constituintes da natureza do mago. Cada molécula, cada célula –
astral, mental e física – é envolvida, visto que a base de cada princípio se
funda em centros de energia e força espiritual. Esses pontos microscópicos ou
mônadas são os minúsculos pontos sensíveis de consciência espiritual, e na
realidade de sua existência e função estão baseados não só o sentido mais
profundo de individualidade como também o fundamento da própria matéria, e seus
acompanhamentos de energia e vida física. Essas mônadas estão na raiz da célula
seja de um mineral, seja da matéria cerebral bem como da vida vegetal. O
resultado da formulação do círculo do
fogo e dos pentagramas flamejantes,
da vibração dos nomes divinos e da invocação tanto dos anjos dos pontos
cardeais quanto do Santo Anjo Guardião é que gradualmente as células mais
grosseiras ou átomos monádicos são ejetados da esfera da consciência. Para
substituí-las, outras vidas, mais sensíveis e refinadas, de uma qualidade mais
sutil de substância espiritual, são atraídas à esfera do ser e infundidas na
própria substância da constituição física e invisível. Assim uma purificação
vital ocorre, permitindo que a influência do Santo Anjo Guardião penetre o
cérebro e mente refinados para difundir através da personalidade sua presença e
graça, um importante passo inicial para o progresso mágico.
A história desse ritual em particular é
um tanto obscura. Não constatei nenhum outro espécimen a ele semelhante que se
vincule à Antigüidade, embora obviamente lguma forma similar de banimento tenha
sido necessariamente utilizada. Podem-se encontrar em Lévi as primeiras
referências ao ritual em pauta. No Dogma
e Ritual de Alta Magia encontramos a seguinte afirmação:
“O sinal da cruz adotado pelos cristãos
não lhes pertence com exclusividade. É também cabalístico e representa as
oposições e o equilíbrio tetrádico dos elementos. Havia originalmente dois
métodos de fazê-lo, um reservado aos sacerdotes e iniciados, o outro separado
para os neófitos e profanos. Assim, por exemplo, o iniciado, erguendo a mão até
a testa, dizia ‘Teu é...’, em seguida levava a mão ao peito, ‘...o reino’,
depois a transferia para o ombro esquerdo, ‘Justiça’, e finalmente ao ombro
direito, ‘e misericórdia’; então juntando suas mãos, ele acrescentava ‘através
das gerações’. Tibi sunt Malkuth et
Geburah et Chesed per aeonas – um sinal da cruz absoluta e esplendidamente
cabalístico e que as profanações da Gnosis
perderam inteiramente para a igreja oficial e militante. O sinal feito
dessa maneira deve preceder e encerrar a conjuração dos quatro.” Percebe-se por
certo que esse método é apenas uma parte do ritual que reproduzi anteriormente.
É indubitavelmente ao ritual do
pentagrama que Lévi alude. Na agora extinta Ordem da Aurora Dourada, sob
a liderança do falecido S. L. McGregor
Mathers, esse ritual era usado extensivamente e, depois de sua morte e
da destruição de partes de sua Ordem, dele se apropriou Aleister Crowley, que o
perpetuou no seu periódico The Equinox. Antes
dessa reimpressão não fui capaz de localizar qualquer referência de autoridade
a qualquer coisa que seja minimamente semelhante a esse ritual.
((ilustração – Sigillum do Pentagrama))
Existe evidência, contudo, que mostra que
alguma forma de proteção ou um banimento preliminar eram reconhecidos pelos
magos medievais dos quais, a julgar pelo conteúdo, Francis Barrett recebeu seus
métodos. O débito dele não é menor com Cornélio Agrippa e Pietro de Abano. Em O Mago de Barrett há a afirmação segundo
a qual antes de começar as invocações deveria haver alguma “oração ou salmo, ou
evangelho para nossa defesa em primeiro lugar”, e numa página adiante Barrett
fornece uma forma de consagração do círculo
na qual a idéia da defesa é distintamente formulada. Além disso, há o
método do emprego do pentagrama mencionado nas instruções mágicas da Goécia, da Clavícula de Salomão, desenvolvidas pormenorizadamente pelo
mago francês. A figura mágica é traçada como um sigillum com suas palavras e símbolos apropriados sobre metal ou
pergaminho virgem para uso durante a cerimônia. Caso haja ameaça de perigo para
o exorcista, ou ele se ache incapaz de enquadrar a inteligência evocada em sua vontade, o pentagrama deverá ser seguro
alto na mão e levado em circumpercurso aos quatro
quadrantes onde uma curta alocução ao Senhor
do Universo é recitada. O resultado realmente é idêntico ao traçado e
formulação da figura no ar com o verendo da arte.
Há, ademais, uma variação que poderia ser
mencionada, embora seja uma forma que deveria figurar em todo trabalho
cerimonial. É chamada de Licença para
partir, e ocorre nesses cerimoniais nos quais uma inteligência foi
conjurada à aparição visível no triângulo
da arte. Quando o operador não deseja mais que o espírito permaneça no
triângulo, a licença é recitada permitindo que o espírito desmaterialize e
parta do cenário da operação. “Ó tu espírito
N, porque respondeste diligentemente às minhas exigências e estiveste muito
disposto e desejoso de atender a minha chamada, eu aqui te dou licença para
partir para teu lugar adequado, sem causar mal ou perigo a homens ou animais.
Parte, pois, eu digo e esteja tu pronto para atender ao meu chamado, estando
devidamente exorcizado e conjurado pelos ritos sagrados da magia. Eu te ordeno
a se afastar pacífica e sossegadamente e que a paz de Deus continue sempre
entre tu e eu. Amém!” Barrett apresenta uma ligeira variação da licença acima
da Goécia: “Em nome do Pai, e do
Filho e do Espírito Santo, ide em paz para os vossos lugares; que haja paz
entre nós e vós; estejai vós pronto para quando chamado.” Ele acresce
posteriormente que quando o espírito partiu, o mago não deve sair do círculo durante alguns minutos, mas que
uma breve oração deve ser feita dando graças pelo sucesso da operação e “orando
pela futura defesa e conservação, o que sendo ordenadamente realizado vós
podereis partir”. Numa nota de rodapé, fazendo uma advertência adicional,
Barrett acrescenta que aqueles que omitem a licença do espírito se acham em
seriíssimo perigo, pois soube-se de casos nos quais o operador experimentou
morte súbita. Não se pode dizer que esses vários métodos pareçam tão
científicos ou tão confiáveis quanto o Ritual
do Banimento do Pentagrama descrito páginas atrás. O ritual como aqui é
dado é um dos mais singulares existentes e não deve jamais, sob circunstância
alguma, ser omitido em qualquer operação mágica, seja esta magia cerimonial
formal, a celebração da missa do Espírito Santo, ou skrying na visão espiritual. A esfera da
personalidade é mantida pura e limpa, impedindo que qualquer entidade estranha
irrompa no interior do raio de percepção, destruindo assim a continuidade e
coerência daquele trabalho particular.
Dois outros métodos de banimento restam
para serem descritos. Quando numa cerimônia se faz necessária a realização de
um banimento mais completo que o proporcionado pelo ritual do pentagrama, costuma-se empregar uma
técnica que se assemelha um pouco a um exorcismo oficial. Algumas gotas de água
são borrifadas em torno do círculo,
uma vela ardente representando o elemento fogo é deliberadamente apagada,
um leque é agitado no ar e alguns grãos
de sal são jogados à beira do círculo. Ao
mesmo tempo, devem ser pronunciadas as palavras mágicas “Exarp, Bitom, Hcoma e Nanta”,
cada uma das quais controla o espírito do ar, fogo, água e terra. Deve-se
também recitar um conjuro para a partida dos elementais governados por esses
nomes e, é claro, é melhor que seja precedido pelo ritual do pentagrama. Vários dos versículos dos Oráculos Caldeus podem ser empregados
com grande proveito com cada uma das ações cerimoniais mencionadas.
O outro método é um que era utilizado
pelos sacerdotes egípcios, estando contido num dos capítulos do Harris Magical Papyrus. Trata-se de um
ritual de banimento a ser executado nos quatro pontos cardeais, formulando na
imaginação um guardião sob a forma de
um cão, o qual se supunha ser
terrivelmente destrutivo contra qualquer força agressora. Não tentarei
descrevê-lo, preferindo transcrevê-lo textualmente do Harris Magical Papyrus:
“Surge, cão do mal, para que eu possa instruir-te em tuas presentes
obrigações. Estás aprisionado. Confessa que assim é. É Hórus que produziu este
mandamento. Que teu rosto seja terrível como o céu partido pela tempestade. Que
tuas mandíbulas se cerrem impiedosamente... Faz teus pelos eriçarem como varetas
de fogo. Sê tu grande como Hórus e terrível como Set; igualmente para o sul,
para o norte, para o oeste e para o leste... Nada te obstará enquanto colocares
tua face em minha defesa... enquanto tu colocares tua face a serviço da
proteção de minhas sendas, opondo-te ao inimigo. Eu te concedo o poder do
banimento, de se tornar completamente silente e invisível, pois tu és meu
guardião, corajoso e terrível.”
Essa forma de banimento, em qualquer
caso, deve ser acompanhada pelo ritual do
pentagrama. É usada principalmente em difíceis operações de evocação, nas
quais pode haver algum perigo representando por uma entidade particularmente
maligna atraída ao templo e que invade um círculo
ordinariamente consagrado, em detrimento do mago. Tem sido também usada na
invocação de Hórus, ou das inteligências do planeta Marte, quando se deseja
particularmente que a esfera astral esteja completamente limpa e pura. Ocioso
enfatizar, estou certo, que se esse método for empregado, a formulação na
imaginação do cão-guardião deverá ser tão precisa quanto aquela dada para o
pentagrama, e o teurgo deverá atribuir importância, no que diz respeito à
figura no olho de sua mente, aos dados fornecidos no próprio conjuro.
CAPÍTULO XI
Um dos mais potentes auxiliares da
invocação e um elemento essencial ao sucesso de toda operação mágica é o
assumir astral da forma ou máscara pela qual um deus passou a ser conhecido
convencionalmente e é retratado pictoricamente. O sr. François J. Chabas no seu
livro, agora esgotado, Le Papyrus Magique
Harris, apresenta uma informação muito significativa que dificilmente pode
ser encontrada alhures sob forma definida, a saber, que a mais poderosa fórmula
mágica conhecida dos sacerdotes das castas do antigo Egito era a identificação
do executante do ritual em imaginação com a divindade que ele estava invocando.
Jâmblico afirma que “o sacerdote que invoca é um homem, mas quando ele comanda
o poder é porque através de símbolos arcanos ele, num certo aspecto, é
investido das formas sagradas dos deuses”. Se a frase “num certo aspecto”
indica a fórmula na iminência de ser considerada é um problema que pode ser
deixado em aberto, embora possa bem ser o assumir
da forma divina ao que ele esteja se referindo. Esparso aqui e ali ao longo
do Livro dos Mortos em alguns dos
rituais e hinos aos deuses apura-se que o escriba do livro se identifica com
eles. Há numerosos exemplos de versículos em separado que confirmam essa
crença. “Eu me uni aos macacos divinos
que cantam na aurora e eu sou um ser
divino entre eles.” No capítulo 100 o versículo “Fiz de mim um contraparte da
deusa Ísis e o poder dela (khu)
tornou-se forte” pareceria definitivamente apoiar essa tese, que ganha
confirmação adicional a partir de outras fontes, segundo as quais o assumir da
forma divina constitui um dos mais importantes fatores a serem observados na
magia egípcia.
Recordando tudo que foi postulado
relativamente à natureza plástica e magnética da luz astral, tanto em seu aspecto inferior quanto superior, e a
potencialidade criativa da imaginação treinada, bem como a
observação feita por Lévi referindo-se ao corpo astral de que “ele pode assumir
todas as formas evocadas pelo pensamento”, o aprendiz deverá dedicar-se ao
estudo das formas convencionais como os deuses são retratados. Eu me estendi um
pouco num capítulo anterior na descrição sumária das formas e algumas
características filosóficas dos deuses mais importantes ligados à Árvore da
Vida a fim de simplificar as exigências do leitor em geral. A experiência tem
demonstrado aos teurgos ocidentais que as representações pictóricas dos deuses
egípcios são perfeitas para o objetivo dessa prática em particular – mais do
que as da Índia – e encerram em si mesmas um sistema de simbolismo sumamente
maravilhoso e recôndito. As formas desses poderes universais e essências
inteligentes cósmicas, que as castas sacerdotais do Egito chamavam de deuses,
permaneciam cada uma completa por trás de uma máscara humana ou animal, todo
atributo sendo simbolizado por algum emblema ou ornamento artístico. A divindade
de um deus era simbolizada pelo tipo e os emblemas, a cobertura de cabeça como
a serpente Uraeus ou o disco do sol nascente, ou as plumas
duplas da Verdade, divina e mundana.
Havia a representação de poderes pelo bastão da íbis, o cetro ou a Ankh segura na mão do deus. E ainda
outros símbolos portados pelo deus eram sugestivos de sua capacidade de
proporcionar ressurreição ou renascimento, autoridade e poder, êxtase ou
estabilidade, ou representativos de algum modo de função particular na economia
cósmica. A forma convencional do deus resume assim de uma maneira espantosa um
vasto agregado de idéias, lendas e mitos, sintetizando ao mesmo tempo forças
especiais da natureza ou, talvez, poderes inconscientes na constituição
espiritual do homem.
À guisa de exemplo do procedimento a ser
seguido para a aplicação dessa hipótese, suponhamos de momento que a tarefa que
temos é a invocação e a identificação da consciência humana com a divindade, ou
aspecto da vida cósmica, conhecida como Ra – a divindade que habita o sol.
Inicialmente, o mago se ocupará da incumbência de descobrir tudo o que for
possível sobre a natureza do deus. As lendas que se desenvolveram em torno do
caráter do deus devem ser minuciosamente analisadas porquanto é notório que nas
lendas e mitos fantásticos de outrora muito conhecimento espiritual e sabedoria
estão encerrados. Além disso, a lenda vinculada a um deus específico indicará
aspectos da natureza e o temperamento ideal da divindade, sugerindo também
vários poderes na personalidade divina sobre os quais o aprendiz jamais
suspeitara antes.
O perigo da magia, ao menos um dos mais
sérios, é uma ocupação imprudente de uma certa parte da técnica teúrgica, uma
compreensão real dos processos executados e dos princípios filosóficos da
prática. Que o aprendiz, portanto, atinja uma compreensão mais ou menos
completa, na medida do possível, do que ele está desejoso de se tornar, de qual
força ou poder espiritual ele deseja invocar; e então, estando certo e
mentalmente bem informado, que prossiga. Um tal trabalho informativo como The Gods of
the Egyptians, de Sir E.
A. Wallis Budge, antigo zelador das Antigüidades egípcias do Museu Britânico,
será marcantemente útil. A partir das lâminas em autotipia aí existentes e das
lâminas coloridas no livro mencionado ele deverá familiarizar-se com a
configuração e a forma do deus, as posturas nas quais o deus é comumente
retratado, os gestos costumeiramente empregados e as cores utilizadas na
tradução artística. Esta leitura pode também ser suplementada por uma visita às
galerias egípcias do Museu Britânico ou qualquer outro. O leitor será, posso
garantir, bem recompensado.
Com todos esses fatos na memória, o
aprendizprocederá à fase mais difícil do trabalho, a qual consiste da aplicação
da imaginação e da vontade, treinadas por suas prévias práticas. Em seu
trabalho – não necessariamente cerimonial – ele deverá se empenhar em construir
diante do olho de sua mente uma perfeita imagem ou máscara do deus. A forma tem
que se projetar ousada e claramente na visão da imaginação, gigantesca,
resplendente e irradiando a luz do sol espiritual, do qual Ra é o símbolo
esotérico convencional. Ele perceberá que o deus porta um bastão com cabeça de
íbis na mão esquerda, sendo a íbis o símbolo da sabedoria e da vontade divina;
na sua mão direita é sustentado o Ankh,
símbolo de luz e vida as quais o sol, por dias e anos, através de séculos
incontáveis, concede livremente a toda a espécie humana e a todas as suas
criaturas na Terra. Sobre sua cabeça, fazendo as vezes de uma coroa, está um
halo, uma auréola dourada de inimitável esplendor, confrontada por uma serpente
Uraeus insuspensa, o símbolo do fogo
espiritual interior. Retratada como um falcão cuja cabeça é cor de laranja, a
nêmise do deus desce do azul escuro da coroa, quase preto, no matiz a cor do
símbolo Tattva do espírito; e a pele do deus é flamejante
como o fogo do sol do meio-dia. Esses detalhes devem então ser aplicados ao
simulacro retido firmemente na mente até que sejam vistos diante da alma viva
como uma imagem dinâmica de Ra, uma imagem na qual não resida qualquer traço de
imperfeição. É uma tremenda tarefa de imaginação criadora, e árdua. Mas dia
após dia tem que ser continuada com ardor e devoção até a tarefa sagrada ser
consumada e, completo e fulgurante o deus se mostra, um deus em verdade para
seu devoto. Com essa imagem mantida firmemente na luz astral, o teurgo deve se
empenhar para envolver sua própria forma com o abrigo do deus e em seguida
unir-se à forma que o encobre.
Segundo afirmação de Lévi já citada anteriormente, o corpo astral assumirá a
forma de qualquer pensamento poderoso que a mente evocar. Essa efígie astral do
deus, anteriormente apenas uma imagem externa ao corpo do teurgo, deve agora
ser organizada como uma figura divina em torno de sua própria forma astral até
que coincidam seu próprio corpo de luz sendo alterado e transmutado no corpo do deus. Somente quando o teurgo
realmente sentir o formidável influxo de poder espiritual, a aquisição da força
e energia solares e iluminação espiritual, somente quando ele souber na
intuição do transe deífico que a identificação foi concretizada, estará a
tarefa de criação completa. “As imagens dos deuses”, escreve Jâmblico, o divino
teurgo, “são repletas de luz fúlgida...” e “o fogo dos deuses, realmente,
fulgura com uma luz indivisível e inefável, preenchendo todas as profundezas do
mundo” de uma maneira celestial empireana. Relativamente ao teurgo ou
rei-sacerdote do Egito que executara essa excelente combinação das essências
com a glória do deus do sol, há uma descrição sob a forma de uma alocução
citada por G. Maspero, o egiptólogo, mostrando o poder do espírito que se
consagrou pelo voto como resultado da identificação. A alocução é a seguinte:
“Tu te assemelhas a Ra em tudo o que fazes. Portanto os desejos de teu coração
são sempre satisfeitos. Se desejares uma coisa durante a noite, na aurora ela
já estará disponível. Se disseres ‘Subam
às montanhas’ as águas celestiais fluirão pela tua palavra. Pois tu és Ra encarnado,
e Kephra criado na carne. Tu és a imagem viva de teu pai Temu, Senhor da cidade
do sol. O deus que comanda está em tua boca e um deus senta-se sobre teus
lábios. Tuas palavras são cumpridas todas os dias e o desejo de teu coração
realiza a si mesmo como o de Ptah quando ele cria suas obras”.
Simultaneamente ao processo de unificação
com o corpo do deus se revelará como
de grande ajuda a recitação de uma invocação, um peã lírico ou ditirambo
entoando louvores ao deus, delineando a natureza e as qualidades espirituais do
deus no discurso. Se o aprendiz tiver habilidade no escrever não enfrentará
grande dificuldade. Por outro lado, uma tal litania poderia muito facilmente
ser construída a partir dos hinos órficos, ou da coletânea de textos líricos
incluídos no Livro dos Mortos, o qual
está repleto de alguns dos melhores exemplos de rituais existentes. Em suma, a
invocação do deus deve ser expressa numa linguagem que tenda a produzir júbilo
mental e êxtase. A seguir transcrevemos um exemplo, adaptado do Livro dos Mortos, de um tal ritual, embora
não seja aqui dado como exemplo para ser rígida e servilmente imitado, mas
apenas como sugestão e talvez ajuda ao aprendiz sincero.
“Homenagem a ti, ó Ra, no teu formoso
nascer. Tu nasces, tu brilhas na aurora. A companhia dos imortais te louva ao nascer e ao pôr-do-sol, quando à medida que
teu barco matutino se encontra com teu barco do anoitecer sob ventos propícios,
tu velejas sobre as alturas do céu com um coração jubiloso. Ó tu uno, ó tu perfeito, ó tu que és eterno, que jamais és fraco, que nenhum poder
é capaz de rebaixar, ó tu esplendor do sol do meio-dia, sobre as coisas que
pertencem à tua esfera nenhum possui em absoluto qualquer domínio. E assim a ti
presto homenagem. Todos salvem Hórus! Todos salvem Tum! Todos salvem Kephra! Tu
grande falcão, que por teu rosto formoso produzes o regozijo para todos os
homens, tu renovas tua juventude e com efeito pões a ti mesmo no lugar de
ontem. Ó, jovem divino, autocriado, auto-ungido, tu és o Senhor do Céu e da
terra, e criaste seres celestiais e seres terrestres. Ó tu, herdeiro da
eternidade, regente perpétuo,
auto-sustentado, quando tu nasces teus raios benevolentes estão sobre todos os
rostos e moram em todos os corações. Vive tu em mim, e eu em ti, ó tu, falcão dourado do sol!”
Com a recitação de cada ponto da
invocação, proferido com entonação e intento mágicos, obtém-se em pensamento
uma intensa compreensão da significação das palavras. À medida que o teurgo
brada “Tu brilhas na aurora”, a forma astral do deus deve ser vista e realmente
sentida com os sentidos emitindo uma refulgência diante da qual o mais claro
brilho do sol do meio-dia pareceria
trevas, uma luz tão nítida e aguda, e rica de brilho e glória dourada que sua
essência inundaria com grande sutileza o coração, a mente e a alma. E quando o
mago profere “Vive tu em mim, e eu em ti, ó, falcão dourado do sol”, o processo da identificação com a forma astral deve ser realizado e
compreendido o mais vividamente possível. Enquanto o mago não for capaz de
efetuar perfeitamente o trabalho criativo da imaginação, todos os esforços só
poderão ser classificados simplesmente como prática. O teurgo saberá que seus
esforços foram coroados pelo êxito mediante sinais infalíveis dentro de sua
própria consciência e a aceleração de uma vida nova. Nele e em sua alma o deus
buscará sua eterna morada. No interior do coração haverá um santuário e uma
habitação serena de uma força espiritual tremenda, uma consciência divina que
nele viverá duradouramente, transformando o filho da terra em um verdadeiro filho do sol eterno. “Pois como as
trevas não estão adaptadas para a sustentação do esplendor da resplandecente
luz do sol, tornando-se de súbito totalmente invisíveis, retrocedendo por
completo e imediatamente desaparecendo, assim também quando o poder dos deuses,
que acumula todas as coisas de bem, brilha copiosamente, nenhum lugar é
abandonado ao tumulto dos espíritos malignos*.”
* Os Mistérios, Jâmblico.
Assim ensinaram os magos da Antigüidade.
Os esforços modernos confirmam reiteradamente seus ensinamentos e experimentos.
Dessa maneira, expandindo a si mesmo a uma grandeza incomensurável unindo-se à
grandeza dos deuses, o teurgo salta como o bode montês além de todas as formas
para idéias e essências que residem no cume da manifestação, e transcendendo o
tempo se torna eternidade e infinidade. Assim, “a partir da súplica somos em
breve conduzidos ao objeto da súplica, adquirimos sua semelhança a partir da
conversação íntima e gradualmente obtemos perfeição divina, em lugar de nossa
própria imbecilidade e imperfeição**. O teurgo se tornará mais elevado que a
altura nessa perfeição, mais profundo na força de seu fundamento do que as
profundidades mais baixas, uma parte integral da criação universal de imediato
não gerada, jovem, velha, auto-existente e imortal. Aquilo que outrora era
grosseiro se torna despido de toda sua trivialidade sensual para assumir uma
beleza fascinante, apaixonadamente seleta, como se furtada do espírito. Dentro
de si faculdades espirituais latentes e que desabrocham serão sentidas e a débil
memória da experiência ganha ao longo do tempo desde muito pretérita e morta,
gradativamente surgirá para iluminar a mente e pulsar novamente no coração,
expandindo o horizonte da consciência. E assim hoje seus pés pisam aquele lugar
que ontem, quando contemplava a augusta natureza do trabalho, seu olho mal
podia ver. Além dele, no invisível, estará seu sítio de repouso do dia
seguinte. E ele será como diante do próprio Ra, um sol de luz, brilho e
alimento celestial para todos aqueles com os quais ele entra em contato
cotidiano. Sobre o pequeno bem como sobre o grande, sobre o elevado bem como
sobre o baixo, não menos sobre o pobre do que sobre o rico seu auxílio descerá,
mesmo além dos limites extremos do espaço.
** Os Mistérios, Jâmblico.
CAPÍTULO XII
Como um dos pré-requisitos fundamentais
do treinamento mágico, seja no ramo da goécia,
seja no ramo que diz respeito à invocação do eu superior e às essências
universais, todos os tipos de magos apontaram insistentemente ao longo das
eras a pureza de vida, a acompanhar toda prática teúrgica e cerimonial. Parece
ser repetido por quase toda autoridade,
dogmaticamente e com certeza por alguns, um tanto vagamente por outros
que passam adiante o que eles próprios receberam meio compreendido e meio
compilado de seus antepassados. Todos concordam, no entanto, que na busca das
artes mágicas é mister que haja pureza e santidade. É meu desejo investigar
sobre o significado dessa “pureza”. Não desejo, porém, entrar numa discussão de
ética e moral, pois essa me distanciaria do assunto da magia, e eu
propositadamente me contenho aqui de tocar nessa matéria controvertida que
parece ter criado mais confusão e diferença de opinião do que quase qualquer
outra. No que a pureza diz respeito à magia, todavia, o
aprendiz pode se assegurar quanto à verdade dessa única afirmação, atribuindo
ao resto qualquer interpretação de moral que preferir. A totalidade da vida de
alguém deve apontar para uma direção e ser concentrada e devotada a um conjunto
de objetivos. Quando dizemos, por exemplo, que o leite ou a manteiga é puro ou
pura, o que queremos dizer com tal afirmação? Apenas isto: ao leite ao qual nos
referimos não foram acrescentados nenhuma água ou produtos químicos ou
quaisquer outras substâncias estranhas, e a totalidade de seu teor é conforme o
ingrediente principal. Bem, a pureza da vida mágica deve ser considerada
exatamente da mesma maneira. A vida do mago tem que ser acima de tudo eka-grata, de um único direcionamento, e
a soma total de seus pensamentos, emoções e ações, quaisquer que sejam, deve
sempre ser constituída para interpretar e dar ímpeto à aspiração espiritual.
Qualquer que seja a virtude que a moralidade possa deter em si mesma, e no caso
de alguns indivíduos ela é prenhe de possibilidade divina, encontra-se
completamente fora da esfera do mago. Não há dúvida que uma pessoa que foi
iniciada num mistério espiritual e que foi abençoada pelo influxo do eu seja provavelmente moral simplesmente
porque estará doravante em harmonia consigo mesma. Um tal ser humano, por um
impulso natural, está geralmente também em harmonia com os outros seres
humanos. Mas o místico ou o mago não são necessariamente homens morais em
nenhum sentido convencional. Isso quer dizer que não devemos de maneira alguma
esperar que o mago, mesmo quando fundamentalmente em harmonia com seus
semelhantes, esteja necessariamente em harmonia com as leis morais e éticas de
seu tempo. A moral, em síntese, nada tem a ver com a magia. Essa idéia foi
claramente expressa por Waite, que em seu
Studies in Mysticism sugere
que “O objeto da religião é o
desenvolvimento e a perfeição da humanidade por meio de uma série de processos
espirituais e sua união com o que é o mais elevado no universo, enquanto que a
moralidade propõe o melhoramento da raça apenas com a ajuda da lei natural...
Precisamos conhecer Deus para sermos bons, mas nenhuma bondade moral pode nos
conduzir ao conhecimento divino... “No que concerne ao mago, só isto é
importante. Seja lá o que esteja fazendo,
comendo, bebendo ou trabalhando, essa ação tem que ser transfigurada num
símbolo e dedicada ao serviço daquele ideal
entesourado acima de toda riqueza e outros valores em seu coração. Sua vida
inteira deve ser uma contínua concentração, caso contrário todo seu treinamento
em Dharana e o desenvolvimento da vontade mágica terão sido um completo
desperdício; tanta energia inútil jogada fora tal como num monte de poeira se
ele não trouxer essa concentração e essa atitude sacramental à premência da
vida diária.
O ideal que para o mago constitui seu
maior tesouro e para o qual todo o conteúdo das atividades de sua vida é
dirigido é a recuperação do conhecimento de seu Santo Anjo Guardião, o Augoeides, aquela parte mais nobre de
sua consciência que é real, permanente e a fonte generosa, imorredoura de
inspiração e sustento espiritual. Daí existir, na realidade, um perfeito ritual
em magia; uma meta que tem primazia sobre todas as outras: a invocação do Santo
Anjo Guardião, união que deve, inclusive, preceder as invocações dos deuses ou
das essências universais, seguindo-se o procedimento formulado por Jâmblico. A
alma busca primeiramente e entrega sua vida ao governo de seu daimon, sob cuja orientação os próprios
deuses podem ser suplicados; e deles procedendo o retorno deve ser feito para a
Suprema Mansão do Repouso. Mas a
invocação de Algoeides precisa ter
precedência a todas as outras. Caso se julgue necessário executar qualquer
operação auxiliar antes desta para o Conhecimento
e Conversação do Santo Anjo Guardião, é forçoso que se trate de um propósito
bem definido. O motivo, espiritual é claro, é que tal operação constitua um
passo preliminar para a possibilidade e sucesso do ritual principal.
Entretanto, nos melhores sistemas de magia, as evocações são sempre
representadas seguindo-se à
consecução maior da invocação das grandes forças da vida cósmica ou o daimon interior, o Santo Anjo Guardião,
embora essa última receba primazia, como foi afirmado. A união com os deuses e Adonai é buscada por meio de amor, e a
união das essências é efetivada pelo ceder do ego e a renúncia espontânea de tudo que é mesquinho, pequeno e
irrelevante. A invocação suprema implica, acima de todas as outras coisas, o
sacrifício do apego às coisas mundanas. Do mesmo modo que alguém que,
ingressando no interior do ádito celestial
deixa atrás de si todas as estátuas do templo externo, ou do mesmo modo que
aqueles que entram no santuário interno do Santo
dos Santos purificam a si mesmos, pondo de lado suas vestes para entrarem
nus e não envergonhados, a alma deverá avizinhar-se de sua meta. Na operação de
Abramelin, que brevemente descreveremos, o procedimento a ser seguido é
bastante similar. Primeiramente o Anjo é
invocado numa câmara especialmente consagrada e depois do atingimento o Anjo concede ao mago instruções especiais e autoridade
que dizem respeito à evocação dos Quatro
Grandes Príncipes do Mal do Mundo.
O resultado da invocação do Santo Anjo
Guardião não é idêntico para todas as pessoas. Adonai aparece de várias maneiras e sob diversas formas, em
conformidade com o indivíduo. “Além disso...”, afirma também Jâmblico, “...as
dádivas provenientes das manifestações não são todas elas iguais, nem produzem
o mesmo fruto. Porém a presença dos deuses, realmente, concede-nos saúde do
corpo, virtude da alma, pureza do intelecto e, em uma palavra, eleva tudo em
nós ao seu adequado princípio*.” Seja o que for que o homem prezou durante sua
vida e qualquer que tenha sido a concepção de seu Anjo à qual aspirou, assim será o resultado do casamento místico.
Seus rebentos serão compatíveis com seu amor. Cada estudante, à medida que
ascender ou ingressar no místico Monte
Abiegnus dos Rosacrucianos, verá
diante de si estirando-se adiante no longínquo horizonte da santa terra da
esperança, exatamente aquele panorama que existia potencialmente dentro dele
antes da visão fazê-lo nascer, pois o
monte é um símbolo daquele pico da
alma quando interiorizada em si mesma aproxima-se de sua raiz divina. Então
memória e imaginação são penetradas e inspiradas com o formidável fulgor de uma
natureza diversa e superior. O que for que estiver embrionário no interior de Ruach salta para a vida através da ação
e fogo de Adonai. Nossa inspiração
será semelhante à aspiração e o tipo de gênio que será manifestado ao mundo
sucedendo-se à união mística pode ser poético, artístico, musical ou qualquer
outra manifestação reconhecida. Lembro-me de uma passagem em algum dos Upanishads que aborda esse mesmo tema.
Se alguém se aproxima do eu que é
Brahma acreditando que ele é poder e
força, esse alguém se torna poder e força. Que se aproxime, contudo, dele
vendo em sua majestade conhecimento e sabedoria superiores e, conseqüentemente,
se torna repleto da sabedoria do eu. E se aspirar a ele como o criador de
uma canção, do mesmo modo se torna o cantor.
Em outras palavras, como o teurgo concebeu ser em imaginação o seu anjo,
precisamente nessa forma o anjo se manifestará, brotando da mais profunda fonte
do ser dentro do coração como revelação e inspiração. Caso haja aspiração para
o anjo exclusivamente como o símbolo do amor, da paz e da bondade, Adonai
mostrará ao mundo esse amável e
benigno aspecto. São Francisco de Assis é o exemplo mais marcante do primeiro
caso, como é Buda, que aspirou à sabedoria que o capacitasse a descobrir para a
espécie humana a solução de suas infelicidades e dores, o símbolo do segundo
caso. E isto supre a resposta à pergunta: “Se o misticismo e a magia dotam um
homem de gênio, como explicar que tantos místicos e magos bem-sucedidos parecem
não manifestar uma única centelha de gênio?” É porque a aspiração deles foi uma
aspiração humilde. Converter-se numa grande figura na Terra não constituía o
desejo deles, nem tampouco aspiravam a qualquer uma das formas da arte. Fizeram
de suas vidas uma sublime obra de criação artística e aplicaram suas
inspirações à marcha da vida cotidiana, apresentando-se tão-só como homens e
mulheres humildes de ar e aspecto gentis. Mas como o Eremita encapuzado e togado do tarô trazem a luz do anjo dentro
de si, secretamente, de maneira que todos com os quais entram em contato dia
após dia possam ser abençoados com o amor de Adonai e mais impressionados pela
santidade do espírito e a pureza de sua efulgência do que com sua própria
realização pessoal. Essa é a chave, pois quando se ora com fervor ao Santo Anjo
Guardião, como a aspiração secreta da alma terá sido, o anjo se apoderará dessa
vontade no êxtase de ventura que arrebata a alma para longe a fim de comunicar
sua manifestação ao mundo.
* Os Mistérios, Jâmblico.
Um dos melhores sistemas técnicos que
conduz à comunhão com o daimon é exposto num certo livro medieval
de magia que, comparado com todos os outros, é como o sol do auge do dia diante
de uma débil luz bruxuleante à noite. A maioria dos velhos engrimanços e livros
de magia tais como O Pequeno Alberto, O
Dragão Vermelho e o Enchiridion são
propositadamente ininteligíveis, ambíguos, ou mais, à parte de todas as
questões de simbolismo oculto, disparate pueril. Aqueles que são honestos e de
regra funcionais, contêm seções indesejáveis que se adequam mais às aspirações
de um camponês apaixonado e de nativos ignorantes do que às aspirações de gente
educada animada de propósitos sérios. Mas há em relação a todos esses uma
extraordinária exceção. A regra geral é rompida pela existência de O livro da Magia Sagrada de Abramelin, o
Mago*.
* Publicado no
Brasil por Anúbis Editores Ltda., São Paulo, tradução de Norberto de Paula
Lima, Márcio Pugliesi e Edson Bini. (N.
T.)
Escrito num estilo de exaltação, esse
livro é perfeitamente coerente e harmonioso; não requer fantásticas minúcias
ritualísticas e nem mesmo os cálculos costumeiros de dias e horas. Não há nada
em absoluto que insulte a inteligência. Pelo contrário, a operação proposta por
esse autor de magia constitui a apoteose da simplicidade, o próprio método estando
em inteiro acordo com isto. Há, naturalmente, certas prescrições e regras
preliminares a serem observadas, mas elas realmente não passam de recomendações
de bom senso no sentido de acatar a decência na execução de uma operação tão
augusta. É preciso, por exemplo, dispor de uma casa onde medidas adequadas
contra distúrbios possam ser tomadas; isso providenciado, restará pouco mais a
fazer exceto aspirar com crescente concentração e ardor durante seis meses pelo
Conhecimento e Conversação do Santo Anjo
Guardião.
O próprio livro é um dos mais
extraordinários documentos de magia existentes atualmente e o sistema que é
nele ensinado para entrar em comunhão com o eu interior, ou o Santo Anjo
Guardião, é entre todos os sistemas de magia talvez o mais simples. Acima de
tudo é eficaz. O livro é composto de três partes, a primeira contendo conselhos
gerais relativos à magia e uma descrição das viagens e experiências do autor,
bem como a indicação de obras maravilhosas que ele fora capaz de realizar por
meio da técnica em pauta. Segue-se então uma descrição geral e completa dos
métodos de obtenção da crise estática da operação e o estilo do livro neste ponto
difere de maneira salutar dos capítulos anteriores bem como dos subseqüentes. A
última parte trata dos métodos de aplicação dos poderes que são conferidos
mediante a consumação da operação. O
sistema é descrito por um certo Abraão, o Judeu, ao seu filho mais jovem,
Lamech, e ele afirma em primeira instância tê-lo recebido de um mago egípcio
chamado Abramelin. Abraão, o Judeu, é
uma figura vaga e sombria, desconhecida e reservada por trás das tremendas
complicações da sublevação da Europa central nos seus dias, quando aquela parte
do mundo se achava mergulhada num amplo conflito. A história de Abraão tal como
contada por ele mesmo na primeira parte do livro é, na verdade, simples. O que
impressiona, entretanto, é a tremenda simplicidade da fé desse homem, que tem
como testemunho suas muitas e perigosas viagens por tantos anos através de
regiões inóspitas e selvagens, de difícil acesso mesmo atualmente mediante
nossas facilidades de transporte. Nesta parte do livro são relatados seus
fracassos e esperanças frustradas, além de alguns becos sem saída pelos quais
ele foi conduzido, até o clímax de suas viagens quando conheceu Abramelin, o
mago egípcio, que lhe conferiu as instruções que constituem a principal ou
segunda parte do livro. Em conformidade com os costumes de seu próprio povo,
Abraão, o Judeu, instruiu seu filho primogênito na filosofia da Santa Cabala e ao
seu filho mais jovem, Lamech, transmitiu este sistema de magia.
Independentemente de sua origem, de sua data e de sua autoria, que são no
presente objeto de polêmica e crítica, esta obra não deixa de ter valor para o
aprendiz sincero, seja como um encorajamento para aquela qualidade sumamente
rara e necessária – fé inabalável, ou como apresentadora de um conjunto de
instruções pelas quais se distingue os sistemas mágicos verdadeiros dos falsos.
Abraão não faz exigências impossíveis como aquelas que são percebidas em
engrimanços fraudulentos, a respeito do sangue de morcego apanhado à
meia-noite, a quarta pena da asa esquerda de um galo completamente preto ou o
olho recheado de um basilisco virgem e assim por diante. Embora talvez algumas
das exigências estabelecidas por Abraão sejam um pouco difíceis de serem
atendidas, há sempre uma razão excelente para apresentá-las e não significam
absolutamente testes sutis à habilidade do operador. Tivesse S. L. McGregor Mathers nada mais feito em
prol da humanidade exceto a tradução desse livro a partir de um manuscrito em
francês, colocando assim seu teor à disposição dos aprendizes interessados, e
já mereceria nossa gratidão. Devo acrescentar, a propósito, que sua tradução é
ótima, coerente e capaz de expressar de maneira harmoniosa o pensamento do
escritor medieval. É somente porque esse livro de suma importância tem estado
esgotado por tantos anos, sendo sua obtenção tão difícil atualmente, que eu
ouso oferecer aqui um resumo da operação proposta pelo livro.
((ilustr. – HÓRUS, O
Senhor da Força e do Fogo))
No início Abraão adverte seu filho contra
os impostores. Este mago, como muitos de nossos coevos modernos, era injusto no
sentido de considerar qualquer um que não utilizasse seu próprio sistema um
charlatão, muito embora seja provável que em sua época houvesse tanta
necessidade de rigorosa advertência contra charlatães quanto há hoje. Ele então
formula a regra segundo a qual a principal coisa a ser considerada é “...se
gozais de boa saúde, porque o corpo estando fraco e insalubre está sujeito a
variadas enfermidades, o que acaba por resultar na impaciência e falta de poder
para trabalhar e prosseguir na operação; e um homem enfermo não pode ficar
limpo, ou puro, nem gozar de solidão, e em tal caso, é melhor desistir.”
O período verdadeiro, quer dizer, mais
conveniente para o começo desta operação, um período em que todas as forças da
natureza se encontram propícias ao esforço, é o primeiro dia após a celebração
da festa da Páscoa, precisamente no período
do equinócio primaveril. É então que o sol inicia sua viagem rumo ao norte,
trazendo consigo luz, calor, sustento e graça e a totalidade do mundo vivo,
plantas, árvores, aves e animais respondem à sua ressurreição ansiosa e
jubilosamente. Trata-se assim da estação mais apropriada para crescimento
ascendente e desenvolvimento interior, bem enquadrados ao crescimento e à
manifestação do espírito. O tempo necessário para que se conduza a operação a uma conclusão bem-sucedida é
seis meses lunares, de modo que se for começada em 22 de março findaria em
torno do equinócio outonal em setembro. O período total de seis meses é
dividido em três períodos definidos de dois meses cada, cada um destes sendo
caracterizado pelo rigor de auto-negações, mas principalmente pelo acréscimo de
invocações adicionais, tornando assim a concentração no Santo Anjo Guardião mais intensa e fervorosa.
Há muita discussão de início quanto à
natureza do cenário da operação. Se possível, deve ser realizada
no campo, onde se pode obter efetiva solidão. Digo “solidão efetiva”
deliberadamente já que, como todos sabem, é possível isolar-se no coração de
uma grande cidade do resto do mundo simplesmente pelo recolhimento. A solidão
que este livro sugere é um retiro físico da vida fervilhante da cidade,
mencionando-se que Abraão, Moisés, Davi, Elias, João e outros homens santos se
retiraram para locais ermos até terem adquirido esta ciência santa e a magia. O
melhor local, sugere Abraão, “...onde houver um bosque, no meio dele fareis um
pequeno Altar, e cobrireis o mesmo com uma cabana (ou teto) de pequenos galhos,
de modo que a chuva não possa cair nele e extinguir a Lâmpada e o Turíbulo”. Se
o recurso a um sossegado bosque for impossível, outras sugestões são
apresentadas. Todas as obras de magia insistem que muito cuidado e
discernimento devem atender à escolha de um local apropriado para se proceder a
essas operações. Além das instruções acima expostas, o mago deverá
certificar-se de que o teatro de magia que escolheu não está situado num lugar onde
feitiçaria, por exemplo, foi praticada e que não foi empregado para sessões
espíritas. Deve ser absolutamente óbvio que como um dos resultados da magia é
tornar a constituição do mago mais sensível, ele não deve colocar-se numa
posição na qual essa sensibilidade possa ser invadida por influências
perturbadoras e hostis. Muitíssimos indivíduos inteiramente comuns são
suscetíveis a atmosferas, e para o mago, em particular, o local de trabalho
deve certamente estar livre de qualquer contato deletério, de sorte que a
esfera sensível da consciência não possa ser indevidamente afetada. Abraão
menciona o tipo de casa necessária se o trabalho tiver que ser realizado numa
pequena cidade ou povoado, dando-se ênfase à construção do Oratório, que deve ser a câmara realmente importante porquanto deve
servir como templo mágico. Deste oratório uma janela tem que abrir para
um balcão aberto ou um Terraço, como
é chamado, cujo piso deve ser coberto com uma camada de areia fina de rio. Ora,
uma das coisas que mais, talvez, do que qualquer outro item dos acessórios
impressiona o principiante que lê o livro de Abramelin é o fato de não se fazer
aí nenhuma menção a um círculo mágico de proteção para o lugar de realização
das invocações, a despeito de se fazer referências e descrições em termos
claros de muitos demônios e espíritos malignos provavelmente danosos ao
operador. Assim é porque nesta particular disposição da obra, o autor procura
reduzir a totalidade da cerimônia a princípios fundamentais com o mínimo
possível de dispositivos, e se supõe que o terraço substitua o triângulo no qual os espíritos apareceriam após a Conversação com Adonai. Tanto o dormitório quanto o oratório, sendo consagrados
durante um longo período de tempo mediante contínuas orações, invocações e fumigações
ascendentes, desempenhariam a mesma função de um círculo, estabelecendo um
natural obstáculo astral em torno dos limites do oratório através de cuja
santidade e segurança nenhum demônio poderia penetrar. É por esta razão que se
dispensa qualquer círculo simbólico visível, porquanto o efeito das contínuas
invocações terá exaltado tanto a constituição do operador e elevado tanto a
vibração das moléculas em seus vários veículos que a inteira esfera astral e
espiritual será purificada a um ponto que, como anteriormente sugerido, servirá
em si mesma seguramente como o círculo mágico real.
Que se mencione aqui para o benefício dos
aprendizes do presente que possam cogitar em se devotarem a esta Operação da Magia Sagrada que essas regras
não precisam ser escrupulosamente acatadas desde que sua essência e espírito
sejam acatados. Com apenas um pouco de engenhosidade será possível estabelecer
um novo conjunto completo de circunstâncias externas favoráveis à execução
satisfatória desta concepção da Grande Obra. É preciso que seja
compreendido com clareza, contudo, que uma vez concebido e adotado esse
conjunto de regras, embora claramente entendido como arbitrário, elas deverão
ser estritamente seguidas. Em seu poema mágico Aha, Aleister Crowley apresenta uma bela versão de uma possível
variante do cenário da operação:
“ . . . Escolhe com ternura
Um sítio para a academia tua.
Que um santo bosque haja
De solidão enramada
Junto do rio tranqüilo, sem chuva,
Sob as entrelaçadas raízes
De árvores majestosas que tremulam
Nos ares sossegados; onde os brotos
Da grama delicada são verdes,
Musgo e samambaias adormecidos entre si,
Lírios na água sobrepostos,
Raios de sol nos ramos presos
– Entardecer sem vento e eterno!
Todas as aves do céu silenciadas
Pela baixa e insistente chamada
Da continua queda d’água.
Aí, para um tal cenário sê
Sua gema esculpida de divindade,
Um fogo central sem defeito, subjugado
Como a Verdade no interior de uma esmeralda.”
Dentro da loja ou oratório consagrados deveria haver um altar construído como um
armário, acima do qual, suspensa do teto uma lâmpada com azeite de oliva deve
queimar. Deve ser mantido sobre o altar um turíbulo de latão, não devendo este
nunca ser removido do oratório durante todo o período de seis meses da operação.
É necessário um manto de seda carmesim
guarnecido em ouro que chegue aos joelhos; é mencionada também uma outra túnica
de linho branco. “Quanto a estas roupas, não há regras particulares para elas;
nem nenhuma instrução especial a ser seguida; mas quanto mais resplandecentes,
limpas e brilhantes forem, tanto melhor será.” “Também tereis uma Vara de
amendoeira, lisa e reta, do comprimento de cerca de meio covado a seis pés.” No
que se refere à preparação de todas essas coisas, os princípios formulados em capítulos
anteriores se aplicam igualmente, mesmo considerando-se que nenhuma menção
deles seja feita por nosso autor.
Durante o primeiro período de dois meses
aconselha-se o operador a levantar-se toda manhã precisamente um quarto de hora
antes do nascer do sol, entrar no oratório depois de ter se lavado e se
vestido com roupa branca, abrir a janela
e, ajoelhando no altar que dá para a
janela que comunica ao balcão invocar os nomes de Deus com vontade e mente
dilatadas. “...e confessar-Lhe inteiramente todos os vossos pecados”. Esta
última prescrição, naturalmente, é simplesmente para produzir a tranqüilidade
mental e emocional necessárias à inspiração e iluminação do anjo. É dificilmente necessário
estender-se sobre o fato de que aquele que permanece continuamente incomodado
por uma consciência revoltada ou pela memória de uma antiga má conduta está
deste modo impedido da tranqüila concentração mental; tampouco serão suas
invocações intensas e unidirecionadas. Uma tal pessoa seria devidamente
aconselhada a abster-se completamente até mesmo da contemplação de uma operação
mágica desse tipo pois ela estaria fadada a resultar não só no fracasso da
invocação ao anjo, como também em desastres do gênero mais catastrófico. Os
poderes que estão presentes na operação de Abramelin são de pouco uso para os
intrometidos. Conquistadas a tranqüilidade e a serenidade, o mago deve suplicar
ao Senhor do Universo “que, chegando
o tempo, possa Ele ter piedade de vós e conceder-vos Sua graça e a bondade de
vos enviar Seu Santo Anjo, que vos servirá de Guia...”
Não há necessidade de enfatizar muito,
suponho, que Abraão era de fé judaica, e conseqüentemente afeito à predominante
– isto é, medieval – concepção judaica do monoteísmo pessoal. O tom teológico
dado a esta magia pelo adepto hebreu e
que deve ter sido acrescido por ele após tê-la recebido de Abramelin pode,
portanto, ser tranqüilamente ignorado pelo leitor se este assim o desejar, já
que não desempenha papel algum na verdadeira significação da operação. Cada aprendiz pode adaptar
inteligentemente o caráter das prescrições de Abraão a respeito desse ponto à
teoria mágica do universo aqui formulada num capítulo anterior, ou às suas
próprias crenças religiosas particulares. É necessário, todavia, que eu frise
que o dogma e a fé religiosa esotérica não ocupa lugar algum no interior do santuário da magia. É preciso que o
leitor se convença que a magia depende de princípios experimentais rígidos tão
confiáveis e tão exatos como os de qualquer ciência.
Antes de iniciar a operação, seria bom para o
mago que formulasse um juramento de que executará essa magia sagrada e que o
registrasse claramente por escrito. A vontade e a determinação de ter êxito
precisa ser expressa mediante palavras, e essas palavras por ações, pois
durante a Negra Noite da Alma, quando
o olho espiritual estiver fechado e todo discernimento tiver se afastado,
quando o acólito é debilitado pela tentação e pela aflição da mente, será
apenas sendo fiel à letra do juramento que o mago poderá esperar conduzir essa operação a um clímax satisfatório. A
direta expressão da vontade, em todos os casos, é o discurso,
e o registro de uma determinação de vontade num juramento escrito está de
acordo com os fundamentos da filosofia mágica.
No exercício de oração acima o ponto
importante a ser observado, como o próprio Abraão faz notar a seu filho nas
palavras que se seguem, é “Também de nada serve falar sem devoção, sem atenção,
e sem inteligência; ...Mas é absolutamente necessário que vossa oração saia de
dentro de vosso coração, porque simplesmente estabelecendo orações escritas,
sua audição de modo algum vos explicará como rezar realmente. “Mais adiante,
analogamente, ele aconselha seu filho Lamech: “Inflamai-vos com oração.” Quanto
a esta prescrição, é necessário que nos estendamos um pouco, já que o sucesso
ou o malogro na arte da invocação dependerá inteiramente do fato de essa
recomendação ser acatada ou não. Efetuar uma série de invocações diversas vezes
ao dia durante um período de seis meses, repetindo a mesma invocação, confissão
e oração durante o primeiro período duas vezes por dia é realmente uma tarefa
diante da qual o operador que não for
confirmado por hábito nesta senda da luz pode
bem falhar. Detenha-se, leitor, e
reflita sobre o que isso implica! Uma simples amostra de trabalho mágico
que se mantém num período tão longo é realmente umas das tarefas mais árduas e
tediosas que se pode conceber. Somente aquele que com persistência for capaz de
ser fiel à letra de seu juramento assumido antecipadamente pode ter a
expectativa do êxito. E no entanto, essas invocações não devem ser recitadas de
maneira monótona e árdua, ou num tom de voz que indique tédio, sem fervor,
sinceridade ou devoção. Sem a presença destas qualidades na invocação, um
vulgar grito de feira seria tão útil quanto e teria mais ou menos tanto efeito
como qualquer outro. Toda faculdade do mago deve participar do trabalho de
invocação. Todo poder da alma deve ser exercido, todo grama de sinceridade,
entusiasmo e regozijo espiritual deve ser empregado na sustentação das
invocações que devem brotar do próprio coração e alma do ser do mago.
Durante esse primeiro período outras
prescrições são indicadas que têm de ser escrupulosamente seguidas segundo o
autor. Algumas delas podem parecer um tanto triviais ou ate ridículas, mas o
julgamento final deve ficar a critério de cada leitor. Eu apenas as menciono
pelo cuidado de me ater ao completo. Tanto o dormitório quanto o oratório mágico devem ser conservados
num estado de limpeza e ordem absolutas, toda a atenção do teurgo sendo
prestada à “pureza de todas as coisas”. Todo os sábados os lençóis do leito têm
que ser substituídos e a câmara totalmente perfumada e incensada, impregnando
assim mesmo esse quarto de uma carga de santidade e expandindo os limites do círculo. Os ingredientes apontados para
o incenso são um composto de olíbano,
estoraque e aloés, todos reduzidos a um pó fino e bem misturados*. Abraão, o
Judeu é incisivo, ademais, quanto a afirmar que não se deve permitir que nenhum
animal se aproxime ou tenha acesso à casa na qual a operação está sendo levada a
efeito. Deve imperar a mais absoluta solidão que seja humanamente possível. “Se
sois vosso próprio senhor, tanto quanto estiver em vosso poder, libertai-vos de
todos os negócios, e deixar toda companhia vã e mundana, e conversação, levando
uma vida tranqüila, solitária e honesta... Sede sóbrio ao tratar de negócios,
vendendo ou comprando, sendo preciso que nunca vos enfureceis, mas sede modesto
e paciente em vossas ações.” Essas são normas de bom senso que ninguém, eu
presumo, criticaria. Uma outra sugestão expressa é que as Escrituras Sagradas podem ser lidas e ser objeto de meditação
durante duas horas por dia, este tempo devendo ser especialmente programado e
reservado para essa finalidade após o jantar, não se permitindo que nenhuma
outra atividade interfira ou tenha precedência. Quase qualquer outro livro
religioso serviria caso o aprendiznão esteja predisposto ao estudo da Bíblia, particularmente um
desses livros que tenha causado profunda impressão em sua mente e que tenha
servido de algum modo para despertar os sentimentos superiores e estimular o amor e as emoções nobres. Essa
meditação produzirá também pistas que auxiliarão na composição dos rituais
supremos.
* As proporções
necessárias à mistura são quatro partes de olíbano, duas partes de estoraque e
uma parte de aloés.
No que diz respeito aos hábitos da vida,
Abraão sugere moderação em todas as coisas, o comer, beber e dormir não devendo
ser nem excessivos nem demasiadamente modestos. Nenhuma das coisas nas quais o
mago estará envolvido deve, por menos que seja, conter algo de supérfluo.
Quanto ao assunto que para a maioria dos aprendizes de magia e misticismo é
cercado por um véu de obscuridade, aconselha, à guisa de acréscimo à prescrição
de moderação que “Podeis dormir com vossa esposa na cama quando ela estiver
pura e limpa;...” e nunca em caso contrário. A única questão a afetar o
celibato é simplesmente a da conservação da energia, e nada mais. Visto que
todas as forças do indivíduo estão sendo transformadas pela operação e dirigidas a uma nobre
finalidade espiritual, qualquer desperdício ou escoamento de força que é tão
importante em matérias afastadas daquela finalidade são assim grosseiramente
imorais no sentido de que apresentam algo de loucura e autodestruição. Durante
a operação, poucas pessoas deverão estar na casa com ele, “ Quanto ao que se
refere à família, quanto menos numerosa, melhor; também fazei de modo que os
servos sejam modestos e tranqüilos.” A caridade é sugerida e também o recato
com respeito às roupas e o modo de vestir; toda vaidade deve ser severamente
banida.
Isso é o suficiente para o primeiro
período. As tarefas nestes dois meses são relativamente fáceis, indicando
tão-só uma simples vida meditativa, em relação à qual se insiste no repouso e
tranqüilidade. Duas vezes ao dia, ao nascer e pôr-do-sol, quando certas forças
ocultas na natureza estão em sua ascendência e no máximo de sua pureza, as
invocações deverão ser realizadas; cumpre que o resto do dia seja passado no
aperfeiçoamento variado da concentração da mente fervorosamente dirigindo-se ao
“... Santo Anjo que vos servirá de Guia...” A programação proposta por Abraão
pode facilmente ser suplementada por outros itens de magia, em conformidade com
a aspiração principal, o que pode ser sugerido pela engenhosidade do indivíduo.
Durante este período, o mago deve devotar todas as faculdades que adquiriu
através da atenção que dedicou a outras fases da técnica ao fortalecimento da
aspiração principal. Os rituais de banimento podem ser usados proveitosamente e a ascensão aos planos pode se revelar um
auxiliar extremamente útil às invocações. A repetição contínua de um mantra sagrado, compatível com a
concepção do mago da natureza de seu Anjo,
se revelará de grande ajuda para manter a concentração da mente unidirecionada.
Com a chegada do segundo período
precisamente o mesmo procedimento é seguido exceto pelo fato de o operador ser
exortado a tornar suas invocações mais intensas e ígneas, e “Deveis prolongar
vossas orações o máximo que vossa capacidade permitir”. As invocações devem
prosseguir de manhã e no anoitecer como nos dois meses anteriores, mas
“...antes de entrardes no Oratório deveis lavar vossas mãos e face
completamente com água pura. E deveis prolongar vossa oração com a maior
afeição possível, devoção, e submissão, humildemente implorando ao Senhor Deus
que se digne a ordenar a Seus Santos Anjos que vos levem pelo Verdadeiro
Caminho...” É fácil perceber a idéia psicológica que Abraão gradualmente
formula. As invocações ao Santo Anjo Guardião devem ser feitas mais freqüentes,
ardentes e imperiosas de sorte que quando pelo fim do período de seis meses é
dado ao teurgo o conselho de inflamar-se com a invocação, prática anterior o
fará voar como uma flecha impelida por um arco rumo à glória do anjo e não se
experimentará qualquer dificuldade para despertar o entusiasmo e devoção
requeridos que levarão a efeito a união mística.
Outras prescrições a serem observadas no
segundo período podem ser resumidas com brevidade como se segue. “O uso dos
direitos do matrimônio, mas, se este uso for feito, deverá sê-lo o mínimo
possível.” “Deveis também lavar todo vosso corpo toda véspera de Sabbath.” “Quanto ao que tange o
comércio e modo de viver, já dei instrução bastante”, mas agora “...é absolutamente necessário retirar-se do
mundo e procurar isolamento...” As observações antes feitas no que se refere a
comer, beber e se vestir continuam aplicáveis.
Quando o segundo período se encerra e com
ele o quarto mês de invocação contínua, a mente do operador deverá estar
gradualmente se contraindo para um único ponto em função desses modos de vida
serenos e calmos e do fervor crescente que deve introduzir em suas invocações,
que ocupam agora períodos mais largos de tempo. Nessa ocasião, igualmente, ele
terá entrado naquele estado de secura do
qual místicos de todos os tempos falaram, aquele horrível estado psicológico no
qual todos os poderes da alma parecem mortos a visão da mente se fecha num
protesto mudo, por assim dizer, contra a disciplina cruel do juramento. Mil e
uma seduções tenderão a desviar o operador da contemplação da finalidade que
escolheu, e mil e um meios de quebrar o juramento em espírito sem quebrá-lo na
letra serão apresentados. E parecerá que a própria mente irá ficar fora de si,
advertindo o teurgo que seria melhor para ele omitir, por exemplo, um período
devotado à invocação e fazer algo mais, profano e prazeroso. Constantemente
procurará amedrontá-lo com temores desordenados relativos à saúde do corpo e da
mente. Contra todas estas insanidades – fatais se ele sucumbir a uma única
tentação – há somente um remédio, a saber, a disciplina do juramento feito no
início, prosseguir no labor de invocar durante seis meses o Santo Anjo
Guardião. Tudo o que se tem a fazer é proceder às cerimônias e invocações,
agora temporariamente destituídas de sentido e horrendas, visto que a visão
espiritual está negra e o olho interior fechado. Pode ser que com o terceiro e
último período essa Noite Negra da Alma passe lenta e
imperceptivelmente, e então surgirá a suave grandeza rosa e cravo da aurora a ser sucedida pela brilhante luz
diurna do Conhecimento e Conversação,
com a Visão Beatífica e o perfume tão doce e confortador aos sentidos e à alma do Santo Anjo
Guardião.
Com a chegada dos últimos dois meses,
aconselha-se que o homem que é seu próprio senhor deixe todos os seus negócios
de lado, à exceção, talvez, de obras de caridade para com seus próximos.
Contudo, dever-se-á tomar cuidado mesmo em manifestar uma virtude tão elevada
quanto esta pois a concentração e a aspiração ao mais elevado não devem ser
interrompidas. “Afastai-vos de toda
sociedade, salvo a de vossa Esposa e Servos... Toda véspera de Sabbath deveis jejuar, e lavar todo
vosso corpo, e trocar vossas roupas.” Estas regras concernem ao modo de vida e
conduta. Mas as instruções que se referem ao aspecto mágico da operação são as seguintes: “Manhã e noite
deveis lavar vossas mãos e face ao entrar (quer dizer, antes, é claro) no
Oratório; e primeiramente deveis confessar todos os vossos pecados; depois
disto, com mui ardente oração, deveis implorar ao Senhor que vos conceda esta
particular graça, que é poderdes desfrutar e resistir à presença e conversação
de Seus Santos Anjos, e que Ele possa dignar-se por intermédio deles
conceder-vos a Secreta Sabedoria, de modo que possais ter o domínio sobre os
Espíritos e todas as criaturas.”
Este é o procedimento recomendado para os
dois últimos meses, tempo em que a maior parte do dia será passada, como orientam
também os Oráculos Caldeus,
“Invocando com freqüência”, concentrando todos os poderes da mente, do corpo e
da alma em conjunto, focalizando-os por meio de invocação de maneira que por
meio disso o anjo possa aparecer e
alçar o teurgo à sua vida mais
grandiosa e mais ampla. Concluído o terceiro período de três meses em 21 de
setembro, o mago deverá levantar-se na manhã seguinte muito cedo, “...nem vos
lavareis nem vos vestireis com vossas roupas comuns, mas tomareis uma roupa de
luto; entrareis no Oratório de pés nus; ireis para o lado o incensório*, e
tendo aberto as janelas, retornareis à porta. Ali vos prostrareis com vossa
face contra o chão e ordenareis à criança (que é usada neste sistema como
assistente e clarividente, mas desnecessária, acho, nessa última função se a
operação tiver sido cuidadosamente desenvolvida) que coloque o perfume no
turíbulo, após o que se deverá pôr de joelhos diante do Altar; seguindo em tudo
e minuciosamente as instruções que dei... Humilhai-vos perante Deus e Sua Corte
Celestial e começai vossa Oração com fervor, pois então começareis a vos
inflamar na oração, e vereis aparecer um extraordinário e sobrenatural
esplendor, que encherá todo o apartamento, e vos circundará com um cheiro
inexprimível, e apenas isto vos consolará e confortará o coração, de modo que
clamareis para sempre, feliz, pelo Dia do Senhor.”
* Embora o autor nem sempre faça citações
integrais, omitindo certos trechos e advertindo o leitor desta descontinuidade
mediante as reticências (... ), aqui não
há estas reticências, motivo pelo qual reproduzimos o trecho omitido: “tomareis
as cinzas dele e as colocareis sobre vossa cabeça; acendereis a Lâmpada; e
poreis os carvões quentes no incensório”. (N. T.)
Abraão, homem sábio e mago que era, não
sobrecarrega a si mesmo, se perceberá, nem a mente de seu filho, ao qual essa
técnica mágica é transmitida, com qualquer sofisma intelectual ou qualquer
investigação metafísica a respeito da
natureza do anjo. Não
há nenhuma discussão quanto a
este último possuir uma existência objetiva, isto é, independente, ou se ele é
subjetivamente inerente à estrutura psicológica do teurgo. Ele mesmo, tendo
passado por este treinamento e alcançado sua realização na Visão e no Perfume, bem conhecia a falácia da dependência intelectual. E pode-se presumi-lo porque ele
escolheu de preferência a todas as outras expressões as próprias palavras
“Santo Anjo Guardião”, que são tão palpavelmente absurdas de um ponto de vista
racional a ponto de nenhuma pessoa sensata ousar especular acerca delas. Assim
a dependência intelectual e a voragem do erro são evitados. Quanto maior for a
força e o entusiasmo desse ato de fé numa entidade irracionalmente nomeada e
concebida, mais eficaz será a crise da conjuração.
Durante sete dias, em seguida, aconselha
Abraão, o operador executará as cerimônias sem falhar na execução correta de
nenhuma delas de modo algum. No dia da consagração,
o Santo Anjo Guardião terá aparecido ao teurgo e proporcionado graça e
esplendor a sua alma, sustento ao seu espírito e terá inundado toda a esfera da
sua mente com uma iluminação que tudo abarca, que não há palavras que possam
adequadamente descrever. Então seguir-se-á, segundo prescrição do anjo, uma convocação de três dias na qual os espíritos bons e santos serão conjurados
à aparência visível no terraço e
introduzidos ao domínio da vontade renovada
do mago; os três dias sucessivos serão dedicados à evocação dos maus espíritos. No segundo dia, orienta
Abraão, “devereis seguir os conselhos que vosso Santo Anjo Guardião vos terá
dado e no terceiro renderás gratidão”. “E então pela primeira vez estareis
capacitado a pôr à prova se bem empregastes o período das Seis Luas, e quão bem
e dignamente trabalhastes na busca da Sabedoria do Senhor; pois vereis vosso
Anjo Guardião vos aparecer em inigualável beleza; que também convosco
conversará, e falará com palavras tão cheias de afeto bondade, e com tal doçura
que nenhuma língua humana poderia expressá-las... Numa palavra, sereis por ele
recebido com tamanha afeição que esta descrição que aqui dou deverá nada
parecer em comparação... Aqui neste ponto, começo a restringir-me em meu
escrever, haja visto que pela Graça do Senhor submeti-vos e consignei a um
MESTRE tão grande que nunca vos deixará em erro.”
Continuando diretamente com a descrição
em versos do cenário da operação mágica anteriormente citada, e trabalhando-se
com esmero as observações de nosso autor de magia, Crowley prossegue:
“ Tu terás uma barca de bétula
Sobre o rio
nas trevas;
E à
meia-noite irás
À corrente mais suave do meio do rio,
E tocarás uma
campainha dourada
A chamada do
espírito; então diz as palavras de encantamento:
‘Anjo, meu
Anjo, aproxima-te!’
Fazendo o
Sinal de Maestria
Com bastão de
lápis-lazúli.
Então, pode
ser, através da encoberta
Noite
silenciosa verás teu anjo surgir,
Ouve o débil
sussurro de suas asas,
Contempla as
doze pedras dos doze reis!
Sua fronte
será coroada
Com a débil
luz das estrelas, onde
O Olho
vislumbra dominante e agudo.
E por este
motivo tu desfaleces; e teu amor
Captará a voz
sutil disso.
Ele informará
seu amante feliz;
Minha tola
tagarelice estará terminada! . . .
Mente
abertamente, uma taça camaleônica,
E O deixa
sugar teu mel! “
Assim finda a mais importante parte do
sistema advogado por Abramelin, o mago, que pode ter sido seguramente um dos
maiores mestres de magia do Ocidente. Com perfeita lucidez e suave simplicidade
de concepção espiritual, com clareza na expressão e na instrução e sem sobrecarga
da mente com minúcias e elementos secundários, com símbolos de pureza e de
limpeza, Abraão, o Judeu, conduz o teurgo gradualmente, passo a passo, em
ascensão pela maravilhosa escada que é a Árvore da Vida que cresce para a terra
a partir do Ancião dos Dias, rumo ao Mestre Inefável. Ele é o Augoeides, Adonai, o Eu superior, o Santo Anjo Guardião, chame-se-o como
quiser. E a iluminação e glória espiritual que o Anjo traz é tão auspiciosa e
santa e uma visão tão terrível que no devoto é induzido um arrebatamento, uma
adoração, um transporte de êxtase que ultrapassa qualquer concepção e discurso
humano. Nenhum santo ou poeta ainda foi capaz de sugerir mais do que um eco
fugidio dessa incomparável experiência. Esta consecução marca o começo da
carreira do Adeptado, e é só então,
quando a alma tendo sido erguida em excelsitude e visto coisas que não é lícito
revelar, que a verdadeira natureza da vida pode ser percebida. Infiltrado por
uma riqueza de sabedoria, ventura e clareza da visão interior, poderá então o
mundo ser apreciado pelo que ele é. Até aqui os olhos da alma estavam cerrados,
e cegos, amedrontados, e ignorantemente calados, o indivíduo se achava num
redemoinho na roda continuamente móvel da vida e da dor. Mediante o atingimento
do esplendor angélico, o centro da consciência tendo sido para sempre exaltado
além do ego empírico, um dilúvio de
êxtase produz a compreensão de que é apenas o Anjo que é e sempre foi o Ego, o Eu real jamais conhecido antes. Não mais o Anjo o entesourará como
as muralhas longínquas do abismo estrelado, mas sim Ele queimará ardentemente
no cerne do homem, vertendo através dos canais dos sentidos deste uma torrente
interminável de glória e deleite resplandecentes. Os portais da mente são
destravados e oscilam sobre suas dobradiças, e o domínio celestial ao qual o
Anjo introduz a alma é abundante e estaticamente descerrado.
Há um belo poema de autoria do poeta
irlandês A. E. em que o tema é uma conversação entre a criança terrestre das
trevas e o santo Anjo da Luz. O primeiro diz:
“Eu te conheço, ó glória,
Teus olhos e
tua fronte
De fogo alvo
todo grisalho,
Retorna a mim
agora.
Juntos viajamos
Em eras
passadas,
Nossos
pensamentos à medida que ponderávamos
Eram estrelas
na alvorada.
Minha glória
declinou;
Meu azul
celeste e ouro;
E no entanto tu
permaneces aceso
O fogo-sol de
outrora.
Meus passos
estão presos à
Urze e à
pedra...”
O Anjo responde mediante palavras
particularmente significativas ao aprendiz de magia, rogando ao eu sombrio que ceda à orientação do pastor celestial:
“Por que tremer e prantear agora,
Quem as
estrelas uma vez obedeceram?
Avança para o
profundo agora
E não tem
medo...
Um diamante
arde
Nas
profundezas do Só,
Teu espírito
retornando
Pode
reivindicar seu trono.
Em ilhas
orladas de chamas
Suas dores
cessarão,
Absortas no
silêncio
E debeladas
na paz.
Vem e repousa
tua pobre cabeça sobre
Meu coração
onde ela incandescerá
Com o
vermelho-rubi do amor sobre
Teu coração
por seus infortúnios.
Meu poder eu
cedo,
A ti ele é
devido,
Avança pois o
esplendor
Espera por
ti!
CAPÍTULO XIII
A união com o Santo Anjo Guardião
efetuada e a alma tendo sido assimilada à essência interior do esplendor e
glória do Anjo, o mago procede com o sistema de Abramelin à evocação dos
espíritos e demônios com o intento de subjugá-los, e conseqüentemente com eles
a totalidade da natureza, ao domínio de sua vontade transcendental. Pode parecer à
primeira vista que tal parte se seguindo à exaltação da parte precedente do
livro constitui um declínio a partir da sublimidade, estando, ademais, na
natureza de um anticlímax. É difícil negar que o êxtase e a elevada
irrepreensibilidade espiritual do livro sejam um pouco maculados pelo acréscimo
dessas coisas à marcante dignidade da Operação de Abramelin. Aleister Crowley se
empenhou numa oportunidade em fornecer uma adequada explicação racional para
isso. “Há” ele argumenta, “...uma razão. Qualquer um que dá ensinamento de um
novo mundo tem que se conformar com todas as condições dele. É verdade, está
claro, que a hierarquia do mal se afigura um tanto repugnante à ciência. É, com
efeito, muito difícil esclarecer o que queremos dizer dizendo que invocamos
Paimon, mas, se pensarmos com um pouco mais de profundidade, veremos que o
mesmo se aplica ao Sr. Smith ao lado. Desconhecemos quem é o Sr. Smith ou qual
o seu lugar na natureza ou como responder por ele. Não podemos sequer estar
seguros de que ele existe. E, todavia, na prática, nós chamamos Smith por este
nome e ele atende. Através dos meios apropriados, somos capazes de induzi-lo a
fazer para nós aquelas coisas que se coadunam com sua natureza e poderes. A
questão toda é, portanto, a questão da prática, e se nos basearmos neste padrão,
descobriremos que não há nenhuma razão em particular para nos desentendermos
com a nomenclatura convencional.”
O método proposto por Abramelin para convocar os Quatro Príncipes do Mal do Mundo é
constituído por quadrados mágicos contendo, em certas formações, várias letras
e vários nomes. Estes quadrados quando carregados e energizados pela vontade
mágica, estabelecem uma tensão magnética ou elétrica na luz astral à qual
certos seres que se harmonizam com essa tensão reagem executando atos ordenados
pelo mago. Independentemente da evocação dos demônios no terraço há
quadrados desenhados e descritos por Abraão para a realização de quase todos os
desejos que poderiam ocorrer ao um ser humano. Não pretendemos descrever aqui
este capítulo final* do livro de Abramelin que contém os quadrados e fórmulas
práticas de evocação, porquanto este último constitui o ramo menos importante
desse sistema. Em todo caso, este assunto em particular vincula-se a outros
textos mágicos que eu desejaria descrever com brevidade. Permitiu-se
infelizmente que estes trabalhos, como A
Magia Sagrada de Abramelin, ficassem esgotados e não fossem mais
publicados, sendo para todos os efeitos praticamente impossíveis de serem
obtidos salvo por aqueles que têm acesso a um museu ou uma grande biblioteca.
Tenciono abordá-los aqui porque dizem respeito àquele ramo da magia que é
colocado em oposição à invocação e se refere à evocação
e ao controle dos espíritos planetários e seres angélicos. Desejo advertir
o leitor, contudo, chamando sua atenção para o fato de que o procedimento
exposto por Abramelin é o melhor. Primeiramente deve haver o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo
Guardião e então as evocações. E só menciono esta última
coisa para que o leitor fique ciente da fórmula inteira embora não pretenda
reproduzir muitas das instruções práticas. Os livros aos quais me refiro são A Chave de Salomão, o Rei, A Goécia ou Pequena Chave de Salomão, o Rei e O Livro do Anjo Ratziel. Esta última obra infelizmente nunca foi
traduzida do hebraico para o inglês. Está claro, o rei Salomão, modelo através
das eras da mais elevada erudição e sabedoria, foi naturalmente a figura a quem
os autores desconhecidos desses trabalhos atribuíram suas próprias composições
a fim de que pudessem causar mais impressão e ter maior credibilidade. Não que
essa fraude palpável faça a menor diferença pois se o sistema for funcional
então Salomão será uma figura tão boa ou tão ruim para se atribuir discursos e
instruções mágicos quanto, por exemplo, um hipotético ser inexistente como Yossel ben Mordecai. Ademais, omitir seu
próprio nome e dar o crédito a algum outro indivíduo pelo próprio trabalho
encerra uma certa abnegação do ego. Os
livros em si e o sistema mágico neles contido constituem a matéria de
interesse; a autoria nestes casos não tem a menor importância.
* Não se trata do
capítulo final, mas sim de toda a parte final, ou mais exatamente do terceiro livro, que é a parte final de O
Livro da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago. (N. T.)
A necessidade dos ritos de evocação é
realmente extremamente simples. A despeito do objeto supremo da magia ser o
conhecimento do eu superior e embora
para a vontade qualquer coisa além deste objetivo supremo ser magia negra, é às vezes necessário
redispor tanto os materiais quanto o cenário das operações, bem como fazer
preparações para o aprimoramento do Ruach
a ser oferecido em sacrifício ao amado.
Para diferentes indivíduos em diferentes ocasiões essas preparações devem
naturalmente variar. Considerando-se que o Ruach
precisa ser renunciado e imolado na pedra sacrificial do altar como uma
oferta ao Altíssimo, e
considerando-se que denota uma certa mediocridade e puerilidade de devoção
sacrificar uma vítima maculada, poderá ser necessário para alguns teurgos
envolver-se com todas as espécies de práticas para o atingimento de finalidades
que para outros possam ser completamente desnecessárias. Por exemplo, um aprendiz pode se achar
embaraçado com uma má lembrança que pode obstruir a sagrada recordação da visão
e do perfume; é possível que um outro seja incapaz de reagir a certos
estímulos emocionais, e um terceiro possa se achar sob o fardo de uma
perspectiva estultificada da vida, cuja pobreza se opõe inteiramente à intensa
generosidade e à fecunda liberalidade que são inerentes à natureza. A tarefa
mágica imediata em tais casos é aperfeiçoar o veículo imediato através do qual
o Santo Anjo Guardião deve se manifestar. É em vão que são vertidos o elixir da
vida e o vinho ambrosial num recipiente
quebrado ou sujo e é preciso procurar um remédio adequado para essas
deficiências. Em última instância, quando ocorre a rendição final do Ego no casamento místico com o amado, e o Ego é imolado no altar, nenhum complexo disforme maculará o
arrebatamento do êxtase espiritual da união, nem será a vítima sacrificial deficiente em qualquer coisa que seja
agradável aos deuses, ou carente de
qualquer faculdade que se revele uma vantagem para o crescimento ou a vida
suplementar da flor dourada no interior
de sua alma. Assim pode-se julgar imperativo adiar por enquanto a Operação do Santo Anjo Guardião a fim de
suprir instrução conveniente para a Noiva
em suas obrigações para com o Filho
do Rei; devotar-se no começo não à magia da luz mas às evocações da goécia. Várias
partes da mente e da alma podem ser tão falhas a ponto de exigir um esforço
mágico especial para seu estímulo e reparo, quer dizer, quando métodos
seculares ordinários se revelaram ineficazes. Em tais casos é permissível e
legítimo dedicar-se preliminarmente aos ritos de evocação, de modo que por intermédio de seus recursos toda
faculdade do indivíduo possa reassumir o
funcionamento pleno e normal. Pode ser necessário evocar algumas das entidades,
por exemplo, elencadas entre as Setenta e
duas Hierarquias de A Pequena Chave de Salomão, o Rei visando
intensificar as faculdades emocionais, beneficiar a lógica, a razão, a memória
e algum outro departamento do pensamento e da mente. Assim, quando a goécia instrui que o espírito chamado “Foras” ensina “as artes da lógica e da
ética” significa que através do estímulo de um certo aspecto da mente
resultante de um tipo particular de operação mágica as faculdades mágicas são
melhoradas e estimuladas.
Gostaria de chamar a atenção para uma
hipótese mágica que legitima o uso contínuo da evocação de seres angélicos e
planetários antecedendo ao Conhecimento e
Conversação do Santo Anjo Guardião. Ela defende que a busca das artes da evocação pode ser com a finalidade de
preencher as lacunas da escada pela qual a alma pode ascender às alturas do
céu. É por meio deste método que o teurgo adquire uma sólida base quadrangular
para sua pirâmide de realização. É inútil, argumentam os proponentes deste
sistema, contemplar um edifício tão exaltado como o ápice de uma pirâmide
elevando-se pelas nuvens a menos que a
fundação esteja muito firmemente estabelecida sob o solo a fim de servir de
base e suporte seguros e inabaláveis ao espírito que aspira. Enquanto a
aspiração da alma for pura, de motivos honestos e isenta do mero desejo egoísta
do poder, pouco dano poderá advir ao mago na sua atividade com a técnica da evocação, contanto, é claro, que as
precauções ordinárias de completos banimento e consagração do círculo e do triângulo sejam tomadas. Mas, diz-se, que através deste método o
mago imita a operação e progresso da totalidade da natureza. Nela, sua grande
guia e modelo, ele vê que nenhum passo rumo ao crescimento é tomado subitamente
sem longas medidas preliminares ou preparo de alguma espécie; tudo procede
ordenada, harmoniosa e gradualmente, passo a passo, com devido cuidado,
seqüência e escalonamento. É esta harmonia e ordem que ele procura trazer ao
seu próprio trabalho. É preciso que comece seu trabalho na base da
superestrutura, assentando cada tijolo a ser incorporado a essa grande pirâmide
com o mais extremo cuidado, zelo e devoção, dispondo camada sobre camada, não
negligenciando um único estágio sobre o qual a torre deverá sempre se elevar.
Gradativamente, à medida que esta ampla base piramidal de realização se
desdobra, alteando-se tanto dentro quanto acima sobre uma fundação firme,
tornada segura pelas evocações e
sustentada pela aspiração do mago, este tende a descartar as coisas menores na
medida em que a necessidade destas se torna menos óbvia, e ele se torna mais
unidirecionado e devoto até que o coroamento de seus esforços transborda na
consecução suprema. Neste caso, a consecução se alicerça numa base sólida, não
uma base construída sobre areias movediças que o mero sopro do vento poderia
derrubar; o Conhecimento e Conversação está
enraizado no próprio espírito e corpo do ser
integral, e aí não existe nenhum perigo em absoluto de uma iluminação
que leve o mago a uma obsessão de uma idéia fanática, ou à destruição do
equilíbrio de sua mente.
A base racional dos poderes conferidos
pela evocação e a realidade dos espíritos não se encontram muito distantes para
nossa busca se considerarmos a psicologia patológica por um momento. O fenômeno
da evocação pode ser comparado a uma neurose ou complexo sutis presentes em
nossas mentes, os quais nos achamos incapazes de eliminar ou descartar a não
ser por algum meio que nos capacite a defini-los claramente e determinar sua
causa. Este conhecimento lhes outorga uma forma consciente e racional precisa,
que pode, então, ser francamente encarada e banida para sempre da mente como um
impulso perseguidor e perturbador. O psicanalista é incapaz de ajudar um
paciente neurótico particularmente ruim que sofre de uma neurose grave até que
ele lide com o inconsciente por meio
de sua técnica e descubra a causa da existência dos conflitos tipificados por
essas neuroses. Este exame do conteúdo da mente, ou de alguma porção da mente e
da memória, transmite clareza e coerência à causa neurótica subjacente, e o
paciente percebendo claramente a forma e a causa da psicose evocada, se
capacita a dissipá-la e bani-la. Enquanto o complexo for um impulso
subconsciente oculto, espreitando destituído de configuração ou forma no inconsciente do paciente, ainda
possuindo força suficiente para romper a unidade consciente, não pode ser adequadamente
confrontado e controlado. A mesma base racional subjetiva é extensiva ao
aspecto goético da magia, a evocação dos espíritos. Enquanto no
interior da constituição do mago jazem ocultos, descontrolados e desconhecidos
esses poderes subconscientes ou espíritos que conferem a perfeição de qualquer
faculdade consciente, o mago é incapaz de confrontá-los o mais proveitosamente
possível, examiná-los ou desenvolvê-los visando modificar um e banir o outro do
total campo da consciência. Eles têm que assumir forma antes que possam ser
usados. Mediante um programa de evocação, entretanto, os espíritos ou poderes
subconscientes são convocados das profundezas e lhes sendo atribuída forma
visível no triângulo de manifestação,
podem ser controlados por meio do sistema mnemônico de símbolos transcendentais
e conduzidos ao âmbito da vontade espiritualizada do teurgo.
Enquanto estiverem intangíveis e amorfos não se pode tratá-los adequadamente.
Somente dando-lhes uma aparência visível por meio das partículas de incenso e
os evocando ao interior do triângulo mágico é que o mago é capaz de dominá-los
e com eles agir como quiser. A teoria subjetiva aqui empregada é sumamente
conveniente para suprir uma explicação de fácil compreensão desse fenômeno da evocação, pois é perfeitamente possível
comparar os espíritos ao conteúdo-idéia ou conteúdo-pensamento-subconsciente da
mente que atua invisível, silencioso e amorfo nos negros abismos da mente. A
atribuição a eles de uma forma tangível por uma imaginação propelida a uma
atividade prodigiosa pelo processo de evocação, capacita o mago a subjugar a
horda incipiente de pensamentos, paixões e memórias indisciplinados que eles
são, atribuindo assim forma e ordem à hierarquia dos espíritos, e subordinando
a riqueza de seu conhecimento e energia particulares a sua vontade. Isto por si só
constitui a razão e necessidade do empreendimento de evocações antes de se ter
atingido o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo
Guardião, que é o ritual mágico supremo e maior.
De imediato, essa base racional
proporciona uma definição das duas principais divisões da magia bem como uma
distinta classificação das entidades espirituais hierárquicas. A invocação
implica acima de tudo o mais a convocação
para dentro do círculo da esfera humana de consciência, que é a definição
do círculo mágico, de um deus ou do
Santo Anjo Guardião. Nesta forma mais elevada de magia não há necessidade de
triângulo exterior, pois o mago, tanto círculo
como triângulo em um ser, está
desejoso de mesclar sua própria vida com a vida maior de um deus e ceder seu
próprio ser à vida maior de um deus. O triângulo
implica manifestação e dualidade, a separação de um ser menor do teurgo. Na
invocação a dualidade é uma maldição rematada, o propósito desse aspecto da
teurgia sendo eliminar a dualidade. A evocação, por outro lado, é a deliberada
conjuração ou o fazer surgir de uma
entidade incompleta ou menor para dentro do triângulo de manifestação que é
colocado longe da circunferência do círculo. As definições das duas figuras
principais são muito importantes e úteis e devem, acho, ser sempre lembradas. O
círculo é a esfera da consciência,
una, integral e completa. O triângulo representa
manifestação e separação, e é nesse ponto que um ser das trevas é trazido à luz
dos limites ocultos do círculo interior. Pode-se presumir que um deus seja uma
idéia completa e harmoniosa, coerente e absoluta dentro de sua própria esfera,
um macrocosmo que tudo abarca ao qual o mago, que é um microcosmo, une a si
mesmo dentro dos limites protegidos do círculo. Por outro lado, um espírito ou
uma inteligência é um ser menor e embora por definição seja uma força
semi-inteligente da natureza, é uma idéia que não é nem completa nem bem
desenvolvida e compreende apenas uma consciência limitada e partitiva. No caso
da evocação, o espírito é evocado para dentro de um triângulo limitado e
protegido por nomes divinos, colocados no exterior do círculo sagrado e o mago dentro do círculo se posta em relação ao espírito como um macrocosmo
e um ser superior. Tal como a invocação de um deus inunda a consciência
humana com uma onda estática da luz e vida divinas, o teurgo se posta como um
deus e energizador do espírito. A finalidade da evocação é, em síntese, fazer
intencionalmente salientar, por assim dizer, alguma porção da alma humana que é
deficiente numa qualidade mais ou menos importante. Recebendo corpo e forma
pelo poder da imaginação e da vontade, ela é, para usar uma metáfora,
especialmente nutrida pelo calor e sustento do sol, e recebendo água e alimento
pode crescer e florescer. A técnica é a assimilação de um espírito particular
na consciência do teurgo, não por amor e rendição como é o caso na invocação de
um deus, mas sim por comando superior e o gesto imperioso da vontade. Através desta assimilação, a
ferida de Amfortas é curada, a deficiência é remediada e a alma do teurgo é
estimulada de uma maneira especial, de acordo com a natureza do espírito.
O primeiro dos três livros relativos à
evocação dos quais me proponho a falar aqui é A Chave de Salomão, o Rei. Este livro, de longe o mais notório de
todos os livros de instrução mágica, foi traduzido em 1889 por S. L. McGregor
Mathers para o inglês a partir de textos em latim e em francês. Ele próprio,
estou informado, foi sumamente conhecedor do método e obteve sucesso no seu
uso, tendo adaptado para o uso de seus próprios aprendizesum resumo científico
abordando o processo de evocação em todas suas ramificações. Na opinião do
tradutor, essa obra encerrava a fonte-matriz e o depósito central da magia
cabalística. Nela é preciso que se busque a origem de muito da magia cerimonial
da época medieval quando A Chave era
estimada pelos melhores escritores do oculto e praticantes da magia como um
trabalho da mais alta autoridade. Que serviu de instrução a Éliphas Lévi e lhe
forneceu os dados nos quais foi baseado o Dogma
e Ritual de Alta Magia é mais que provável pois deve ser evidente para quem
quer que tenha efetivamente estudado Lévi com cuidado que a Chave
de Salomão foi seu principal texto para estudo e prática. Embora ele não
expresse franco reconhecimento como devedor por meio de muitas palavras, é a
essa obra que ele se refere em suas vistosas observações relativas às Clavículas do Rei Salomão. No seu Ritual
de Alta Magia ele cita uma invocação que atribui a Salomão, apresentando
este ritual uma certa, embora não exata, semelhança em sua construção e teor, à
primeira conjuração da Chave, reproduzida no último capítulo de
seu trabalho. A Chave, como um todo,
com a exceção de vários capítulos inteiramente desprezíveis que lisonjeiam os
apetites animais de ignorantes depravados, e que provavelmente são
interpolações posteriores feitas no texto, é um dos mais práticos sistemas
de técnica mágica existentes. Seu
interesse capital está na evocação dos espíritos ou regentes planetários.
A questão obscura da efetiva existência
de um original hebraico foi levantada em diversas ocasiões, e tanto P.
Christian em sua Histoire de la Magie quanto S. L. MacGregor Mathers eram da opinião
de que se tivesse havido um documento hebraico a partir do qual tenham sido
feitas as traduções latina e francesa, este ter-se-ia perdido desde então.
Waite mais ou menos se inclina para a dúvida de que tenha havido um texto
hebraico, e outros escritores céticos acreditam que se trata simplesmente de
uma falsificação medieval, menção de
Salomão e de um autor hebreu sendo feita meramente para apresentar diante das
mentes crédulas uma autoridade adicional por qualquer mérito e validade que o
livro possuísse. Recentemente, entretanto, um manuscrito hebraico foi
descoberto pelo dr. Herman Gollancsz e um impresso em fac-símile foi publicado
pela Oxford University Press em 1914. Após um exame deste trabalho publicado
sob o título de Sepher Maphteah Shelomo,
que corresponde a O Livro da Chave de
Salomão, em hebraico, não posso
admitir que a despeito da obra traduzida para o inglês ter o mesmo título haja
uma necessária conexão entre as duas. Seus conteúdos são completamente
diferentes.
O sistema de magia exposto em A
Chave de Salomão, o Rei é extremamente objetivo, estando enraizado na
existência, independente de nossa própria consciência, dos deuses ou anjos que
habitam os planetas. Sua raison d’être é o postulado de que a
invocação deles pelo homem é uma possibilidade distinta, e que eles podem ser
submetidos à vontade soberana do homem. A filosofia mágica postula a existência
de uma entidade espiritual que é a alma ou nôumenon
por trás da casca visível de cada planeta. É o regente ou guardião da
mesmíssima maneira que a alma no homem é a realidade metafísica oculta
funcionando nas profundezas de seu ser. Esta é, por certo, a visão objetiva, e
ao desenvolver esta teoria, os antigos sistemas atribuíam aos deuses dos
planetas hierarquias de espíritos e inteligências menores bem como elementais,
os administradores do movimento e atividade celestiais. Um diagrama de
classificação dessas entidades é apresentado numa página anterior. É
conhecimento ordinário que os dias da semana possuem um significado astronômico
e que o domingo* é o dia do sol, a segunda-feira* o dia da lua, o sábado* o dia
de Saturno, e assim por diante. Por este arranjo, como tem sido ensinado pela
astrologia, em algum dia em particular a influência de um dado planeta e seu regente predomina e existe de uma forma mais
poderosa do que em qualquer outro dia. Esta classificação é levada ainda mais
longe em A Chave, e os magos
medievais concebiam sistematicamente que certas horas do dia poderiam estar
também sob a direta influência dos planetas. Por conseguinte, há em A Chave uma ampla lista das horas
planetárias, indicando quais as horas específicas nos sete dias da semana são
atribuídas a quais planetas e os nomes dos anjos que são regentes durante o
desenrolar da hora. Assim, para tornar eficiente a evocação de um regente
planetário, ou seu espírito e inteligência, uma cerimônia deve ser realizada
não apenas do dia correto da semana, como quarta-feira ** para Mercúrio, como
também durante a hora correta. Visto que Mercúrio é atribuído à oitava Sephira
na Árvore da Vida, sua significação numérica é oito. Sua hora apropriada seria
conseqüentemente a oitava hora que, de acordo com a tabela, é denominada Tafrac e seria suscetível de maneira
peculiar às coisas mercurianas. Na oitava hora do dia de Mercúrio, que é
quarta-feira, empregando as ervas, incensos, cores, selos, luzes, formas e
nomes divinos que se harmonizam e são coerentes com a natureza tradicional de
Mercúrio, o mago é mais facilmente capacitado a estimular a criatividade
da imaginação
e evocar ou a partir de sua própria mente ou a partir da luz
astral a idéia ou espírito pertencente à categoria ou hierarquia denominada
Mercúrio. Tendo escrito as conjurações apropriadas, a cerimônia é executada. O
mago, envolvendo a si mesmo astralmente com a forma do deus que é atribuído à
mesma Sephira da qual Mercúrio é uma
correspondência – mas não se unindo à forma no caso de somente um espírito ou
inteligência serem requeridos – e forçosamente dirigindo um poderoso fluxo de
força de vontade sobre o sigillum do espírito, invoca o deus,
suplica ao arcanjo e conjura o anjo que a entidade espiritual apropriada possa
ser constrangida a se manifestar fora do círculo
no consagrado triângulo da arte, de
acordo com os selos e os elementos coerentes e harmoniosos empregados. Embora esta
técnica não esteja plenamente explícita em
A Chave – já que o rudimentar método aí descrito
seria comparável a um menininho pedindo ao seu pai para lhe dar alguns trocados
– a experiência e a tradição têm demonstrado que os métodos egípcios se harmonizam
muito bem com o método cabalístico de A
Chave, e são mais conduzentes à produção dos resultados desejados.
* Em inglês
precisamente Sunday, Monday e Saturday respectivamente. (N. T.)
** Em inglês Wednesday, derivado de Woden’s day, dia de Woden, o nome saxão
de Odin. (N. T.)
Há capítulos do livro que tratam
cuidadosamente das qualidades essenciais dos planetas e da variedade de
diferentes operações que pertencem mais distintamente a um do que a outro,
embora todas essas instruções sejam suplementadas pelo conselho principal de
executar toda operação quando a lua estiver na crescente
nos dias entre seu nascer e sua plenitude. Assim a evocação das forças de Marte
nos dias e horas de Marte confere coragem, energia e força de vontade, enquanto
que os períodos próprios do Sol, de Vênus e Júpiter se adaptam bem a quaisquer
operações de amor, de benevolência e de invisibilidade. Operações para a
aquisição de uma abundância de eloqüência, conhecimento científico, profecia e
a capacidade da adivinhação surgiriam na esfera de Mercúrio e assim por diante
tal como foi formulado na astrologia. O
Mago enumera os anjos relativos aos doze signos zodiacais e os períodos
mais propícios para a evocação deles seriam no dia e hora do planeta regente e
exaltado naquele signo. O método exato de construir o círculo mágico é dado com
certos detalhes, bem como a maneira pela qual deve ser especialmente
consagrado. Poderia acrescentar que embora
A Chave afirme que o círculo deveria ser traçado na terra com
a faca ou espada mágicas, o moderno teurgo pode traçar o círculo com suas cores apropriadas sobre um pedaço virgem de tela
ou sobre o chão de seu templo, seja
este de cerâmica, taco ou linóleo, traçando-o posteriormente no ar com a espada
ou o bastão.
Um fato que faz de A Chave um dos únicos e mais importantes dos trabalhos mágicos
disponíveis é ela fornecer excelentes ilustrações dos pantáculos e selos apropriados aos sete planetas, necessários para
o uso como lamen e sigillae durante as cerimônias,
mostrando também como deveriam ser construídos. Quando a lua estiver num signo
do ar ou da terra, durante os dias e horas de Mercúrio, será o mais propício
período para a confecção dos pantáculos e selos. O mago deve dispor também de
uma câmara especial, se possível, independente com a devida privacidade onde,
após a correta consagração e fumigação ascendente, é possível construir os
pantáculos seja sobre metal, seja sobre papel limpo virgem. “Estes pantáculos
são geralmente feitos do metal que mais se adequa à natureza do planeta... Saturno rege o chumbo, Júpiter o estanho,
Marte o ferro, o Sol o ouro, Vênus o cobre, Mercúrio a mescla dos metais e a
Lua, a prata. Podem também ser feitos com papel virgem exorcizado,
escrevendo-se sobre ele com as cores adotadas para cada planeta, referindo-se
às regras já indicadas nos devidos capítulos, e de acordo com o planeta com o
qual o pantáculo se harmoniza; por este motivo a cor apropriada de Saturno é o
preto, Júpiter rege o azul celeste, Marte o vermelho, o Sol o dourado ou o
amarelo ou citrino, Vênus o verde, Mercúrio as cores mistas (via de regra o
laranja, conforme as melhores tradições cabalísticas), a Lua o prateado ou a
cor da terra argentina.”
É fornecida uma série similar de regras
relativas aos mantos e vestes a serem usados cerimonialmente pelo Mestre da Arte e seus assistentes. Cada
instrumento particular a ser empregado, bastão, espada, adaga, etc., e todos
esses acessórios tais como incenso, pergaminho para os selos, cera para os
pantáculos ou talismãs, e as coberturas de seda para os sigillae – devem ser cuidadosamente exorcizados para se tornarem
puros, depois do que devem ser consagrados à obra em pauta. O sistema, em
síntese, é um método completo, apresentando várias invocações e conjurações que
resultam na evocação para aparição visível do espírito desejado, e com um pouco
de engenhosidade o mago pode utilizar o esquema do sistema para quase qualquer
finalidade. O procedimento efetivo, em breves palavras, da operação pode ser resumido
como se segue: primeiramente, deve haver a consagração e preparação das armas,
instrumentos e a construção do círculo. Após
um banimento completo, que o mago profira uma oração ou invocação geral
ao Senhor do Universo ou ao seu
próprio Eu superior para dar
legitimidade à operação. Exemplos de um tal salmo são fornecidos no capítulo
final deste livro. Isso concluído, a forma do deus apropriado deve ser assumida
astralmente de maneira que a máscara encubra
completamente o mago em imaginação,
embora esta necessidade não deva ser levada ao ponto da identificação. Uma
conjuração geral deve se seguir recitando a autoridade mediante a qual o mago
atua, e enumerando os poderes que no passado produziram grandes resultados por
meio de outros magos. Nesse ponto, a consciência do mago deve ter começado a se
exaltar devido à queima do incenso, à psicologia dos mantos, ao lirismo e ao valor intoxicante da
invocação com sua longa lista reverberante de nomes bárbaros e a enumeração de
prodígios, comandos e imprecações, além do efeito desconcertante, por assim
dizer, das luzes, figuras e selos. O clímax da operação, a manifestação do
espírito, ocorre então quase automaticamente. A Chave de Salomão fornece em seguida mais ou menos o correto
procedimento até que, quando o espírito apareceu
sob forma visível e obedeceu ao mago, a Licença
para Partir e o ritual de banimento devam uma vez mais ser recitados a fim
de encerrar a cerimônia inteira.
______________________________________________________________________________________
Núm. Cores Plantas Pedras
preciosas Perfumes Metais Nomes divinos
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1
Branco Amendoeiro em flor Diamante Âmbar cinzento – Eheieh
2 Cinza Amaranto Rubi-estrela; turquesa Almíscar –
3 Preto Cipreste; papoula Safira-estrela; pé- Mirra; algália Chumbo Jehovah Elohim
rola
4 Azul Oliveira; trevo Ametista; safira Cedro Estanho El
5
Vermelho Carvalho; noguei- Rubi Tabaco Ferro Elohim Gibor
ra-vômica;
urtiga
6
Amarelo Acácia; loureiro; Topázio; diamante Olíbano Ouro Jehovah Eloh
vinha
amarelo
ve Daäs
7
Verde Roseira Esmeralda Benjoim; rosa; Cobre Jehovah
sândalo vermelho Tsavoös
8
Laranja Móli; Anhal. Opala; esp. opala Estoraque Mercúrio Elohim
Lewinii ígnea Tsavoös
9 Púrpura Manyan;
da- Quartzo Jasmim; ginseng Prata Shaddai
miana; yohimba l Chai
10 Mescla Salgueiro; lírio; Cristal de rocha Ditania de Creta – Adonai
hera
Melech
_____________________________________________________________________________________
Há uma página ou duas escritas por
Francis Barrett em seu livro The Magus (que se descobriu terem sido
citadas quase que ao pé da letra a partir de H. C. Agrippa) que podem ser muito
úteis ao mago porquanto explicam o processo de consagração e preparação; e não
apenas isto como também esboça um dos segredos da composição dos rituais, o da
comemoração. Ele escreve:
“Portanto, quando você fosse consagrar
qualquer lugar ou círculo, deveria tomar a oração de Salomão usada na dedicação e
consagração do templo; teria, do mesmo modo, que abençoar o lugar aspergindo-o
com água benta e tratando-o com fumigações ascendentes, e comemore nos santos
mistérios da bênção; tais como estes, a santificação do trono de Deus, do Monte
Sinai, do tabernáculo da promessa divina, do santo dos santos, do templo de
Jerusalém; também a santificação do Monte Gólgota pela crucificação de Cristo;
a santificação do templo de Cristo; do Monte Tabor pela transfiguração e
ascensão de Cristo, etc. E invocando-se todos os nomes divinos que são significativos
em relação a isso, tais como o lugar de Deus, o trono de Deus, a cadeira de
Deus, o tabernáculo de Deus, o altar de Deus, a habitação de Deus, e os nomes
divinos similares desta espécie, que devem ser escritos em torno do círculo ou
do lugar a ser consagrado.
“E na consagração dos instrumentos e toda
outra coisa que é usada nesta arte, você deve proceder de maneira idêntica,
borrifando com água benta do mesmo modo, por fumigação, untando com azeite
sagrado, selando-o com algum selo santo e abençoando-o com oração, e
comemorando coisas santas pelas Santas Escrituras, coletando nomes divinos que
são agradáveis às coisas a serem consagradas, como por exemplo, na consagração
da espada é preciso que lembremos pelo evangelho ‘aquele que tem duas capas’ etc., e que no
segundo de Macabeus é dito que uma espada foi divina e
miraculosamente enviada a Judas Macabeus; e se houver algo
semelhante nos profetas como ‘tragam para vocês espadas de dois gumes’,
etc. E você deverá da mesma maneira
consagrar experimentos e livros, e seja lá o que for de natureza similar, como
escritos, gravuras, etc. borrifando, perfumando, untando, selando, abençoando
com comemorações santas e chamando à lembrança a santificação dos mistérios,
como a tábua dos dez mandamentos, que foram transmitidas a Moisés por Deus no
Monte Sinai, a santificação do Antigo e do Novo Testamentos, e igualmente a da
lei, dos profetas e Escrituras, que foram promulgadas pelo Espírito Santo; e
mais uma vez existem para serem mencionados aqueles nomes divinos que sejam
convenientes no caso, a saber, o testamento de Deus, o livro de Deus, o livro
da vida, o conhecimento de Deus, a sabedoria de Deus e similares. E com tal
tipo de ritos como estes é executada a consagração pessoal...
“É necessário observar que votos, oblações e sacrifícios possuem
o poder de consagração, tanto real quanto pessoal, e eles são, por assim dizer,
certas convenções entre aqueles nomes com os quais são feitos e nós, que os
fazemos, aderindo fortemente ao nosso desejo e efeitos desejados, como quando
sacrificamos com certos nomes ou coisas, como fumigações, unções, anéis,
imagens, espelhos e algumas coisas menos materiais, como caracteres, selos,
pantáculos, encantamentos, orações, gravuras.
Escrituras, do que falamos largamente antes.”
A Pequena Chave de Salomão, o Rei ou
A Goécia (palavra
provavelmente derivada de uma raiz que significa “berrar” ou “gemer” se referindo possivelmente à técnica dos nomes bárbaros,
uma característica das invocações do livro*) trata de uma descrição minuciosa
de setenta e dois espíritos ou hierarquias de espíritos que a tradição afirma
eram evocados e submetidos por Salomão. Foi por meio da ação deles e por meio
deles que Salomão recebeu aquela
sabedoria superlativa e aquele conhecimento espiritual que a lenda afirma lhe
terem pertencido. Ao abrir o livro há uma definição da magia a título de
proêmio nestes termos: “A magia é o mais elevado, mais absoluto e mais divino
conhecimento da filosofia natural, avançado em sua obras e prodigiosas operações
por uma compreensão correta da virtude interior e oculta das coisas, de sorte
que agentes verdadeiros sendo aplicados aos pacientes
adequados efeitos estranhos e admiráveis serão desse modo produzidos. Daí os magos serem profundos e
diligentes pesquisadores da natureza; devido à sua habilidade, eles sabem como
antecipar um efeito, o qual para o vulgo se afigurará como um milagre.”
* do grego
fascinação, e posteriormente por extensão o significado pejorativo de
charlatanismo, impostura, fraude. O grego significa originalmente
mago ou feiticeiro, e daí charlatão, impostor. (N. T.)
Quanto à opinião de Waite de que A
Goécia se refere ela mesma à magia
negra, tenho de discordar. Minha
própria opinião é que Waite se inclina a classificar como magia negra qualquer
método técnico que se mantém fora do ádito consagrado de sua própria
organização. O sistema delineado por Francis Barrett na parte de seu livro
intitulada Magia Cerimonial é na realidade baseado na
Chave e no livro de que ora nos
ocupamos, bem como em de Occulta Philosophia, de Agrippa.
Vários dos rituais que ele apresenta são tomados palavra por palavra, e com
apenas umas poucas alterações e acréscimos secundários, de A Goécia. Embora dificilmente comparável a Abramelin em matéria de sublimidade e poder de concepção
espiritual, A Goécia é, entretanto,
um sistema relativamente fácil tanto de ser compreendido quanto de ser operado,
pois também neste caso o mago não é sobrecarregado com tais exigências
impossíveis e fantásticas como sangue de morcego, caveiras de parricidas e
cabritos ou cordeiros virgens. Tudo o que o operador tem que observar a fim de
alcançar o sucesso são algumas regras mais ou menos elementares. Como
pré-requisitos mágicos para as evocações, é necessário que disponha de um
equipamento composto de bastão, espada, capuz
e um manto que cubra todo o corpo ou uma longa toga de linho branco com
o qual trabalhar, bem como vários mantos ou casulas de cores diversas, que
variam dependendo da operação e da natureza do espírito a ser conjurado. De
hábito, deve haver o turíbulo com incenso especial, o azeite de unção para
consagração e o talismã ou selo que o operador queira carregar. Seguem-se
instruções relativas à natureza do círculo
mágico e o triângulo que o
acompanha, suas dimensões, cores, inscrições e os nomes divinos a serem
empregados como proteção e pintados em cores ao redor tanto do círculo quanto
do triângulo. Reproduzo aqui um tipo de círculo e triângulo recomendado
por A
Goécia. As palavras hebraicas em torno do círculo são os nomes das Sephiroth com as atribuições planetárias,
os nomes
divinos apropriados, arcanjos e coros angélicos.
((ilustr. – Círculo e triângulo))
A maior parte do livro diz respeito a uma descrição rigorosa dos espíritos e suas hierarquias. Os setenta e
dois hierarcas são classificados em várias categorias: reis, duques, príncipes,
marqueses e assim por diante, compreendendo naturezas boas, más e indiferentes.
Na economia da natureza eles têm sua própria função particular, uma tarefa
específica para executar e quando evocados e controlados pelo invocador e seus símbolos conferem uma
certa faculdade, poder ou tipo de conhecimento como foi explicado
anteriormente. Diversos métodos podem ser aplicados em sua classificação já que
é possível distribuir o número deles entre os quatro elementos ou
referi-los aos sete planetas, ou aos doze signos do zodíaco. Os selos de
aparência estranha fornecidos em A Goécia como representativos das
assinaturas dos espíritos devem ser
usados no peito do mago, no reverso do pentagrama
gravado sobre um lamen de metal de acordo com a posição,
dignidade e caráter do espírito a ser
convocado à aparição visível. Assim, o sigillum
de um rei dos espíritos deve ser
gravado sobre um lamen de ouro,
enquanto que o de um duque deve sê-lo sobre cobre, o de um príncipe sobre
estanho enquanto que a prata deve ser o material do lamen para a evocação de um marquês. Por meio deste método, os
caracteres dos espíritos são
mostrados pelos metais empregados na construção do lamen. Os reis são de uma dignidade solar; os duques são
venusianos; os príncipes, jupiterianos e os marqueses dizem respeito à Lua.
Devem ser observadas estações e ocasiões
para a conjuração dos espíritos pois “tu
deverás conhecer e observar o período da
lua para teu trabalho, os melhores dias sendo quando a Lua tem 2, 4, 6, 8,
10, 12 e 14 dias, como diz Salomão, nenhum outro dia sendo aproveitável”. O
texto continua afirmando que os reis
“podem ser submetidos das 9 até o meio-dia e das 3 da tarde até o pôr-do-sol;
os marqueses podem ser submetidos das 3 da tarde até as 9 da noite e das 9 da
noite até o nascer do sol; os duques podem ser submetidos do nascer do sol ao
meio-dia com tempo límpido sem nuvens; os prelados podem ser submetidos a
qualquer hora do dia; os cavaleiros podem ser submetidos da aurora até o nascer
do sol ou das 4 horas até o pôr-do-sol; os presidentes podem ser submetidos a
qualquer hora, exceto no crepúsculo, à noite, a menos que o rei a que estão
subordinados seja invocado; e os condes a qualquer hora do dia, seja nos
bosques, seja em quaisquer outros
lugares que os homens não freqüentam, ou onde não há ruído.”
((O hexagrama de
Salomão))
Incluídas no domínio dos Quatro Grandes Regentes ou Reis Elementais dos Pontos Cardeais estão
essas hierarquias dos setenta e dois espíritos. Há Amaimon no leste, Corson no
oeste, Ziminiar no norte e Göap no sul, um quadrante cardeal específico devendo
ser encarado pelo mago, o triângulo também
apontando na mesma direção, em consonância com o regente do espírito a ser evocado. Não convém supor
de modo algum que esses espíritos referidos em A Goécia sejam meros elementais, espíritos da natureza ou forças
semi-inteligentes que arcam com a carga mecânica da natureza; pelo contrário,
diz-se dispor a maioria deles de um grande séqüito ou sub-hierarquia de
espíritos elementais subordinados que os servem. Pode-se supor que sejam os
assim chamados reis elementais, cuja função na ordem natural das coisas é
apenas secundária relativamente ao governo dos principais deuses ou anjos
planetários. Com efeito, Blavatsky sugere em A Doutrina Secreta que de forma alguma devem os reis ou deuses dos
elementais ser confundidos com os próprios cegos e brutais espíritos
elementais. Esses últimos, no máximo, são simplesmente usados pelos brilhantes
deuses elementais como veículos e materiais luminosos com os quais se vestem.
A descrição de Paimon, por exemplo, é que
ele ensina todas as artes e ciências e outras coisas secretas. “Ele é capaz de
descobrir para ti o que a Terra é, e o que ela encerra nas águas; e o que a
Mente é, ou onde ela está; ou quaisquer
outras coisas que possas desejar saber. Ele proporciona dignidade e confirma a
mesma. Ele é para ser observado rumo oeste. Ele é da Ordem dos Domínios. Possui
sob seu comando duzentas legiões de espíritos
e parte deles pertence à Ordem dos
Anjos e a outra parte dos Potentados.”
A Goécia também empreende a descrição
da maneira pela qual ele faz sua aparição no triângulo da arte em que é evocado. Acompanhando-o em sua manifestação
visível “apresenta-se ante ele também uma hoste
de espíritos, como homens com
trombetas e pratos bem sonoros e todos os outros tipos de instrumentos
musicais.” Uma outra entidade menor é Bótis, que é tanto um presidente quanto um conde dos espíritos e quando
evocado “...narra todas as coisas passadas e futuras, e reconcilia amigos e
inimigos. Comanda sessenta legiões de espíritos”. Para mencionar mais um hierarca, temos
Bifrons, chamado de conde, e cuja
função é familiarizar a pessoa com a astrologia, geometria e outras artes e
ciências, e nele também está contido o conhecimento das virtudes das pedras
preciosas e madeiras, estando sob seu comando sessenta legiões de espíritos.
Entre os numerosos selos presentes neste
livro de instrução mágica, há também um pentagrama a ser usado como um sigillum durante qualquer operação mágica,
com o propósito de proteger o operador dos espíritos perigosos, e também para
restaurar sua confiança no poder da vontade. A ilustração da página ... (Sigillum do Pentagrama) apresenta o
desenho dessa figura. É para ser usado sobre o peito do mago como um lamen, o lado inverso tendo o selo do
espírito particular a ser evocado. Em vários estágios de uma cerimônia esse sigillum deverá ser levado erguido na
mão aos pontos cardinais, onde o mago recitará uma exigência aos espíritos para que rendam obediência aos
sigilli inscritos dentro do
pentagrama. Outrossim, A Goécia ilustra
um hexagrama que deve ser pintado sobre pergaminho de pele de bezerro a ser
usado na borda do manto ou toga curta. As instruções que acompanham o desenho
têm o propósito de indicar que essa figura deve ser coberta com um tecido de
linho fino, branco e puro, e “... é para
ser mostrada aos espíritos quando
estes aparecerem, de maneira que sejam obrigados a assumir forma humana e
prestarem obediência.” Esse tipo de hexagrama é reproduzido em cores na página
...
Pouco conhecido dos aprendizesde magia da
atualidade, já que jamais foi traduzido para o inglês, é um livro intitulado O Livro do Anjo Ratziel. Durante os
últimos duzentos anos foi considerado pelos judeus como um depósito sagrado e
mesmo hoje, entre os membros de uma seita corrompida quase-mística chamada de Chassidim – que incorporava outrora ensino
e aspiração espirituais de grande excelência – esse livro é bastante
venerado. Um dos seus rabinos informou ao presente autor que quando um membro
de sua congregação está doente, uma cópia desse trabalho de magia é
imediatamente levada ao leito do doente de maneira que possa ser colocada sob o
travesseiro. É uma coletânea de escritos e visões de magia que não causam
particular impressão, a maior parte distintamente rudimentar, que pretendem
datar do paraíso adâmico, embora haja
suficiente evidência interna a nos assegurar que ao menos três diferentes escritores
em data não muito antiga contribuíram individualmente para o seu conteúdo, o
conjunto tendo sido sintetizado por uma mão habilidosa. Houve uma época na qual
era fácil obter tal obra. Atualmente, entretanto, esta obtenção é rara.
Como todos os nomes angélicos hebraicos,
a palavra Ratziel é uma palavra
composta, que produz quando analisada a frase “O Anjo do Mistério”, que se
concebe que seja o autor divino dos mistérios mágicos comunicados a Adão, o
primeiro ser a receber esse conhecimento. Sua tradição segue quase exatamente
aquela da lenda da ortodoxia cabalística, segundo a qual expulso do paraíso que
lhe estava barrado por um anjo que portava uma espada flamejante, Adão no
exílio transmitiu o livro ao seu filho, que o revelou a Enoque. Enoque o passou
às gerações sucessivas de patriarcas até que, finalmente, culminou, como o
leitor pode ter antecipado, na comunicação de seu mistério ao Rei Salomão que,
por intermédio deste mistério, conquistou todo o conhecimento, sabedoria e
riqueza.
A obra como um todo está dividida em três
partes principais, embora haja suplementos mais curtos que fornecem ao leitor
fórmulas complexas, embora ambíguas, de amuletos e alguns talismãs e
encantamentos de aspecto um tanto divertido, com instruções altamente elaboradas
para seu uso e emprego correto. Muito espaço é reservado ao estudo da
angelologia, fonte da qual um grande número de autores posteriores bebeu, e no
começo há conselhos referentes à evocação desse anjos à aparição visível, as
instruções variando de acordo com dia, hora, mês e estação. A caminho do
desfecho do livro há uma longa oração ou invocação, apostrofando Deus numa
maneira hebraica exemplar como o Rei, percorrendo o alfabeto inteiro diversas
vezes a fim de descrever Seus atributos
distintivos, todos os quais são fases de alguma força e função particulares do
universo. Como sistema de técnica mágica é muito desfavoravelmente comparável
com os dois livros previamente mencionados no que diz respeito ao efetivo modus operandi e o teor filosófico.
A primeira parte do livro, a única que
consideraremos nestas páginas visto que suas duas últimas partes são
comparáveis à Goécia e à Chave
já descritas, é singular pela razão a
seguir. Procura descrever a completa organização do céu, ou as várias camadas ou
planos da luz astral. A essência da visão é uma descrição do céu ao qual Noé
foi carregado por dois anjos de aspecto ígneo, embora muito pouco disto tenha
importância acrescentando algum conhecimento ou provendo alguma nova informação
elucidativa daquilo que já detemos. Um céu, o terceiro, é caracterizado pelo vidente como sendo o lar, por assim
dizer, das almas ou deuses interiores do sol e das estrelas, o primeiro sendo
atendido por inúmeras fênixes, as quais simbolizam regeneração e imortalidade.
Noé era atendido por quatrocentos anjos que toda noite removiam sua coroa para
levá-la ao Senhor do Céu e a
devolviam toda manhã quando eles próprios o coroavam. Hostes de anjos, armados
com espadas resplandecentes para o julgamento da humanidade e os mensageiros
das decisões do Altíssimo eram vistos
no quarto céu, e simultaneamente esses espíritos armados cantavam e dançavam
diante de Deus com o acompanhamento de pratos. Sua visão estendendo-se ao
quinto céu revelava a Noé quatro diferentes ordens de sentinelas, os quais, ao
mesmo tempo que lamentavam seus anjos camaradas uma vez decaídos, estavam ainda
cantando e fazendo soar continuamente quatro espécies diferentes de trombetas
em louvor de Deus. No sexto céu havia legiões resplandecentes de anjos, mais
resplandecentes e esplêndidos que o sol quando brilha na plenitude de sua
força. Havia arcanjos, também, e neste céu Noé viu como todas as coisas eram
ordenadas e planejadas, com os protótipos de todas as coisas vivas e almas de
toda a humanidade. No meio da visão gloriosa, ele viu sete criaturas
arcangélicas, cada uma com seis asas,
cantando num uníssono absoluto. O céu mais elevado foi visto como uma
luz ígnea, povoada por arcanjos e seres e poderes incorpóreos, havendo também o
rosto de Deus fulgurante de luz celestial, emitindo chispas do mais puro fogo e
chama.
Muito da confusão que caracteriza as
visões e tentativas em magia dos amadores pode ser largamente atribuído, acho,
à omissão de alguns desses dispositivos preliminares como o Ritual de Banimento do Pentagrama, com a
conseqüência de que a despeito da pureza e elevada disposição do vidente, a
esfera de percepção é invadida por quaisquer entidades que possam estar nas
vizinhanças astrais. Nem sempre é a obsessão ou a possessão elementar o clímax
da omissão do adequado banimento, mas pelo fato de entidades indesejáveis
passarem sem barreira diante da visão interior, não haverá qualquer
continuidade ou consistência na visão. Conseqüentemente, ao registrá-las, o
vidente, mais ou menos temeroso de confiar em seu próprio discernimento nesses
elevados assuntos, relata a visão inteira juntamente com os pontos
não-essenciais. Isto ocorre em vários exemplos, e é apenas quando a esfera
astral é extraordinariamente vigorosa e radiante, possuindo uma luz espiritual
através da qual nenhuma entidade astral ousa
invadir, a menos que o faça com
permissão do vidente, que as visões podem ser empreendidas com segurança
sem o banimento de proteção preliminar.
Há uma outra matéria de caráter
preventivo que deve ser mencionada caso o leitor deseje testar essas coisas. Ao
fazer uso dos selos e sigilli exibidos
em tais obras como O Livro do Anjo
Ratziel e The Magus, corre-se
muito perigo, principalmente devido aos grosseiros erros e falhas de impressão
do hebraico que foram perpetuados. É difícil dizer se foram acidentais ou
causados inteiramente pela ignorância dos escribas. Não é difícil, contudo,
compreender que se o objetivo do selo é estabelecer uma marca na luz astral à
qual uma entidade correspondente se apresse em responder, um erro na inscrição
textual provocará um erro similar no tipo de marca astral. O resultado disto é
que o efeito será bastante diferente daquele que se espera, e mesmo prejudicial
e perigoso. E isto exige, acima de tudo, conhecimento e capacidade para apurar
a existência dos erros e corrigi-los. Sob o risco de tornar a prescrição
desagradável para o leitor, é imperioso que se reitere que é indispensável um
conhecimento da Cabala ao praticante da magia. Deve haver uma familiarização
com a Gematria, o Notariqon e a Temurah – os três métodos envolvendo o uso esotérico do número; do
mesmo modo, com aquele aspecto da filosofia que trata do simbolismo das letras
hebraicas, do alfabeto mágico dos símbolos, nomes, números e idéias que se
prende aos Trinta e Dois Caminhos da
Sabedoria. Embora haja uma grande quantidade de erros crassos aparentes nos
sigillae e texto impresso em hebraico
mostrado por Barrett, o texto impresso oferecido em inglês, todavia, é
absolutamente preciso e útil, podendo ser consultado pelo leitor sério muito
proveitosamente. A Secret Doctrine in
Israel (Doutrina Secreta em Israel) de Waite e sua Holy Kabalah (Santa Cabala) sejam talvez as melhores obras
possíveis de serem obtidas que oferecem um esboço inteiramente bom do teor
doutrinário da Cabala. Os trabalhos de magia de Cornélio Agrippa, o Liber 777 e Sepher Sephiroth de Aleister Crowley e o meu Garden of Pomegranates (Jardim de Romãs) serão de grande valia ao
fornecerem o alfabeto fundamental com as atribuições corretas necessárias à compreensão
dos selos e símbolos.
Por outro lado, desejo abordar uma
importante analogia existente entre os processos da magia e da ioga. Esta
analogia é efetivamente digna de consideração na medida em que argumentamos
aqui que a ioga não deve ser colocada em oposição à magia e em superioridade a esta, estes dois sistemas
constituindo, ao contrário, conjuntamente o que pode ser chamado de misticismo. Se supormos que nossas
correspondências com as hierarquias mágicas representam fatos da natureza – não
podendo haver por um único momento qualquer dúvida real – a base lógica
filosófica que se pode vincular à magia como aqui a descrevi não estará muito
distanciada daquela do Caminho da União
Real tal como descrito por uma
autoridade como Swami Vivekananda.
Discorremos pormenorizadamente aqui a
respeito de vários deuses cósmicos serem atribuídos às Sephiroth da Árvore da Vida, seres excelsos que são os regentes
inteligentes e guias dos processos evolutivos; a cada deus uma hierarquia
apropriada está subordinada, os mensageiros imediatos que são anjos, arcanjos, espíritos e inteligências. Este sistema de
classificação não se aplica somente ao macroscosmo, como também ao microcosmo.
A base da Árvore da Vida foi de tal modo elaborada que se refere não só aos
desenvolvimentos cósmicos como também às várias partes – psíquica, mental e
espiritual – do próprio homem, focalizando assim o campo inteiro de atividade
universal no interior do próprio organismo do homem. Os doze signos do zodíaco
e os sete planetas são atribuídos à Árvore como um todo. Considerando-se o ser
humano como um microcosmo do
grande universo estelar e cósmico, todos os planetas, elementos e
forças nele têm curso, e mesmo os signos
do zodíaco estão claramente representados em sua natureza. A energia do Carneiro* está em sua cabeça; o Touro concede
resistência laboriosa e força aos seus ombros; o Leão representa a coragem de seu coração e o fogo selvagem de sua
têmpera, enquanto os joelhos, ajudando-o a saltar, estão sob o signo do Bode. ** Isto, a título de exemplo,
supre a base para uma teoria subjetiva tanto ontológica quanto epistemológica:
o universo existe somente dentro da consciência do homem, é contérmino a esta
consciência e suas leis são as leis da mente.
* Áries. (N. T.)
** Ou melhor,
Capricórnio. (N. T.)
No meu trabalho anterior, Garden of Pomegranates [Jardim de Romãs]
foi traçada uma correspondência diagramática entre as Sephiroth cósmicas, as várias partes
do ser humano e os chakras ou os
centros nervosos centrais que existem no departamento psico-espiritual da
constituição humana. Outras atribuições à luz das especulações precedentes de
imediato se revelam. As seguintes podem ser indicadas à guisa de exemplo,
descrevendo para onde tendem minhas especulações. O chakra Anahata, que é o centro localizado no ou próximo do coração
físico, sendo uma correspondência da sexta Sephira
da harmonia e do equilíbrio, está assim em direta correspondência com essências sagradas como Osíris, Hélios,
Mitra e o auto-resplandecente Augoeides. Thoth e todos os seus divinos
atributos de vontade e sabedoria entram numa perfeita
correspondência com o chakra Ajna situado
no centro da testa acima dos olhos, enquanto que o mais elevado de todos os chakras, o resplendente lótus de mil
pétalas, o chakra Sahasrara,
localizado na coroa, onde Adonai se regozija, alinha-se completamente com Ptah
e Amon, a essência cósmica oculta, o centro criativo secreto tanto do
macrocosmo quanto do microcosmo. A adoção da teoria subjetiva traz consigo
conclusões de largo alcance, e um verdadeiro entendimento deste ponto de vista
fará com que se compreenda conscientemente a afirmação freqüentemente proferida com loquacidade de que dentro do
ser humano existe o inteiro universo e o vasto concurso das forças universais.
Minha teoria é que invocar Ártemis e Chomse e ter cooperado para se unir à essência que esses nomes representam,
por exemplo, é ter realizado uma tarefa de suprema importância que é idêntica,
devido a nossas correspondências, ao despertar das forças do chakra Muladhara, pondo assim em
movimento a serpente Kundalini em sua
ascensão da Árvore da Vida até a Coroa. Enquanto um sistema atingia seus
resultados através de ritual e invocações, o outro atingia o sucesso através de
concentração e meditação. Ter atingido mediante a invocação mágica uma
identidade indissolúvel com a sabedoria suprema de Tahuti é ter conquistado o
poder claramente de ver através do olho interior da sabedoria verdadeira,
porquanto é equivalente a um estímulo por meio de meditação do chakra Ajna, o órgão de clarividência
espiritual e da vontade criadora. Ademais,
ter unido a consciência individual através dos ritos da teurgia com Asar-Un-Nefer, e ter sido assimilado a
sua glória e inefabilidade, é comparável a ter guiado a Kundalini para Sushumna até
o cérebro, e despertado as forças potenciais no chakra Sahasrara.
Na própria ioga, como pode claramente ser
percebido num trabalho como Raja Yoga de
Vivekananda, ou na adaptação aproximadamente européia de seus fundamentos, The Way of Initiation [O Caminho da
Iniciação], de Rudolf Steiner, os
resultados desse sistema – na medida em que diz respeito à formulação e
vivificação dos chakras – são
produzidos quase que inteiramente pelo exercício da vontade e da imaginação.
Com freqüência estes e outros autores escrevem: “Imagine uma chama ou um triângulo branco no coração” ou “um lótus
acima da cabeça, “ e assim por diante. O despertar do esplendor enrodilhado da Kundalini nas câmaras espinhais do chakra Muladhara é cercado de intensa
concentração e o imaginar de um novo
tipo de atividade espiritual naquela região, fazendo a deusa-serpente
adormecida endireitar suas espirais e projetar-se com ímpeto por Sushumna ao assento de seu Senhor interior. A magia, embora
empregando uma técnica tática diferente daquela da ioga, está semelhantemente
fundamentada, como me empenhei em demonstrar com certos detalhes, no uso da vontade e da imaginação com dispositivos para estímulo dessas duas
faculdades numa cerimônia bem ordenada visando ao atingimento dos mais elevados
resultados espirituais. E as advertências da ioga não são menos rigorosas ou
verdadeiras do que aquelas que gozam de reconhecimento na magia. Por meio da
vitalização dos chakras bem como por
meio da invocação dos deuses seguida pela evocação dos espíritos
administrativos, vários poderes de força e potência tremendas podem ser
conferidos ao praticante. Aqueles que A
Goécia atribui aos espíritos incluem
um desenvolvimento espontâneo de um conhecimento até então latente da ciência,
filosofia e artes em suas conotações mais latas e um enriquecimento das mais
excelentes faculdades emocionais que atrairão todos os homens para o fogo
central de cada um. Os poderes descritos por Patanjali nos Yoga Sutras como sendo conferidos por Samyama em algum chakra ou
idéia são quase idênticos aos concedidos ao mago como resultado das evocações
de A Goécia.
Desgraçado aquele, contudo, que atuar na
cobiça dos poderes, pois para ele os deuses permanecerão silenciosos e não
haverá resposta! Os espíritos se
voltarão maliciosamente para ele e o despedaçarão da cabeça aos pés. Se poderes
são outorgados ao mago, deverão ser dedicados ao Santo Anjo Guardião. Ademais,
a serpente do Ruach deve ser
incapacitada a ponto de não se recuperar mais, tendo que ser morta de modo que
não possa haver restrição à presença do Anjo.
Então poderão os poderes ser assumidos e sendo assumidos ser usados como o Anjo julgar adequado. Tanto na ioga
quanto na magia é o aspecto de consciência da meditação e as invocações ao deus
o mais importante do trabalho. Se ocorrer que o praticante seja contemplado com
poderes, ótimo... mas a meta primordial
e sagrada nos dois sistemas é a expansão
da consciência individual a uma extensão infinita e a descoberta do centro real
da vida. Correta e honestamente exercida, com aspiração pura e única, a magia é
capaz de conduzir a alma às alturas máximas da Árvore onde ela recebe, de
acordo com Jâmblico, “...uma libertação das paixões, uma perfeição
transcendente e uma energia plenamente mais excelente, participando do amor
divino e de um júbilo imenso.” E adicionalmente a expansão da consciência
confere “... verdade e poder, retidão das obras e dádivas dos maiores deuses.”
CAPÍTULO XIV
Onde uma certa quantidade de indivíduos
deseja participar de uma cerimônia mágica composta na qual todos possam
desempenhar um papel ativo, há uma forma de ritual de grupo concebida para essa
finalidade particular chamada de ritual
dramático. Assim, cada pessoa que participa contribui com força de vontade
e energia a favor da criação de uma manifestação espiritual. Quase todos os Mistérios da Antigüidade assumiam essa
forma, e os ritos de Iniciação das
fraternidades secretas de todas as épocas eram conduzidos em conformidade com
esse princípio. É fato extremamente bem conhecido os rituais serem
particularmente úteis em matéria de iniciação. É igualmente corroborado que
tais cerimônias desempenhavam um papel preponderante nos mistérios mágicos do
Tibete, onde a aceitação de um lanoo era
celebrada por um rito consagrando o discípulo à execução da Grande Obra. A
história do ioga budista Milarepa é perfeitamente clara quanto ao importante
ponto de nas mãos de seu guru ele ter
recebido diversas iniciações cerimoniais, quando várias divindades e poderes
espirituais foram invocados para dentro de um círculo, ou mandala, onde
ele permanecia. Além disso, é conhecimento comum o fato de o candidato à
iniciação bramânica testemunhar um ritual de purificação e consagração. Que
havia rituais de iniciação no antigo Egito é também demasiado notório para exigir
especial ênfase e o rumor de cerimônias mágicas no Egito nos alcançou
enriquecido de muitos detalhes sugestivos e significativos itens de informação.
Com efeito, se o princípio subjacente do ritual dramático de grupo, iniciático
ou mágico, é a consagração da Grande Obra e a exaltação da consciência, então
dispomos de incontestável evidência de que cerimônias concebidas similarmente
foram representadas ao longo da Antigüidade.
O princípio básico é idêntico ao de todo
ritual mágico, a invocação num sentido ou outro de um deus. Mas no caso do
ritual dramático, o método procede através de um apelo estético à imaginação,
retratando sob forma dramática a corrente dos eventos maiores na história da
vida de um deus, e ocasionalmente o ciclo terrestre de um homem ideal ou
homem-deus, tal como Dionísio, Krishna, Baco, Osíris, etc., alguém que atingiu
aquela sabedoria e plenitude espiritual pelas quais o teurgo também está em
busca. Viver na atmosfera de criação nova e repetir as façanhas realizadas pelo
deus constitui um método sumamente excelente para a exaltação da alma. Essa
idéia é chamada de princípio da comemoração
e é um constituinte integral de toda cerimônia mágica. Da observação de de Occulta Philosophia fica bastante
evidente que H. C. Agrippa e aqueles dos quais recebeu seu conhecimento
entendiam perfeitamente o princípio teórico envolvido nessa forma de magia, o
qual exige o ensaio do personagem do deus a ser invocado, ou uma repetição dos
acontecimentos que ocorreram no ciclo de vida de seu emissário mundano. Não
apenas deve este princípio fazer parte do ritual dramático aprovado, como
também todo e qualquer aspecto da cerimônia mágica, seja realizado por um
indivíduo ou um grupo, deve ser marcado pela entusiástica repetição de uma
série de incidentes altamente significativos da história do deus, o ensaio
servindo assim para dar autoridade e ênfase suplementares ao processo duplo de
consagração e invocação. Mesmo num aspecto relativamente tão trivial como a
preparação preliminar das armas e instrumentos, Agrippa corretamente recomenda
a repetição das façanhas sagradas; e como um exemplo do princípio comemorativo
que ele advoga, podemos citar com proveito o procedimento proveniente de The Fourth Book of Occult Philosophy (O
Quarto Livro da Filosofia Oculta) para a consagração da água: “Assim, na
consagração da água, devemos comemorar como
Deus colocou o firmamento no meio das águas, e de que maneira Deus colocou a
fonte das águas no paraíso terreno... e
também como Cristo foi batizado no Jordão, tendo daí santificado e limpo as
águas. Ademais, certos nomes divinos têm que ser invocados, que com isto estão
em conformidade; como que Deus é uma fonte viva, água viva, a fonte da
misericórdia, e os nomes de tipo similar”.
O leitor poderá, também, observar a forma
comemorativa do ritual de A Goécia,
que é citado no último capítulo deste livro. A invocação tenta descobrir as
palavras de autoridade que foram empregadas nas Escrituras para a execução de
certas proezas. Não constitui, entretanto, um exemplo especialmente bom desse
tipo de ritual. As Bacantes de
Eurípides é um exemplo de primeira categoria de qual forma deveria assumir um ritual dramático
completo. O ritual deve ser construído de tal modo que cada celebrante
desempenhe um papel, sem, ao mesmo tempo, tornar a ação do drama dispersa e
incoerente. As regras da arte teatral e do drama se aplicam perfeitamente à
construção desses rituais.
A evidência histórica a nossa disposição
demonstra claramente que a “peça de paixão” da vida do grande deus Osíris, rei
do Tuat, era realmente um complexo
ritual dramático que o invocava, uma cerimônia comemorativa envolvendo a
repetição de quase todos os atos que ocorreram a Osíris no curso de sua vida
lendária na Terra entre os homens. Na base desta celebração e de todos os
outros tipos similares, temos a invocação de um deus, ou do avatar em quem ele habita, e por meio
desse ensaio dramático o teurgo procura exaltar sua imaginação e consciência de
sorte que possa culminar na crise estática da união divina. Para o indivíduo
cujo senso estético e poético é altamente desenvolvido, essa espécie de
cerimônia é, de longe, a mais
eficiente. É perfeitamente evidente que uma representação simbólica do que era
antes um efetivo processo espiritual numa personalidade
altamente reverenciada só pode auxiliar na reprodução da união colocando o teurgo em relação de
simpatia e harmonia mágica – mediante
o efeito em sua imaginação – com a
tendência ascendente da peça para a meta suprema. Em suma, o teurgo imagina a si mesmo no drama sendo o deus
que sofreu, ele próprio, experiências similares, as várias partes da peça e os
rituais recitados servindo apenas para tornar a identificação mais completa. É
este fato que levou certas gerações de magos precariamente iniciados a adotar
para o uso cerimonial máscaras de verdade, itens grotescos e legítimos
artifícios teatrais. Estaremos diante do tema central do ritual dramático quer
escolhamos como exemplo a missa da Igreja Católica Romana, a realização do ritual do Adeptus Minor da Ordem
Hermética da Golden Dawn, o Terceiro Grau da
Francomaçonaria, ou a celebração das orgias dionisíacas tal como esboçadas
em As
Bacantes. Em cada caso a vida de um Adepto iluminado é ensaiada sob plena
forma cerimonial, isto é, a história de um ser cuja consciência foi tornada
divina é magicamente celebrada. O método de representação retrata um homem que
morre real ou misticamente e que realiza sua própria ressurreição como um deus,
irradiando sabedoria e poder divinos. Visto que Osíris era para os egípcios o
melhor exemplo de alguém que superou sua humanidade e atingiu a união divina,
assim passando para a posteridade como o tipo e símbolo de regeneração, vários
capítulos e versículos do Livro dos
Mortos representam o morto identificando a si mesmo como aquele deus dirigindo-se
aos assessores no salão do julgamento. O
ritual dramático que os egípcios realizavam para a invocação de Osíris em
Ábidos era uma peça que parece ter consistido de oito atos. “O primeiro era uma
procissão na qual o antigo deus da morte, Upwawet,
tornava reto o caminho para Osíris. No segundo a própria grande divindade
aparecia na barca sagrada, que era também
colocada à disposição de um número limitado dos mais ilustres dos
visitantes peregrinos. A viagem da embarcação era retardada por atores vestidos
como os inimigos de Osíris, Set e sua companhia... Seguia-se um combate no qual ferimentos reais
parecem ter sido dados e recebidos... Este evento parece ter ocorrido durante o
terceiro ato, que era uma alegoria dos triunfos de Osíris. O quarto ato
retratava a saída de Thoth, provavelmente em busca do corpo da vítima divina.
Seguiam-se as cerimônias de preparo para o funeral de Osíris e a marcha do
populacho ao santuário do deserto além de Ábidos para inumar o deus em seu
túmulo. Em seguida era representada uma grande batalha entre o vingador Hórus e
Set, e no ato final Osíris reaparecia, sua vida recuperada, e adentrava o
templo de Ábidos numa procissão triunfal*.”
* Os
Mistérios do Egito, Lewis Spence.
Não apenas havia os Mistérios de Osíris, no tempo em que os mitos ligados ao deus eram
ensaiados, como também rituais de grupo para a invocação de Ísis, Hathor, Amon
e Pasht e outros deuses eram celebrados sem referência a qualquer indivíduo
humano cuja relação com eles fosse aquela de um avatar. Na missa católica a vida e o ministério divinos do Filho do Deus cristão são celebrados, em
seguida a crucificação de seu salvador, e sua ressurreição final em glória
seguida da assunção aos céus. Em épocas mais antigas, esta celebração da missa
era acompanhada por procissões deslumbrantes e cortejos dos mistérios cheios de suntuosidade,
esplendor e pompa, embora se deva confessar que na ausência da técnica mágica
toda essa ostentação externa contava muito pouco. O Terceiro Grau dos maçons
dramatiza o assassinato do Mestre,
Hiram Abiff, e sua ressurreição se segue posteriormente por um ato mágico, o
soar da palavra mágica perdida devolvendo H. A. à vida.
Os eventos, ricos em movimento,
realização e organização na vida do lendário fundador da Ordem Rosacruz, Christian Rosenkreutz, também o símbolo de Jesus, o
Filho de Deus, são totalmente dramatizados com grande beleza no ritual de Adeptus Minor da Ordem da Golden Dawn. Sua finalidade, também, é que através da
simpatia atuando sobre uma imaginação refinada, o teurgo possa identificar a si
mesmo com a consciência exemplar da qual Rosenkreutz
era o símbolo, e cuja história está sendo repetida ante ele. Numa cena, a mais
importante e eloqüente desse ritual, o principal oficiante hierofântico é visto
deitado como se estivesse morto no pastos
ou túmulo místico. Por meio de
orações e invocações, o Adepto é simbolicamente ressuscitado da tumba em
cumprimento da profecia da grande fundador. Na hora solene da ressurreição,
quando a cerimônia revela a ressurreição do Adepto como Christian Rosenkreutz
do pastos onde ele estava enterrado,
o Adepto Maior profere triunfalmente:
“Pois sei que meu redentor vive e que
ele se postará no derradeiro dia sobre a Terra. Eu sou o caminho, a verdade e a
vida; ninguém virá ao Pai a não ser por mim. Eu sou o purificado; eu atravessei os Portais das Trevas para a Luz; lutei sobre a Terra pelo bem; findei minha obra; eu adentrei o
invisível. Eu sou o Sol no seu nascer. Eu passei através da hora nublada e
noturna. Eu sou Amon, o Oculto, aquele
que abre o dia. Eu sou Osíris Onnophris, o Justificado. Eu sou o Senhor da Vida que triunfa sobre a Morte;
não há nenhuma parte de mim que não pertença aos deuses. Eu sou o preparador da
senda e aquele que resgata para o
interior da Luz. Que aquela Luz surja
das Trevas! Antes eu era cego, mas agora vejo. Eu sou o reconciliador com o
inefável. Eu sou o habitante do invisível. Que o brilho alvo do Espírito
divino desça!
Essa peã de êxtase não é para ser
interpretada como um mero discurso de palavras grandiloqüentes. Se o Adepto
realizou adequadamente sua obra mágica, e se encobriu perfeitamente com a forma
mágica apropriada, e se identificou com a consciência do deus, os outros
participantes da cerimônia experimentarão uma exaltação paralela ao discurso de
triunfo.
As formas mais usuais do ritual dramático
tais como aplicadas às iniciações funcionam aproximadamente mais ou menos da
maneira que se segue. Após sua entrada nas câmaras externas do Templo de Iniciação, onde ele é
imediatamente vendado, vestido com um toga preta e circundado três vezes pela
cintura com um cordel, o neófito é conduzido pelo guardião às estações onde estão presidindo oficiantes nos pontos
cardeais. O objetivo da venda é representar a cegueira da ilusória vida mundana
e a ignorância nas quais o ser humano incorrigível se debate, vítima
involuntária da tragédia perpetuamente representada de nascimento, decadência e
morte dolorosos. O cordel é triplo para representar os três elementos maiores:
fogo, ar e água; a toga é preta para representar também o negrume da vida e
Saturno, que é morte, o grande ceifador de
tudo. O neófito circumpercorre o templo diversas vezes, e durante seu
circumpercurso os oficiantes, que deverão ser no futuro seus instrutores
mágicos e que igualmente representam os deuses sumamente benfazejos, exigem do
neófito as afirmações de seus objetivos e aspirações. Este procedimento
automaticamente chama nossa atenção para o Livro
dos Mortos, onde no capítulo CXLVI e naqueles que se seguem a este, os anjos e os deuses encarregados dos pilones
sagrados ou as grandes estações a serem ultrapassadas pelos mortos a
caminho do Amentet, indagam destes
últimos seus negócios. Como reação à sua resposta de que o nome do guardião é
conhecido – com cujo conhecimento o nome não é senão um símbolo – e que ele vem
para responder a Thoth, conseqüentemente em busca da sabedoria superior, cada
um deles lhes dão permissão para prosseguir. “Passa, diz a sentinela do pilone. Tu és puro!”
É
possível ver no Museu Britânico um excelente ritual de iniciação intitulado “O
Mistério do Julgamento da Alma”, reconstruído por M. W. Blackden a partir dos
capítulos de O Livro dos Mortos que
tratam da ascensão do morto ao salão do
julgamento, e sua beatificação na ilha da verdade. Demonstra de uma maneira
extremamente boa que pode muito bem ter sido que os textos que chegaram a nós
sob o título de O Livro dos Mortos eram fragmentos de um ritual de iniciação
usado na época em que o Egito florescia com os Sacerdotes-Reis-Adeptos o
dirigindo. O ritual do neófito da Golden Dawn, de modo semelhante,
incorporou em si elementos egípcios muito similares. Neste ritual vários
oficiantes, representando os deuses cósmicos, retardam o progresso do neófito em seu circumpercurso das estações do
templo. “Tu não podes passar por mim,
diz o Guardião do Oeste, a menos que possas dizer meu nome.” E a resposta em
nome do candidato é dada: “Escuridão é o Teu Nome! Tu és o Grandioso da Caminho das Sombras.” Diante disto profere-se a
prescrição: “Filho da Terra, medo é fracasso. Sê tu, portanto, destemido, pois
no coração do covarde a virtude não habita! Tu me conheceste, assim segue em
frente! “ À medida que o ritual prossegue com muitos desafios e respostas
semelhantes vários pontos de instrução mágica são apresentados, acompanhados
por consagrações pelo fogo e a água, purificando assim o neófito para a jornada
posterior. Estas consagrações efetuadas pelos representantes dos deuses no
templo nos pontos cardeais constituem a preparação para a realização da Grande
Obra. Por meio de invocações as forças celestiais do além são infundidas no ser
do neófito, dotando-o de coragem e vontade que o capacitam a perseverar
resolutamente até o fim. Então a venda, o cordel e a veste negra são removidos, dando lugar a um manto ou
faixa atirados aos ombros para simbolizar a pureza da vida e a grandeza da
aspiração que atingiu o candidato. Terminadas as consagrações e concluídas as
invocações das essências, um certo
conhecimento fundamental de magia e o alfabeto filosófico é comunicado sob um
voto de segredo. Isto, como um todo, omitindo-se um grande número de pontos
secundários e variações triviais, constitui a base do ritual de iniciação do
neófito.
Se não houver, todavia, o prosseguimento
do trabalho mágico prático em seu próprio interesse, essas iniciações e rituais
não terão qualquer proveito para o neófito. Que servem efetivamente de
preparação é verdadeiro, e também transmitem uma certa consagração e
sacramentalização tornando a tarefa do neófito
mais compreensível e talvez menos
perigosa devido a virtude deles. A título de confirmação, lembraremos que
Milarepa depois de suas iniciações foi imediatamente aconselhado por Marpa a
iniciar o trabalho prático, que em seu caso era meditação e concentração. Ao
aprendizpreparado seja por meio de treino seja por meio de alguma peculiaridade
de nascimento – o qual, em qualquer caso devido à reencarnação implica numa
atenção anterior a estas coisas – a iniciação cerimonial tem um efeito distinto
ao conceder ao aprendizuma visão efêmera, porém resplendente da meta espiritual
buscada por ele e que ele agora indistintamente encara. E de fato assim é se os
oficiantes do templo forem hierofantes não apenas no nome mas em realidade,
devidamente versados de um ponto de vista prático na rotina e técnica mágicas,
pois quando um oficiante do templo representa o papel de um deus, se ele
estiver familiarizado com os métodos da técnica mágica, assumirá a forma daquele deus tão perfeitamente que
as emanações magnéticas provenientes do deus nele fluirão para a alma interior
do neófito. Esse assumir de formas divinas tal como anteriormente descrito,
pode ser levado bastante longe, mesmo ao ponto da efetiva transformação, e há registro de exemplos autênticos nos quais
o neófito, se suficientemente sensitivo, vê à distância no salão não simplesmente um ser humano atuando arbitrariamente como
hierofante, mas sim uma gigantesca figura divina, fulgurante e espantosa, do
deus que o homem representa cerimonialmente. Quando, como afirmei, os
hierofantes são magos treinados, como eram na época do antigo Egito, a
iniciação dos neófitos não se limitar a ser um serviço formal sem significado,
mas é uma cerimônia de extrema realidade e poder.
Isto concerne aos rituais de iniciação. O
ritual dramático que não envolve nenhuma questão de iniciação é bastante
similar do prisma da concepção e execução. Diversos indivíduos ensaiam em
concerto para seu próprio mútuo benefício a vida de um deus, e por meio de
repetidas invocações, comemorando mediante o discurso e a ação incidentes e
acontecimentos da história daquele deus,
e têm êxito em fazer aparecer o deus
numa área consagrada. Acatando a técnica mágica e exaltando a si mesmos
suficientemente além do plano dualístico normal de consciência ocorrerá uma
união duradoura entre os participantes e a divindade. As Bacantes é um exemplo notável de um ritual dramático grego. Na
verdade, de um ponto de vista cerimonial, é tudo que um ritual dramático deve
ser quanto à forma. E é tão excelente que aqueles que nele têm interesse hoje o fazem devido ao seu
sentimento de que se trata de uma esplêndida tragédia teatral. No caso de uma
companhia de indivíduos iniciados que estão bem familiarizados com a invocação,
trabalhando simpaticamente entre si, e exercendo a vontade e a imaginação na
forma mágica prescrita, a peça pode ser transformada numa poderosíssima invocação dramática de
Dionísio. A tradução em versos rimados do Professor Gilbert Murray é mais uma
obra-prima clássica de poesia recriativa do que uma tradução literal do grego,
transmitindo com suma fidelidade a atmosfera religiosa e o espírito ditirâmbico
da veneração a Baco. Há nesta peça uma suplicação ao deus no estilo exaltado
tão típico de todas as invocações:
“Aparece,
aparece, qualquer que seja tua forma ou
nome
Ó Touro da
Montanha, Serpente de Cem Cabeças,
Leão de Flama ardente!
Ó Deus, Besta, Mistério, vem! ... “
Abordando o mesmo tema mágico, há um
esplêndido hino a Dionísio proveniente dos Hinos místicos de Orfeu, traduzido por
Thomas Taylor:
“Vem, abençoado Dionísio,
o variamente nomeado,
De face taurina, gerado do trovão, Baco
afamado.
Deus bassariano, de universal poder,
De quem espadas, sangue e ira sagrada causam
prazer:
No céu regozijando, louco, Deus de alto som,
Furioso inspirador, da vara o portador:
Pelos Deuses
reverenciado, que com a humanidade está presente,
Propício vem, com
mui regozijadora mente.”
Muita prática e ensaio se fazem
necessários para dar eficácia a esses rituais dramáticos, além do trabalho
mágico que se segue, como foi salientado. Sem este último absolutamente nada
pode ser efetuado. A técnica astral de ascensão
nos planos, investigando-se os símbolos pela visão, a formulação das formas ou máscaras dos deuses e a vibração dos nomes bem como as celebrações de alguma forma de eucaristia representam necessidades no
caminho da magia. É verdade que se exige uma enorme quantidade de paciência,
mas isto se verifica verdadeiro em relação a todas as coisas que valem a pena
de uma maneira ou de outra. O teurgo deverá prosseguir diariamente com essas
práticas invocatórias e rituais até atingir o estágio em que se sinta que detém
o poder sob seu controle. Na verdade, o que há de mais essencial para o sucesso
em todas as formas de magia – seja o ritual dramático ou qualquer outra coisa –
é a perseverança. Não importa o que mais seja feito, o mago deve cultivar a
paciência. É mister que ele se prenda com firmeza e sem desânimo a um programa
pré-organizado de trabalho mágico. O curso que ele formulou e jurou executar
representa o logos de sua vontade, do qual ele não ousa se desviar
uma única polegada ou mesmo uma fração de polegada. Temores e dúvidas
igualmente o assaltarão por certo. Amigos e inimigos igualmente ameaçarão a paz
de sua mente e a serenidade de sua alma, e tentarão maximamente perturbar seu
equilíbrio espiritual com tagarelice ociosa a respeito do perigo da magia e a
incerteza de seus resultados. A hoste inteira do céu, para mencionar só de
passagem as miríades de legiões do inferno, conspirarão e estarão soltas contra
ele. Mas somente se ele desistir, desprezando seu voto e rejeitando sua
aspiração, estará o mago irreversivelmente perdido. O desastre horrendo estará
à espreita à frente! Uma vez tenha o voto mágico sido assumido voltado para o
sucesso, ele terá que perseverar resolutamente sem se preocupar com seja lá o
que for que aconteça. Se for colhido pela morte no desenrolar de seu trabalho,
que prossiga, mesmo assim, adiante, de uma vida para outra, com a alma bem
concentrada e o olhar espiritual fixado firmemente nas alturas, fazendo um
vigoroso juramento de que dará continuidade a esse labor. Lévi uma vez observou
que o mago tem que trabalhar como se fosse detentor da onipotência e como se a
eternidade estivesse a sua disposição. Ocorre-me uma lenda singela, porém bela,
na qual esse tema está presente, incitando o mago a seguir à frente para a Casa do Repouso sem interromper seu
empenho, isento de dúvida e medo, trabalhando por aquela meta que ele
primeiramente criou e que agora considera nebulosamente na distância longínqua
da aurora dourada na Terra Sagrada. Mal
conhecida atualmente e esporadicamente objeto de referência, aparece num
pequeno livro intitulado The Book of the
Heart Girt with the Serpent (O Livro do Coração Cintado pela Serpente), de
Aleister Crowley. Embora eu não advogue em nome deste poeta, considero,
contudo, essa pequena obra uma das mais profundas e primorosas jamais escritas.
A citação abaixo serve como exemplo tanto de sua prosa quanto de suas idéias
relativamente à questão que agora abordamos.
“Houve também um colibri que falou a
Cerastes e lhe implorou veneno. E a grande cobra de Khem, o Sagrado, a serpente
Uraeus real, respondeu-lhe e disse: Eu velejei sobre o céu de Nu no carro
chamado Milhões de Anos e não vi qualquer criatura acima de Seb que fosse igual
a mim. O veneno de minha presa é a herança de meu pai, e do pai de meu
pai... Como dá-lo a ti? Vive tu e teus
filhos como eu e meus pais vivemos, mesmo até cem milhões de gerações, e pode
ser que a misericórdia dos Poderosos
conceda aos teus filhos uma gota do veneno da Antigüidade.
“Então o colibri afligiu-se em seu
espírito e voou para as flores, e foi como se nada tivesse sido conversado
entre eles. Entretanto, pouco depois, uma serpente o feriu e ele morreu.
“Mas uma íbis que meditava às margens do
Nilo, o belo deus, ouviu e atendeu. E pôs de lado seus modos de íbis e se
tornou como uma serpente, dizendo: Talvez numa centena de milhões de milhões de
gerações de meus filhos eles obtenham uma gota do veneno da presa da Exaltada. E vede: antes que a lua
crescesse três vezes ele se
transformou numa serpente Uraeus e o
veneno da presa foi nele e em sua semente estabelecido por todo o sempre.”
Para o mago é esse espírito sublime de
vontade e determinação indomáveis que nada pode vencer que é indispensável. É o
poder da vontade que de facto constitui o mago e na ausência deste poder nada de
qualquer monta pode ser feito. A realização não é atingida em quatro e vinte
horas, nem mesmo em vários pores-do-sol; a visão resplandecente e o perfume que
consome a própria substância da alma podem estar muitos anos no futuro – mesmo
muitas encarnações nas vagas trevas do porvir. Quiçá para alguns a
concretização do desejo mais íntimo e da aspiração por Adonai seja uma meta que
pertence a um outro mundo, um outro eon e exista na natureza de um sonho.
Outros indivíduos podem julgar este um objetivo cujo doce fruto se torna
rapidamente disponível à mão com escasso dispêndio de trabalho para ser
colhido. Num caso ou no outro nenhum aprendiz está na posição de afirmar no
princípio em que momento a meta poderá ser alcançada. Tampouco se trata de um
problema que mereça preocupação pois a alma cresce e progride à medida que a
compreensão e a intuição se expandem através de atos sucessivos do espírito na
estrada da magia da luz. As asas se tornam então mais vigorosas, o próprio vôo
se tornando mais longo, e a lâmpada interior alimentada com o azeite da
sabedoria permanece continuamente acesa. Ao mago é imperioso considerar sempre
esta luz interior e levá-la pacientemente consigo pelos desvios e estradas dos
homens, até que ele se transforme nessa luz. Acima de tudo o que é exigido é
aquela imperturbável aspiração e vontade indomável ... daí ao trabalho! Que a aspiração do mago seja
como a da sábia íbis de Khem. Dispa-se de seus modos humanos e vista-se
daqueles do deus! O Conhecimento e a Conversação podem ser uma dádiva que não
lhe seja concedida por centenas e milhares de anos, mas quem sabe para onde o
espírito se inclina? Pode ser que por inflexível determinação, como aquela da
íbis, para lograr a meta, não importa quanto tempo possa levar, floresça a flor
dourada da vida de Adonai no interior do coração mais celeremente do que de
outra forma poderia ter sido o caso.
Enquanto isto, deve-se dar prosseguimento
ao trabalho mágico. Ao teurgo compete diariamente ascender nos planos num
esforço de elevar-se mais e mais, e lutar por seu caminho para as esferas
translucentes da luz límpida do fogo. A
passagem de cada estação verá sua aspiração cada vez mais forte,
transmitindo-lhe a força para desimcumbir sua tarefa de conquista e união
mágicas. Todas as coisas têm que ser trazidas para dentro da esfera de sua vontade, tanto os céus excelsos quanto
os infernos mais inferiores. Essa vontade
tem que ser imposta aos mais vis habitantes do astral e estes terão que se
curvar diante de todo desejo seu e todo seu domínio. É óbvio que sobre os
ombros do mago pesa uma tremenda responsabilidade, a qual cresce a cada passo à
frente que ele dá, e à medida que transcorre cada hora de sua carreira. “A
natureza nos ensina, e os oráculos também afirmam, que mesmo os germes nocivos
da matéria podem igualmente ser tornados úteis e bons*.” Conseqüentemente, a
responsabilidade que cabe ao mago como um penhor sagrado é esta: a ele e somente
a ele compete a tarefa de transformar o universo e de transmutar os elementos
grosseiros da matéria na substância do espírito verdadeiro. Toda sua vida terá
que se transformar numa constante operação alquímica e durante esta vida ele
distilará no alambique de seu coração a grosseria do mundo para que se converta
na essência dos céus sem nuvens. Sua cabeça, também, tem que se elevar além das
nuvens à medida que ele, de pé e ereto, terá seus pés firmemente sobre a terra
multicolorida. Somente tenacidade e persistência facultarão essa retidão do
espírito e esse poder adamantino da vontade. E estes são os pólos gêmeos que
proporcionam resistência e extensão ao báculo do mago. Todos os ramos da
teurgia devem ser objeto de persistência ao longo dos anos, não maculados pela
cobiça pelos frutos das ações do mago. Em todos os casos, como todos podem ver,
a arte divina constrói caráter e vontade e no devido tempo um karma favorável será criado em cujo
senda nenhum obstáculo ousará se interpor, quando o Anjo se apressará em elevar a alma – sua amada há tanto tempo, e
consumar as núpcias místicas prolongadas para tantos numa idade exaustiva.
“Nesse dia o Senhor será Um, e Seu Nome
será Um.”
* Os Oráculos Caldeus, trad. de W. W.
Westcott.
E mesmo que não atinjamos a unidade com
Adonai, há na magia um grande ganho visto que por meio dela buscamos transmutar
o grosseiro no sutil e no puro. E esta é a redenção do mundo. Muito brevemente
todo o nosso ser circundará um sol invisível de esplendor e seremos mais e mais
atraídos para ele, como o aço é atraído para o magneto. Embora possam ser
necessários eons para que finalmente cheguemos perto, ainda assim nos sentimos
talvez como Adão deveria ter sentido se tivesse visto tremeluzindo através das
trevas do exílio em que lutava o brilho do paraíso
celeste e soubesse que este não estava realmente perdido, mas que após a
purificação dele, Adão, lhe seria concedido um pouco dele em que entrasse e
caminhasse. Dispor desta certeza não é pouca coisa. Trata-se de uma visão que
não deve ser encarada com trivialidade. Embora inevitavelmente tenhamos que
falhar e cair reiteradas vezes, há horas e minutos de prazer e alegria quando
os anjos das alturas trajam novamente ante nossa vista seus antigos aspectos de
glória, e nós somos fundidos no calor e fogo do êxtase e contentamento, cientes
de que nós, os mortos por séculos e longas eras, podemos ainda ressuscitar de
novo.
CAPÍTULO XV
A relação teórica que o moderno
espiritismo celebra com magia é
passível, numa oportunidade ou noutra, de ser questionada. Por conseguinte, é
preciso fornecermos aqui alguma resposta. Limitar-nos-emos a uma discussão
sumária deste assunto já que parece a este autor não se tratar de algo de
grande importância. Algumas palavras apenas serão suficientes para demonstrar
de que forma tal relação existe.
Embora alguns autores tenham
anteriormente pensado diferentemente, não há uma conexão real entre os
fenômenos do espiritismo e os fenômenos que ocorrem na magia. Uma palavra
separa uma classe de fenômenos da outra. Uma palavra que, entretanto,
representa um grande abismo estabelecido entre as duas classes: vontade! Todos os fenômenos espíritas de
transe e materialização são passivos. Estão totalmente além do controle
consciente do médium que, de maneira alguma, é capaz de modificar, alterar ou
mesmo fixar o tempo desses fenômenos que ocorrem a ela (por força de hábito
diz-se ela; concebe-se
automaticamente que um médium seja
uma mulher, embora haja exceções, é claro). O mago, por outro lado, se empenha
em treinar sua vontade de modo que nada aconteça em suas operações de luz sem sua utilização.
Seja o que for que faça, é realizado de modo consciente, deliberado e com
intenção plena. A única exceção importante em relação a isto ocorre quando a vontade se transformou num tal poderoso
engenho taumatúrgico que toda a organização do mago se tornou inteiramente
identificada com essa vontade, e
todos os fenômenos de forma e consciência
ocorrem automaticamente incluindo a extensão da vontade. Sua atuação pode ser comparada ao movimento de qualquer
membro ou músculo que, embora ocorrendo fora da volição consciente, é todavia
executado pela força da vontade. Mesmo relativamente ao que diz
respeito ao que é chamado vulgarmente de “materialização”, o mago controla a
aparição de um espírito. E não apenas isto pois é possível para ele fazer esse
espírito aparecer mediante suas conjurações e limitar as atividades do espírito
a uma certa área prescrita através do poder de sua vontade. A forma visível do
espírito é composta das grosseiras partículas de fumaça de incenso,
deliberadamente queimado com essa finalidade. Ademais, o mago detém o poder de
fazer o espírito responder inteligentemente às perguntas e de bani-lo quando
sua presença deixar de ser necessária. Isto se aplica, que fique reiterado,
somente ao que concerne ao aspecto inferior do trabalho visto que evocações são
universalmente reconhecidas como pertencentes aos graus mais baixos da técnica.
E quanto à magia da luz ? Esta também está de acordo com a vontade mágica. Quando advém aquela
suprema crise na invocação na qual o ego é tornado passivo para o advento do noivo
e, com temor e tremor ele cede seu próprio ser, essa renúncia é conforme
uma determinação consciente e sob vontade. Estas poucas observações devem bastar
para mostrar de maneira conclusiva que as duas ordens de fenômenos residem
totalmente em planos diferentes e que não existe nenhuma conexão entre as duas.
O espiritismo parece se referir quase que inteiramente à produção de fenômenos
físicos, eles mesmos a finalidade desta produção, sendo que em qualquer caso
esses fenômenos dificilmente conduzem a qualquer espécie de prova da
sobrevivência e continuação da existência da alma. O outro sistema, a teurgia,
diz respeito a um domínio nobre e ao desenvolvimento de grandes poderes no ser
humano. O mago procura unir sua essência a uma realidade profunda, duradoura,
na aspiração de um conhecimento espiritual, de modo que seja possível para ele
apreender com sabedoria e intuição sua suprema imortalidade, incorruptibilidade
e eternidade.
A fim de discutir o espiritismo
inteligentemente é necessário voltar aos princípios fundamentais formulados em
páginas anteriores. A teurgia concebe a remoção dos invólucros da alma após a
morte do corpo físico de maneira idêntica à teosofia de Madame Blavatsky.
Seguindo-se à morte do corpo, que é o veículo visível dos princípios
superiores, o ser humano real,
perfeitamente intacto embora subtraído do corpo físico, é impelido para o plano astral. Gradualmente ele ascende
aos diversos palácios que foram
autocriados pelo tipo de vida que acabou de ser vivida; nestes palácios ele
repousa ante o Ancião dos Dias,
assimilando sua experiência terrestre e transformando-os em recursos para uma
nova encarnação. A magia, acompanhando a Cabala, abraça a idéia filosófica da reencarnação ou Gilgolem das almas. Realmente, na medida em que os magos vão em
direção desta teoria filosófica sustentam que em certos estágios de
desenvolvimento, quando o organismo humano se torna luminoso, refinado e sensitivo
por meio de reiteradas consagrações e invocações, as lembranças de Neschamah
com suas emoções e poderes mais elevados se infiltram em Ruach, trazendo consigo a clara
lembrança de existências passadas.
Após a morte física, a trindade de
princípios que é o ser humano verdadeiro permanece
no astral encerrada no Ruach e seu Nephesch. A desintegração, já tendo sido
desencadeada pela ocorrência da morte física, prossegue ainda. Nephesch, que é o veículo das paixões,
emoções e processos instintivos, é então descartado da constituição. Permanece,
contudo, como uma entidade nesse plano, animado até um certo ponto pelas forças
e energias cegas com as quais ele entra em contato. Lenta mas continuamente ele
se desintegra se deixado só, de modo que tal como o corpo físico é dissolvido
reintegrando o pó da terra, Nephesch é
dissolvido para os elementos do plano astral. Por esta razão, os teurgos
proíbem visões e experiências nesse domínio astral inferior. Aí nada pode ser
encontrado que possua valor espiritual visto que se trata do mundo da matéria
em decomposição de Nephesch e da
desintegração. Nephesh descartado, o ser humano interior encerrado em Ruach “ascende” às camadas intermediárias do astral, onde
lentamente a essência dos pensamentos mais refinados, as experiências e emoções
mais nobres são destiladas das partes mais grosseiras, sendo assumidas na
própria natureza de Neschamah. Esta
separação de afinidades concluída, são assimiladas e expandidas no astral
divino, Amentet. Neste momento é
necessário mencionar o emprego do verbo “ascender” e outros verbos utilizados
num sentido similar. Desnecessário salientar que um sentido metafísico é
sugerido porquanto os planos subjetivos dos mundos invisíveis não estão
dispostos um sobre o outro como os andares de um arranha-céu, nem se envolvem
como as camadas de, por exemplo, uma cebola. Sendo metafísicos, todos os mundos
se interpenetram e se fundem, o mundo físico ou mais externo sendo penetrado
pelo mais interno e as esferas mais sutis. Ascender
no astral, portanto, apesar de ser uma expressão literalmente enganosa, tem
a finalidade de expressar o fato da partida de uma plano mais grosseiro
efetuando-se uma subida a um mundo mais rarefeito e menos denso.
Ao considerar o espiritismo, a tradição
mágica afirma que é com os cadáveres astrais ou Qliphoth, como são denominados, que os espíritas principalmente se
ocupam. Através do transe passivo e negativo, os princípios mais elevados são
forçados a recuarem, não deixando nenhum vínculo com os veículos inferiores do
médium ou proteção para estes. A
porta é franqueada à admissão de quaisquer entidades que se encontrem nas
vizinhanças astrais. Já que as almas dos seres humanos e seres angélicos
ascendem ao astral divino, a maior parte dessas entidades no astral inferior
são os elementais mais grosseiros, os administradores dos fenômenos naturais e
os Qliphoth em decomposição ou cascões adversos. Conseqüentemente,
o transe espírita negativo fundamentalmente implica a obsessão dos resíduos em
decomposição e restos imundos inerentes àquele plano. Diante disso a questão
que se coloca é a seguinte: “Por que, se os espíritos que se comunicam com as
médiuns são meros cascões astrais, acontece de ocasionalmente exibirem
inteligência e razão? “
A palavra ocasionalmente é bastante gratificante. Um dos fatos mais
correntemente mencionados pelos investigadores é a ausência de coerência e
inteligência nas mensagens obtidas do “outro lado”. No caso, contudo, de se
perceber um leve lampejo de inteligência nos absurdos verbais geralmente transmitidos
aos médiuns, a explicação racional dada por Lévi é claramente aplicável.
Lembrar-se-á que Lévi define a luz astral como o agente mágico, e que em sua
substância estão registrados todos os pensamentos, emoções e ações. O corpo
astral, um dos aspectos de Nephesch,
sendo composto da matéria sutil da luz astral, participa da definição de Lévi.
Numa página anterior, indiquei a conexão entre a concepção acadêmica formal do inconsciente e a concepção cabalística
de Nephesch, do qual o corpo astral é
um aspecto. Neste veículo, portanto, estão registrados todos os pensamentos que
um indivíduo teve durante a vida, todas as percepções e sensações que
experimentou e todas as ações que executou. Quando após a morte esse Nephesch descartado é galvanizado para a
atividade de um aparente ser vivo, animado por inteligência através da energia
deslocada tanto pelo médium em transe
quanto pelos pensamentos dos participantes da sessão espírita, esse cadáver
astral pode exibir uma réplica da inteligência que em vida o utilizava.
Esse amplo esboço dá conta da maioria das
comunicações recebidas via fontes espíritas, embora seja necessário afirmar com
toda justeza em relação a essa, como em relação a todas as outras
generalizações, que há exceções, embora os médiuns capazes de penetrar os
planos mais elevados do espírito sejam extremamente raros. O médium, uma vez
tenha aberto a porta de sua organização astral e psíquica, é incapaz de
controlar a si mesmo, e tampouco é capaz de empregar discernimento quanto ao
que irá entrar ou não pela porta aberta e tomar posse de sua personalidade.
Naturalmente, essas observações se referem unicamente aos casos nos quais os
fenômenos são genuínos. Mas visto que há tantos casos de fraude e embuste
deliberados, pode-se recorrer às afirmações que acabamos de fazer que
igualmente se prestam a explicar tais coisas. Sendo passivo, o médium não
exerce controle do poder de produzir fenômenos quando a corrente psíquica é
cortada, por assim dizer; e quando os fenômenos lhe são exigidos pelo recebimento
de dinheiro, é coisa bem simples simular a possessão genuína. É mais simples
ainda pronunciar um palavrório recheado de disparates que é favoravelmente
comparável às mensagens recebidas dos “mortos”. Além disso, pelo fato de a
entidade obsessora ser das mais baixas e das profundas da Terra, dificilmente
se pode considerar sua associação com o médium edificante ou enobrecedor.
Limita-se a ser uma influência nociva, causando a expansão e desenvolvimento de
quaisquer tendências ou traços existentes no médium. Assim, a fraude, a
decadência moral e o desregramento não requerem grande esforço.
Pode-se antecipar aqui uma explicação dos
fenômenos físicos mais gerais, parte representativa do espiritismo, embora
considerando-se que a teoria mágica desse assunto esteja em completo acordo com
a de Blavatsky, há pouca necessidade de repetir tais teorias detalhadamente.
Basta observar que a maioria das demonstrações psíquicas, quando autênticas,
têm sua origem no comportamento e nos poderes do corpo astral. Definida a
substância deste veículo como plástica, magnética e de grande força tensora,
conclui-se que vários de seus membros, devido ao desenvolvimento anormal, podem
ser exsudados do interior do corpo físico e estirados a alguma distância. Essa
teoria explica o deslocamento de objetos sem contato físico, os fenômenos do Poltergeist e muitos outros de caráter
similar. Quase todos se devem à perturbação do equilíbrio no aspecto
substantivo de Nephesch. Obviamente
não são espirituais e não comprovam nenhuma das reivindicações feitas a seu
favor pelos espíritas.
No caso do médium esclarecida que,
compreendendo a verdade intrínseca das observações feitas aqui, deseja reverter
seus poderes passivos, a técnica mágica é recomendável. No espiritismo inexiste
técnica de transe, como inexistem métodos de proteção ou seleção a serem
empregados. Uma vez esteja a porta astral entreaberta a esmo, quem quer que
entre pode fazer o que bem entender sem restrição. O médium está tão aberto à
obsessão, e mesmo mais devido à natureza do plano astral, quanto à inspiração
divina. Com a ajuda, entretanto, de algum dispositivo como o Ritual de Banimento do Pentagrama, essa
predisposição para a obsessão elementar poderá ser facilmente eliminada. No
interior de um círculo adequadamente consagrado, protegido com os nomes divinos
formais, o médium pode induzir o transe sem medo ou perigo. A recitação de uma
invocação apropriada de uma força divina e o assumir astral de uma forma de
divindade antes do transe podem garantir uma categoria totalmente diferente de
resultado, realmente pertencente a um plano muitíssimo mais alto. Enquanto que
anteriormente o médium era uma presa indefesa de qualquer presença astral que
visitasse sua esfera áurea, trazendo consigo contaminação e o odor desagradável
de corrupção e abjeta putrefação, adotando-se métodos mágicos, tais excrementos
podem ser eficientemente impedidos de invadir a esfera da personalidade. E não
apenas isto, como também entidades de classe definida, de natureza divina e
espiritual, completamente oposta aos ordinários “fantasmas” espíritas, poderão
ser invocadas para o máximo proveito do médium e o crescimento de seu poder
espiritual.
Não julguei adequado descrever muitos
tipos diferentes de operações mágicas neste livro, visto que não ocupam nenhuma
posição eterna na construção do santuário celeste. Tampouco dizem respeito às
limitações próprias que têm que se circunscrever em torno do Templo da Magia Santa da Luz. A despeito
de não estarem incluídos necessariamente na conotação da expressão Magia Negra, tais métodos fazem
fronteira muito próxima a esse tipo de coisa. Visto que tendem para essa
direção, são de pouca utilidade para o aspirante em busca de Adonai e da
bem-aventurança dos deuses. Existem inúmeras operações menores para a aquisição
de objetos que se deseja, como livros, ouro, mulheres e similares. Há operações
de destruição e fascinação, adivinhação e transformação e assim por diante.
Estas são apenas algumas que recebem absolutamente demasiada ênfase e atenção
às expensas de assuntos mais importantes em engrimanços e livros de instrução
inferiores. Divorciados de aspirações mais elevadas, são inteiramente
reprováveis.
Um ramo razoavelmente importante da magia
menor, embora não negra, é o controle dos Tattvas
ou das correntes prânicas vitais que operam na natureza. Mediante o emprego dos
símbolos de Tattvas, acompanhados por
um conhecimento das horas específicas do dia quando essas forças adquirem
preponderância e pureza, o mago que assim o desejar poderá abrir os portais do
corpo e da mente às forças vivificadoras e reanimadoras dessas correntes
ocultas. Através desses recursos, ele obterá descanso físico e psíquico quando
estiver em maré baixa e em caso de desvitalização das forças de seu ser. No Livro dos Mortos são mencionadas muitas
transformações mágicas das quais o khu ou
entidade mágica no ser humano é capaz, e fórmulas práticas para a produção de
tais transformações como em falcão, lótus, andorinha e assim por diante podem
ser aí percebidas. Como tornar alguém invisível aos olhos dos outros, mesmo em
meio a uma grande multidão, através da formulação de um invólucro astral é um
outro ramo dessa magia cinzenta que existe entre a magia da luz e a negra. Não
posso dizer que o aspirante ao Augoeides tenha
muita utilização para tais realizações e poderes dúbios.
A natureza da magia negra, que parece
preocupar grandemente tantos histéricos, consiste quase que inteiramente no
motivo sustentado na mente do operador. Quando Lévi aborda este assunto e o da
bruxaria em seus escritos ele se lança completamente numa tangente, e seus
soberbos exageros coloridos com toda a rutilância e retórica à sua disposição
tornam a leitura divertida. Que alguns o tenham citado em função desse assunto
para uma interpretação literal, em lugar de descartá-lo como mera verbosidade,
ultrapassa minha compreensão. Suas observações acerca do bode de Mendes e a
veneração de Bafomé em conexão com os templários são simplesmente ridículas.
Que comentário poder-se-ia fazer em relação às instruções absurdas fornecidas por
ele como sendo os supostos passos dados por aqueles envolvidos com a arte
negra, a não ser que seriam excelente material para os atuais thrillers ? Estou ainda para descobrir
em que loja de departamentos pode-se comprar velas feitas de gordura humana. Que
ser humano poderia ser obtuso ou louco o bastante para pensar em obter incenso
misturado com o sangue de um bode, uma toupeira e um morcego? Outras
necessidades horrendas são a cabeça de um gato preto recentemente morto, um
morcego afogado em sangue, os chifres de um bode virgem e a crânio de um
parricida! Ainda assim em seu Book of Cerimonial Magic, o Sr. Waite
teve a preocupação de pronunciar uma advertência medonha contra a goécia juntamente com o desenho grotesco
de Lévi do círculo goético para emprego com os “adereços” mencionados acima.
Preparando-se para uma ofensiva devastadora contra a magia negra, Waite
posicionou sua artilharia mais pesada
quando, na realidade, um arremessador de ervilhas teria sido muito mais
eficiente contra tal inimigo. Resta pouca dúvida de que Lévi estivesse “se
divertindo às custas” de alguns leitores e que estivesse simplesmente cedendo
seu talento para ritos lúgubres impossíveis, os rebentos de uma imaginação
curiosa, embora exuberante.
O hipnotismo e o ato de privar uma outra
pessoa de escolha ou uso da vontade constituem de fato uma das formas mais
desprezíveis de magia negra. Aqueles que realmente empregam tais métodos
deveriam ser cuidadosamente evitados pelo teurgo tal como ele faria com uma
doença asquerosa. Os feitos absurdos ordinários relativos à confecção de
filtros, poções e figuras de cera para trabalhos de fascinação ou maldade
existem inteiramente abaixo da dignidade do mago sincero. O que pode talvez
constituir verdadeira magia negra é o uso de selos e talismãs carregados feitos
por uma pessoa que tenha adquirido poder mágico para a depreciação e dano de
seu semelhante. Operações cujo objetivo seja evocar a sombra de um amigo ou
parente falecido à manifestação visível consistem de manipulações da substância
astral e carecem de qualquer finalidade útil visto que perturbam os tranqüilos
processos de assimilação e construção de faculdades que se processam no astral
superior após a morte física. Somente a vaidade insana e a curiosidade
desordenada poderiam ser satisfeitas
pela necromancia. Este ramo específico da bruxaria está aparentado ao
espiritismo, embora para sermos totalmente verazes e justos tenhamos que
admitir que os motivos deste último culto realmente se colocam num plano mais
elevado e mais sincero. Em ambos os casos, entretanto, o motivo não é desculpa
pois eles são uma abominação diante de toda a tendência dos processos da
natureza.
Considerando-se que neste capítulo
tratamos largamente do astral, desejo mais uma vez me referir à técnica da viagem astral que é
procurada pelo mago. Constitui obrigação imperiosa para o teurgo investigar por
completo, como foi exposto num capítulo anterior, em seu resplandecente e
iridescente corpo de luz os níveis superiores da luz astral, aqueles que fazem
fronteira com os mundos criativo e arquetípico. A ele cumpre também penetrar
intrepidamente em todo santuário protegido daí, se familiarizando com a
natureza essencial e os variados aspectos que esse plano apresenta, embora
jamais deva perder de vista um importante fato a estar sempre presente em sua
mente. É preciso que se esforce sempre para transcender esse plano. É tão-só um
salão de aprendizado. Por mais necessárias
que sejam suas lições, uma vez
assimiladas e aprendidas a necessidade de permanecer nesse plano cessa,
e as sempre esplêndidas Mansões do Fogo e da Sabedoria devem ser
buscadas. O corpo de luz espiritualizado deve ser continuamente treinado e
educado e sua substância deve ser tornada a tal ponto sensível e refinada que
de um corpo vago, sem forma, lunar ele renasce como um corpo solar brilhante. É
neste corpo que o mago pode ascender às translúcidas alturas espirituais e ao
fogo amorfo que se encontra além. É possível que à medida que o aprendiz
diligencia suas investigações sistemáticas nesse plano no esforço de descobrir
a natureza de sua composição
psicológica, chegará a certos portais, defrontando-se com guardiões armados. A despeito do poder do
pentagrama, dos gestos e signos
mágicos, da invocação dos quatro anjos
dos quadrantes e de outros dispositivos para ascensão e ultrapassagem, tais
guardas, sob nenhuma circunstância, lhe darão o direito do ingresso, e tampouco
lhe darão a permissão para atravessar os portais que guardam. Em The
Candle of Vision é indicado o empenho de
A. E. para descrever essa
experiência de mística natureza. “Então eu fui novamente lançado longe num
vórtice e eu era a figura mais minúscula em meio vasto ar, e diante de mim
havia um portal gigantesco que parecia grandioso com os céus, e uma figura
sombria ocupava o vão da porta e barrava minha passagem. Isto é tudo que
consigo lembrar... “ Alguns mencionam
ter este fato também sido experimentado pelo escriba do Livro dos Mortos já que
naqueles capítulos que se relacionam aos nomes dos pilones, juntamente com os nomes das sentinelas, guardiões e porteiros angélicos algumas sugestões
mágicas veladas de como passar por eles são dadas.
Nesse momento oportuno, antes de ir além
neste assunto da ascensão nos planos,
é necessário familiarizar o leitor com um aspecto importantíssimo da técnica
astral que não se deve esquecer jamais. Os habitantes do plano astral reagem de
duas maneiras diferentes e absolutamente distintas em relação ao pentagrama. A experiência dos modernos
teurgos neste ponto é largamente corroborada por toda a tradição mágica dos
antigos. Eles testemunham que quando em face da estrela flamejante de cinco
pontas formulada pela vontade mágica alguns
seres astrais se contraem perceptivelmente e parecem desvanecer. Uma outra
classe de seres, contudo, cresce e se expande a ponto de abarcar todo o
horizonte com esplêndida luminosidade e brilho. A experiência de todas as
gerações de magos demonstra que o ser que se encolhe de medo do pentagrama ou
foge é ou um demônio de face canina ou um elemental, tendo que ser tratados de
maneira apropriada. Por outro lado, o ser cuja aparição não é afetada pelo
pentagrama e o ritual de banimento conveniente, é uma inteligência espiritual,
um anjo, um sublime ser celestial a
ser respeitado, amado e venerado.
Uma variação do símbolo do pentagrama
empregada por outras pessoas com um certo grau de sucesso é uma cruz dourada
encimada por uma rosa carmesim. O simbolismo em ambos os casos é idêntico,
embora alguns possam considerar que a cruz apresenta associações teológicas
desagradáveis. É um sinal dos quatro elementos estendido aos quadrantes
cardeais, enquanto que os coroa a rosa, símbolo da beleza, nobreza e vida
espiritual. Na prática, sua aplicação é um pouco diferente daquela do
pentagrama porque é menos simples formular a Rosacruz com o bastão do que com o primeiro símbolo; o mago
interpõe em imaginação este símbolo entre o outro ser e ele próprio sem tentar
traçá-lo.
O fato, portanto, de um anjo trajado de fogo e glória e portando
uma espada afiada de chamas barrar sua entrada ao pilone deve fazer o teurgo se deter, e se deter para refletir pois
parece indicar que até ali ele não está suficientemente purificado e sensível
em seu corpo de luz para ser capaz de atravessar aquele pilone específico do qual é barrado. Deve se constituir sua
obrigação solene considerar como necessidade primordial o meio pelo qual uma
purificação ulterior pode ser efetuada. Deve-se infundir no corpo de luz uma
substância espiritual proveniente de planos mais elevados e mais celestiais. O
assumir persistente de formas divinas e a transmutação de sua própria forma
astral naquela do deus e a identificação com o caráter sublime moral e
espiritual do deus se revelará um método tão infalível quanto outros. Através
deste método, a substância do corpo de luz no devido tempo passará a participar
do esplendor e efulgência ígneos da substância do deus. Talvez a melhor forma divina a ser assumida
com esse propósito seja a do Harpócrates
sentado no lótus, o Senhor do
Silêncio, que é o gêmeo de Hórus, Senhor
da Força e do Fogo. A forma convencional na qual é geralmente retratado é
aquela de um bebê inocente, com o dedo no lábio, empertigado como um embrião
acima de um lótus branco que surge do mar. Em torno dele há um azul escuro
profundo semelhante ao do símbolo do Tattva
do espírito, representando a noite
que tudo abarca. O lótus é o símbolo perene da ressurreição e da eterna
juventude e o bebê representa inocência, espiritualidade e supremo repouso. “O
deus ‘sentado acima do lótus...’” afirma Jâmblico em The Mysteries (Os Mistérios), “...significa obscuramente uma
transcendência e força que em absoluto não entram em contato com o lodo,
indicando também seu império intelectual e empíreo, pois percebe-se que tudo
que pertence ao lótus é circular, a saber, tanto a forma das folhas quanto o
fruto; e só a circulação está ligada ao movimento do intelecto, o qual energiza
com identidade invariável numa única ordem e de acordo com uma única razão. Mas
o deus é estabelecido sozinho, e acima de um domínio e energia desta espécie,
veneráveis e santos, superexpandidos e que residem nele mesmo, o que estar ele
sentado visa significar. “ O assumir mágico desta forma, especialmente o
circundamento do corpo astral pelo ovo azul-escuro ou índigo, tem poder
suficiente para banir quaisquer influências indesejáveis porquanto eleva o mago
acima desse domínio.
((ilustr. – Harpócrates acima
do lótus – O Senhor do
Silêncio))
Essa técnica particular da forma divina
da Harpócrates é especialmente significativa mesmo no que diz respeito à vida
cotidiana. Quando se é assaltado por pensamentos indesejáveis e emoções de ódio
pode-se conseguir alívio desta pressão e até assistência e resistência
espirituais assumindo-se a forma desse deus. Por meio deste assumir nosso ser é
transmutado para a configuração do deus e a mente é elevada além da pequenez
mundana por assimilação do caráter e natureza da divindade. Isto implica,
seguramente, numa força de imaginação e vontade, mas para a maioria das pessoas
é mais fácil reter na mente imagens pictóricas do que uma idéia abstrata,
qualquer indivíduo podendo ser treinado com um pouco de prática para visualizar
uma forma tão simples e bela como o bebê acima do lótus. A única dificuldade
passível de ser encontrada é a transfiguração do corpo de luz e a subseqüente
identificação e união com o deus. Quanto a isto, naturalmente, o treinamento se
mostra indispensável.
A vibração de nomes divinos constitui uma
prática que sob nenhuma circunstância deve ser omitida já que à medida que se
procede a este exercício os elementos grosseiros são forçosamente expelidos da
constituição total, física, astral e moral, outros elementos mais refinados e
sensíveis sendo introduzidos para tomar o lugar daqueles. Celebrações
freqüentes da eucaristia constituem também um meio excelente
de transmutar e exaltar a substância do ser total. Numa página anterior esta
operação foi resumidamente descrita e para enfatizar recapitularei a teoria que
se acha por trás. Divorciada de todo dogma, a essência da eucaristia é a
seguinte: você toma uma substância simples como, por exemplo, uma hóstia de
trigo, batiza-a com a sua mais elevada concepção de Deus, ou, conforme o caso,
em nome de uma essência espiritual
particular, consumindo-a a seguir. Deste modo, por meio de magia simpática, uma
efetiva transubstanciação de elementos ocorre sob a pressão da vontade. Aquilo que era antes terrestre se
torna celestial. Aquilo que era da Terra, mundano, é transformado numa coisa
dos céus. Uma hóstia de trigo e o vinho parecem se tornar quase que diretamente
assimilados ao sangue, e absorvidos pelo próprio ego. Na realidade, isto é uma espécie de magia talismânica pois com
a nomeação da substância o mago invoca a força espiritual em conformidade com
aquele nome, e naquele telesmata físico
de pão e vinho é essa força confinada como se fosse sua habitação terrena. O
fato de tal telesmata ser consumido
pelo mago introduz em seu ser um poder espiritual que em virtude de sua energia
inerente expulsa elementos impuros de seu ser, elevando e transmutando o ser
humano integral a um plano mais grandioso. Desta maneira se procede a
transformação do corpo de luz de um escuro corpo lunar para um corpo solar, um
organismo resplandecente, nítido e de forma bem definida, que fulgura como aço
brilhantemente polido, capaz de atravessar todo pilone, penetrar os santuários
mais zelosamente guardados e ingressando na lista de assistência dos guardiães
angélicos. Com este corpo solar de substância espiritualizada, a veste
deslumbrante do Banquete de Casamento,
o teurgo não experimentará qualquer dificuldade para ascender nos planos a
partir de Malkuth através do caminho de Saturno até a esfera do Fundamento. * Do Fundamento é possível para ele através
da Seta da Aspiração e do Poder da Harmonia e da
Beleza para cima – sempre para cima além do deserto infecundo do Abismo ** no qual ele monta o camelo cabalístico, *** recebido jubilosa e lisonjeiramente pela Rainha no Palácio do Rei,
que é a Coroa **** santa da Árvore da Vida. Chegado à Coroa, o mago não é mais. Não obstante, aí ainda existe aquela
consciência superior da Vida Eterna que constitui a
individualidade real do mago – aquela parte real dele da qual, talvez, tenha
estado raramente consciente durante as suas vidas anteriores sobre a Terra –
aquele espírito primordial e universal, que pulsa e vibra invisível no cerne do coração de todos.
* A Sephira Yesod, a primeira acima de Malkuth. (N. T.)
** Regardie faz
referência à Sephira misteriosa Daäth. (N. T.)
*** Referência ao
caminho de Gimel (camelo) na Árvore
da Vida. (N. T.)
**** Kether, a Sephira mais elevada da Árvore da Vida. (N. T.)
Escreveu Porfírio que “as almas ao
atravessar as esferas dos planetas vestem, como túnicas sucessivas, as
qualidades desses astros.” Visto que os planetas e os signos zodiacais foram atribuídos
à Árvore e estão incluídos na implicação das dez Sephiroth,
o mago por meio desse processo da ascensão nos planos assimila as qualidades e
características mais elevadas de cada planeta e cada Sephira. À medida que o skryer ascende à Luz suprema da Chama imperecível da Vida incorpora em
si mesmo o poder inato dos planos pelos quais ele passa e como as
características inferiores de seu ser são dificilmente compatíveis com a ígnea
majestade impessoal do domínio celestial, são removidas deixando as
características superiores como os augustos guardiães do campo da consciência.
Todas as características dos mundos excelsos são sucessivamente assumidas pelo
mago, e transcendidas até que ao fim de sua jornada mágica ele é fundido ao ser
do Senhor de toda Vida. A meta final de sua peregrinação espiritual é o êxtase
de paz no qual a personalidade, o
pensamento e a autoconsciência finitos, mesmo a elevada consciência dos deuses
supremos, declinam cabalmente e o mago se funde na unidade do Ain-Sof , onde nenhuma sombra de
diferença ingressa.
CAPÍTULO XVI
Ao começar esboçar e escrever este livro
acerca de magia era a firme intenção do autor elucidar todos os processos
mágicos tão simples e inteligivelmente quanto fosse humanamente possível e
coerente com o tratamento exegético de um assunto sumamente difícil e complexa.
Pelo fato de ter havido no passado tanta obscuridade deliberada e matéria
propositadamente enganosa, pareceu a hora exata de produzir uma declaração que
pudesse ser utilizada de uma vez por todas como uma exposição clara e definida.
O autor espera ter sido fiel a essa intenção ao longo do texto, embora quanto a
este ponto o leitor deva ser o único juiz. Ambigüidade e por vezes deliberada
tentativa de ludibriar mediante o emprego de simbolismo difícil e a citação de
extensas séries de nomes de autoridades têm caracterizado muitos livros de
magia, pondo a perder qualquer valor que eles pudessem ter. Resta delinear
neste livro uma fórmula secreta de magia
prática de uma natureza tão tremenda – encoberta como sempre esteve no
passado pelo deslumbramento de símbolos recônditos e oculta por pesados véus –
que este autor está em dúvida se seria sábio ou político se ater a sua decisão
original. Poderia, é claro, ter sido omitida do conteúdo geral, mas foi
necessário incluí-la sob alguma forma a fim de tornar este tratado
moderadamente completo na medida do que concerne aos principais, embora
elementares aspectos da alta magia. O método do qual nos propomos a falar aqui
constitui uma fórmula tão poderosa da magia da luz e tão passível do abuso e uso
indiscriminados na magia negra que se uma concepção de sua
técnica e teoria é realmente para ser apresentada, a intenção original deste
autor tem que ser descartada. Será preciso valer-se do meio de um simbolismo
eloqüente que foi utilizado durante séculos para transmitir estas e idéias
similares. E ao leitor deve se assegurar que o simbolismo não foi
propositadamente desorganizado, nem foi tampouco tornado ambíguo, obscuro e
destituído de sentido. Se meticulosamente estudados, os termos empregados
revelarão uma coerência e uma continuidade que desvendarão às pessoas certas de
um modo absolutamente preciso os processos de sua técnica.
A Missa
do Espírito Santo! Assim é chamada esta técnica específica. É única em toda
a magia pois nela está compreendida quase toda forma conhecida de procedimento
teúrgico. Ao mesmo tempo, é a quintessência e a síntese de todas elas. Entre
outras coisas diz respeito à magia dos talismãs. Por meio desse método uma
força espiritual viva é confinada numa substância telesmática específica. Não
se trata de telesmata morto ou inerte
como acontece na costumeira evocação talismânica cerimonial, mas sim de
imediato vibrante, dinâmico e contendo em germe e potencial a possibilidade de
todo crescimento e desenvolvimento. De uma maneira muito especial, se refere,
ademais, à fórmula do Cálice Sagrado. Um
cálice dourado de graça espiritual é
utilizado no qual a própria essência e sangue vital do teurgo têm que ser
derramados para a redenção não de sua própria alma, mas que por intermédio
disso toda a espécie humana possa ser salva. A euraristia também está implícita e o cálice é usado como a taça da comunhão, cujo conteúdo santificado –
taumatúrgico e iridescente, em suma o vinho sacramental – tem que ser dedicado e consagrado ao
serviço do Altíssimo. A oblação a ser
consumida com o vinho eucarístico é, em função dessa interpretação, a essência
secreta tanto do mago intoxicado quanto do supremo deus que ele invocou. Neste
método está presente também em larga escala a técnica alquímica, visto que
concerne majoritariamente à produção do ouro
potável, a pedra filosofal e o elixir da vida que é Amrita, o rocio da imortalidade.
O leitor deve, acima de tudo, ter em
mente a fórmula filosófica do Tetragrammaton,
que é o método desta missa. Isto
demonstra a necessidade de uma familiarização prática com os princípios
numéricos da Santa Cabala, pois quanto mais conhecimento se possui,
sistematicamente classificado no sistema indicador da Árvore da Vida, mais
sentido e significação se vinculam à fórmula de Tetragrammaton. No capítulo em que se esboça a teoria mágica do
universo as implicações gerais do Nome sagrado
foram resumidamente explicadas relativamente a essas conexões. Estas idéias
devem ser inteiramente assimiladas em relação à Árvore. Munido deste
entendimento, o leitor deverá aplicar seus poderes ao esquema simbólico que se
segue.
Ilustrando o cabeçalho de um capítulo no
livro de Franz Hartman Secret
Symbols of the Rosicrucians (Símbolos
Secretos dos Rosacruzes) vemos um desenho de uma sereia irrompendo do mar. Suas
mãos estão junto aos seus seios e dali brotam duas torrentes que retornam ao
mar. Explicando esta figura Hartman escreveu que “... a figura representa o
fundamento das coisas e sua origem. Trata-se de um princípio duplo da natureza;
seus pais são o Sol e a Lua ; produz água e vinho, ouro e prata pela bênção de
Deus. Se torturas a águia, o leão se tornará débil. As ‘lágrimas da
águia’ e o ‘sangue vermelho do leão’ têm que se encontrar e se misturar. A
águia e o leão se banham, comem e se amam. Eles ficarão como a salamandra e ficarão constantes no
fogo.” Na elaboração do que foi dito acima os seguintes princípios podem ser
postulados. O Y * do nome sagrado neste
sistema é chamado de leão vermelho e
a primeira H ** é a águia branca. Concebe-se que estas duas
letras sejam as representações de dois princípios cósmicos, dois rios de sangue
escarlate que brotam dos seios da sereia para dentro do mar, duas torrentes
distintas e incessantes de vida, luz e amor que procedem eternamente da própria
Vida. Nelas reside o poder de tocar e
comungar, fazendo um novo do outro, sem nenhuma ruptura das fronteiras sutis
das torrentes ou qualquer confusão de substância. Em sua natureza são
mutuamente complementares e opostas, e no entanto nelas está fundada a
totalidade da existência. Todas as operações alquímicas de acordo com as
autoridades requerem dois instrumentos principais: “um recipiente circular,
cristalino, precisamente proporcional à qualidade de seu conteúdo” ou cucúrbita e “ um forno teosófico selado
cabalisticamente ou Athanor. *** O Athanor
é atribuído ao Y e a cucúrbita é uma atribuição da H.
* A letra Yod. (n .t.)
** A letra Hé. (N. T.)
*** Amphitheatrum,
H. Khunrath.
Agora
apesar do ouro puro que se menciona
ser uma substância homogênea, una e indivisível, dinâmica e prenhe de
possibilidade infinita, duas substâncias separadas são usadas em sua produção.
Estas são denominadas serpente ou o sangue do leão vermelho e as lágrimas
ou o glúten da águia branca. A serpente é uma atribuição da
V **** do Tetragrammaton e o glúten é alocado à última H deste nome. Estas duas substâncias são
a prole, por assim dizer, do leão e da águia. Os instrumentos alquímicos acima
mencionados devem ser considerados como os armazéns ou geradores desses dois
princípios divinos ou torrentes de
rápido fluxo de sangue, fogo e força, o Athanor
sendo a fonte ou veículo da serpente, o glúten estando alojado na cucúrbita.
A fabricação do ouro alquímico que é o rocio da imortalidade consiste de uma
operação peculiar que apresenta várias fases. Pelo estímulo do calor e do fogo
espiritual para o Athanor deve haver
uma transferência, umas ascensão da serpente
daquele instrumento para dentro da cucúrbita,
usada como uma retorta. O casamento alquímico ou a combinação das duas
correntes de força na retorta produz de imediato a decomposição química da serpente no mênstruo do glúten, sendo este a parte do solve da fórmula alquímica geral do solve et coagula. Junto à decomposição
da serpente e sua morte surge a resplendente Fênix que, como um talismã, deve ser carregada por meio de uma
contínua invocação do princípio espiritual compatível com a operação em
andamento. A conclusão da missa consiste
ou no consumo dos elementos
transubstanciados, que é a Amrita, ou no ungir e consagração de um
talismã especial.
Antes de prosseguir com a análise dos
aspectos desta operação, gostaria de
apresentar ao leitor uma citação na qual essa missa é repetida com certos
detalhes, empregando a usual nomenclatura da alquimia. “Eu sou uma deusa de
beleza e linhagem famosas, nascida do nosso próprio mar que rodeia a terra toda
e que está sempre inquieto. Dos meus seios verto leite e sangue, fervendo-os
até que se transformem em prata e ouro. Ó objeto o mais excelente, do qual
todas as coisas são geradas, embora à primeira vista tu sejas veneno, adornado
com o nome da Águia alada . . . . Teus pais são o Sol e
a Lua; em ti há água e vinho, ouro também e prata sobre a Terra, que o homem
mortal possa regozijar... Mas considera, ó homem, que coisas Deus te concede
por este meio. Tortura a águia até que ela pranteie e o leão esteja debilitado
e sangre até morrer. O sangue deste leão incorporado às lágrimas da águia é o
tesouro da terra.” Isto, sem dúvida, é também explicativo da figura reproduzida
por Franz Hartman.
Segundo certas autoridades, estima-se em
termos aproximativos que a operação não deve levar menos de uma hora da
invocação preliminar, com o aprisionamento da força nos elementos, até o ato de
compartilhar a própria comunhão a
partir do cálice consagrado. Às
vezes, de fato, se requer um período muito mais longo, especialmente se houver
a exigência da carga do talismã ser completa e perfeita. Deve-se ter grande
cautela para evitar a perda imprudente dos elementos. Existe a possibilidade de
efetivo vazamento ou um transbordamento da cucúrbita,
e a assimilação ou evaporação dos elementos corrompidos no interior desse
instrumento constitui também um acidente bastante deplorável. Nunca é demais
enfatizar que se os elementos não forem consagrados corretamente; ou em
primeiro lugar se a força invocada não se impingir ou ficar inseguramente
confinada dentro dos elementos, toda a operação poderá ser anulada. E poderá
facilmente degenerar às profundezas mais inferiores, resultando na criação de
um horror qlifótico que passará a
existir como um vampiro atuando sobre os não-naturalmente sensíveis e aqueles
inclinados para a histeria e a obsessão. Se o elixir for adequadamente
destilado, servindo como o meio do espírito invocado, então os céus serão franqueados, e os portais se voltarão para o teurgo, os
tesouros da Terra serão colocados aos seus pés. “Se o descobrires, cala e o
mantém sagrado. Não confia em ninguém exceto em Deus.”
O problema do vínculo para ligar a
operação mágica ao resultado desejado deve ser considerado em todos seus
numerosos aspectos. Se a operação for daquelas que realmente exige
um talismã exterior para a produção visível de seu efeito, um selo apropriado
deverá ser construído de metal, cera ou sobre pergaminho. Pode ser consagrado e
ungido com o elixir que foi criado através dos canais da Obra hermética. Esses selos
e talismãs descritos na Chave de Salomão e em The
Magus são para uma finalidade absolutamente adequada. Caso a operação
proposta pelo teurgo seja pertinente às qualidades de Júpiter, um pantáculo
apropriado deve ser preparado antes da operação. Durante a confecção do elixir,
deve-se assumir a máscara divina de Maat e recitar uma conjuração do anjo ou
inteligência necessários. No encerramento da missa, uma quantidade minúscula do
rocio superior deve ser colocada sobre o sigillum
ou talismã de Júpiter, carregando-o assim de uma força insuperável para a
produção dos resultados desejados. Variações deste procedimento provavelmente
ocorrerão com a prática.
Não se cogita da questão de um vínculo
numa cerimônia conduzida visando uma finalidade na qual o circulo e o triângulo, por assim dizer, ou o demônio e o exorcista,
ocupam o mesmo plano; ou seja, quando o teurgo trabalha exclusivamente sobre
sua própria consciência sem referência à qualquer efeito exterior. A missa do Espírito Santo, num tal caso,
tem automaticamente seu clímax pelo consumo dos elementos carregados, a força
invocada encarnando dentro do mago como fato lógico, natural. É neste tipo de
operação, acho, que a missa do Espírito Santo gera a maior
quantidade de força e atinge o mais alto nível de eficiência.
Mesmo para operações ordinárias, a grande
vantagem deste método é que é possível dispensar o cerimonial quase que
completamente. O mago pode com absoluta facilidade executar o ritual do
banimento no astral e as invocações podem ser silenciosamente recitadas de modo
que nenhuma magia de natureza cerimonial possa ser percebida pelo profano. No
caso, contudo, de operações em que o resultado desejado existe num outro plano
ou exterior à consciência do mago, os efeitos nem sempre parecem se seguir com
a mesma infalibilidade e seqüência como acontece nas operações subjetivas. O
exame de registros privados conservados por magos que utilizaram esse engenho
mágico tendem a mostrar que seu melhor emprego é para trabalhos dentro da
consciência do mago. É nestas matérias que a missa do Espírito Santo é o mais poderoso e eficaz. Para o
desenvolvimento da vontade mágica, o aumento da imaginação e a invocação tanto de Adonai quanto dos deuses universais para que habitem o templo consagrado do Espírito
Santo, dificilmente se pode conceber um método melhor ou mais adequado. Não
implica em nenhum gasto de energia vital visto que qualquer energia assim
utilizada na operação retorna ao fim ao mago ampliada e enriquecida com o
nascimento da Fênix dourada, o símbolo da ressurreição e
do renascimento.
O poder supremo atuante nessa técnica é o
amor. Por mais banal que isto possa parecer, e por mais que esta palavra tenha
se tornado vulgar, é preciso reiterar que o amor é o poder motivador, uma força
de amor mantida sempre sob controle pela vontade e controlada pela alma.
O poder destrutivo da espada e tudo aquilo em que implica a
espada, o caráter dispersivo da adaga ou de qualquer outra das armas
elementares, aqui não tem lugar. Este método, portanto, se recomenda como sendo
dos mais excelentes. Visto que participa efetivamente do amor, pertence ao
estofo e essência da própria vida.
Em operação essa missa é extraordinariamente
simples. De fato, um mago observou que não é mais complicado do que andar de
bicicleta, isto é, uma vez certas preliminares e o treinamento tenham sido
concluídos. Mais do que qualquer outra coisa requer uma vontade peculiarmente
potente e independente, sustentando, claro, prévia disciplina e uma mente que
tenha sido treinada em concentração por longos períodos de tempo. Uma das
peculiaridades dessa técnica é que a menos que se seja excepcionalmente
cauteloso e alerta desde o início é coisa fácil para o mago perder o controle
de seus instrumentos alquímicos e assim arruinar a operação inteira. Alegria na
mera execução técnica da missa com a exclusão devido trabalho mágico constitui
o grande e supremo perigo. Por outro lado, porque este elemento de prazer e
alegria aqui realmente ingressa, esta técnica supera em excelência todas as
demais. A mente tem que ser treinada na concentração sob todas as
circunstâncias. Como uma preliminar à prática mágica deste tipo, a técnica da
ioga se revela sumamente vantajosa. Pode-se até afirmar que para o verdadeiro
sucesso em toda a magia é absolutamente essencial uma completa fundamentação na
técnica da ioga.
Uma observação adicional não seria
inoportuna. Superficialmente e à primeira vista pode parecer que entre esse
tipo de operação mágica, descrito de maneira tão hesitante, e o trabalho
cerimonial costumeiro há um grande hiato. É verdade que a missa do Espírito Santo constitui
um avanço no funcionamento lento e embaraçoso do cerimonial, isto embora este
último seja essencial no princípio do treino mágico. Este método é
consideravelmente mais direto e incisivo, e devido à classe peculiar de
energias que desencadeia sobre a natureza, seus efeitos são extremamente mais
poderosos e de alcance bem maior do que os do cerimonial por si só. Entretanto,
a despeito de subsistirem como duas categorias distintas de trabalho, podem com
grande proveito ser combinadas e usadas uma em conjunção com a outra.
As autoridades alquímicas, as quais
avaliaram esse método, têm como consenso geral que por mais que seja grandioso
seus resultados não podem ser logrados sem a oração. Sem a oração sincera nada
permanente ou divino poderia ser realizado. Por conseguinte, enquanto a operação
da missa está em andamento e o fogo no Athanor
se intensifica, uma invocação entusiástica, seja astral ou audível, deve
ser pronunciada. É aconselhável que seja da natureza de um curto mantra apropriado à natureza e tipo do
trabalho, de composição rítmica. A operação como um todo poderia ser precedida
por uma invocação mais geral para legitimar o trabalho. À medida que o trabalho
astral de criação progride, o mantra rítmico
ajudará a formular e vivificar os moldes produzidos pela vontade e a imaginação, atraindo a força espiritual
desejada. E então, quando a serpente é transferida do Athanor e a corrupção alquímica começa
no glúten da águia branca, a
cucúrbita será o receptáculo de uma nova substância, viva e dinâmica, contendo
a marca indelével das invocações que terão dotado sua plasticidade e
potencialidade de ímpeto avassalador numa dada direção. Conclui-se que se
partilhando dessa substância que é o mercúrio filosófico, impregnado com uma
inteligência de energia espiritual dinâmica capaz de produzir dentro dos
limites de sua esfera a mudança desejada, a realização plena e satisfatória
coroará a aspiração do mago.
Conduzida dentro de um círculo adequadamente consagrado, após um
perfeito banimento, seguida por uma poderosa conjuração da força divina e o
assumir da forma divina apropriada, a cerimônia pode se revelar detentora de
poder incomparável para franquear os Portais dos Céus. Utilizando-se apenas a
taça e o bastão como armas elementares, em associação com o mantra ou a invocação rítmica especializada,
é raro que a missa falhe ou não produza efeito. Esta união de duas armas
mágicas diferentes, bastante divorciadas como possam ter se afigurado num
primeiro momento, aumenta a potência de cada uma delas já que combinam numa
operação única os melhores aspectos e as maiores vantagens de ambas.
CAPÍTULO
XVII
Agora os mais importantes aspectos da
magia foram abordados. Antes de encerrar este livro, entretanto, desejo
apresentar alguns exemplos de vários tipos de rituais e invocações que estão incluídos
numa cerimônia completa. Diversas espécies de rituais foram mencionados nas
páginas anteriores e agora é necessário tornar tais referências mais
explícitas. Uma operação cerimonial completa é composta de muitos ciclos
menores, por assim dizer. Independentemente de todas as questões de preparo e
consagração das armas da arte, o círculo e o triângulo e os talismãs,
com relação ao método que foi descrito, a cerimônia correta pode incluir até
oito fases distintas, não mencionando em absoluto do fato de que possa ser
necessário que muitas delas sejam
repetidas duas ou três vezes para efeito de ênfase. A cerimônia é aberta com um
completo Ritual de Banimento, que já
foi citado para tornar pura e limpa a esfera de trabalho. Segue-se usualmente
uma invocação geral ou oração ao Senhor
do Universo. Na seqüência se procede ao trabalho preciso. Deve haver uma
invocação ao deus que governa a operação, a recitação de um apelo ao arcanjo ou anjo sucedida por uma poderosa conjuração do espírito ou inteligência para
sua aparição visível. Sua manifestação no triângulo
é saudada por boas-vindas especiais ensejo no qual se queima incenso como uma oferenda e para
lhe dar corpo. Segue-se então a Licença para Partida e a operação é concluída por um completo banimento cerimonial. Propomos, assim,
neste capítulo final, dar vários exemplos de cada um dos ciclos mais
importantes do trabalho, reproduzindo aquelas invocações que são consideradas
exemplares pelas autoridades.
A preparação de um templo ou aposento adequado a ser empregado como o cenário
das operações mágicas é uma das mais importantes preliminares a serem atendidas
pelo teurgo. O uso contínuo de um aposento especial no qual a preocupação
principal foi com a prática da meditação e coisas geralmente mágicas tende
automaticamente a consagrar essa área limitada à Grande Obra, expelindo todas
as influências indesejáveis e perturbadoras. Uma simples forma de cerimônia
consagrando uma câmara especial para um propósito mágico pode ser concebida
muito facilmente incorporando-se o Ritual
do Pentagrama com diversos aforismos dos Oráculos Caldeus, como por exemplo
no ritual que se segue.
“Que o mago encare o leste e segurando o
bastão de lótus pela parte negra, diga as seguintes palavras:
HEKAS, HEKAS,
ESTI BEBELOI!
“Então que se realize o Ritual Menor de Banimento do Pentagrama de
maneira que um círculo seja formado abrangendo a área da
câmara inteira, depois do que o bastão deve ser depositado sobre o altar.
“Purifica os limites externos do círculo com água, dizendo: ‘ Assim
portanto primeiro o Sacerdote que governa os trabalhos do fogo tem que borrifar a água do mar que alto ressoa.’
“Purifica com fogo, dizendo: ‘ E quando
depois de todos os fantasmas tu veres aquele santo fogo amorfo, aquele fogo que dardeja e lampeja através das
profundezas ocultas do universo, escuta a voz do fogo.
‘
“Então toma novamente o bastão de lótus
pela extremidade branca, e repete a adoração:
“ ‘Santo és tu Senhor do Universo.
Santo és tu
cuja natureza não formou.
Santo és tu o
Vasto e Poderoso,
Senhor da Luz
e das Trevas.’ “
Imediatamente após os banimentos iniciais
terem sido realizados, e logo antes do princípio da cerimônia, aconselha-se uma
invocação
do Altíssimo. Tal como a vontade
inferior aspira àquilo que está acima, do mesmo modo se concebe que o mais alto
aspirará à união com aquilo que está abaixo. Para equilibrar a cerimônia uma
invocação da Vontade Superior – seja esta concebida como o Augoeides ou o Senhor do
Universo - é considerada parte
indispensável de qualquer operação. A oração que é apresentada abaixo aparece
primeiramente em The Secret Symbols of the Rosicrucians (Os Símbolos Secretos dos
Rosacruzes), de Franz Hartman e é uma das hinos mais eloqüentes e exaltadores
já escritos que se enquadra ao propósito mencionado acima.
“Eterna e Universal Fonte do Amor,
Sabedoria e Felicidade; a Natureza é o livro no qual Teu caracter está inscrito e ninguém é capaz
de lê-lo a não ser que tenha estado em Tua escola. Portanto, nossos olhos estão
dirigidos para Ti, como os olhos dos servos estão dirigidos sobre as mãos de
seus senhores e senhoras, dos quais recebem suas dádivas.
“Ó tu Senhor dos Reis, quem deixaria de
louvar-Te incessantemente, e para sempre com todo seu coração? Pois tudo no
universo procede de Ti, de Teu interior, pertence a Ti e é imperioso que
novamente retorne a Ti. Tudo que existe reingressará em última instância em Teu
Amor ou Teu Ódio, Tua Luz ou Teu Fogo, e
tudo, seja bom ou mau, deve servir à Tua glorificação.
“Tu somente é o Senhor pois Tua Vontade é
a fonte de todos os poderes que existem no universo; nada pode escapar a Ti. És
o Reio do Mundo, Tua residência é no Céu e no santuário do coração dos
virtuosos.
“Deus universal, Vida Una, Luz Una, Poder
Uno, Tu Tudo em Tudo, além da expressão e além da concepção. Ó Natureza! Tu
alguma coisa a partir de nenhuma coisa, tu símbolo da Sabedoria! Em Mim Mesmo
eu sou
nada, em Ti eu sou eu. Eu vivo em Ti
eu feito de nada; vive Tu em mim,
e tira-me da região do eu para a Luz Eterna.”
Em
A Magia Sagrada de Abramelin, o
Mago Abraão, o Judeu cuidadosamente insistiu em não fornecer orações ou
invocações, sugerindo que as melhores invocações seria aquelas escritas por cada
indivíduo de maneira a atender a necessidades pessoais. Apresenta, todavia, nas
páginas de seu livro uma oração que é
adequada, tal como a oração rosacruz precedente, para a formação da abertura da
cerimônia colimando o soerguimento da mente do mago e a atração da insuflação
divina para a bênção do trabalho em pauta*.
* Embora ainda
assim se trate da oração pessoal que
Abraão empregou em sua consagração. (N.
T.)
“Ó Senhor Deus de Misericórdia; Deus,
Paciente, Benigníssimo e Liberal, que concedeis Vossa Graça de mil maneiras, e
por mil gerações; que esqueceis as iniqüidades, os pecados e as transgressões
dos homens; em cuja Presença ninguém é encontrado inocente; que visitais as
transgressões dos pais para com os filhos e sobrinhos, até a terceira e quarta
gerações; conheço minha miséria e não sou digno de aparecer perante Tua Divina
Majestade, nem mesmo de implorar e buscar Vossa Bondade e Mercê para a mínima
Graça. Mas, ó Senhor dos Senhores, a Fonte de Vossa Bondade é tamanha, que por
Si só chamou aos que estão confundidos por seus pecados e não se atrevem a se
aproximar, e convidou-os a beber de Vossa Graça. Donde, ó Senhor meu Deus,
tende piedade de mim e afastai de mim toda iniqüidade e malícia; limpai minha
alma de toda impureza de pecado; renovai-me em meu Espírito, e confortai-o, de
modo que possa se tornar forte e apto a compreender o Mistério de Vossa Graça,
e os Tesouros de Vossa Divina Sabedoria. Santificai-me também com o Óleo de
Vossa Santificação, com que santificastes todos os Vossos Profetas; e
purificai-me com ele em tudo o que me é pertinente, de modo que possa me tornar
digno da Conversação de Vossos Santos Anjos** e de Vossa Divina Sabedoria, e
concedei-me o Poder que destes a Vossos Profetas sobre todos os Espíritos Maus.
Amém. Amém***.”
** O autor
registra Holy Guardian Angels (Santos
Anjos Guardiões). Este tradutor omitiu Guardiões
por não constar no original transcrito.
(N. T.)
*** Tomei a
liberdade de acrescentar Amém. Amém., por fidelidade ao original transcrito. (N. T.)
Talvez
um dos mais primorosos hinos conhecidos por este autor é um escrito por
Aleister Crowley. Está presente numa peça mística intitulada The
Ship composta há muitos anos atrás e é isento de todas as incômodas
implicações metafísicas constantes em outras orações, as quais tendem a
melindrar sensibilidades filosóficas. Como é, inclusive, em forma poética****,
o efeito é cumulativo, facilitando grandemente o processo de exaltação.
**** É preciso
que o leitor compreenda que, como no caso de demais poesias aqui traduzidas, a
rima é muitas vezes sacrificada em prol da justeza e ritmo do texto em
português. (N. T.)
“Tu que és eu,
além de tudo que sou,
Que não possui nenhuma natureza e nenhum
nome,
Que és quando
todos exceto Tu já se foram,
Tu, centro e segredo
do Sol,
Tu, fonte oculta
de todas as coisas conhecidas
E desconhecidas,
Tu afastado, só,
Tu, o fogo
verdadeiro dentro do junco
Procriando e
criando, fonte e semente
De vida, amor,
liberdade e luz,
Tu que transcende
discurso e visão,
Tu eu invoco, meu
débil e fresco fogo
Acendendo à
medida que meus intentos aspiram.
Tu eu invoco, Tu
que és permanente,
Tu, centro e
segredo do Sol,
E aquele mistério
santíssimo
Do qual eu sou o
veículo.
Aparece,
sumamente terrível e sumamente brando,
Como é lícito, em
Tua criança.
Pois do Pai e do
Filho,
O Espírito Santo
é a norma;
Macho-fêmea,
quintessencial, uno,
Homem-sendo
velado sob forma de mulher.
Glória e
veneração no mais excelso,
Tu Pomba,
humanidade que deifica,
Sendo esta raça
mui realmente governada,
Do brilho do sol
da primavera até a borrasca do inverno.
Que Tu sejas
glorificado e venerado
Seiva do freixo
do mundo, árvore de prodígios!
Glória a Ti que
procedes do Túmulo Dourado.
Glória a Ti que
procedes do Útero que Espera.
Glória a Ti que
procedes da terra não arada!
Glória a Ti que
procedes da virgem que fez voto!
Glória a Ti,
Unidade verdadeira
Da Trindade
Eterna!
Glória a Ti, Tu
genitor e genitora
E eu de Eu sou o que Eu sou!
Glória a Ti, Sol
eterno,
Tu Um
em Três, Tu Três em Um!
Que Tu sejas
glorificado e venerado,
Seiva do freixo
do mundo, árvore de prodígios! “
Nos escritos do mui eminente platonista Thomas Taylor podem ser encontrados
alguns exemplos salutares de hinos e invocações adequados ao trabalho mágico.
Aliás, há uma volume traduzido por Taylor em 1787 do grego intitulado The
Mystical Hymns of Orpheus (Os Hinos Místicos de Orfeu) no qual há
invocações dirigidas a quase cada um dos deuses principais; de sorte que para o
aprendizde teurgia esse volume se destina a ser extremamente útil em seu
trabalho prático, especialmente em vista do fato de Taylor ser da opinião de
que o conteúdo do livro era usado nos Mistérios de Elêusis. Pertencente ao tipo
de oração geral que deve preceder a uma cerimônia, transcrevemos aqui um
notável Hino ao Céu que para seu propósito é incomparável.
“Grande Céu, cuja poderosa estrutura não conhece
repouso,
Pai de tudo de
que o mundo surgiu;
Escutai, pai generoso, origem e desfecho de
tudo,
Para sempre circundando esta esfera
terrestre;
Moradia dos deuses, cujo poder guardião
cerca
O mundo eterno dentro de limites perenes;
Cujo seio amplo e dobras envolventes
Sustentam a necessidade terrível da
natureza.
Etérea, terrestre, cuja estrutura
multivariada,
Cerúlea e plena de formas, nenhum poder é
capaz de domar.
Onividente, fonte de Saturno e do tempo,
Para sempre abençoada, divindade sublime,
Propícia sobre um novo brilho místico,
Coroai seus desejos com uma vida divina.”
No mesmo volume há um Hino
à Mãe dos Deuses que como uma invocação pode ser empregado exatamente da
mesma maneira para preceder o trabalho cerimonial efetivo. É especialmente
digno de ser citado.
“Mãe dos Deuses,
grande ama-seca de todos, aproxima-te
Divinamente honrada e considera minha oração.
Entronizada num carro por leões tirado,
Por leões destruidores de touros, céleres e
fortes,
Tu agitas o cetro da vara divina,
E o assento intermediário do mundo, mui
afamado, é Teu.
Daí a terra é Tua, e mortais necessitados
dividem
Seu alimento constante, a partir de Tua
proteção.
De Ti o mar e todos os rios fluem.
Achamos Teu nome o melhor e fonte de riqueza
Aos homens mortais que se regozijam em ser
bondosos;
Pois a cada bem a ser dado Tua alma se
delicia.
Vem, poder formidável, propício aos nossos
ritos,
Aquela que tudo doma, abençoada, Salvadora
frígia, vem,
Grande rainha de Saturno, que se regozija
no tambor
Donzela celestial, antiga, mantenedora da
vida,
Fúria inspiradora, dá ao Teu suplicante
ajuda;
Com aspecto jubiloso sobre o nosso incenso
brilha
E satisfeita, aceita o sacrifício divino.”
A oração apresentada a seguir é um
extrato de uma cerimônia invocando o Santo Anjo Guardião levada a efeito pelo
falecido Allan Bennett, um dos Adeptos da
Golden Dawn antes de ter ingressado
no sangha budista e ter se tornado bhikkhu Ananda Metteya.
“Que Tu sejas adorado, Senhor da minha
Vida, pois Tu permitiste a mim adentrar até aqui o Santuário de Teu Inefável
Mistério; e te dignaste a manifestar para mim algum pequeno fragmento da Glória
de Teu Ser. Ouve-me, Anjo de Deus, o Vasto; ouve-me e admite minha oração!
Concede que eu sempre sustente o Símbolo do Auto-sacrifício; e concede a mim a
compreensão de tudo que possa me aproximar de Ti! Ensina-me, Espírito
estrelado, mais e mais de Teu Mistério e Tua Maestria; permite que cada dia e
cada hora me deixem mais perto, mais perto de Ti! Permite-me auxiliar-Te em Teu
sofrimento de modo que possa algum dia tornar-me participante de Tua Glória, naquele
dia quando o Filho do Homem for invocado ante o Senhor dos Espíritos, e Seu
Nome na presença da Ancião dos Dias!
“E neste dia ensina-me esta única coisa:
como posso aprender de Ti os Mistérios da
Alta Magia da Luz. Como posso eu ganhar dos Habitantes dos Elementos
brilhantes o conhecimento e poder destes: e como eu posso empregar da melhor maneira esse conhecimento
para ajudar meus semelhantes.
“E finalmente oro a Ti para que possa
haver um laço de Dependência entre nós; que eu possa sempre buscar, e buscando
obter ajuda e conselho de Ti que és minha própria individualidade. E diante de
Ti eu prometo e juro que pelo apoio Daquele que senta no Trono Santo
purificarei meu coração e mente de modo que um dia possa me tornar
verdadeiramente unido a Ti, que és em Verdade meu Gênio Superior, meu Mestre,
meu Guia, meu Senhor e Rei! “
Embora a forma das invocações gnósticas
tenha se tornado bastante conhecida no meio daqueles que estudam magia e
misticismo, há uma invocação particularmente boa que desejo reproduzir aqui,
extraída do manuscrito Bruce. Contém diversos nomes bárbaros evocatórios e foi
proferida por Jesus para a purificação de seus discípulos.
“Ouve-me, ó meu Pai, Pai de toda
Paternidade, Luz Infinita, torna este meus discípulos dignos de receber o
Batismo do Fogo, perdoa seus pecados, purifica as iniqüidades que eles
cometeram consciente ou inconscientemente, aquelas que cometeram desde sua
infância até mesmo aos dias de hoje, suas palavras impensadas, seu discurso
maligno, seus falsos testemunhos, seus furtos, suas mentiras, suas calúnias
enganosas, suas fornicações, seus adultérios, sua cobiça, sua avareza e todos
os pecados que possam ter cometido, apaga-os, purifica-os deles e permita que
ZOROKOTHORA venha em segredo e lhes traga a Água do Batismo do Fogo da Virgem
do Tesouro.
“Ouve-me, ó meu Pai: eu invoco Teus Nomes
Incorruptíveis Ocultos nos Aeons para
sempre, AZARAKAZA AAMATHKRATITATH IOIOIO
ZAMEN ZAMEN ZAMEN
IAOTH IAOTH IAOTH
PHAOPH PHAOPH PHAOPH
KHIOEPHOZPE KHENOBINYTH ZARLAI
LAZARLAI LAIZAI, AMEN
AMEN; ZAZIZAYA NEBEOYNISPH PHAMOY
PHAMOY PHAMOY AMOYNAI
AMOYNAI AMOYNAI AMEN
AMEN AMEN ZAZAZAZI
ETAZAZA ZOTHAZAZAZA. Ouve-me, meu Pai, Pai de todas as
paternidades, Luz Infinita, eu invoco Teus Nomes Incorruptíveis que
estão no Aeon de Luz para que
ZOROKOTHORA me envie a Água do Batismo Ígneo procedente da Virgem de Luz para
que eu possa batizar meus discípulos. Ouve-me novamente, ó meu Pai, Pai de toda
Paternidade, Luz Infinita, para que a Virgem de Luz possa vir, que ela possa
batizar meus discípulos com Fogo, que ela possa perdoar seus pecados, purificar
suas iniqüidades, pois eu invoco Teu Nome Incorruptível que é ZOTHOOZA
THOITHAZAZZAOTH AMEN AMEN
AMEN. Ouve-me também ó Virgem de Luz, ó Juíza da Verdade, perdoa os
pecados de meus discípulos; e se, ó meu Pai, Tu apagares suas iniqüidades,
possam eles ser inscritos herdeiros do Reino da Luz, e para este fim realiza um
milagre sobre estes incensários de suave perfume.”
Pouca engenhosidade da parte do noviço
será exigida para efetuar as necessárias alterações destes rituais de modo a
adaptá-los às suas próprias finalidades. Um pronome aqui mais uma palavra ali e
o resultado é um ritual pessoal. O mesmo se revela verdadeiro no que concerne
aos rituais dos Livro dos Mortos, muitos deles sendo líricos e panegíricos. No
capítulo CLXXXII é apresentada uma curta invocação na qual Thoth é representado
em identificação com os mortos.
“Eu sou Thoth, o escriba perfeito cujas
mãos são puras. Eu sou o Senhor da pureza, o destruidor do mal, o escriba do
correto e da verdade, e o que abomino é o pecado*.”
* O leitor deve
considerar o termo pecado aqui com
certas reservas devido ao significado e conotação que essa palavra adquiriu na
teologia judaico-cristã. É aconselhável prender-se ao sentido original do
vocábulo latino peccatum, a saber:
falta, erro, crime. (N. T.)
“Contempla-me pois eu sou o junco de
escrita do deus Neb-er-tcher, o senhor das leis, que concede a palavra da
sabedoria e do entendimento, e cujo discurso exerce domínio sobre a terra
dupla. Eu sou Thoth, o senhor do correto e da verdade, que faz o fraco
conquistar a vitória e que vinga os infelizes e os oprimidos naquele que lhes
causou dano.
“Eu dispersei as trevas!
“Eu afastei a tempestade, e trouxe o
vento a Un-Nefer, a brisa formosa do vento do norte, mesmo brotando do útero de
sua mãe.
“Eu o fiz ingressar a morada oculta e ele
vivificará a alma do Coração Tranqüilo,
Un-Nefer, o filho de Nuit, Hórus triunfante! “
Ocioso dizer que no emprego da invocação
acima a forma do deus Thoth é magicamente assumida
e o próprio ritual enumera algumas das qualidades e poderes do deus, a
recitação do mesmo auxiliando na união e mescla das substâncias. O exemplar de
ritual dado por E. A. Wallis Budge em The
Gods of the Egyptians (Os Deuses dos
Egípcios) usado como uma invocação de Osíris, constitui um exemplo bem melhor.
Foi necessário fazer uma espécie de edição dele já que era demasiado longo e
disperso.
“Salve, senhor Osíris. Salve, senhor
Osíris. Salve, senhor Osíris.
“Salve, salve, formoso moço, vem ao teu
templo prontamente pois nós não vemos a ti. Salve, formoso moço, vem ao teu
templo e te aproxima após tua partida de nós.
“Salve, tu que comandas ao longo da hora,
que cresces exceto em sua estação. Tu és a imagem exaltada de teu pai Tenen, tu és a essência oculta que provém de
Atmu. Ó tu, Senhor, ó tu Senhor, quão maior és tu que teu pai, ó tu filho
primogênito do útero de tua mãe. Retorna a nós novamente com aquilo que a ti pertence
e nós te abraçaremos; não nos deixa, ó rosto belo e grandemente amado, tu imagem de Tenen, tu, o viril, tu senhor do
amor. Vem em paz e permita-nos ver, ó nosso Senhor ... .
“Salve, Príncipe, que provém do útero
... da matéria primeva. Salve, Senhor de
multidões de aspectos e formas criadas, círculo de ouro nos templos; senhor do
tempo e doador de anos. Salve, senhor da vida por toda a eternidade; senhor de
milhões e miríades, que brilha tanto no nascer quanto no pôr do sol. Salve, tu
senhor do terror, tu, o poderoso do tremor.
“Salve, senhor das multidões de aspectos,
tanto macho quanto fêmea; tu és coroado com a Coroa Branca, tu Senhor da Coroa Urerer. Tu Bebê santo de Her-hekennu, tu
filho de Ra, que senta no Barco de
Milhões de anos, tu Guia do
Repouso! Vem para os teus sítios ocultos.
“Salve, tu senhor que és auto-produzido.
Salve, tu cujo coração é tranqüilo, vem a
tua cidade. Tu, amado dos deuses e deusas que mergulhaste a ti mesmo em
Nu, vem ao teu templo; tu estás no Tuat, vem para tuas oferendas... .
“Salve, tu flor santa da Grande
Casa. Salve, tu que trazes o cordame
santo do barco de Sekti; tu Senhor do
Barco de Hennu que renovas tua juventude no sítio secreto, tu Alma perfeita... Salve, tu oculto, que és
conhecido da humanidade.
“Salve! Salve! Tu efetivamente brilhas
sobre aquele que está no Tuat e efetivamente mostras a ele o Disco, tu Senhor
da Coroa Ateph. Salve, ó poderoso do terror, tu que nasces em Tebas, que
floresces para sempre. Salve, tu alma viva de Osíris coroado com a lua. “
Um outro ritual proveniente de fontes
egípcias é o Hino a Amon-Ra, que reproduzimos aqui a partir do famoso Harris
Magical Papyrus.
“Ó Amon oculto no centro de seu olho,
espírito que brilha no olho sagrado, adoração para os Transformadores Santos,
para aqueles que não são conhecidos! Brilhantes são suas formas veladas num
fulgor de Luz.
“Mistério dos Mistérios, Mistério
Ocultado, Salve Tu no meio dos céus. Tu, que és Verdade, geraste os deuses. Os
signos da Verdade estão em teu misterioso santuário. Por ti se faz tua mãe
Meron brilhar. Tu tornas manifestos raios que iluminam. Tu circundas a Terra
com tua luz até retornares à montanha que está no País de Aker. Tu és adorado
nas águas. A terra fértil te adora. Quando teu cortejo passa pela montanha
oculta o animal selvagem se ergue em sua toca, os espíritos do Oriente te
louvam, temem a luz de teu disco. Os espíritos do Khenac te aclamam quando tua
Luz brilha em seus rostos. Tu atravessas um outro céu que não é possível ao teu
inimigo atravessar. O fogo de teu calor ataca o monstro Ha-her. O peixe Teshtu
guarda as águas ao redor de tua barca. Tu comandas a morada do monstro Oun-ti,
que Nub-ti golpeia com sua espada.
“Este é o deus que se apoderou do céu e
da terra em sua tempestade. Sua virtude é poderosa para destruir seu inimigo.
Sua lança é o instrumento de morte para o monstro Oubn-ro. Agarrando-o
subitamente ele o subjuga; ele se faz mestre dele e o força a reingressar em sua morada; então ele devora
seus olhos e nisto está seu triunfo; o monstro é então devorado por uma chama
ardente; da cabeça aos pés todos os seus membros queimam em seu calor. Tu
trazes teus servos ao porto com um vento favorável. Sob ti, os ventos encontram
paz. Tua barca regozija, tuas sendas são ampliadas porque tu venceste os
caminhos do autor do mal.
“Velejai, estrelas errantes! Velejai,
astros resplandecentes; vós que viajais com os ventos! Pois tu estás repousando
no seio do céu, tua mão te abraça; quando tu chegas ao horizonte ocidental a
terra abre os braços para receber-te. Tu que és venerado por todas as coisas
existentes! “
As poucas últimas linhas da invocação
acima, pode-se notar, se acham num plano muito mais elevado de poesia do que o
corpo principal da invocação. Trata-se de uma peroração extremamente boa. Estes
rituais devem ser objeto de muito estudo e à luz de princípios da Cabala uma
considerável quantidade de filosofia pode deles extraída e neles percebida.
Um ritual que desde algum tempo se tornou
geralmente conhecido como a “Invocação
do Não-nascido” parece a este autor um dos melhores por ele conhecido. O mais
antigo registro que dele se descobriu se acha numa obra intitulada Fragment of a Graeco-Egyptian Work upon Magic (Fragmento
de uma Obra Greco-egípcia sobre Magia), de Charles Wycliffe Goodwin, M. A.,
publicada em 1852 para a Cambridge
Antiquarian Society. Reimpresso no século passado no final da década de
noventa por Budge em Egyptian Magic (Magia Egípcia), esse
ritual tornou-se largamente conhecido entre os devotos da teurgia e foi cuidadosamente editado e
elaborado por magos experientes. Reproduzimos abaixo a versão aperfeiçoada.
“Tu eu invoco, o
Não-nascido.
“Tu que criaste a
Terra e os Céus.
“Tu que criaste a
Noite e o Dia.
“Tu que criaste
as trevas e a Luz.
“Tu és
Osorronophris, que nenhum homem viu em tempo algum.
“Tu és Iabas. Tu
és Iapos. Tu distinguiste entre o justo e o injusto. Tu produziste a fêmea e o
macho.
“Tu produziste a
Semente e o Fruto. Tu formaste homens para se amarem entre si e se odiarem
entre si.
“Eu sou Mosheh*
teu Profeta** ao Qual tu confiaste teus Mistérios, as cerimônias de Israel.
* Aqui o mago
pode inserir seu próprio nome e lugar na hierarquia mágica.
** Moisés. (N. T.)
“Tu produziste o úmido e o seco, e aquilo
que nutre todas as coisas criadas.
“Que tu me ouça, pois eu sou o Anjo de
Paphro Osorronophris; este é Teu Verdadeiro Nome, entregue aos Profetas de
Israel.
“Ouve-me:
Ar: Thiao: Rheibet: Atheleberseth: A ;
Blatha: Abeu: Ebeue: Phi:
Thitasoe: Ib: Thiao.
“Ouve-me e faz todos os Espíritos se
sujeitarem a mim, de maneira que todo espírito do Firmamento e do Éter, sobre a
Terra e sob a Terra, sobre a terra seca e na
Água, do Ar que rodopia e do Fogo impetuoso e cada Encantamento e Flagelo
de Deus possam prestar obediência a mim.
“Eu te invoco, o Deus Terrível e
Invisível, que habitas o Sítio Vazio do Espírito: Arogogorobrao: Sothou:
Modorio: Phalarthao: Doo: Apé:
O Não-nascido.
“Ouve-me e faz todos os Espíritos se
sujeitarem a mim, de maneira que todo espírito do Firmamento e do Éter, sobre a
Terra e sob a Terra, sobre terra seca e na Água, do Ar que rodopia, e do Fogo
impetuoso e todo Encantamento e Flagelo de Deus possam prestar obediência a
mim.
“Ouve-me: Roubriao: Mariodam:
Balbnabaoth: Assalonai: Aphnaio: I ; Thoteth:
Abrasar: Aeoou: Ischure, Poderoso
e Não-nascido.
“Ouve-me e faz todos os Espíritos se
sujeitarem a mim, de maneira que todo espírito do Firmamento e do Éter, sobre a
Terra e sob a Terra, sobre terra seca e na Água, do Ar que rodopia e do Fogo impetuoso
e todo Encantamento e Flagelo de Deus possam prestar obediência a mim.
“Eu te invoco: Ma:
Barraio: Ioel: Kotha:
Athorebalo: Abraoth!
“Ouve-me e faz todos os Espíritos se
sujeitarem a mim, de maneira que todo espírito do Firmamento e do Éter, sobre a
Terra e sob a Terra, sobre terra seca e na Água, do Ar que rodopia e do Fogo
impetuoso e todo Encantamento e Flagelo de Deus possam prestar obediência a
mim.
“Ouve-me! Aoth: Abaoth: Basum:
Isak: Sabaoth: Isa !
“Este é o Senhor dos Deuses! Este é o
Senhor do Universo! Este é Aquele que os Ventos temem!
“Este é Aquele Que tendo feito a Voz por
seu Mandamento é Senhor de todas as Coisas, Rei, Governante e Auxiliador.
“Ouve-me e faz todos os Espíritos se
sujeitarem a mim, de maneira que todo espírito do Firmamento e do Éter, sobre a
Terra e sob a Terra, sobre terra seca e na Água, do Ar que rodopia e do Fogo
impetuoso e todo Encantamento e Flagelo de Deus possam prestar obediência a
mim.
“Ouve-me:
Ieou: Pur ; Iou:
Pur: Iaot: Iaeo: Ioou:
Abrasar: Sabrium: Do:
Uu: Adonaie: Ede: Edu: Angelos ton Theon: Anlala
Lai: Gaia: Ape:
Diarthana Thorun.
“Eu sou Ele! O Espírito Não-nascido!
tendo visão nos Pés! Forte e o Fogo Imortal!
“Eu sou Ele! A Verdade!
“Eu sou
Ele! Quem odeia que o mal seja lavrado no
Mundo!
“Eu sou
Aquele que ilumina e troveja. Eu sou Aquele do Qual procede a Abundância
da Vida da Terra: Eu sou Aquele cuja
boca sempre flameja: Eu sou Ele: O Gerador e o Manifestador diante da Luz.
“Eu sou Ele: A Graça do Mundo!
“ ‘O Coração com uma Serpente como Cinta
‘ é o meu Nome!
“Vem e segue-me, e faz todos os Espíritos
se sujeitarem a mim, de maneira que todo espírito do Firmamento e do Éter,
sobre a Terra e sob a Terra, sobre terra seca e na Água, do Ar que rodopia e do
Fogo impetuoso e todo Encantamento e Flagelo de Deus possam prestar obediência
a mim.
IAO: SABAO
“ Tais são as palavras! “
Talvez um tipo ainda melhor de invocação
aos deuses é o que apresentaremos a seguir. Há muitos teurgos que o preferem,
como modalidade de ritual, ao precedente. A invocação de Thoth que citarei se
baseia muito largamente no Livro dos Mortos, principalmente no capítulo da Saída
pelo Dia e uma seção contendo uma alocução sacerdotal ao faraó citada por
Maspero. O ritual completo, entretanto, não mostra quaisquer sinais de colcha
de retalhos, sendo perfeitamente coerente, consistente e estático.
“Ó Tu, Majestade da Divindade, Tahuti
Coroado de Sabedoria, Senhor dos Portais do Universo, a Ti, a Ti eu invoco!
“Ó Tu cuja cabeça é como uma Íbis, a Ti,
a Ti eu invoco!
“Tu que seguras em Tua mão direita o
bastão mágico do Poder Duplo e que portas em tua mão esquerda a Rosa e a Cruz
da Luz e da Vida, a Ti, a Ti eu invoco!
“Tu cuja cabeça é como Esmeralda, e cuja nêmis como o azul do céu noturno, a Ti,
a Ti eu invoco!
“Tu cuja pele é de laranja flamejante
como se ardesse numa fornalha: a Ti, a Ti eu invoco!
“Vê, eu sou ontem, Hoje e o irmão do
Amanhã! Eu nasço de novo e de novo. A mim pertence a força invisível da qual os
deuses se originam, a qual dá vida aos habitantes das torres de vigia do
Universo.
“Eu sou o auriga no Oriente, Senhor do
Passado e do Futuro, o qual vê por sua própria luz interior. Eu sou o Senhor da
Ressurreição, que assoma do crepúsculo e cujo nascimento procede da Casa da
Morte. Ó vós dois falcões divinos que sobre vossos pináculos mantêm a
vigilância do Universo! Vós que acompanhais o esquife a sua Casa de Repouso,
que pilotam o Barco de Ra sempre avançando às alturas do céu! Senhor do
Santuário que fica no centro da Terra!
“Vê! Ele está em mim e Eu Nele! Meu é o
brilho com o qual Ptah flutua sobre seu firmamento! Eu viajo pelas alturas!
Eu piso o firmamento de Nu! Eu ergo uma flama cintilante com o relâmpago de meu
olho, sempre investindo para a frente no esplendor do diariamente glorificado
Ra, outorgando minha vida aos habitantes da Terra. Se eu digo Subi
às montanhas as águas celestiais fluirão ante minha palavra, pois eu sou Ra
encarnado; Kephra criado na carne! Eu sou o eidolon
do meu Pai Tmu, Senhor da Cidade do Sol.
“O deus que comanda está em minha boca. O
Deus da Sabedoria está em meu coração. Minha língua é o santuário da Verdade; e
um deus senta sobre meus lábios. Minha palavra é comprida todos os dias e o
desejo de meu coração realiza a si mesmo como aquele de Ptah quando ele cria
suas obras. Visto que eu sou Eterno tudo atua de acordo com meus desígnios, e
tudo acata minhas palavras.
Portanto que Tu venhas a Mim de Tua
Morada no Silêncio, Sabedoria Impronunciável, Toda-Luz, Toda-Poder.
“Thoth, Hermes, Mercúrio, Odin. Por
qualquer nome que chame a Ti, Tu és ainda
i-Nomeado e Sem Nome para a
Eternidade. Que tu venhas, eu digo, e ajuda-me e guarda-me nesta obra da Arte.
“Tu estrela do Oriente que realmente
conduziste os Magos. Tu estás identicamente toda presente no Céu e no Inferno.
Tu que vibras entre a Luz e as Trevas, ascendendo, descendo, mudando para
sempre, e no entanto sempre a mesma. O Sol é Teu Pai! Tua Mãe, a Lua! O Vento
Te gerou em seu seio: E a terra sempre nutriu a Divindade Imutável de Tua
Juventude.
“Vem, eu digo, vem e faz todos os
espíritos se sujeitarem a mim, de maneira que todo espírito do Firmamento e do
Éter, sobre a Terra e sob a Terra, sobre terra seca e na Água, do Ar que
rodopia e do Fogo impetuoso e todo encantamento e flagelo de Deus possam
prestar obediência a mim! “
Poucos entre os aprendizesde magia da
atualidade sabem que o grande neoplatônico Proclo compôs vários hinos e
invocações. A maior parte, infelizmente, se perdeu, apenas uns poucos tendo
sido preservados e nos tornado acessíveis. Thomas Taylor traduziu cinco desse
hinos e os publicou em 1793 num apêndice do seu livro intitulado Sallust
on the Gods and the World. Todos os
cinco são sumamente bons e será proveitoso que o aprendizse familiarize com
eles. A fim de dar uma idéia do seu valor,
reproduzimos aqui o Hino ao Sol.
“Ouve Titã
dourado! Rei do fogo mental,
Regente da luz; a Ti supremo pertence
A chave esplêndida da fonte prolífica da
vida;
E das alturas Tu vertes correntes harmônicas
Em rica abundância nos mundos da matéria.
Ouve! pois elevado nas alturas acima de
planícies etéreas,
E no brilhante orbe intermediário do mundo
Tu reinas
Enquanto todas as coisas por Teu soberano
poder são preenchidas
Com zelo que estimula a mente, providencial.
Os fogos das estrelas circundam Teu fogo
vigoroso,
E sempre numa dança infatigável, incessante,
Sobre a terra de seios largos o rocio
vívido se difunde.
Por Teu curso perpétuo e reiterado
As horas e estações em sucessão de
desenrolam;
E elementos hostis cessam seus conflitos,
Logo que contemplam Teus raios tremendos,
grande Rei;
De divindade inefável e nascido secreto...
Ó melhor dos deuses, dáimon coroado de fogo,
Imagem de todo o bem que a natureza
produz,
E o condutor da alma ao domínio da luz –
Ouve! e purifica-me das manchas da culpa;
Recebe a súplica de minhas lágrimas,
E cura minhas feridas maculadas de
pernicioso sangue coagulado;
Os castigos incorridos pelo pecado
perdoa,
E mitiga o olho ágil, sagaz
Da justiça sagrada, sem limites em seu
parecer.
Por Tua lei pura, dos males horrendos
constante inimiga,
Dirige meus passos, e despeja Tua luz
sagrada
Em rica abundância sobre minha alma
anuviada;
Dissipa as sombras sinistras e malignas
De escuridão, prenhes de aflições
envenenadas,
E ao meu corpo força adequada
proporciona,
Com saúde, cuja aparência esplêndidas
dádivas concede.
Dá fama duradoura; e possa o zelo sagrado
Com o qual as musas de belos cabelos
presenteiam, que outrora
Meus pios ancestrais preservaram, ser
meu.
Ajunta, se a Ti agrada, onigeneroso deus,
Riquezas duradouras, a recompensa do
piedoso;
Pois poder onipotente investe Teu trono,
Com força imensa e regra universal.
E se o eixo giratório dos destinos
Ameaçar das teias de estrelas a
destruição medonha,
Teus raios retumbantes com força
irresistível serão enviados .
E vencerão antes de precipitar-se a
calamidade iminente. “
Desejo apresentar mais uma invocação desta mesma categoria antes de
prosseguir fazendo citações dos rituais usados em cerimônias de evocação. Fui obrigado, infelizmente, a
omitir grande parte do ritual abaixo, por motivos de espaço, e tal como
apresentado aqui corresponde a aproximadamente à metade de sua extensão correta.
Escrito por Crowley e publicado por ele em Oracles
é baseado em certas fórmulas mágicas e documentos que eram usados na Ordem Hermética da Golden Dawn. Sua
excelência e fervor dispensam meus comentários.
“Ó Eu divino! Ó
Senhor Vivo de Mim!
Flama de fulgor próprio, gerada do além!
Divindade imaculada! Célere língua de fogo,
Acesa a partir daquela incomensurável luz,
O ilimitado, o imutável. Vem,
Meu deus, meu amante, espírito do meu
coração,
Coração de minha alma, branca virgem da Aurora,
Minha Rainha de toda perfeição, vem
De Tua morada além dos Silêncios
A mim, o prisioneiro, eu, o homem mortal,
Feito santuário neste barro: vem, eu digo, a
mim,
Inicia minha alma excitada; aproxima-te
E deixa a glória de Tua Divindade brilhar
Mesmo para a Terra, Teu plinto ... .
Tu Anjo Majestoso de minha Vontade Superior,
Forma em meu espírito um fogo mais sutil
De Deus, para que eu possa compreender mais
A pureza sagrada de Tua divina
Essência! Ó Rainha, ó Deusa da minha vida,
Luz não-gerada, faísca cintilante
Do Todo-Eu! Ó Santa, santa Esposa
De meu pensamento mais à divindade semelhante,
vem! Eu digo
E Te manifesta ao Teu venerador...
Meu Eu real! Vem, ó deslumbrante
Envolvida na glória do Sítio Sagrado
De onde chamei a Ti: Vem a mim
E permeia meu ser até que meu rosto
Brilhe com Tua luz refletida, até que minhas
sobrancelhas
Raiem com Teu símbolo estrelado, até que minha
voz
Alcance o Inefável; vem, eu digo,
E faz-me uno Contigo; que todos os meus
caminhos
Possam resplandecer com a santa influência
Que eu possa ser julgado digno no fim
Para sacrificar perante o Santíssimo...
Ouve-me!
Eca,
zodocare, Iad, goho,
Torzodu odo Kikale qaa!
Zodacare od zodameranu!
Zodorje, lape
zodiredo Ol
Noco Mada, das
Iadapiel!
I las! Hoatahe
Iaida!
Ó coroada com a
luz das estrelas! alada com esmeraldas
Mais larga que o
Céu! Ó azul mais profundo
Do abismo das
águas! Ó Tu flama
Que cintila
através de todas as cavernas da noite,
Línguas saltando
do incomensurável
Subindo através
dos resplandecentes precipícios imanifestos
Para o Inefável!
Ó Sol Dourado!
Glória vibrante
do meu Eu superior!
Eu ouvi Tua voz ressoando no Abismo:
‘Eu sou o único
Ser nas profundezas
Da Escuridão: deixa-me ascender e preparar-me
Para trilhar o caminho das Trevas: mesmo assim
Posso atingir a luz. Pois do Abismo
Vim antes de meu nascimento: destes salões
sombrios
E silêncio de um sono primevo! E Ele,
A Voz das Idades, respondeu-se e disse:
Vê! Pois eu sou Aquele que formula
Na Escuridão! Filho da Terra! a luz com efeito
brilha
Nas trevas, mas as trevas não entendem
Raio algum dessa luz iniciadora!
...
Não me deixa só,
Ó Espírito
Sagrado! Vem para confortar-me,
Atrair-me e
fazer-me manifesto,
Osíris ao mundo
choroso; que eu
Seja erguido
sobre a Cruz do Sofrimento
E do sacrifício,
para atrair toda a espécie humana
E todo germe de
matéria que possua vida,
Mesmo depois de
mim, ao inefável
Reino de Luz! Ó
santa, santa Rainha!
Pemite que Tuas
amplas asas me abriguem!
Eu
sou a Ressurreição e a Vida!
O Reconciliador
da Luz e das Trevas,
Eu sou Aquele que
resgata as coisas mortais,
Eu sou a Força na
Matéria manifesta.
Eu sou a
Divindade manifesta na carne.
Eu me posto
acima, entre os Santos,
Eu sou todo
purificado através do sofrimento.
Todo-perfeito no
sacrifício místico,
E no conhecimento
de minha Individualidade feito
Uno com os
Senhores Eternos da Vida
O glorificado
pelo julgamento é o meu Nome.
O Resgatador da
Matéria é meu Nome ... .
Eu vejo as Trevas
se precipitarem como o raio se precipita!
Eu observo as
Idades como uma agitação de torrentes
Passando por mim;
e como uma veste eu me livro
Das abas
pegajosas do Tempo. Meu lugar está fixo
No Abismo além de
todas as Estrelas e todos os Sóis.
EU SOU a Ressurreição
e a Vida.
Santo
és Tu, Senhor do Universo!
Santo és Tu, Cuja
Natureza não se formou!
Santo és Tu, o
Vasto e Poderoso!
Ó Senhor das
Trevas e ó Senhor da Luz! “
Num dos capítulos anteriores foi feita
alguma referência às invocações de
Dee e ao poder destas. Os fatos que marcam estas invocações ou chaves como
foram chamadas, são, a grosso modo, os seguintes. Mais de uma centena de
páginas preenchidas de letras foram obtidas por Dee e seu colega Kelly de uma
maneira que ninguém ainda em absoluto compreendeu. Dee teria, por exemplo,
diante de si uma ou mais dessas tabelas, via de regra de 49” X 49”, algumas
cheias, algumas com letras apenas sobre quadrados alternados, na superfície de
uma escrivaninha. Sir Edward Kelly sentaria junto ao que eles chamavam de Mesa Sagrada
e fitaria uma bola de cristal ou cristal no qual, depois de algum tempo, veria
um Anjo que apontaria com um bastão para as
letras de uma daquelas tabelas sucessivamente. A Dee, Kelly comunicaria que o Anjo apontava, por
exemplo, a coluna 4, fileira 29 da tabela, aparentemente não mencionando a
letra que Dee encontrava na tabela diante de si e registrava. Quando Anjo
terminava sua instrução, a mensagem era reescrita de trás para diante. Teria
sido ditada totalmente errada pelo Anjo por ser considerada demasiado perigosa
para ser comunicada de uma maneira direta, cada palavra sendo uma conjuração
tão poderosa que sua enunciação e menção diretas teriam evocado poderes e
forças naquele momento indesejáveis.
Reescritas ao inverso, essas invocações
pareciam escritas numa linguagem que os dois magos chamavam de enoquiano. Longe de se tratar de um
jargão sem significado, o enoquiano possui gramática e sintaxe próprias, como
pode ser percebido pela consulta de Casaubon que traduziu muitas das chaves.
Muitos o julgam bem mais sonoro e expressivo que o próprio grego e o sânscrito,
as traduções para o inglês, embora em alguns trechos de difícil compreensão,
contendo maravilhosas passagens detentoras de uma sustentada sublimidade e uma potência lírica
que muitos poetas e até a Bíblia não superam.
Por exemplo: “Podem as Asas do Vento
compreender vossas vozes de Prodígio? Ó vós o Segundo do Primeiro, quem as
chamas ardentes acomodaram nas profundezas de minhas Maxilas! Quem eu preparei
como taças para um casamento ou como flores em sua beleza para a câmara da
Justiça. Vossos pés são mais vigorosos do que a pedra infrutífera: e vossas
vozes mais fortes que os ventos múltiplos! Pois vós vos tornais uma construção
tal como não é exceto na mente do Todo-Poderoso. “
Existem dezenove dessas Chaves; as duas
primeiras evocam o elemento chamado Espírito,
as dezesseis seguintes invocam os quatro elementos, cada uma com quatro
subdivisões. A décima nona pode ser empregada para invocar qualquer um dos
chamados Trinta Aethyrs pela mudança de uma ou duas
palavras especiais. Cito abaixo mais uma dessas chaves em enoquiano seguida
de uma tradução:.
“ Ol Sonuf Vaoresaji, gohu IAD Balata,
elanusaha caelazod; sobrazod ol Roray i ta nazodapesad, Giraa ta maelpereji,
das hoel ho qaa notahoa zodimezod, od comemahe ta nobeloha zodien; soba tahil
ginonupe perje aladi, das vaurebes obolehe giresam. Casarem ohorela caba
Pire: das zodonurenusagi cab: erem Iadanahe. Pilae farezodem zodernurezoda
adana gono Iadapiel das homo-tohe; soba ipame lu ipamis: das sobolo vepe zodomeda poamal, od bogira
sai ta piapo Piamoel od Vaoan. Zodacare, eca od zodameranu! odo cicale Qaa;
zodorje, lape zodiredo Noco Mada, Hathahe IAIDA! “
“Eu reino sobre vós, diz o Deus da
Justiça, em poder exaltado acima do Firmamento da Ira, em cujas mãos o Sol é
como uma espada e a Lua como um fogo penetrante; quem mede vossas Vestes no
meio de minhas Vestimentas e vos atou como as palmas de minhas mãos; cujos
assentos eu guarneci com o Fogo da Coleta
e embelezei vossas vestes com admiração; para quem eu produzi uma lei
para governar o Santíssimo, e entreguei a vós uma Vara , com a Arca do
Conhecimento. Ademais, vós erguestes vossas vozes e jurastes obediência e fé
Àquele que vive e triunfa, cujo princípio não é, nem o fim pode ser; que brilha
como flama no meio de vossos palácios e reina entre vós como o equilíbrio da
justiça e da verdade.
“Movei, pois, e mostrai-vos! Abri os
mistérios de vossa criação. Sede amistosos comigo pois eu sou servo do mesmo
Deus que é o vosso, o verdadeiro Adorador do Altíssimo.”
Embora via de regra os exemplares de
rituais apresentados por Éliphas Lévi em seus diversos escritos sejam de
qualidade muito precária e não se prestam em absoluto ao seu emprego prático,
há uma notável exceção em seu Dogma e
Ritual de Alta Magia. Ele chama este ritual de Oração aos Silfos.
“Espírito de Luz, Espírito de Sabedoria,
cujo alento concede e retira a forma de todas as coisas; Tu diante de quem a
vida de todo ser é uma sombra que transforma e um vapor que desvanece; Tu que
ascendes às nuvens e com efeito voas sobre as asas do vento; Tu que expiras e
as imensidades ilimitadas são povoadas; Tu que aspiras e tudo que de Ti brotou
a Ti retorna; movimento sem fim na estabilidade eterna, sê Tu abençoado para
sempre!
“Nós Te louvamos, nós Te abençoamos no
império fugaz da luz criada, das sombras, reflexões e imagens: e nós aspiramos
incessantemente ao Teu esplendor imutável e imperecível. Possa o raio de Tua
inteligência e o calor de Teu amor descer sobre nós; que aquilo que é volátil
será fixo, a sombra se converterá em corpo, o espírito do ar receberá uma alma
e o sonho será pensamento. Não mais seremos varridos ante a tempestade, mas
teremos à rédea os corcéis alados da manhã e guiaremos o curso dos ventos da
noite, de modo que possamos fugir para a Tua presença. Ó Espírito dos
Espíritos, ó Alma eterna das Almas, ó Imperecível Alento da Vida, ó Suspirar
Criativo, ó Boca que com efeito expira e retrai a vida de todos os seres no
fluxo e refluxo de Teu eterno discurso, que é o oceano divino de movimento e de
verdade! “
Todos os
rituais seguintes tratam do ramo da magia que diz respeito à evocação dos espíritos e exige poucos
comentários ou explicações além do que já
foi fornecido nos capítulos em que esse assunto é abordado. A forma da
Segunda Conjuração de A Goécia, o melhor desta obra, é assim:
“Eu te invoco, conjuro e ordeno, Tu
espírito N., a aparecer e te mostrares visivelmente a mim diante deste círculo, sob aspecto atraente e
agradável, destituído de qualquer deformidade ou tortuosidade, pelo nome e no
nome IAH e VAU, que Adão ouviu e falou;
e pelo nome de Deus AGLA, que Lot ouviu e foi salvo com sua família; e pelo
nome IOTH que Jacó ouviu do Anjo em luta com ele e foi liberto da mão de Esaú,
seu irmão; e pelo nome ANAPHAXETON, que Aarão ouviu e falou e foi feito sábio;
e pelo nome ZABAOTH, que Moisés nomeou, e todos os rios foram transformados em
sangue; e pelo nome ASHER EHYEH ORISTON, que Moisés nomeou e todos os rios
produziram rãs e estas entraram nas casas destruindo todas as coisas; e pelo
nome ELION, que Moisés nomeou e houve grande chuva de granizo como jamais
houvera desde o princípio do mundo; e pelo nome ADONAI, que Moisés nomeou e ali
surgiram gafanhotos que se espalharam por toda a terra, e devoraram tudo que a
granizo deixara; e pelo nome SCHEMA AMATHIA, que Josué invocou e o sol
suspendeu seu curso; e pelo nome ALPHA e OMEGA, que Daniel nomeou e destruiu
Bel e matou o dragão; e no nome EMMANUEL, que as três crianças, Shadrach,
Meshach e Abednego, entoaram no meio da fornalha ígnea, e foram libertados; e
pelo nome HAGIOS; e pelo Selo de ADONAI; e por ISCHYROS, ATHANATOS, PARACLETOS;
e por O THEOS, ICTROS, ATHANATOS e por estes três nomes secretos AGLA ON
TETRAGRAMMATON eu intimo e constranjo a ti. E por estes nomes, e por
todos os outros nomes do Deus VIVO e VERDADEIRO, o SENHOR TODO-PODEROSO, e
exorcizo e ordeno a ti, ó espírito N.,
mesmo por Aquele que proferiu a Palavra e foi feito, e ao qual todas as
criaturas obedecem; e pelos terríveis julgamentos de Deus; e pelo incerto Mar de
Vidro que está diante da Majestade divina, vigorosa e poderosa; pelas
quatro bestas perante o trono que têm olhos na frente e atrás; pelo fogo ao
redor do trono; pelos santos anjos do Céu; e pela poderosa sabedoria de Deus,
eu com poder exorcizo a ti para que apareças aqui diante deste círculo a fim de satisfazer minha
vontade em todas as coisas que a mim se afigurarão boas; pelo Selo de BASDATHEA
BALDACHIA; e por este nome PRIMEUMATON, que Moisés nomeou, e a terra se abriu e
com efeito tragou Kora, Dathan e Abiram. Por conseguinte, tu darás respostas
fidedignas a todas as minhas demandas, ó espírito
N., e realizarás todos os meus desejos na medida da capacidade de tua
posição. Portanto, vem, visível, pacífica e afavelmente, agora sem demora, a
fim de manifestar aquilo que eu desejo, falando com voz clara e perfeita,
inteligivelmente, e para meu entendimento.”
Em
The Magus, Barrett apresenta uma ligeira variação do ritual acima. Idêntico à
versão da Goécia até o trecho que
menciona Kora, Dathan e Abiram, excetuando alguma alterações secundárias,
principalmente referentes a nomes, segue-se uma seção inteira que é exclusiva
ao ritual de Barrett, merecendo a citação aqui devido à presença dos nomes bárbaros.
“E no poder daquele nome PRIMEUMATON,
comandando toda a hoste do céu, nós vos amaldiçoamos e vos despojamos de vossa
função, alegria e posição e com efeito vos prendemos nas profundezas do poço de
fundo para que aí permaneçais até o dia terrível do juízo final; e vos
prendemos ao fogo eterno, e ao lago de fogo e enxofre, a menos que apareçais
incontinenti diante deste círculo para executar nossa vontade; por conseguinte,
vinde por estes nomes ADONAI, ZABAOTH, ADONAI, AMIORAM, vinde, vinde, vinde, Adonai
ordena; Sadai, o mais poderoso Rei dos Reis, cujo poder nenhuma criatura é
capaz de resistir seja para vós sumamente medonho, a menos que obedeceis, e de
imediato aparecei afavelmente diante
deste círculo, que a chuva do infortúnio e o fogo inextinguível permaneçam com
vós; e portanto vinde em nome de Adonai, Zabaoth, Adonai, Amioram; vinde,
vinde, vinde, por que retardais? Apressa-vos! Adonai, Sadai, o Rei dos Reis vos
ordenam: El, Aty, Titcip, Azia, Hin, Hen, Miosel, Achadan, Vay, Vaah, Eye, Exe,
A, El, El, El, A, Hau Hau, Vau, Vau, Vau.”
Dos métodos de Honório* extraí a
invocação que se segue, tendo-a condensado ligeiramente. Porquanto se trata de
uma evocação do espírito Rei Amaimon,
que figura como um dos hierarcas em A
Goécia, e visto que sua comemoração tem teor cristão, é reproduzida abaixo
para que uma comparação possa ser efetuada com o ritual precedente, de teor
judaico.
* Papa Honório
III, pontífice de 1216 a 1227. (N. T.)
“Ó tu Amaimon, Rei e Imperador das partes
do norte, eu te chamo, invoco, exorcizo e conjuro pela virtude de poder do
Criador, e pela virtude das virtudes, a me enviar logo e sem demora Madael, Laaval, Bamlahe, Belem e Ramath, com
todos os outros espíritos submetidos a ti, sob forma agradável e humana! Em
qualquer lugar que estejas agora, aproxima-te e rende aquela honra que deves ao
verdadeiro Deus vivo que é teu Criador. Eu te exorcizo, te invoco e sobre ti
imponho o mais elevado mandamento pela onipotência do Deus sempre vivo, e do
Deus verdadeiro; pela virtude do Deus santo e o poder DELE que falou e todas as
coisas foram feitas, e mesmo pelo Seu santo mandamento os céus e a Terra foram
feitos, com tudo que neles está contido!
Eu intimo a ti pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo, mesmo pela
Santa Trindade, pelo Deus ao qual não
podes resistir, sob cujo império compelirei a ti: eu te conjuro por Deus-Pai,
pelo Deus-Filho, pelo Deus-Espírito Santo, pela Mãe de Jesus Cristo, Santa Mãe
e Perpétua Virgem, por seu sagrado coração, por seu leite abençoado que o Filho
do Pai sugava, por seu corpo e alma santíssimos, por todas as partes e membros
dessa Virgem, por todos os sofrimentos, aflições, trabalhos, agonias que ela
suportou durante todo o curso da vida Dele, por todos os suspiros que ela deu,
pelas santas lágrimas que ela verteu enquanto seu querido Filho chorava antes
da ocasião de Sua dolorosa Paixão e sobre o madeiro da Cruz, por todas as
coisas sagradas e santas que são ofertadas e feitas, e também por todas as
outras, tanto no céu como na Terra em honra de nosso Salvador Jesus Cristo, e
de Maria Abençoada, Sua Mãe, por tudo que seja celestial. Conjuro-te pela Santa
Trindade, pelo sinal da Cruz, pelo mais precioso sangue e água que jorraram do
flanco de Jesus, pelo suor que escorreu de todo Seu corpo, quando Ele disse no
Jardim das Oliveiras: ‘Pai, se for tua vontade, afasta de mim este Cálice’;
por Sua
morte e paixão, por Seu sepultamento e gloriosa ressurreição, por Sua
ascensão, conjuro-te também pela coroa de espinhos que foi colocada sobre Sua
cabeça, pelo sangue que escorreu de Seus pés e mãos, pelos pregos com os quais
Ele foi pregado ao madeiro da Cruz, pelas lágrimas santas que Ele derramou, por
tudo que Ele sofreu voluntariamente por grande amor a nós, por todos os membros
de nosso Senhor Jesus Cristo.
“Eu te conjuro pelo julgamento dos vivos
e dos mortos, pelas palavras do Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, pelas
Suas pregações, por seus dizeres, por todos Seus milagres, pela criança em
faixas, pela criança chorosa gerada pela mãe em seu útero mais puro e virginal,
pela gloriosa intercessão da Virgem Mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, e por
tudo que é de Deus e da Mãe Santíssima,
tanto no céu como na Terra. Eu te conjuro, ó tu grande Rei Amaimon, pelos Santos
Anjos e Arcanjos, e por todas as ordens abençoadas de espíritos, pelos santos patriarcas e profetas, e por todos os
santos mártires e confessores, por todas as virgens santas e viúvas inocentes,
e por todos os Santos de Deus.”
Muito similar a este ritual é o que se
segue, transcrito de A Chave de Salomão,
o Rei. Trata-se, entretanto, de uma invocação cabalística, não contendo
quaisquer elementos. O principal ponto a despertar interesse é que depois do
proêmio, cada parágrafo é uma conjuração por e através do nome e poder de cada
uma das Sephiroth da Árvore da Vida.
Este ritual é o primeiro ritual evocatório da Chave, o segundo sendo muito semelhante realmente à segunda
conjuração da Goécia.
“Ó vós Espíritos, vós eu conjuro pelo
Poder, Sabedoria e Virtude do Espírito de Deus, pelo incriado Conhecimento
Divino, pela extensa Misericórdia de Deus, pela Força de Deus, pela Grandeza de
Deus, pela Unidade de Deus, e pelo Nome Santo EHEIEH, que é a raiz, tronco,
fonte e origem de todos os outros nomes divinos, daí extraindo todos eles sua
vida e sua virtude as quais tendo Adão invocado, adquiriu ele o conhecimento de
todas as coisas criadas.
“Eu vos conjuro pelo nome
indivisível IOD, que marca e expressa a
Simplicidade e a Unidade da Natureza Divina, que tendo Abel invocado mereceu
escapar das mãos de Caim, seu irmão.
“Eu vos conjuro pelo nome TETRAGRAMMATON
ELOHIM, que expressa e significa a Grandeza de uma Majestade tão sublime, que
tendo Noé o pronunciado, o salvou e protegeu a ele mesmo com toda sua casa das
Águas do Dilúvio.
“Eu vos conjuro pelo nome do Deus EL
forte e prodigioso, que denota a Misericórdia e Bondade de Sua Majestade
Divina, que tendo Abraão o invocado, foi julgado digno de vir da ur dos
caldeus.
“Eu vos conjuro pelo mais poderoso nome
de ELOHIM GIBOR, que exibe a força de Deus, de um Deus todo-poderoso, que pune
os crimes dos perversos, que busca e castiga as iniqüidades dos pais sobre os
filhos até a terceira e quarta gerações; que tendo Isaque invocado, foi julgado
digno de escapar da espada de Abraão, seu pai.
“Eu vos conjuro e vos exorcizo pelo nome
mais santo de ELOAH VA-DAATH, que Jacó invocou quando mergulhado em grande
problema, e foi julgado digno de ostentar o nome de Israel, que significa
Vencedor de Deus, e foi libertado da fúria de Esaú, seu irmão.
“Eu vos conjuro pelo nome mais potente de
EL ADONAI TSABAOTH, que é o Senhor dos Exércitos, governando nos Céus, que José
invocou, e foi julgado digno de escapar das mãos de seus Irmãos.
“Eu vos conjuro pelo nome mais potente de
ELOHIM TSABAOTH, que expressa piedade, misericórdia, esplendor e conhecimento
de Deus, o qual foi invocado por Moisés, ele foi julgado digno de libertar o
povo de Israel do Egito, e da servidão ao Faraó.
“Eu vos conjuro pelo mais potente nome de
SHADDAI, que significa fazer o bem a todos; e que Moisés invocou e tendo
golpeado o Mar, este se dividiu em duas partes ao meio, do lado direito e do
esquerdo. Eu vos conjuro pelo mais santo nome de EL CHAI, que é aquele do Deus
Vivo, de cuja virtude a aliança conosco e a redenção para nós foram feitas; e
que Moisés invocou e todas as águas retornaram ao seu estado prévio e
envolveram os egípcios, de modo de nenhum
deles escapou para levar as notícias à terra de Mizraim.
“Finalmente, eu vos conjuro todos, vós
Espíritos rebeldes, pelo mais Santo Nome de Deus ADONAI MELEKH, que Josué
invocou e interrompeu o curso do Sol em sua presença através da virtude de
Methraton, sua principal Imagem; e pelas tropas de Anjos que não cessam de
chorar dia e noite, QADOSCH, QADOSCH, QADOSCH, ADONAI ELOHIM
TSABAOTH, que é Santo, Santo, Santo, Senhor-Deus das Hostes, Céu e Terra
estão repletos de Tua Glória; e pelos Dez Anjos que presidem às Dez Sephiroth,
pelas quais Deus comunica e estende Sua influência sobre coisas inferiores, as
quais são Kether, Chokmah, Binah,
Gedulah,* Geburah, Tiphareth, Netsach, Hod, Yesod e Malkuth.
* Ou Chesed. (N. T.)
“Eu vos conjuro novamente, ó Espíritos
por todos os Nomes de Deus e por todas Suas obras maravilhosas; pelos céus;
pela Terra; pelo mar; por toda a profundidade do Abismo e por aquele firmamento
que o próprio Espírito de Deus moveu; pelo sol e pelas estrelas; pelas águas e
pelos mares e tudo neles contido; pelos ventos, os remoinhos e as tempestades;
pelas virtudes de todas as ervas, plantas e pedras; por tudo que está nos céus,
sobre a Terra e em todos os Abismos das Sombras.
“Eu vos conjuro novamente e vos incito
poderosamente, ó Demônios, em qualquer parte que vós podeis estar, que sejais
incapazes de permanecer no ar, fogo,
água e terra ou em qualquer parte do universo ou em qualquer sítio agradável
que possa vos atrair, mas que vós venhais prontamente cumprir nosso desejo e
todas as coisas que exigimos de vossa obediência.
“Eu vos conjuro novamente pelas duas
Tábuas da Lei, pelos cinco livros de Moisés, pelas Sete Lâmpadas Ardentes no
Castiçal de Deus ante a face do Trono da Majestade de Deus, e pelos Santo dos
Santos onde se permitiu a entrada apenas a KOHEN HA-GODUL, ou seja, o Alto
Sacerdote.
“Eu vos conjuro por Aquele que criou os
céus e a Terra e que mediu esses céus no oco de Sua mão e encerrou a Tera com
três de Seus dedos, que está sentado sobre o Querubim e sobre o Serafim e junto ao Querubim, que é chamado de Kerub,
que Deus constituiu e colocou para guardar a Árvore da Vida, armado de uma
espada flamejante, depois que o Homem tinha sido expulso do Paraíso.
“Eu vos conjuro novamente, Apóstatas de
Deus, por Ele que sozinho executou grandes maravilhas, pela Jerusalém
celestial; e pelo Mais Santo Nome de Deus em Quatro Letras, e por Aquele que
ilumina todas as coisas e brilha sobre todas as coisas pelo seu Nome Venerável
e Inefável, EHEIEH ASHER AHEIEH, que vinde imediatamente para realizar nosso
desejo, qualquer que seja ele.
“Eu vos conjuro e vos ordeno em absoluto,
ó Demônios, em qualquer parte do Universo que podeis estar, pela virtude de
todos estes Nomes Santos: ADONAI, YAH, HOA, EL ELOHA, ELOHINU, ELOHIM, EHEIEH,
MARON, KAPHU, ESCH, INNON, AVEN, AGLA, HAZOR, EMETH YIII ARARITHA, YOVA HAKABIR
MESSIACH, IONAH MALKA, EREL KUZU, MATZPATZ, EL SHADDAI; e por todos os Nomes
Santos de Deus que foram escritos com sangue no sinal de uma eterna aliança.
“Eu vos conjuro novamente por estes
outros nomes de Deus, Santíssimos e desconhecidos, por virtude dos quais vós
tremeis todos os dias: BARUC, BACURABON, PATACEL, ALCHEEGHEL AQUACHI, HOMORION,
EHEIEH, ABBATON, CHEVON, CEBON, OYZROYMAS, CHAI, EHEIEH, ALBAMACHI, ORTAGU,
NALE, ABELECH, YEZE; que vós venhais rapidamente e sem demora à nossa presença
de toda região e todo clima do mundo em que vós podeis estar, para executar
tudo que nós ordenaremos no Grande Nome de Deus. “
A de Occulta Philosophia de Agrippa contém
vários rituais curtos para uso diário, sendo cada um específico para a evocação
das entidades que se conformam aos dias. O ritual para domingo, por exemplo, é:
“Eu vos conjuro e vos confirmo, vós
poderosos e santos anjos de Deus, no nome Adonai, Eye, Eye, Eya que Aquele que
era e é, e é para vir Eye, Abray; e no nome Saday, Cados, Cados, Cados, sentado
nas alturas sobre o querubim; e pelo
grande nome do próprio Deus, forte e poderoso que é exaltado acima de todos os
céus; Eye, Saraye, que criou o mundo, os céus, a terra, o mar e tudo que neles
existe no primeiro dia e os selou com seu santo nome Phaa; e pelo nome dos
anjos que governam no quarto céu, e
servem diante do sumamente poderoso Salamia, um Anjo grandioso e honorável; e
pelo nome de sua estrela, que é Sol, e pelo seu signo, e pelo nome imenso do
Deus Vivo e por todos os nomes já ditos, eu conjuro a ti, Miguel, ó grande
Anjo, que és o principal regente deste dia; e pelo nome Adonai, o Deus de
Israel, eu te conjuro, ó Miguel, para que trabalhes para mim e satisfaz todas
minhas petições de acordo com minha vontade e desejo em minhas causas e
negócios.”
Quando durante a cerimônia de evocação há sinais aparentes de que a
manifestação do espírito está
ocorrendo, quando a fumaça do incenso rodopia na direção do triângulo e assume uma forma tangível,
uma oração ou boas vindas aos espíritos deve ser recitada. A forma
recomendada por Barrett é:
“BERALANENSIS, BALDACHIENSIS, PAUMACHIA e
APOLOGIA SEDES, pelos mais poderosos reis e poderes, e os mais poderosos
príncipes, gênios, Liachidae,
ministros da sede tartárea, príncipe-chefe da Sede de Apologia, na nona região,
eu vos invoco e vos invocando, vos conjuro; e estando armado de poder
proveniente da suprema Majestade, eu vos ordeno com rigor, por Aquele que falou
e se fez e ao qual estão submetidas todas as criaturas; e por este nome
inefável, Tetragrammaton Jehovah, que sendo ouvido os elementos são derrubados,
o ar é agitado, o mar retrocede, o fogo é extinguido, a terra treme, e toda a
hoste dos seres celestiais, terrestres e infernais de fato tremem
conjuntamente, e são transtornados e confundidos, por conseguinte,
incontinenti, e sem demora, vinde de todas as partes do mundo, e dêem respostas
racionais a todas as coisas que indagarei; e vinde pacífica, visível e
afavelmente agora, sem demora, manifestando o que desejamos, sendo conjurados
pelo nome do Deus vivo e verdadeiro, Helioren, e cumpra o que ordenamos, e
persisti até o fim e em conformidade com nossas intenções, visível e
afavelmente a nós falando com voz clara, inteligível e sem qualquer
ambigüidade.”
No mesmo livro, Francis Barrett nos
apresenta uma outra breve alocução a ser recitada quando a manifestação da
entidade necessária é concluída; isto é quando o espírito
fica perfeitamente claro e visível no triângulo.
“Contemplai o pantáculo de Salomão que eu
trouxe a vossa presença; contemplai a pessoa do exorcista no meio do exorcismo, que é armado por Deus, sem medo, e
bem provido, que com poder vos invoca e vos chama exorcizando; vinde, portanto,
com velocidade, pela virtude destes nomes: Aye, Saraye, Aye Saraye: não
retardai vossa vinda, pelos nomes eternos do Deus vivo e verdadeiro, Eloy,
Archima, Rabur e pelo pantáculo de Salomão aqui presente que poderosamente
impera sobre vós; e por virtude dos espíritos celestiais, vossos senhores; e
pela pessoa do exorcista no meio do exorcismo; sendo conjurado apressai-vos e
vinde e obedecei ao vosso mestre, que é chamado Octinomos. Preparai-vos para
ser obedientes ao seu mestre em nome do Senhor, Bathat ou Vachat investindo
sobre Abrae, Abeor vindo sobre Aberer.”
Quando todas as questões do exorcista
forem devidamente respondidas pelo espírito
evocado, e todos os desejos do mago tiverem sido tão satisfeitos que não
haverá mais necessidade de retê-lo no triângulo de manifestação, dever-se-á dar
a licença de partida do cenário de evocação. O procedimento costumeiro consiste
em recitar uma Licença de Partida e a
forma de Licença indicada e A Chave de Salomão, o Rei é a seguinte:
“Por virtude destes pantáculos e porque
vós fostes obedientes e acataram aos mandamentos do Criador, senti e inalai
este odor agradável e depois parti para vossas moradas e retiros; que haja paz
entre nós e vós; estejai sempre prontos para vir quando fordes citados e
convocados; e que possa a bênção de Deus, na medida em que sois capazes de
recebê-la, estar sobre vós contanto que sejais obedientes e bem dispostos a vir
a nós sem ritos solenes e observâncias de nossa parte.”
APÊNDICE - LIVROS RECOMENDADOS PARA ESTUDO
The Candle of
Vision, A. E.
(Macmillan & Co., 1918)
Mysteries of Magic, Éliphas Lévi (Londres, 1897)
The Secret Doctrine, H. P. Blavatsky
The Holy Kaballah, Arthur Edward Waite
(Williams & Norgate, 1926)
Raja Yoga, Swami Vivekananda
Introduction to the
Study of the Kaballah, W. W. Westcott
The Chaldaean
Oracles, W. W.
Westcott
Equinox, Aleister
Crowley (edição privada, 1909 – 1914)
Magick, Master Therion
(Lecram Press, Paris, 1929)
The Egyptian Book
of the Dead
The Sacred Magic, S. L.
MacGregor Mathers (Redway, 1889)
The Key of Solomon
the King (Redway,
1889)
The Ocean of
Theosophy, Wm. Q.
Judge
The Mysteries, Jâmblico
(Trad. Thomas Taylor)
The Gods of the
Egyptians, E. A. W.
Budge (Methuen, 1904)
Mystical Hymns of
Orpheus (Trad. Thomas Taylor)
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