terça-feira, 17 de setembro de 2013

Simbolismo dos sonhos

RSS

Arquivo da Categoria: arquétipos

A Jornada do Herói

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados
A Jornada do Herói
Foi a preocupação com a possibilidade de não conseguirmos solucionar os grandes problemas políticos, sociais e filosóficos do nosso tempo, caso muitos de nós persistíssemos em ver o herói como algo de exterior a nós mesmos, que me inspirou a escrever The Hero Within. O livro pretende ser um convite a empreender a jornada e desafiar os leitores a reivindicarem o seu próprio heroísmo. Esta jornada não implica tornar-se maior, melhor, ou mais importante do que qualquer outra pessoa. Todos somos importantes. Todos temos uma contribuição fundamental a dar, o que só podemos fazer assumindo o risco de sermos nós mesmos e únicos.
Sabemos que, sob a busca frenética de dinheiro, estatuto, poder e prazer, bem como sob as atitudes obsessivas e viciadas habituais nos dias de hoje, existe uma sensação de vazio e uma ânsia de ir mais fundo, comum a todos os seres humanos. Ao escrever The Hero Within, pareceu-me que todos nós precisamos de encontrar, se não o “sentido da vida”, pelo menos o sentido das nossas próprias vidas individuais, para que possamos descobrir formas de viver e de ser fecundas, efectivas e autênticas.
Todos os mitos do herói, culturais ou individuais, mostram-nos os atributos que são considerados como definidores do bem, do belo e da verdade, e assim transmitem-nos as aspirações que são valorizadas culturalmente. Muitas dessas histórias são arquetípicas. Os arquétipos, como postulava Carl Jung, são padrões permanentes e profundos da psique humana, que se mantêm poderosos e actuantes ao longo do tempo. Para empregar a terminologia junguiana, tais padrões podem existir no “inconsciente colectivo”, na “psique objectiva”, ou mesmo estar codificados na constituição do cérebro humano.
Podemos aperceber-nos claramente desses arquétipos nos sonhos, nas artes, na literatura e no mito. Parecem-nos profundos, tocantes, universais e, por vezes, até mesmo aterrorizadores. Também podemos reconhecê-los ao contemplarmos as nossas vidas e as dos nossos amigos. Observando o que fazemos e como interpretamos o que fazemos, podemos identificar os arquétipos que orientam as nossas vidas.
Conhecemos a linguagem dos arquétipos porque eles vivem dentro de nós. Os povos antigos também conheciam essa linguagem. Para eles, os arquétipos eram os deuses e as deusas que se ocupavam de tudo nas suas vidas, do mais banal ao mais profundo. A psicologia arquetípica, em certo sentido, recupera as verdades de antigas teologias politeístas, que nos falam da natureza maravilhosamente múltipla da psique humana. Acontece que, mesmo quando essas divindades (ou arquétipos) são negados, a sua força não deixa de se fazer sentir dentro de nós.
Pelo contrário, recrudesce. Somos, então, possuídos pelos arquétipos e experimentamos a escravidão, e não a libertação, que eles nos oferecem. Devemos ter cuidado com o desprezo pelos deuses, pois, ironicamente, são exactamente as nossas tentativas de os negar e reprimir que provocam as suas manifestações destruidoras Os arquétipos são fundamentalmente amistosos. Podem ajudar-nos a evoluir, colectiva e individualmente. Se os respeitarmos, poderemos crescer.
Os heróis empreendem jornadas, enfrentam dragões e descobrem o tesouro do seu verdadeiro Si Mesmo [o nó mais íntimo da Consciência]. Embora possam sentir-se muito sós durante a busca, no final experimentam um sentimento de comunhão: consigo mesmos, com as outras pessoas e com a Terra. De cada vez que enfrentamos a morte em vida, deparamos com um dragão. Se escolhermos a vida em vez da não-vida, mergulhamos mais profundamente na descoberta de quem somos e derrotamos o dragão. Infundimos, assim, vida nova em nós mesmos e na nossa cultura. Mudamos o mundo.

 

O Sábio

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados
O Sábio
Quando trilhamos o caminho do Sábio na nossa jornada, depois de começarmos a responsabilizar-nos pelas nossas vidas e pelas nossas acções no mundo, descobrimos que o Sábio não é um feiticeiro ou um mágico, que entoa um cântico ou prepara uma infusão, através dos quais uma pessoa pode ser curada ou morta, e uma guerra pode ser ganha ou perdida. Esta é a concepção do Sábio segundo o ponto de vista do Órfão. Ao trilhar esse percurso, descobrimos que nós mesmos somos o Sábio. Os heróis passam a acreditar que o universo não é estático, e que se encontra num processo contínuo de criação. Todos nós estamos envolvidos nessa criação e, assim, todos somos Sábios.
Contudo, enquanto não abandonarmos a concepção do Órfão, segundo a qual o Sábio é alguém que faz magia ou exerce um poder maléfico capaz de matar os outros, não poderemos assumir a responsabilidade pela criação das nossas vidas. Enquanto lutarmos com questões de identidade e vocação, haverá sempre o perigo de usarmos o nosso poder de maneira destrutiva. Enquanto não solucionarmos as nossas questões de Guerreiro, correremos sempre o risco de utilizarmos o poder do Sábio para demonstrarmos a nossa superioridade ou tentarmos controlar as outras pessoas.
Enquanto Órfãos, Nómadas, Mártires e Guerreiros, forjamos as nossas identidades por oposição a um universo visto como hostil e perigoso. Enquanto Sábios, consideramos o universo como um lar afável e convidativo e assim recuperamos a inocência. Os Sábios percebem que uma nova forma de disciplina lhes é exigida, ou seja, que lhes é exigida clareza e força de vontade para agir sempre de acordo com seu o ser interior mais autêntico. Sabem que não são o centro do universo; contudo, esse conhecimento não os perturba. Sabem que são importantes, que as suas escolhas e actos individuais se unem para dar sentido ao universo e, tal como o Mártir, estão conscientes de que é apenas oferecendo o seu dom único ao universo que a verdadeira felicidade e auto-realização poderão ser alcançadas.
O Sábio compreende a graça. Não como uma ocorrência extraordinária, mas como uma forma de energia à nossa disposição. Há ocasiões em que as nossas energias declinam, em que as nossas capacidades falham, ou em que os meios normais e diários de solucionarmos os problemas se revelam ineficazes. Essas situações requerem uma capacidade de permanecer em equilíbrio com a fonte de energia última do universo. Os religiosos costumam chamar a isso “viver em harmonia com Deus”.
Os Sábios lutam para viver em harmonia com os mundos natural e sobrenatural, o que exige totalidade e equilíbrio interiores. Também pressupõe que os Sábios integrem as aprendizagens de todos os outros arquétipos. É fundamental que resolvam o dilema do Órfão, o que lhes permitirá confiarem num poder superior a si mesmos e submeterem-se a ele, afirmando: “Seja feita a Tua vontade.” É óbvio que os Sábios compreendem isto a um nível diferente do dos Órfãos. Estes supõem que fazer a vontade de Deus significa abandonar a sua própria vontade, porque não vêem esta como um comportamento egocêntrico, contrário ao plano divino. Por isso se sentem contrariados. Quando alcançamos um nível mais profundo de auto-conhecimento, tendo já solucionado muitas das questões do Nómada, tornamo-nos menos dualistas. Os Sábios transcendem as concepções dualistas e estáticas do bem e do mal e vêem a vida como um processo regido por Deus.
Quando impedimos alguma parte do nosso ser de crescer, essa parte manifesta-se como negatividade ou mesmo como mal. As pessoas que permanecem no início do estádio do Órfão, por exemplo, podem tornar-se criminosas ou vítimas, porque as suas qualidades positivas não encontraram formas de desenvolvimento. Ou, no caso do Guerreiro ou do Mártir, certas qualidades podem florescer em detrimento de outras, consideradas fracas ou egoístas, dando origem a personalidades desequilibradas e parciais.
Tendo estado longamente à mercê da sombra do puritanismo, a nossa cultura tem agora de lidar com a sombra da sexualidade. Daí que a sexualidade se manifeste sob formas pervertidas, embora extremamente poderosas. O sexo é usado na publicidade para vender um pouco de tudo, desde carros a ferramentas eficazes, seja por meios subliminares, seja através da exibição de mulheres seminuas colocadas junto ao objecto que se tenciona vender. Tal justaposição só tem um sentido lógico quando compreendemos que estamos a ser dominados pela nossa sexualidade reprimida. Nos filmes contemporâneos (e na vida contemporânea) a sexualidade é, regra geral, acompanhada de violência. Estupro, sedução violenta, abuso sexual de crianças, pornografia, sado-masoquismo, bem como a imagem mais subtil, embora ainda mais disseminada, de relacionamentos sexuais nos quais um parceiro (ou ambos) é transformado em objecto, todos atestam a realidade da possessão da nossa cultura pela Sombra.
Algumas pessoas com uma mentalidade de Guerreiro pressupõem que a resposta a este dilema será matar o dragão, ou seja, banir a sexualidade, interior e exterior. Mas isto implicaria ainda mais repressão, já que os monstros se tornariam maiores e a possessão mais acentuada. Quando o Guerreiro alcança uma compreensão mais profunda do seu arquétipo, aprende a enfrentar o dragão e a reconhecer que ele é perigoso – para ele e para os outros. Quando as pessoas integram a maior parte das suas sombras, despendem menos energia na repressão e na negação da sua realidade interna. Perdem menos tempo em batalhas inglórias, pois deixam de projectar com tanta frequência as suas sombras sobre os outros.
O Guerreiro acredita que precisamos de obrigar as pessoas a entrar num mundo novo, mas o Sábio sabe que só precisamos de ter mundos pelos quais optar. As pessoas são naturalmente atraídas por uma vida elevada e acabarão por gravitar até ela. Existem muito mais coisas à nossa disposição neste momento do que a maioria da humanidade jamais teve a oportunidade de usufruir. Quanto mais livres e criativas as pessoas se tornarem, mais oportunidades haverá à sua disposição.
Os Sábios não tentam forçar a mudança social, pois reconhecem que as pessoas precisam, antes de mais, de empreender as suas jornadas, para que possam viver num mundo efectivamente humanitário e pacífico. Por outro lado, reconhecem que muitas manifestações da nossa cultura retardam artificialmente as pessoas, mantendo-as desnecessariamente estacionárias. Actuam, então, como ímanes, que atraem e galvanizam a energia positiva necessária para a mudança. Podem fazê-lo identificando os aspectos que conduzem ao crescimento de indivíduos, instituições ou grupos sociais, para assim incrementarem esse mesmo crescimento.
Os Sábios conseguem infundir esperança nas outras pessoas, porque acreditam que é possível ter um mundo pacífico, humanitário, justo e zeloso: aprenderam a ser pacíficos, carinhosos, a respeitar os outros e a respeitar-se! Ademais, atraem aquilo que são e, por isso, também existem muitos aspectos das suas vidas que ilustram esse mesmo mundo.
Sabem que, quando abrimos os nossos corações, temos sempre amor suficiente. Que quando paramos de entesourar talentos, ideias, bens materiais, somos sempre prósperos. Que criamos a escassez através dos nossos medos, e que, quando oferecemos inteiramente os dons das nossas vidas ao universo e ao outro, encontramos o nosso verdadeiro trabalho, os nossos verdadeiros amores, e experimentamos a plenitude da nossa verdadeira natureza, que é sempre bondosa. Os Sábios acreditam que a vida pode ser alegria e abundância, a partir da experiência real das suas próprias vidas.
 
Deixe o seu comentário
Publicado por  em 2007 in arquétiposo Sábiosímbolos
 

Os Arquétipos e a Evolução Humana

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados

Os Arquétipos e a Evolução Humana
O Inocente e o Órfão dão início à acção. O Inocente vive no estado de graça anterior à queda; o Órfão enfrenta a realidade da queda. Os próximos estádios constituem estratégias para viver no mundo depois do pecado original: o Nómada inicia a tarefa de se perceber separado dos outros; o Guerreiro aprende a lutar para se defender e para mudar o mundo segundo a sua própria imagem; e o Mártir aprende a dar, a confiar e a sacrificar-se pelos outros. Assim, a progressão vai do sofrimento para a auto-definição, para a luta, para o amor.
Ao debruçar-me sobre os arquétipos, dei-me conta do ressurgimento de um arquétipo remoto, que está agora a ser redefinido como uma forma de heroísmo ao alcance de todos. Sob essa forma, o herói aparece como um Sábio. Quando aprende a mudar o seu próprio ambiente mediante uma rigorosa disciplina, força de vontade e esforço, o Sábio aprende a movimentar-se com a energia do universo, e a atrair aquilo de que precisa pelas leis da sincronicidade, de tal modo que a sua facilidade de interacção com o universo parece mágica. Ao aprender a confiar no Si Mesmo, o Sábio completa o ciclo.
Cada arquétipo representa uma visão do mundo, bem como diferentes objectivos de vida e teorias sobre aquilo que dá significado à nossa existência. Os Órfãos buscam segurança e temem a exploração e o abandono. Os Mártires querem ser bons e vêem a vida como um conflito entre o bem (cuidado e responsabilidade) e o mal (egoísmo e exploração). Os Nómadas querem a independência e temem o conformismo. Os Guerreiros lutam para ser fortes, para causar impacto no mundo, e evitam experimentar a incapacidade e a passividade. Os Sábios procuram ser fiéis à sabedoria interior e buscam o equilíbrio com as energias do universo. Tentam evitar o que não é autêntico, o que é superficial.
Ao nível do Sábio, as dualidades presentes nos outros arquétipos começam a desaparecer. O medo da dor e do sofrimento que o Órfão experimenta é visto como o lado menor de uma definição de segurança que pressupõe que a vida é apenas agradável e fácil. Os Sábios acreditam que estamos em segurança, mesmo quando experimentamos dor e sofrimento, já que segurança e insegurança fazem ambas parte da vida. Da mesma maneira, os Sábios consideram que a doação unilateral cria o egoísmo. A tarefa não consiste em cuidar dos outros, em vez de pensar em si, mas sim em aprender a amar e a cuidar de si mesmo e do nosso próximo.
Os Sábios vêem para além do binómio individualismo versus conformismo, e percebem que cada um de nós é único, ao mesmo tempo que todos formamos um único ser. Compreendem também que força e fraqueza são um ritmo de vida, e não uma dualidade. Cada arquétipo transporta-nos para lá da dualidade, conduz-nos de uma expressão primitiva a uma expressão mais requintada e complexa da nossa energia essencial.
 

O Crescimento como Espiral rumo à Totalidade

 Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados
O Crescimento como Espiral rumo à Totalidade
Os arquétipos são formas heróicas evolutivas, mas não são vivenciadas de forma linear e progressiva. Eu ilustraria a progressão típica do herói como um cone ou espiral tridimensional no qual é possível avançar e retroceder frequentemente ao longo do círculo. Cada estádio tem a sua própria lição a ensinar, e reencontramos situações que nos lançam para estádios anteriores, a fim de que possamos aprender e reaprender as lições, em novos níveis de complexidade e subtileza intelectual e emocional. Nas nossas primeiras tentativas de Guerreiro, por exemplo, é natural que nos comportemos como Átila, o Huno; posteriormente, aprenderemos a exprimir os nossos desejos sem que daí advenha um conflito acentuado. A espiral não se torna mais elevada, mas torna-se mais ampla. À medida que conseguirmos dar respostas mais amplas à vida, teremos cada vez mais escolhas.
O Guerreiro e o Mártir são dois lados de uma concepção dualista da vida, segundo a qual ou se recebe ou se dá. Mas enquanto não pudermos fazer ambas as coisas, não seremos livres. As virtudes que o herói aprende em cada etapa nunca se perdem, mas também não são suplantadas – apenas se tornam mais subtis. Como Inocente, o herói aprende a confiar; como Órfão, aprende a chorar. Como Nómada, o herói aprende a encontrar a sua verdade e a dar-lhe um nome; como Guerreiro, aprende a afirmar essa verdade de modo que esta afecte e modifique o mundo; como Mártir aprende a amar, a comprometer-se e a renunciar.
Todas estas virtudes envolvem um certo grau de dor ou de luta. A virtude acrescentada pelo Sábio é a capacidade de reconhecer e receber a abundância do universo. O Sábio obtém aquilo que o Órfão anseia: o retorno ao paraíso perdido, primeiro a nível microcósmico, depois a um nível macrocósmico. Porém, em vez de o fazer de uma forma infantil e dependente, o Sábio entra no Jardim do Éden alicerçado na interdependência – com as outras pessoas, com a natureza e com Deus. A última lição a ser aprendida pelo herói é a felicidade.
Transportamos a lição de cada estádio para o estádio seguinte: o seu significado é transformado, mas a lição em si não se perde. Por exemplo, no primeiro nível do martírio, os heróis sacrificam-se para conquistar as graças dos deuses ou de alguma figura detentora de autoridade. Mais tarde, fazem-no simplesmente para ajudar os outros. Ao tornar-se Guerreiro, o herói transforma o sacrifício em disciplina; certas coisas são sacrificados para que outras possam ser alcançadas. Como Sábios, os heróis compreendem que o essencial jamais se perde: o sacrifício torna-se a renúncia natural e suave àquilo que é velho, e abre caminho para um novo crescimento, para uma nova vida.
Confiar em si e no seu processo de crescimento significa acreditar que a nossa tarefa consiste em sermos inteiramente nós mesmos e, assim, alcançarmos tudo aquilo de que realmente precisamos para o crescimento da nossa alma. Se estivermos demasiado apegados a um resultado qualquer, tentando fazer com que as coisas aconteçam da forma que desejamos e sofrendo com o insucesso da nossa tentativa, é a hora de cultivarmos a fé do Sábio no universo, no mistério, na capacidade de o desconhecido prover às necessidades de cada um. Reconheçamos que aquilo que queremos e que aquilo de que precisamos não são, regra geral, a mesma coisa. Confiemos no universo, em Deus ou no nosso Eu superior e deixemos que as coisas aconteçam.
Todos nós estamos tão acostumados a pensar linearmente que gostaria de relembrar que não é necessariamente melhor ser Sábio em vez de ser Órfão. Tanto o Sábio como o Guerreiro se arriscam a incorrer na vaidade quando, confrontados com um crescimento real de poder e de auto-confiança, se esquecem de que, em última análise, somos todos dependentes uns dos outros e da Terra para a nossa própria sobrevivência. Há pouco tempo estava a sentir-me particularmente orgulhosa das minhas realizações (Guerreiro) e da minha competência; no entanto, certa manhã acordei a perguntar-me: “Porquê eu?”, quando uma série de desafios, inconveniências e catástrofes me atingiram de uma só vez.
Experimentei todas as reacções clássicas do Órfão: arvorei-me em vítima, senti o desejo de ser salva, adoptei uma atitude de auto-censura, e tive o impulso de fazer dos outros bodes expiatórios. Esta situação, contudo, acabou por me advertir das minhas reais vulnerabilidade e interdependência, e fui forçada a pedir ajuda aos amigos, à família e aos colegas. Tenho tendência para sentir uma auto-confiança excessiva, e precisei da ajuda amorosa de todos para me convencer de que não estava sozinha.
Recentemente, partilhei esta situação com uma turma de alunos e apercebi-me de que muitos alunos queriam aceder ao estádio do Sábio, sem antes pagar tributo aos outros arquétipos. Não acredito que isso seja possível. Porém, caso aconteça, trata-se de uma situação que não poderá ser mantida por muito tempo. Temos de pagar o tributo de cada arquétipo, o que implica permanecer em cada estádio durante algum tempo.
As pessoas que precisam de ter poder sobre as demais para se sentirem seguras costumam temer a passagem dos outros para o reino do Sábio, porque os Sábios não podem ser controlados nem manipulados com facilidade. Esse poder deriva do medo da escassez, deriva do facto de acreditarmos de que não existe o suficiente para todos: é isso que nos leva a competir. Esse medo torna as pessoas dóceis, dependentes, conformistas, na esperança de permanecerem nas boas graças daqueles que detêm o poder, ou fá-las lutar por esse mesmo poder.
No país mais rico do mundo, a motivação das pessoas para trabalhar é o medo da pobreza. As pessoas são levadas a comprar este ou aquele produto para se sentirem amadas. Conforme explica Philip Slater na obraThe Pursuit of Loneliness, no nosso sistema social, a publicidade acentua a crença cultural na escassez, criando em nós necessidades artificiais. Em vez de temerem a pobreza em si, as pessoas têm medo de não poderem adquirir um carro de topo de gama ou uns jeans de marca.
Os detentores do poder reforçam a ideia artificial da escassez, porque ela vende produtos e mantém a força de trabalho submissa. A maioria das pessoas não rejeita a convicção de que recursos e talentos são escassos, porque precisa de acreditar que o são. Todos nós temos de empreender jornadas arriscadas, e precisamos de acreditar que os nossos medos são reais. Se não sentirmos fome, carência, isolamento e desespero, como aprenderemos a enfrentar os nossos medos?
Não estaremos preparados para a abundância, para um universo seguro, enquanto não formos postos à prova – por nós mesmos – realizando as nossas jornadas. Não importa quantas pessoas nos amam, não importa quanta riqueza possamos ter à nossa disposição. Atrairemos sempre problemas e sentir-nos-emos sempre sozinhos e pobres, enquanto não estivermos prontos para dar e receber amor.
 

A Queda

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
&
Carol Pearson
Awakening the Heroes Within
New York, Harper Collins, 1991
Excertos adaptados
A Queda
Muitas culturas possuem mitos que falam de uma era dourada, que entretanto desapareceu por culpa humana. A partir deste mito, surge a convicção de que é possível à humanidade reentrar no Paraíso, mas somente através do sofrimento e do sacrifício.
O mito da Queda possui elementos arquetípicos evidentes, pois não só existem versões deste mito na maioria das culturas e religiões, como, na nossa cultura, até mesmo os não praticantes do judaísmo ou do cristianismo experimentam algo de semelhante à Queda nas suas vidas. Para muitos, o mito surge sob a forma de uma desilusão com os pais. Os pais deveriam ser como a “árvore dadivosa”.
Se isso não ocorre, os filhos sentem-se ludibriados, como se o mundo não fosse como deveria ser. Os pais podem ter sido óptimos quando os filhos eram pequenos, mas estes acabam por descobrir que os seus pais não são perfeitos. De repente, aquelas pessoas que deveriam cuidar deles deixam de ser dignas de confiança.
A Queda assume também a forma de desilusão política, religiosa ou pessoal. Os Inocentes tornam-se Órfãos quando pensam que Deus está morto ou os abandonou, que o governo nem sempre é bom, que as leis nem sempre são justas, e que os tribunais não os protegem. Os homens tradicionalistas podem experimentar uma profunda desilusão ao descobrir que as mulheres têm desejos sexuais e ambições profissionais próprias.
As mulheres podem ficar igualmente desapontadas ao descobrir que os homens, para além de as não protegerem, promovem a opressão feminina e beneficiam dela. A desilusão surge quando percebemos que nem sempre – ou talvez nunca – o mundo é como nos ensinaram que deveria ser. Para alguns, talvez demasiados, a desilusão acontece ao descobrirem que a vida real não é como a vida retratada pela televisão.
O Órfão é um idealista desiludido, e quanto maiores os seus ideais acerca do mundo, pior lhe parece a realidade. O mundo é perigoso: vilões e ciladas estão por toda parte. As pessoas sentem-se como donzelas em perigo, obrigadas a enfrentar um ambiente hostil, sem poder nem capacidade adequados para lidar com ele. O mundo assemelha-se a um lugar onde as pessoas ou são vítimas ou são carrascos. Até mesmo o comportamento do vilão pode ser justificado pelo Órfão como um comportamento realista, já que se deve “fazer aos outros, antes que eles o façam a nós”. A emoção dominante nessa visão do mundo é o medo, e a sua motivação básica é a sobrevivência.
Esse estádio é tão doloroso que, frequentemente, as pessoas recorrem a válvulas de escape, servindo-se de “narcóticos” diversos: drogas, álcool, trabalho, consumismo, comportamentos sexuais aviltantes. Ou então podem utilizar os relacionamentos, o trabalho e/ou a religião, como forma de amortecer a dor e obter uma falsa sensação de segurança.
Ironicamente, esses vícios têm o efeito colateral de aumentar a nossa sensação de impotência, a nossa negatividade e, até mesmo, no caso das drogas e do álcool, favorecer a desconfiança e a paranóia.
Essas válvulas de escape são defendidas por aqueles que a elas recorrem como as únicas estratégias razoáveis para se suportar a condição humana: “Claro que bebo/Claro que tomo alguns comprimidos. A vida é dura. De que outra maneira conseguiria aguentar?” Estas pessoas não consideram que seja muito realista esperar mais da vida. Podem também queixar-se de que o trabalho é enfadonho. “Detesto o meu trabalho, mas tenho de alimentar as crianças. É assim a vida.”
Nos relacionamentos amorosos, uma mulher parte simplesmente do princípio de que os homens “não são correctos” e pode continuar numa relação onde é emocional, ou até mesmo fisicamente maltratada, porque “Ele é melhor do que a maioria dos homens.” Um homem pode reclamar que a esposa o enerva, mas encolhe os ombros e diz: “As mulheres são assim mesmo.”
A história dos Órfãos fala de impotência, de anseio pelo estado primordial de inocência, no qual todas as necessidades são satisfeitas por uma figura materna ou paterna amorosa. A história dos Órfãos fala da busca de pessoas que cuidem deles, da renúncia à autonomia e à independência, a fim de assegurar esse cuidado. Certas pessoas procuram um Grande Pai; alguns homens procuram a “fada do lar”, as mulheres que lhes oferecerão um santuário, protegendo-os deste mundo cruel; muitos procuram o grande líder político, o movimento, a causa, ou o negócio de um milhão de dólares que será a solução de tudo. A história do Órfão fala também da tentativa de ser o pai amoroso – para os amantes, os filhos, os clientes ou o eleitorado – tudo para provar que essa segurança pode existir, ou que efectivamente existe. Depois da Queda sobrevêm a longa e, às vezes, lenta escalada de volta, a aprendizagem da auto- confiança e da esperança. A tarefa última do Órfão consiste em adquirir autoconfiança.
Na origem de tudo isto encontra-se o medo que o Órfão sente da impotência e do abandono, medo esse tão profundo e inconsciente que não costuma ser experimentado directamente. A sua emoção mais visível é a raiva, quer esta esteja voltada para dentro, na convicção de que a Queda é, de alguma maneira, culpa nossa, quer esta esteja voltada para fora: para Deus, para o universo, para os pais, para as instituições.
Os Órfãos transmitem a mensagem: “Eu não sei cuidar de mim.” Durante a nossa juventude, em situações novas e desconhecidas e nas áreas da nossa personalidade menos desenvolvidas, somos todos Órfãos e, por conseguinte, dependentes dos outros. No desenvolvimento humano normal e saudável, a fase do Órfão é branda. A desilusão com os pais, com as instituições e com a autoridade motiva-nos a deixar a dependência e a empreender as nossas próprias jornadas em busca de novas respostas. O que pode ser simples no final da adolescência – matricular-se na faculdade, sair de casa e arranjar um emprego– pode, mais tarde, assumir a forma mais difícil de uma mudança de emprego, do fim de uma relação, ou da desilusão com determinado partido político, grupo religioso ou filosofia de vida, o que nos obrigará a buscar novas respostas.
Segue: A Ajuda
 
2 Comentários
Publicado por  em 2007 in arquétiposo Órfãosímbolos
 

Do Inocente ao Órfão

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
&
Carol Pearson
Awakening the Heroes Within
New York, Harper Collins, 1991
Excertos adaptados
Do Inocente ao Órfão
O Inocente vive no mundo anterior à queda, num paraíso verdejante onde a vida é bela e todas as necessidades são satisfeitas numa atmosfera de desvelo e amor. O equivalente mais próximo dessa experiência ocorre no começo da infância – para aqueles que tiveram infâncias felizes.
As crianças que são amadas e protegidas acreditam que o mundo é um lugar seguro, e que podem contar com os outros para lhes proporcionar o apoio físico, psicológico e emocional de que necessitam para crescer e amadurecer. Embora uma infância feliz tenha como consequência uma visão optimista e confiante da vida, a sua ausência não implica necessariamente que a pessoa não possa desenvolver os atributos do Inocente. Mesmo se muitas pessoas que tiveram infâncias horríveis permanecem disfuncionais para toda a vida, outras tornam-se adultos realizados.
A promessa de um retorno ao estado paradisíaco mítico é uma das motivações mais poderosas da vida humana. O Inocente dentro de cada adulto sabe que existe um jardim seguro algures, embora possa não se lembrar de o ter experimentado pessoalmente. Quer o Inocente seja um arquétipo activo ou adormecido dentro de nós, o facto é que retém uma recordação primordial que lhe diz que a vida pode ser melhor do que é naquele momento.
Muitas vezes fazemos tentativas frenéticas para permanecer sãos e salvos dentro do Paraíso. Esquecemo-nos do facto de que podemos voltar, e de que de facto voltamos, à segurança, ao amor e à abundância, mas apenas como resultado das nossas caminhadas. O Inocente é, assim, o início e o fim da jornada, dado que queremos empreender a viagem precisamente para poder revisitar, encontrar ou criar um mundo melhor do que aquele que conhecemos e que sabemos ser possível (re)encontrar. Quando formos Inocentes sábios, e tivermos percorrido as diversas etapas do caminho, poderemos escolher criar um mundo pacífico e igualitário onde todos os seres possam ser honrados.
A maioria das pessoas quer saltar as etapas das suas jornadas e colher imediatamente a recompensa. Contudo, o Paraíso não pressupõe a satisfação de caprichos narcisistas. É, antes de mais, um estado de graça que requer profundo reconhecimento e reverência para consigo e para com os outros.
Segue: A Queda 
 
2 Comentários
Publicado por  em 2007 in arquétiposo Órfãoo Inocentesímbolos
 

A Ajuda

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
&
Carol Pearson
Awakening the Heroes Within
New York, Harper Collins, 1991
Excertos adaptados
Anterior: A Queda
A Ajuda
Se o problema do Órfão é o desespero, a chave para a resolução do seu problema reside na esperança. Não adianta dizer aos Órfãos que devem crescer e assumir a responsabilidade das suas vidas, se não se acham capazes disso! Precisam de ter alguma esperança de que cuidarão deles. As histórias que a cultura construiu a partir do arquétipo do Órfão são do tipo “de-pobre- a-rico” e histórias de amor muito convencionais. O sub-tema desses enredos mostra que o sofrimento redime e que trará de volta o progenitor ausente. Nos romances de Charles Dickens, por exemplo, um Órfão sofre as agruras da pobreza e dos maus-tratos até se descobrir que é herdeiro de uma imensa fortuna. No final da história, reúne-se ao pai, que cuidará dele para sempre.
A auto-censura não é uma resposta adequada aos problemas dos Órfãos. Além de inviabilizar a autoconfiança, pode também incentivar a projecção livre. Para não se sentirem tão maus, os Órfãos costumam projectar a culpa nas pessoas mais próximas (amantes, companheiros, amigos, pais, patrões ou professores), em Deus ou na cultura como um todo. Como resultado, a sensação de que habitam um mundo perigoso aumenta. Ademais, na medida em que culpam as pessoas que os cercam por todo o sofrimento das suas vidas, os Órfãos afastam os outros, tornando as suas próprias vidas mais isoladas.
Neste estádio, a confiança temporária em algo de exterior a si mesmo – um poder superior, o terapeuta, o analista, o grupo, o movimento, a igreja – pode contribuir para ajudar as pessoas. A menos que tenham o infortúnio de se apegar a alguém que queira usar a sua dependência, essas pessoas serão encorajadas a responsabilizar-se gradualmente pelas suas próprias vidas. Não precisam de fazer tudo sozinhas, nem tão-pouco devem aguardar passivamente a salvação, ou apenas receber ordens. Podem ser capazes de se responsabilizar pelas suas vidas e também de obter a ajuda adequada – de especialistas, de amigos, de Deus. Podem abrir-se ao amor e a graça.
É fundamental, tanto nos grupos mais privilegiados como nos mais oprimidos, ouvir a dor do outro, sem fazer o jogo de tentar saber quem é o mais oprimido. Observamos a mesma coisa em famílias ou casais que discutem sobre quem sofre mais. Parte-se do princípio de que quem sofreu menos deve satisfazer as exigências daquele que sofreu mais. O sofrimento é estimulado, porque traz consigo o poder.
A questão consiste não em deixar as pessoas presas ao sofrimento, mas em as libertar, para que aprendam a ter alegria, eficácia, produtividade, abundância e liberdade. Precisam de ouvir as suas próprias histórias, bem como as histórias dos outros, e reconhecer qual é a sua dor, para que possam abrir a porta do crescimento e da mudança, e não se tornem uma ameaça para o outro. Um grande passo para os Órfãos consiste em abandonar a preocupação consigo mesmos e aprender a ajudar os outros.
 
1 Comentário
Publicado por  em 2007 in arquétiposo Órfãosímbolos
 

O Nómada

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados
O Nómada
O arquétipo do Nómada é exemplificado pelas histórias de cavaleiros, de cowboys e de exploradores, que partem sozinhos para conhecer o mundo. Durante as suas viagens, encontram um tesouro, que representa simbolicamente o dom do seu verdadeiro ser. Iniciar conscientemente a própria jornada, e enfrentar o desconhecido, marca o começo de um novo nível de existência. O Nómada faz uma declaração radical: a vida não é fundamentalmente sofrimento; a vida é uma aventura.
Quer a jornada dos Nómadas seja apenas interior, quer seja exterior, os Nómadas dão sempre um salto no desconhecido, deixando para trás as velhas regras sociais, às quais obedeceram com o fito de agradar aos outros e de garantir a sua segurança. Procuram agora descobrir quem são e o que querem. Muitas vezes, tomamos conhecimento dos Nómadas porque estes exteriorizam as suas jornadas, quer viajando literalmente, quer experimentando novos comportamentos. No entanto, existem também os heróis cuja conduta exterior parece bastante convencional, embora as suas explorações do mundo interior e a sua independência mental na exploração dos seus relacionamentos com o universo sejam profundas.
A identidade dos Nómadas provém da sua condição de forasteiros. Na sua vida espiritual, experimentam com frequência a dúvida. Isto porque lhes ensinaram que Deus recompensa um certo conformismo e moralidade tradicionais – qualidades provavelmente divergentes das necessidades das suas psiques experimentadoras e em desenvolvimento. No entanto, a noite escura da alma que experimentam leva-os frequentemente a uma fé mais amadurecida e adequada.
O Cativeiro
Nos contos de fadas, o Nómada pode estar encerrado numa torre ou caverna, e costuma ser prisioneiro de uma bruxa, de um ogre tirano, de um dragão ou de alguma outra fera temível. Regra geral, o captor simboliza o conformismo e a falsa identidade impostos pelos papéis culturais predominantes.
Na medida em que tememos as grandes mudanças, tanto nas outras pessoas como em nós mesmos, podemos desencorajar estes heróis em embrião, dissuadindo-os de empreender as suas jornadas. Queremos que permaneçam como são. Podemos ter medo de perder os nossos amantes, cônjuges, amigos e até mesmo pais, se eles parecem estar a mudar demais. Talvez nos sintamos particularmente ameaçados, se alguém que vivia para nos satisfazer ou servir se recusar de súbito a fazê-lo!
A pressão que nos leva a ajustarmo-nos, a cumprirmos os deveres, a fazermos o que os outros querem que façamos, é tão forte nos homens como nas mulheres. No entanto, é mais intensa nas mulheres, porquanto o papel destas tem sido mais definido em termos de deveres e de provimento às necessidades básicas dos outros. De um modo geral, as mulheres evitam iniciar as suas jornadas porque temem magoar os seus maridos, os pais, as mães, os filhos ou os amigos. Todavia, as mulheres magoam as outras pessoas diariamente quando não iniciam as suas próprias jornadas. Por exemplo, uma das piores coisas que uma mulher pode fazer à alma de um homem é permitir que ele a oprima. Quando uma mulher ama um homem, deve reverenciar a alma deste o suficiente para saber que, não obstante o que o rapaz assustado dentro dele queira, a essência mais profunda do ser dele – a parte saudável do homem – quer o bem para si mesmo e para os outros.
Da mesma maneira, muitos homens aprisionados no seu papel de protectores não ousam empreender as suas jornadas devido ao seu sentido de responsabilidade, não só em relação aos filhos como em relação às esposas, que lhes parecem frágeis e incapazes de cuidarem de si mesmas. Se um homem ama a sua companheira, deve fortalecer o lado dela que pode ser independente, competente, aventureiro. Todas as vezes que detém a sua própria jornada por causa das aparentes incapacidade e dependência da mulher, na realidade reforça tais atitudes, contribuindo assim para a incapacitar. O ser mais forte e sábio da mulher quer crescer e quer que o homem cresça também.
 
3 Comentários
Publicado por  em 2007 in arquétiposo Nómadasímbolos
 

O Cativeiro

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados
O Cativeiro (cont.)
Quando começam a ver o mundo e se começam a ver a si mesmos com os seus próprios olhos, os Nómadas têm medo de que a punição por essa atitude seja o isolamento perpétuo ou, no sentido mais extremo, a morte solitária e a pobreza. Não obstante esse medo – que se prende com o terror infantil de não se conseguir sobreviver se não se agradar aos outros (aos pais, aos professores, aos chefes, aos companheiros) – os Nómadas tomam a decisão de abandonar o universo conhecido em prol do desconhecido.
São várias as formas de estarmos sozinhos. Uma delas consiste em viver sozinho, viajar sozinho, passar o tempo sozinho. Poucas são as pessoas que adoptam essa forma por muito tempo. Existem outras maneiras de estarmos sozinhos, algumas delas com a desvantagem de mascararem a nossa solidão, mesmo para nós mesmos. Uma forma de estarmos sozinhos consiste em não prestarmos atenção ao que sentimos e queremos e em darmos aos outros aquilo que pensamos que eles querem. Consiste em sermos o que nós pensamos que eles querem que sejamos. Outra forma é tratarmos as pessoas como objectos para gratificação dos nossos próprios desejos.
Uma outra maneira de estarmos sozinhos é representarmos sempre um papel: a mulher ou o homem perfeitos, a mãe ou o pai perfeitos, o patrão ou o empregado perfeitos. Continuar a viver com a nossa família, mesmo quando não nos damos bem com ela; manter um péssimo casamento; ter companheiros de quarto com os quais temos poucas coisas em comum. Uma mulher pode convencer-se de que todos os homens são chauvinistas e um homem convencer-se de que todas as mulheres são prostitutas ardilosas. Se queremos realmente ficar sozinhos, podemos convencer-nos de que todos nos querem magoar ou que todos desejam algo de nós.
Devo acrescentar que, na verdade, todas essas estratégias demonstram que temos imaginação suficiente para assegurar a realização das nossas jornadas. O próprio vazio e vulnerabilidade resultantes dessas abordagens erradas da vida motivam muitos de nós a empreender as suas jornadas e a descobrir ou a criar uma personalidade nova. Muitas pessoas conseguem sentir-se alienadas e ser solitárias durante toda a vida, sem jamais crescer ou mudar, mas outras utilizam essas ocasiões para serem “heróis secretos”, acalentando novas ideias e imaginando novas alternativas, enquanto que à superfície continuam a levar a vida enfadonha de sempre.
Uma mulher que conheço relembrava um casamento de onze anos, extremamente convencional e superficial, que tinha funcionado como um porto seguro, um casulo no qual ela se ocultara enquanto se preparava para voar. Durante o casamento, porém, não se tinha apercebido disso. Na verdade, foi o vazio do seu papel tradicional e a solidão desse relacionamento conjugal que a levou a empreender a busca. Para muitas pessoas, a vontade de cortar com a alienação do cativeiro constitui o estádio inicial do Nómada, seguido da escolha consciente de empreender a jornada.
Quando chega a hora de iniciar a jornada, o Nómada sentir-se-á sozinho, seja ou não casado, tenha ou não filhos e amigos, tenha ou não um trabalho prestigiante. Não há como evitar essa experiência. Todas as tentativas nesse sentido apenas reprimem a consciência do nosso estado, de forma que demoramos mais na aprendizagem das lições e, assim, permanecemos mais tempo solitários. Embora certas pessoas iniciem a sua busca com um elevado sentido de aventura, muitas passam por ela como algo que lhes é imposto, seja pelo sentimento de alienação ou claustrofobia que experimentam, seja pela morte de um ente querido, ou por terem sido alvo de abandono ou de traição.
Nos antigos mitos heróicos, o jovem herói é motivado a prosseguir a sua jornada solitária porque o reino se tornou uma terra estéril. Nessas histórias, o velho rei é visto como a causa dessa desolação; talvez seja impotente ou tenha cometido um crime. Noutras histórias, o rei é um tirano. O aspirante a herói parte rumo ao desconhecido, enfrenta o dragão, encontra um tesouro (o Graal, um peixe sagrado) e retorna, trazendo consigo o elemento necessário para proporcionar vida nova ao reino. É então sagrado rei.
A convicção de que temos de comprometer partes cruciais de nosso ser, a fim de nos ajustarmos ao mundo à nossa volta, põe em evidência tanto a nossa necessidade de amor como a nossa necessidade, igualmente forte, de explorar quem somos. A tensão entre esses impulsos, extremamente fortes e aparentemente conflituosos, leva-nos, em primeiro lugar, a abandonar partes importantes de nossa personalidade, a fim de nos ajustarmos e, dessa forma, a aprendermos o quanto o amor e o sentir-se ajustado significam para nós. Em último lugar, essa mesma tensão leva-nos a optar radicalmente por nós mesmos e pelas nossas jornadas, como coisas ainda mais importantes do que os cuidados a ter com os outros, ou do que a nossa própria sobrevivência.
Como a nossa cultura glorifica excessivamente a jornada solitária e árdua do herói clássico, e como a cultura precisa muito de pessoas capazes de colaborar, tem havido um grande desencanto com o ideal heróico do Nómada. O problema do Nómada, assim como o do Mártir, não é o arquétipo em si, mas sim a confusão acerca do significado do arquétipo para cada um de nós. Assim como o martírio é destrutivo quando o sofrimento se justifica por si mesmo, a solidão pode ser uma fuga à comunidade, destrutiva também se se quiser afirmar como um valor em si mesma. Por exemplo, se a maturidade for equiparada à independência, e se esta for definida como o facto de não ter necessidade dos outros, tal situação pode interromper o crescimento normal de um indivíduo.
Contudo, optarmos absolutamente por nós mesmos e pela nossa integridade, mesmo que isto signifique solidão e ausência de amor, constitui um pré-requisito do heroísmo e, em última análise, da capacidade de amar outras pessoas, permanecendo, ao mesmo tempo, autónomo. Isso é fundamental para a criação de limites adequados, para que possamos perceber a diferença que existe entre nós e o outro
Assim, o Nómada arquetípico parte da dependência para a independência, para uma autonomia definida no contexto da interdependência. Muitos daqueles que aprenderam a acolher a independência, e até mesmo a solidão, descobrem mais tarde que sentem falta das relações humanas. Entretanto, tornaram-se capazes de experimentar a intimidade a um novo nível, porque desenvolveram uma consciência suficientemente forte do seu próprio ser e não temem ser engolidos pelo outro. Para sua surpresa, costumam descobrir, quando estão prontos, que existem pessoas e comunidades que irão amá-los exactamente pelo que eles são.
Quando solucionamos o conflito entre amor e autonomia, optando por nós mesmos, sem negarmos o desejo de relacionamento, esse conflito, que antes nos parecia insolúvel, resolve-se. Nessa nova maneira de ver o mundo, a recompensa por sermos “inteiros” e totalmente nós mesmos é o amor, o respeito e a comunhão.
 
Deixe o seu comentário
Publicado por  em 2007 in arquétipossímbolos
 

O Guerreiro

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados
O Guerreiro
O arquétipo do Guerreiro é a definição de heroísmo na nossa cultura. Pedi a muitas turmas e plateias que me dissessem quais as personagens centrais da história do herói. A resposta é sempre a mesma: o herói, o vilão (ou o dragão que deve ser morto) e a vítima (ou a donzela em perigo que deve ser salva). Todos conhecemos esse enredo e essas personagens. A moral subjacente a esta história é de que o bem pode triunfar, e vai triunfar, sobre o mal. Porém, ainda mais fundamental do que isto, é o facto de a história nos mostrar que as pessoas, quando têm a coragem de lutar por si mesmas e pelos outros, podem mudar os seus mundos.
Se porventura o bem não triunfar, isso pode significar que somos impotentes e reforçar o cinismo, a alienação e o desespero, abalando assim o principal sistema de crenças da nossa cultura. Porém, quando o herói triunfa sobre o vilão, a nossa fé na possibilidade de identificar o dragão e de o matar é reforçada. Podemos assumir o controlo das nossas vidas, eliminar os nossos problemas e criar um mundo melhor. Salvamos assim a donzela aprisionada, que mais não é do que o Órfão em cada um de nós. O Guerreiro diz ao Órfão interior: “Não precisas de procurar sempre alguém fora de ti mesmo para te salvar; eu mesmo posso cuidar de ti.”
Este arquétipo ajuda-nos a afirmar o nosso poder e a nossa identidade no mundo. Esse poder pode ser físico, psicológico, intelectual ou espiritual. A nível físico, o arquétipo do Guerreiro afirma que temos o direito de estar vivos. A consciência do Guerreiro inclui a disposição e a capacidade de lutar para se defender. A nível psicológico, essa consciência está relacionada com a criação de limites saudáveis em relação aos outros, para além de nos dotar da capacidade de fazermos valer os nossos direitos.
Intelectualmente, o Guerreiro ajuda-nos a discernir, a ver que caminho, que ideias, que valores são mais úteis e favoráveis à vida. A nível espiritual, aprende a diferenciar energias e teologias espirituais: a saber, as que nos trazem mais vida e as que matam ou mutilam a força vital dentro de nós. O Guerreiro também nos ajuda a lutar por aquilo que alimenta as nossas mentes, os nossos corações e as nossas almas, bem como a vencer os factores que enfraquecem e esgotam o espírito humano.
 

Uma Cultura Guerreira

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados
Anterior: O Guerreiro
Uma Cultura Guerreira
Os Guerreiros mudam os seus mundos através da afirmação da sua vontade e do seu desejo de um mundo melhor. Nas famílias, nas escolas, nos locais de trabalho, nas amizades, nas comunidades ou na cultura como um todo, este arquétipo orienta as nossas exigências no sentido de harmonizar o ambiente circundante com os nossos próprios valores.
No entanto, aqueles que chegam à fase do Guerreiro sem antes lidarem com as suas identidades não podem ser verdadeiros Guerreiros, seja porque não sabem por que razão estão a lutar, seja porque lutam para provar a sua superioridade. “Quem sou eu neste momento?” Enquanto o Guerreiro não souber responder a esta pergunta, apenas se entregará a pseudo-lutas, nas quais o mito herói/vilão/vítima é valorizado por si mesmo, e não pelos resultados positivos que pode acarretar.
Estes Guerreiros acabam por descobrir que o ritual em si não pode transformar nem o herói nem o reino.
Podemos encontrar o ritual subjacente ao mito do Guerreiro na guerra, mas também está presente no desporto, nos negócios, nas religiões, e até mesmo nas teorias económicas e educativas da nossa sociedade. Na esfera dos desportos, assistimos a uma progressão que vai das disputas dos gladiadores, nas quais o perdedor é morto, ao futebol americano, ao basquetebol ou ao futebol, nos quais o adversário simplesmente perde.
Na política assistimos igualmente a uma progressão interessante. No modelo mais primitivo, o herói eliminava o velho rei (o tirano) e, pelo menos teoricamente, salvava o povo. É um facto que tais práticas prosseguem na era moderna, em diversas partes do mundo, onde a mudança política ainda é realizada por meio de golpes sangrentos ou de revoluções. Nos Estados Unidos, porém, descobrimos uma forma de evitar tais carnificinas. O velho rei não é ritualmente eliminado, como em algumas culturas primitivas, nem morto durante o sono, nem tão-pouco julgado e executado pelos seus crimes. É derrotado nas eleições, cuja retórica subjacente é assaz bélica e igualmente primitiva.
O aspirante a herói – seja na política eleitoral, seja na política intra-organizacional – explica como salvar o país ou a organização, e demonstra como a situação actual é responsável por todos os prejuízos. Apresenta um quadro em que a situação é revista, demonstrando as grandes melhorias que adviriam para o país/estado/organização, caso ele ganhasse as eleições, ou os prejuízos que a oposição causaria, caso estivesse no poder. É a linguagem da guerra: falamos em derrotar a oposição nas eleições, mas poderíamos dizer: “Havemos de massacrar!” É obvio que esta linguagem belicosa também é fundamental nos negócios, onde o objectivo é sair vitorioso da competição. A convicção central do capitalismo baseia-se na afirmação de que a competição, uma outra versão da luta, trará uma vida melhor para todos – produtos melhores, preços mais baixos. A vitalidade dos Estados Unidos depende de saírem vitoriosos da competição. Até mesmo o nosso sistema jurídico se baseia no modelo da luta.
Embora o derrotado nos desportos, na política ou nos negócios já não seja visto como um vilão, a derrota continua a trazer uma vergonha imensa ao perdedor, que interioriza a convicção de não é só o seu desempenho que é mau, mas de que ele é mau na sua essência. Causa vergonha ser a equipa ou o candidato derrotados. Causa vergonha ser pobre porque isso implica ter perdido na luta da livre concorrência. Tais suposições podem explicar por que motivo parecemos incapazes, enquanto cultura, de elaborar um sistema de prosperidade que não humilhe os beneficiários.
Muitos educadores vêem o processo de aprendizagem como uma corrida, na qual alguns alunos são rotulados desde o primeiro grau como “vencedores” e outros como “perdedores”. Essas expectativas podem converter-se em autênticas profecias. Os “perdedores” interiorizam a consciência de que são indignos, enquanto que os “vencedores” são estimulados a fazer esforços cada vez maiores, sem por isso deixarem de temer o fracasso. Ser expulso do colégio – ou, no caso de professores universitários, não ser promovido para determinado cargo – equivale a uma verdadeira desgraça.
Os Guerreiros costumam concentrar-se nos “factos”, na tentativa de se “endurecerem” mentalmente: um marxista insistirá que apenas a realidade é real. Qualquer outra consideração – sobre a realidade interior, subjectiva, ou sobre a espiritualidade –, é por ele vista como falsa. Um cristão fundamentalista, segundo o mesmo espírito, insistirá em considerar a Bíblia literalmente, e ver nela um projecto de acção. Nos desportos, fazemos a contagem, marcamos os pontos. Nos negócios, consideramos os lucros. Na educação, quantificamos cada vez mais os resultados e procuramos metodologias irrefutáveis. Na economia, catalogamos o Produto Nacional Bruto. Segundo esta visão do mundo, o pensamento correcto é linear, hierárquico e dualista.
Na verdade, o enredo herói/vilão/vítima é um dogma na nossa cultura cujo poder é tão grandioso que a sua mera invocação torna irrelevantes quaisquer provas em contrário. Os académicos, por exemplo, equacionam competição com qualidade de educação, embora a maioria das investigações levadas a cabo sustente a ideia de que uma abordagem cooperativa da aprendizagem é, na realidade, muito mais eficiente. Muitos administradores de empresas continuam a tentar obter uma maior produtividade dos seus empregados, criando assim uma atmosfera de competição feroz, pese embora as investigações sugerirem que as empresas comerciais mais bem sucedidas são aquelas que criam um ambiente de confiança e nas quais os empregados se auxiliam mutuamente.
O desafio que enfrentamos, enquanto Guerreiros, depende de nossa capacidade de imaginar e afirmar outras verdades, outras versões do mito do Guerreiro. A consequência lógica da insistência em definir a vida como uma luta é a fome mundial, a devastação ambiental, a desigualdade racial e sexual, a guerra nuclear e o desperdício dos talentos de todos quantos se consideram e são considerados perdedores.
 
 

Além do extermínio do Dragão

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados
Além do extermínio do Dragão
Quando os Guerreiros se dão conta de que a sua verdade é apenas uma de entre outras, começam a encarar os outros como aliados potenciais e não como inimigos. A tarefa do herói passa a ser construir pontes, e não matar ou converter.
Os velhos tipos de conflitos eram violentos e primitivos. Gradualmente, foram sendo substituídos por outros mais suaves e harmoniosos. De uma situação em que duas pessoas se massacram passamos para uma outra em que duas pessoas debatem e depois se perguntam quem venceu. Finalmente, chegamos a uma situação na qual duas pessoas são suficientemente confiantes para utilizar as suas diferenças como forma de encontrar verdades mais adequadas e completas. Debatem ideias e depois compartilham aquilo que aprenderam.
A recompensa de enfrentar os dragões mais aterrorizadores é a coragem e a libertação dos nossos próprios medos. O Guerreiro acaba por aprender a fazer amigos porque, em vez de se deixar aprisionar pelo medo, começa a perceber que o medo funciona sempre como um convite ao crescimento. Quando perdem um pouco do seu medo, os Guerreiros serenam e podem abrir- se para a complexidade. Torna-se então claro, para eles, que uma formulação da realidade em termos de herói/vilão/vítima é muito limitada.
A sensação de impotência do Guerreiro pode conduzi-lo a uma transformação profunda.
Esse momento de abandono pode ser causado por um ataque cardíaco, pela perda de um ente querido, por um acontecimento trágico, contra os quais o Guerreiro nada pode fazer senão aceitá-los. Às vezes, é apenas a maturidade e o saber que nenhuma das suas capacidades é eficaz contra a morte que força o Guerreiro a “ceder” à vida maior.
Os Guerreiros consomem-se porque vivem a vida como uma luta contra os outros e contra partes de si mesmos que consideram indignas. Já vi muitos homens e mulheres perceberem que a luta que travavam para se elevarem os estava a matar – a matar as suas almas e os seus corações, e às vezes também os seus corpos. Os Guerreiros, que antes sentiam um imenso orgulho na sua capacidade de cuidar das suas próprias vidas e tornar os seus sonhos realidade, começam a sentir se exaustos e esgotados, anos mais tarde. Para muitos deles, a transformação dá-se quando se dão conta das estratégias que utilizam na sua fuga para a frente: cafeína, anfetaminas, álcool.
Pode acontecer que o medo do fracasso tenha substituído um desejo saudável de auto- realização, conduzindo-o a comportamentos obsessivos e viciosos. Os Guerreiros precisam, então, de admitir a sua vulnerabilidade, a sua necessidade de amor, de outras pessoas, de amparo espiritual e físico. Como os Guerreiros têm mais controlo sobre as suas vidas do que a maioria das pessoas, habituam-se à ideia de que são superiores aos demais. Quando esse controlo falha, aprendem a reconhecer que não são fundamentalmente diferentes das outras pessoas. Aprendem que somos todos interdependentes, que precisamos das outras pessoas, da Terra, de Deus.
 
 

O Amante Guerreiro

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados
O Amante Guerreiro
Ao reconhecer a unidade com a Terra e a interdependência das pessoas, os Guerreiros passam a respeitar as pessoas que controlam as suas próprias vidas, aquelas que abandonaram o controlo das suas próprias vidas, ou aquelas a quem esse controlo foi retirado. Quando abandonam a necessidade de ser melhores, os heróis deixam de se pôr à prova constantemente e podem apenas ser.
Simbolicamente, é importante que, depois de o herói enfrentar o seu medo ao matar o dragão, o Guerreiro volte a casa e case. A recompensa pela sua luta reside no facto de se poder tornar, finalmente, um amante. Sem uma capacidade de afirmação e sem um estabelecimento de limites saudáveis, não pode haver um verdadeiro relacionamento amoroso de igual para igual. Tais capacidades permitem a criação de um relacionamento positivo com outro ser humano, com as instituições e com o mundo em geral. Em última análise, oferecem-nos a possibilidade de amar e saborear a própria vida.
Quando os Guerreiros se encontram ainda numa fase primitiva e procuram afirmar os seus desejos, envolvem-se inevitavelmente em matanças. Por isso, não obtêm bons resultados. Num próximo estádio, porém, aprendem a ser mais subtis e políticos, conseguindo obter com mais frequência aquilo que desejam. Quando os Guerreiros abandonam o controlo do resultado, podem ser mais eles próprios, em todos os momentos da sua vida.
É então que o milagre se dá. Quando abandonam o apego a determinado resultado, quando se esquecem de si e dos seus desejos, quando deixam de querer manipular as pessoas nem fazer com que estas os satisfaçam, os Guerreiros descobrem que os resultados são melhores do que ousariam esperar. É numa situação destas que as concepções budistas de desapego e as crenças místicas judaico-cristãs acerca da transcendência do ego começam a fazer sentido e a serem úteis ao herói.
 
Deixe o seu comentário
Publicado por  em 2007 in arquétipossímbolos
 

O Retorno do Herói

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados
O Retorno
O mito clássico do herói descreve o reino como um deserto. As colheitas não crescem, a doença campeia, os bebés não nascem, a alienação e o desespero imperam. A fertilidade e o sentido da vida desapareceram do reino. Esta situação está relacionada com algum fracasso do rei, que é impotente, malvado ou despótico. O aspirante a herói empreende uma jornada, enfrenta um dragão e conquista um tesouro, que pode ser composto de riquezas materiais ou de um objecto mais simbólico (o Graal, nos mitos do Graal, ou um peixe sagrado, nos mitos do Rei Pescador). Quando o herói, habitualmente um homem, regressa, é coroado rei. O seu regresso transforma magicamente o reino: começa a chover, as colheitas crescem, os bebés nascem, a praga é debelada e as pessoas voltam a ter esperança e a sentirem-se vivas.
Heróis não são apenas as pessoas que crescem, mudam e empreendem as suas jornadas, mas também aquelas que ajudam a transformar o reino. Em The Hero: Myth/Image/Symbol, Dorothy Norman afirma que “os mitos dos heróis falam mais eloquentemente da busca do homem que escolhe a vida, e não a morte”. Joseph Campbell, em The Hero With a Thousand Faces, define o herói como “o campeão não das coisas transformadas, mas das coisas em transformação: o dragão que deve ser exterminado por ele é precisamente o monstro do status quo.” A tarefa do herói consiste sempre em infundir vida nova numa cultura agonizante.
Os heróis do nosso tempo têm exactamente a mesma função. Porém, diferem dos anteriores num aspecto essencial. Em vez de ser apenas uma pessoa a ter de empreender a busca e a ter de legar uma nova verdade ao reino, passamos a ser todos nós a precisar de o fazer. O heroísmo nesta era exige que empreendamos as nossas jornadas para encontrarmos o tesouro do nosso verdadeiro ser e que compartilharmos esse tesouro com a comunidade como um todo. À medida que o fizermos, os nossos reinos serão transformados.
Quando lemos os jornais, parece-nos que pouca coisa está a mudar – ou que as coisas estão a piorar, e não a melhorar. De facto, em tempos de transformação social maciça como estes, as coisas sempre melhoram e pioram simultaneamente. As sementes do novo mundo são plantadas nas ruínas do velho mundo, mas é ainda o velho mundo que ocupa as páginas dos jornais. Em tempos de transição não existe um reino, mas um número infinito de reinos. Trata- se de uma época marcada por esforços para encontrar um novo consenso.
No início da nossa busca, sentimo-nos solitários e separados do mundo, e partimos do pressuposto que, para nos ajustarmos, temos de nos adaptar àquilo que acreditamos ser a “realidade”. Contudo, à medida que mudamos, a realidade também muda. Quanto mais temos a coragem de sermos nós mesmos, mais hipóteses temos de viver em comunidades que estejam em sintonia connosco. Assim, a recompensa da jornada inevitavelmente solitária do herói é a comunhão – comunhão com o seu ser, com as outras pessoas e com os universos natural e espiritual. No fim da jornada, o herói sente que está em casa, e que a sua casa é o mundo.
Isso não significa o fim dos problemas. A realização das nossas jornadas não nos exime da vida; enfermidades, mortalidade, desilusões, traições e até mesmo fracassos, fazem parte da condição humana. Mas, se temos fé em nós mesmos e no universo, torna-se muito mais fácil suportar tudo isso. Ademais, como os heróis enfrentam os seus medos, não ficam tão limitados por eles. Podemos agir sem nos preocuparmos continuamente se estamos a agir correctamente, se alguém nos reprovará ou se alguém nos vai surpreender em falta.
Como explica Gerald Jampolsky em Love Is Letting Go of Fear, todas essas camadas de medo são justamente o que nos impede de experimentar o amor que se encontra dentro de nós. Quanto mais conseguimos libertar-nos dos nossos medos, mais podemos mergulhar na força vital que encerramos. Quando temos receios constantes, não podemos usufruir da energia espiritual fundamental ao nosso alcance.
Se tememos a natureza e a consideramos inferior ao espírito, um local de perigos onde animais selvagens ou insectos nos devoram, não poderemos ser nutridos por ela. Se receamos as outras pessoas, se tememos ser rejeitados, ridicularizados ou humilhados pela sua pretensa sabedoria, não podemos experimentar a profundidade do amor e da entrega. Por isso empreendemos a nossa jornada solitária: para que possamos viver em amor e harmonia connosco mesmos e com os outros, para que possamos ser banhados pelo fluxo de energia amorosa que nos circunda constantemente. Essa energia provém de dentro de nós, de outras pessoas, dos mundos natural e espiritual. Está sempre disponível. A tarefa do herói consiste em desenvolver o Si Mesmo[o nó mais íntimo da Consciência] o suficiente para a receber, sem receio de nos perdermos nela ou de sermos esmagados pelo seu poder.
No contexto clássico antigo, o herói tornava-se rei – ou rainha. Talvez tornar-se rei ou rainha signifique responsabilizar-se – não apenas pela nossa realidade interior, mas pela forma como os nossos universos exteriores espelham esta realidade. Se assumimos a responsabilidade de governar o reino, isso significa que, quando os nossos reinos se assemelham a desertos, está na hora de buscar uma nova energia. Talvez nos tenhamos acomodado em demasia e tenhamos parado de crescer.
Seja o que for que façamos com o fito de melhorarmos o mundo em que vivemos, a nossa tarefa fundamental consiste sempre em realizarmos as nossas jornadas. Caso contrário, em vez de trazermos mais vida ao mundo, tornamo-nos buracos negros, vácuos que tragam a vida. Por mais que tentemos dar, na realidade consumimos a energia vital daqueles que nos cercam, empobrecemos os nossos mundos e tornamo-los menos vivos.
Como explica James Hillman em Re-Visioning Psychology, as nossas jornadas, e sobretudo os nossos encontros com os arquétipos, falam da “formação da alma”. Empreendemos as nossas jornadas para desenvolver as nossas almas. Colectivamente, estamos a criar a alma do mundo. O reino macrocósmico onde vivemos reflecte o estado dessa alma do mundo.
 
Deixe o seu comentário
Publicado por  em 2007 in arquétipossímbolossonhos
 

O Mártir

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados
O Mártir
O enredo básico do arquétipo do Mártir está patente nos antigos rituais de sacrifício das religiões de fertilidade. Fala-nos do ciclo da natureza, que vai do nascimento na Primavera ao amadurecimento no Verão, da colheita no Outono à desolação e morte no Inverno. Os antigos ritos dionisíacos, por exemplo, incluíam a mutilação do deus e a dispersão das suas partes até que nada dele restasse. Na base de todas as religiões de fertilidade está o conhecimento de que a morte e o sacrifício são pré-requisitos para o renascimento. Esta é uma lei básica dos mundos natural e espiritual.
O sacrifício e o martírio foram alvo, nos últimos tempos, de uma propaganda muito negativa, tanto na sua versão masculina como na sua versão feminina. No entanto, dificilmente achamos que não fazem sentido. Na sua base está o reconhecimento fundamental de que “Não sou a única pessoa no mundo”. Às vezes decidimos fazer algo não tanto porque queremos, mas porque isso será bom para os outros, ou porque acreditamos que esse é o comportamento correcto. É sempre necessária uma certa dose de sacrifício no relacionamento amoroso com as outras pessoas.
O sacrifício apropriado proporciona aos Mártires o conhecimento mais profundo dos seus valores e compromissos com o trabalho e com as outras pessoas, e torna-os mais, e não menos, eles mesmos. Inversamente, o sacrifício impróprio faz-lhes perder o contacto consigo próprios e com a sua capacidade de amor, de intimidade, ou até mesmo de alegria na relação, o que resulta numa tendência para experiências subjectivas, para trocar a sua própria identidade pela dos outros. Isso resulta sempre numa exigência feita aos outros de que correspondam às nossas expectativas.
Por exemplo, os pais que abandonam as suas vidas pelas necessidades dos filhos quase sempre exigem que eles lhe paguem tributo – que a criança dê a sua própria vida para validar ou justificar o sacrifício do pai/mãe, sendo bem sucedida, atenciosa, obediente. Desta forma, os filhos não podem ser eles mesmos. Mas se a doação dos pais foi apropriada, e reflectir aquilo que os pais também precisavam de fazer por si mesmos, estes não necessitam de tributo, embora, obviamente, apreciem o amor e a gratidão dos filhos.
Os nossos primeiros sacrifícios parecem ter sido arrancados de nós como se estivéssemos a abandonar partes fundamentais de nós mesmos. Depois aprendemos que jamais se deve abandonar o que é essencial. As coisas que sacrificamos adequadamente devem ser sempre aquelas que estamos prontos a abandonar. Para a maioria das pessoas, o sacrifício é doloroso porque elas se sentem na obrigação de controlar ou manipular tudo, para que os frutos do sacrifício retornem a elas, sob a forma de benefícios.
A lição final do Mártir consiste em optar por doar a sua própria vida e saber que a própria vida é a recompensa, sem perder de vista que todas as pequenas mortes, todas as perdas nas nossas vidas trazem sempre consigo uma transformação e uma nova vida, e que as mortes reais não são o fim, mas simplesmente uma passagem mais drástica para o desconhecido.
 
 

A velha

Georges Romey
Excertos adaptados
A velha
O mito grego atribui à velha das Parcas a missão de cortar o fio da vida quando soa a hora inscrita no Livro do Destino. As três irmãs são frequentemente representadas como velhas com um ar severo. Atropos, a maisvelha, aquela que não pode ser evitada, veste roupas negras e lúgubres. Personifica a morte. Quando produz a imagem da velha, o sonho associa-se ao mito.
A determinação do imaginário em confiar ao velho a representação da sabedoria, de uma experiência que ultrapassa os dados adquiridos de uma vida individual, e em confiar à velha os limites da idade e da morte, encontrará a sua confirmação na análise das correlações observadas em redor da segunda personagem.
velha surge com a mesma frequência no onirismo masculino e nos cenários produzidos pelas sonhadoras. A cadeia de associações em que se inscreve o símbolo compreende quatro elos, que tanto vão buscar a sua substância ao imaginário dos homens como ao das mulheres: a morte, a rigidez, a multidão, as roupas negras. A rigidez exprime-se nos sonhos femininos pela estátua e nos cenários masculinos pela armadura.
Outras quatro associações repartem-se segundo uma divisão bastante reveladora. Na proximidade da velha, as sonhadoras evocam as imagens do bébé e da menina. Nas mesmas circunstâncias, os sonhadores fazem referência ao templo e ao campo de trigo. É possível deduzir daí que o imaginário feminino coloca a velha numa escala de avaliação do curso da vida.
O bébé, a menina, a velha e a morte! Esta escala poderia bem servir para medir a angústia do ego confrontado com o carácter inelutável da degradação da aparência física. O onirismo masculino, que conjuga a velha com o tempo religioso, de que são testemunhas a presença do templo, dos monges e do campo de trigo, manifesta antes uma angústia de natureza metafísica.
Para ambos, a velha, vestida de negro, com ares de feiticeira, prefiguração da morte, despoleta o terror perante o mistério do destino. A psicologia feminina, mais realista do que o que se possa pensar, mais impregnada dos valores da terra, receia sobretudo as marcas visíveis da idade. O imaginário masculino, mais comprometido no caminho especulativo, dá à sua inquietação a dimensão do universal.
A testemunha que se põe à escuta dos sonhos acolherá numerosas imagens da velha que se agruparão num ou noutro de três grupos, em geral fáceis de distinguir. O primeiro agrupa todas as evocações da avó, quer elas se relacionem ou não com os ascendentes da sonhadora ou do sonhador.
Quanto às outras imagens da velha, observaremos que 15% delas colocam o símbolo numa função de representação da sabedoria, de um conhecimento que ultrapassa as aquisições da consciência. A velha é então a réplica feminina do arquétipo do velho sábio.
Esta representação feminizada do velho sábio deve dirigir a atenção para uma possível indeterminação do sonhador ou sonhadora no que diz respeito à tonalidade determinante, animus ou anima, que se imprime nos seus comportamentos habituais.
Em todas as outras situações, ou seja em 85% dos cenários onde aparece, a velha é portadora do significado da velhice e da morte. Vestida de negro, mostrando uma cara de feiticeira desdentada, ela recorda, de uma maneira impressionante, a evolução inexorável que promete ao botão de rosa, depressa desaparecido, o destino da flor murcha. A velha, na dinâmica do sonho acordado, é então uma das figuras reveladoras da angústia metafísica
 
Etiquetas: 

O velho sábio

Georges Romey
Excertos adaptados
O velho sábio
De que regiões profundas do ser surge esta personagem? De que camadas misteriosas da consciência colectiva? Não há um lugar onde se possa situá-lo. Ele está presente na eternidade e só se manifesta em ocasiões excepcionais.
O Velho Sábio! O mais estranho, o mais determinante dos arquétipos! O velho é o arquétipo da sabedoria ligada à consciência universal. Para o leitor que não conheça a figura do velho solitário, convém desenhar-lhe a imagem-tipo.
Trata-se, geralmente, de um homem muito idoso, de barba ou cabelos brancos, que parece viver uma vida totalmente autónoma, longe das coisas deste mundo. Os seus atributos mais frequentes são, por ordem, a barba comprida, a vela, o Livro do Destino, o cajado e os carneiros ou cabras.
Tal enumeração deixa adivinhar que o velho tem, muitas vezes, a aparência de um sacerdote, de um pastor ou de um peregrino. Mas a lista de personificações que ele pode escolher é longa. Entre elas, notar-se-ão sobretudo o eremita, o monge, o pescador, o artesão, o druida, o chefe índio, o patriarca.
velho sábio é sempre facilmente identificável porque se rodeia de características bem particulares. A mais relevante é esta estranha atitude que autoriza e interdita ao mesmo tempo, comunica e recusa dizer, manifesta uma benevolência tranquilizadora e uma reserva que parece ameaçar…
Por isto mesmo, o velho assinala a sua missão que é sempre a de cumprir uma acção mediadora. Cada um dos seus gestos, a sua aparência, o momento em que intervém na cura, colocam um par de valores relativos à luz de uma verdade total.
Os contrários antagónicos, à luz da sua vela, fundem-se numa unidade criadora, projectados repentinamente para além do bem e do mal tal como os apreende a razão humana. O papel do velho, arquétipo da sabedoria e do destino submetido à dimensão cósmica do sentido da vida, poderia preencher muitos volumes.
A sua aparição tem lugar no momento em que a atitude da pessoa face à imprevisibilidade do destino sofre uma transformação radical. A angústia nascida da confrontação com o mistério do devir tinha provocado uma reacção de vontade de domínio intelectual do destino. O esforço exacerbado para conjurar o carácter imprevisível do destino por uma previsão impossível absorve uma parte insustentável da energia vital.
Através da imagem do velho sábio, o paciente realiza a experiência da infinita relatividade. A relação com o destino não é mais uma procura de domínio, geradora de angústia, mas uma aceitação do significado desconhecido da vida, condição da harmonia essencial. O velho sábio convida o sonhador a colocar-se em comunhão com o mistério, atitude da qual depende a dissolução da angústia existencial
 

O livro

Georges Romey
Excertos adaptados
O livro
O livro conduz o imaginário do sonhador às camadas mais profundas da psique universal. Trata-se de um dos símbolos mais enraizados no inconsciente colectivo da humanidade. O livro dos sonhos é sempre um volume imponente, antigo, valioso na aparência e no conteúdo. Um volume que apenas se abrirá a um olhar disponível para acolher o sagrado.
É um dos adereços mais frequentes do velho sábio. A estreita correlação que encontramos entre os dois símbolos seria suficiente para justificar a interpretação do livro com um factor de mediação entre o passado e o futuro. O livro onírico é o fiel depositário de uma história acabada, de uma memória que persiste, mesmo que tudo pareça ter sido esquecido.
Encerra também um futuro que se expõe à compreensão do sonhador. Tal como o velho sábio, o livro conhece o Destino. Nos sonhos onde as suas páginas são desfolhadas, há sempre um despertar da psique, o fim de uma letargia da consciência, que se reanima e reencontra o prazer da evolução.
O livro do sonho encerra um conhecimento sagrado. O sagrado é aquilo que está disponível apenas para aquele que se encontra na disposição autêntica de realizar o caminho interior. O lugar onde a visão do livro se manifestará só é acessível mediante um esforço.
Normalmente, trata-se de um lugar subterrâneo. Haverá alguns degraus para sublinhar a ideia da descida que se impõe àqueles ou àquelas a quem será facultada a contemplação do livro. Espera-os uma surpresa: poderão ver mas não compreender. Pelo menos numa primeira etapa. O livro imaginário encontra-se escrito numa língua que escapa à razão.
O protótipo de todas as cenas onde o velho sábio segura o Livro do Destino encontra-se no texto de Voltaire que descreve o encontro entre Zadig e o eremita. Vamos reproduzi-lo aqui, uma vez que exprime a essência do símbolo e que os inúmeros exemplos oníricos por nós estudados apenas reproduzem, sob formas variadas, os elementos que o compõem:
Zadig encontrou no caminho um eremita, cuja barba branca e venerável lhe descia até à cintura. Tinha na mão um livro que lia atentamente. Zadig parou e fez-lhe uma profunda vénia. O eremita saudou-o de forma tão nobre e doce que Zadig teve vontade de ficar a conversar com ele. Perguntou-lhe que livro estava a ler. “É o livro dos destinos. Queres lê-lo?” Pôs o livro nas mãos de Zadig que, embora conhecesse várias línguas, não pôde decifrar o que lá estava escrito.
Voltaire inspirou-se num texto de Addison, publicado em 1711, no qual Addison retomava um excerto doTalmud (transcrição da tradição oral judaica e serve de código do direito judaico, canónico e civil. (N.T.)). Este excerto, baseado numa antiga lenda oriental, mostra que o homem é incapaz de desvendar os desígnios da Providência. Essa impossibilidade deriva do facto de utilizarmos a razão para compreender esses escritos.
Quando, no seu sonho, o paciente cede simbolicamente ao sono, ou seja, quando abandona a vontade de tudo dominar através da razão, o sentido do conteúdo do livro é-lhe revelado, como que por magia. O Livro do Destino nunca está escrito numa linguagem familiar. Mostra signos, figuras geométricas, hieróglifos, imagens.
O velho sábio partilha com o livro uma linguagem simultaneamente obscura e clara. O velho, expressão da sabedoria inata, comunica por gestos e signos; raramente o faz através da palavra. O livro é a expressão por excelência deste tipo de comunicação. Há dois exemplos que podem ilustrar o que acabamos de dizer: o de Charlotte e o de Hervé. Charlotte vê uma jovem que acaba de dominar um dragão que impedia o acesso a uma aldeia construída sobre um mar subterrâneo. Charlotte enche-se de coragem e mergulha nas profundezas desse oceano.
Apercebe-se da existência de uma segunda aldeia, réplica exacta da superfície:
…de repente, todas as casas iluminadas do fundo do mar apagaram as luzes…está escuro…avanço por tentativas…há uma luz muito ténue numa das casas. Bato no vidro da janela…entro e vejo um homem muito velho, um velho artesão, que trabalha à luz de uma vela sobre um velho manuscrito. Desenha signos que não compreendo muito bem: rodas, triângulos, coisas que se entrecortam, símbolos um pouco alquímicos…é ele que alimenta, através desta pequena vela, as luzes de todas as outras casas…diz-me que é importante que haja zonas de sombra e zonas de luz…
Numa montanha, Hervé encontra um amontoado de pedras, um túmulo, que começa a explorar durante vários dias. Descobre:
…utensílios, armas, ossadas…descubro também um livro, folhas de papiro cosidas, nas quais estão escritos hieróglifos incompreensíveis para mim…embrenho-me na montanha com o livro, tentando encontrar quem possa explicar-mo. O livro contém também desenhos, figuras geométricas muito complexas, e fico admirado de ver que uma coisa tão antiga possui elementos tão sábios. Encontro um velho que vive numa cabana, no bosque, e que começa a explicar-me o conteúdo do livro…estão lá todas as leis do universo que as pessoas que as escreveram conheciam através de uma compreensão perfeita da natureza e não através da ciência…
O livro assume também uma função de mediação. No caso de Charlotte, o velho sábio e o livro mostram à sonhadora o valor da sombra e da luz. A jovem tinha uma tendência excessiva para a sublimação e o sonho condu-la a um registo de vida mais realista.
Contudo, na maior parte das situações, o livro imaginário simboliza o tempo. Transporta o peso de todas as épocas da memória individual e colectiva e, por isso mesmo, contém o sentido profundo das coisas da vida, inacessível à razão. Christine diz num sonho:
…Anda tudo muito depressa; dir-se-ia que as páginas do livro se voltam muito depressa, como se se tratasse de um pião…não se consegue ver o que lá está escrito…dir-se-ia que se trata de um riacho…é o Tempo que se escoa, o navio do Tempo!…
Uma outra sonhadora, Rachel, exprimiu a ideia de que o livro onírico tem a capacidade de conferir ao ser uma unidade que depende da sua aceitação de um futuro permanente. Um livro sonhado contém tudo o que aconteceu e tudo o que está para acontecer.
Anula os compartimentos de tempo mensurável, que separam a consciência do campo ilimitado de um tempo total. Não deve funcionar como um refúgio, como um abrigo para a consciência medrosa, mas antes como um terreno do qual se alimenta a dinâmica da realização pessoal.
 
Etiquetas: 

O animal

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados
O animal
O animal, enquanto arquétipo, representa as camadas profundas do inconsciente e o instinto. Os animais são símbolos dos princípios e das forças cósmicas, materiais ou espirituais. Os símbolos do Zodíaco, que evocam as energias cósmicas, são exemplo disso. Os deuses egípcios têm cabeças de animais, o Espírito Santo é representado por uma pomba.
Todos eles dizem respeito aos três níveis do universo: Inferno, Terra e Céu.
O animal, a besta que existe em nós, é o conjunto das forças profundas que nos animam e é, em primeiro lugar, a libido. Jung, na sua obra O homem e os seus símbolos, afirma: A profusão de símbolos animais nas religiões e nas artes de todos os tempos não sublinha apenas a importância do símbolo. Mostra também até que ponto é importante para o homem integrar na sua vida o conteúdo psíquico do símbolo, isto é, o instinto…O animal, que é no homem a sua psique instintiva, pode tornar-se perigoso, quando não é reconhecido e integrado na vida do indivíduo. A aceitação da alma animal é a condição da unificação do indivíduo, e da plenitude do seu desabrochamento.
Os animais, quer sejam considerados por grupos, comunidades (os ruminantes, as abelhas) ou tomados individualmente, correspondem a caracteres, mais simbólicos do que alegóricos, devido ao número e à complexidade de significados que um só significante contém.
Este interesse do homem pelo animal, considerado como uma materialização dos seus próprios complexos específicos e simbólicos (no âmbito da psicologia das profundidades, os animais são facetas múltiplas de umasombra que urge reintegrar), apresenta-se, hoje em dia, bem patente na moda dos animais domésticos, e sobretudo dos animais de “luxo”, mais adoptados do que criados. O antigo Egipto oferece um exemplo ainda mais extremo, dado que o cuidado em relação aos animais os levou à zoolatria. Um egípcio, diz Heródoto, deixa queimar os móveis, mas expõe a vida para salvar um gato das chamas. Aliás, existem inúmeras múmias de animais. Cuidar dos sepulcros dos animais era um dever de que os devotos se orgulhavam: Dei pão ao homem faminto, água ao sedento, vestes ao despido. Cuidei dos íbis, falcões, gatos e cães divinos, e inumei-os ritualmente, untados de óleos e enfaixados em panos.
Também na religião celta os animais possuem um elevado valor simbólico: o javali simboliza a função sacerdotal, o urso a função real; o cisne ou a ave, em geral, são os mensageiros do Outro Mundo. O cavalo exerce a função de psicopompo, isto é, de guia das almas ou do neófito através do labirinto da vida.
Na Bíblia ainda, Adão dá aos animais – que lhe são apresentados e que surgem agrupados (porque providos de um sentido particular) – nomes que tudo têm a ver com as paixões humanas que, segundo Fílon, devem ser domadas. O boi, por exemplo, apresenta uma afinidade com o corpo humano devido à sua docilidade; já a cabra se relaciona mais com os sentidos, pois estes seguem os seus impulsos. O carneiro evoca o Logos por causa do seu carácter macho e activo. A pomba corresponde à razão na sua apreensão do mundo visível, enquanto a rola, amante da solidão, procura a realidade invisível.
Os animais, que tantas vezes intervêm nos sonhos e nas artes, formam pois identificações parciais com os homens: são aspectos e imagens da sua natureza complexa, espelhos das suas pulsões profundas, dos seus instintos domesticados ou selvagens. Cada um deles corresponde a uma parte de nós próprios, integrada, ou a integrar, na unidade harmonizada da pessoa.
Georges Romey
Excertos adaptados
No que diz respeito ao gato, e onde a razão não vê mais do que um quadrúpede cujas características lhe são familiares, a imagem do felino suscita uma série de associações que se agrupam em torno do tema da flexibilidade, da disponibilidade para a transformação, da plasticidade da conduta, da feminilidade, do mistério; em suma, da abertura, da aceitação da evolução psicológica.
 

O pastor

Georges Romey
Excertos adaptados
O pastor
O pastor é uma das aparências mais frequentemente adoptadas pelo arquétipo do velho sábio. Mas se é verdade que o sábio se presta melhor à personificação simbolizada pelo velho, também não deixa de ser verdade que o imaginário pode confiar tal desempenho a rapazes bem jovens.
O cenário onírico no qual o pastor evolui pode ser facilmente esboçado. Trata-se, quase sempre, de uma paisagem de montanha, com uma vegetação diminuta, um solo árido e pedregoso, um terreno sem caminho traçado onde pasta um rebanho. E, na verdade, o pastor do sonho só assume o seu pleno sentido no seio da trilogia que ele forma com os carneiros e com o seu cajado.
Aliás, todo o poder desta figura onírica pode exprimir-se numa única palavra: simplicidade. O seu reino está fora do alcance de quaisquer argumentos, da razão e dos escolhos de um pensamento causal. O seu território é um caminho imprevisto, sem fronteiras.
Imóvel como a eternidade, a sua presença ajuda aquele ou aquela que se sente perdido(a) nas armadilhas da aparência, perdido(a) nas suas aspirações a uma posse inútil e competitiva. Por isso a marcha do pastor é lenta, assim como o são os seus gestos. Conhece tudo do céu e do mundo. Sabe tanto que nada diz. Qual seria o peso de uma palavra de sabedoria no oceano das vãs palavras de um pensamento que tenta sempre justificar-se?
Como os seus carneiros, o pastor percorre novas sendas, e, como o seu cajado, une o céu e a terra. Por isso, simboliza o retorno aos valores simples, a disponibilidade de uma psique que ultrapassou os limites de uma emulação competitiva para poder assim renunciar a toda a vaidade comparativa.
O caminho da felicidade é, então, o caminho da simplicidade. Os carneiros, a terra árida, a montanha, a lentidão, surgem em cerca de 70% dos cenários examinados; a corrida, a competição, a cor vermelha (afirmação da avidez temporal) intervêm em cerca de 40% das mesmas produções oníricas.
O pastor nada tem, portanto, que possa fazer lembrar as riquezas terrenas. Vai buscar a sua força ao conhecimento do essencial. O pastor do sonho vive na montanha, onde se sente próximo do céu. Na maior parte das vezes, conserva os olhos levantados para o alto, para o cume, num transporte que convida à elevação do espírito.
E quantas vezes, banhado pela luz das estrelas, o pastor deixa que o rebanho o conduza para fora dos caminhos dos homens. Por isso o pastor propõe, a uma psicologia que se consome nos caminhos da aparência, a via da autenticidade.
 

Símbolos, Sonhos, Arquétipos – resumo

A importância dos sonhos
Símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua significados especiais para além do seu significado evidente e convencional. Implica algo de vago, desconhecido ou oculto para nós. É um sinal ou uma imagem, representando um objecto, um ser vivo ou uma situação.
Eis alguns exemplos: um lírio é muitas vezes um símbolo de pureza; uma rosa simbolizará a beleza, a mulher, etc.; a cruz é o símbolo do sofrimento e da ressurreição.
Um símbolo encerra – ou resume, representa – uma ideia ou um conceito muito mais complexo. Determinados símbolos estão fortemente carregado de emoções. Por essa razão é muito mais fácil usar um símbolo em vez de expressar, verbalmente ou por escrito, o seu significado. Acontece-nos muitas vezes sabermos o que um símbolo representa mas não conseguimos expressá-lo por palavras. Dizemos muitas vezes de alguém se vai abaixo emocionalmente, que parece uma flor a murchar, por exemplo.
Por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana é que utilizamos frequentemente termos simbólicos como representação de conceitos que não podemos definir ou compreender na totalidade. Mas o homem também produz símbolos, inconsciente e espontaneamente, em forma de sonhos.
Estas mensagens do inconsciente têm uma importância bem maior do que se pensa. Na nossa vida consciente, estamos expostos a todos os tipos de influência. As pessoas estimulam-nos ou deprimem-nos, ocorrências da nossa vida profissional ou social desviam a nossa atenção. Todas estas influências podem levar-nos para caminhos opostos à nossa individualidade; e quer percebamos quer não o seu efeito, a nossa consciência é perturbada e exposta, quase sem defesas, a estes incidentes. Isto ocorre em especial com pessoas de atitude mental extrovertida, que dão muita importância a objectos exteriores, ou com as que abrigam sentimentos de inferioridade e de dúvida, envolvendo o mais íntimo da sua personalidade.
Quanto mais a consciência foi influenciada por estes preconceitos, erros, fantasias e anseios infantis, mais se dilata a fenda entre o “como vivemos” e o “como a nossa individualidade devia viver”, até se chegar a uma vida mais ou menos artificial, em tudo distanciada dos instintos normais, da natureza e da verdade. A função geral dos sonhos é tentar restabelecer a nossa balança psicológica, produzindo um material onírico (dos sonhos) que reconstitui, de maneira subtil, o equilíbrio psíquico total.
É aquilo a que chamo função complementar (ou compensatória) dos sonhos na nossa constituição psíquica. Explica por que motivo pessoas com ideias pouco realistas, ou que têm um alto conceito de si mesmas, ou ainda que constroem planos grandiosos em desacordo com a sua verdadeira capacidade, sonham que voam ou caem. O sonho compensa as deficiências das suas personalidades e, ao mesmo tempo, previne-as dos perigos dos seus rumos actuais.
É necessário haver alguma coisa eficaz para que mudemos de atitude ou de comportamento. E é isto que a linguagem do sonho faz: o seu simbolismo tem tanta energia psíquica que somos obrigados a prestar-lhe atenção.
Por que motivo os sonhos se desenrolam sob a forma simbólica?
É um facto que um verdadeiro sonho emprega, quase sempre, meios retirados do simbolismo. Uma vez que o sonho é uma expressão da vida psíquica mais profunda, é fácil de compreender que deve utilizar um meio igualmente profundo. O nosso inconsciente constitui a nossa vida mais íntima. Contém todo o nosso atavismo, as hereditariedades, as recordações, os recalcamentos e os complexos… O nosso inconsciente oculta-se nas profundidades mais recônditas do nosso ser. Os símbolos conduzem o nosso espírito para fora do tempo, em direcção a horizontes infinitos de cuja existência a nossa razão nem sequer suspeita.
Um exemplo: pensemos na palavra PÃO.
Que diz a nossa razão? Que o pão é o resultado do trabalho que o padeiro efectua com a farinha. Nada mais.
Mas… o que diz a nossa emoção profunda? Que o pão representa bem mais coisas…
Desde sempre que a palavra pão surge ornada de poesia e de simbolismo. O pão é simultaneamente banal e sagrado; evoca outros símbolos importantes, como a terra, o sulco da charrua, o trigo, a chuva, a fertilização dos campos, etc.
Intervém na oração: “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Fala-se do “pão dos anjos”. Para os cristãos, o corpo de Cristo torna-se numa hóstia de pão; etc. Foi assim que o pão se transformou nesse belo símbolo de riqueza humana, de simplicidade e de fraternidade… Haverá, porventura, acção mais comovente (em profundidade) do que «compartilhar o pão»? E, no entanto, racionalmente, compartilhar do mesmo pão é a mesma coisa que dividir por dois um pau de chocolate.
Se pensarmos em compartilhar um pedaço de chocolate com alguém, tal acto deixa-nos completamente indiferentes, ao passo que a ideia de compartilhar o pão já representa uma emoção de outra ordem. É por esta razão que o pão surge tão frequentemente nos sonhos, simbolizando toda uma riqueza positiva e benéfica, com múltiplos significados.
Ainda um outro exemplo: se vemos com emoção um navio partir, é porque, sem o sabermos, sofremos a acção do seu simbolismo. Racionalmente, é apenas um barco que se afasta, mas, simbolicamente, é a aventura, a separação, a mudança de vida, a procura da felicidade, a viagem rumo a novos horizontes ou a busca de um paraíso perdido…
Se certos sonhos ecoam tão profundamente em nós, é natural que o meio empregue esteja em proporção. Existe nos símbolos uma riqueza emotiva inacreditável. Os grandes símbolos conservam-se intactos através dos milénios e das civilizações. Reviver, em sonhos, um dos grandes símbolos do mundo equivale a mergulhar na nossa mais universal humanidade.
Os sonhos quotidianos
São os sonhos que traduzem a nossa vida pessoal do momento, as nossas preocupações, desejos, impulsos, cóleras, etc.
São interessantes, na medida em que esclarecem uma situação que não se encontra bem definida no estado consciente. Como tocam as cordas inconscientes, alimentam-se de fontes escondidas, que seríamos incapazes de examinar, quando acordados.
Os sonhos utilizam todo o material «esquecido» da nossa vida, conhecem as nossas possibilidades e desejos. Se fazemos, em estado de vigília, observações banais, elas depressa são esquecidas. Mas serão mesmo esquecidas? Não, nada disso. Elas continuam a permanecer nos centros nervosos inconscientes, onde alguns dos nossos sonhos irão descobri-las a fim de nos mostrarem situações a que devemos estar atentos. Os sonhos quotidianos ajudam-nos à nossa própria descoberta. Chamam-nos à atenção. Podem lembrar-nos características nossas às quais não temos dado a devida importância mas que podem prejudicar-nos. Tanto nos mostram as consequências dessa característica, como nos mostram os benefícios de uma mudança. Muitas vezes indicam-nos o percurso que teremos de fazer para nos mudar-nos, as vias que temos de seguir para nos “libertar-nos”.
Os sonhos quotidianos colocam-nos na pista de nós próprios. Muitas vezes, as pessoas julgam-se «alguém», crêem ter uma «forte personalidade», etc., e uma simples análise vem demonstrar que nada disso existe, pois o fundo dessa personalidade é fraco, timorato, recheado de complexos, etc.
Quantos sonhos não têm dado início a novas vidas! Porquê? Porque o sonho perturbou o sonhador e este procurou então descobrir o seu significado. Tendo conseguido decifrá-lo, com a ajuda de um psicólogo especializado, deu-se conta de que «qualquer coisa não estava bem». E abençoou o sonho por tê-lo avisado da necessidade de modificar a sua situação anterior.
É como se a nossa essência, o ‘nós’ que existe no mais fundo de cada um, que guarda o “material esquecido”, que nos conhece verdadeiramente, velasse e zelasse por si mesmo e comunicasse com o nosso lado consciente (que comanda as “manobras”).
Como as mensagens que um sonho envia são complexas e profundas, utiliza símbolos, a forma mais fácil de guardar determinados conceitos.
Na vida normal, a compreensão dos sonhos é até, por vezes, considerada supérflua. De um modo geral, é uma tolice acreditar-se em guias pré-fabricados e sistematizados para a interpretação dos sonhos, como se pudéssemos comprar um livro de consultas para nele encontrarmos a tradução de um determinado símboloNenhum símbolo onírico pode ser separado da pessoa que o sonhou, assim como não existem interpretações definidas e específicas para qualquer sonho.
Os arquétipos
As imagens humanas mais antigas, guardadas no nosso inconsciente colectivo, estão sempre disponíveis para serem utilizadas. Este aspecto do nosso passado aparece nos sonhos e permite-nos estabelecer uma ligação entre o nosso presente e o nosso futuro.
Uma das grandes fontes do sonho são os factos e as imagens do mundo que vivemos e conformam a sua experiência. A outra é o mundo íntimo da nossa alma, o inconsciente colectivo, no qual estão mergulhadas as raízes do nosso eu. É este mundo, simultaneamente pessoal e colectivo, que constitui o outro reservatório ao qual o sonho vai buscar o seu material maravilhoso. Este material toma corpo numa imagem arcaica que apelidamos de arquétipo.
Devemos aceitar estes aspectos do nosso inconsciente, já que a sua forma mutável e o seu conteúdo rico só podem ser apreendidos intuitivamente.
Nestas imagens arcaicas estão contidas todas as experiências feitas pelo psiquismo humano desde as suas origens: o crescimento e o declínio; a felicidade; os perigos; os confrontos com as forças da natureza; os animais e os seres humanos. Todos os marcos (etapas) da vida pelos quais o homem passou desde os primórdios ficaram “gravados” em nós. Desde os primórdios da nossa existência, e independentemente da raça, do sexo, da época, etc, todos passámos e continuaremos a passar pelas mesmas experiências. Nascimentos, mortes, dúvidas existenciais, desesperos, alegrias, calamidades, guerras, medos…
Há muitos exemplos, mas não em número infinito, uma vez que só existe um número limitado de acontecimentos humanos fundamentais. Estes agrupam-se em arquétipos, que são como que a essência de tudo o que existe, de tudo o que se produziu e virá ainda a produzir-se. Dir-se-ia que a repetição incessante destes padrões fez com que as imagens arcaicas se carregassem de uma energia interna, que ajuda a transmiti-las de geração em geração. Se desde os primórdios da existência se faz sempre o mesmo percurso, se esses padrões são repetidos incessantemente e fazem parte da herança do inconsciente das gerações que se seguem, não só ficam “gravadas” as experiências como a melhor forma de ultrapassá-las.
O número de arquétipos é limitado. O eu não dispõe delas como lhe aprouver. São-nos dadas como uma herança ancestral e atamo-nos às suas regras, mesmo sem o sabermos. Tanto o nosso funcionamento corporal como a nossa vida mental estão traçados desde tempos imemoriais e tentar escapar às suas leis só pode ocasionar problemas.
De forma geral, fazemos hoje o que o homem sempre fez em situações de desgosto ou alegria, no trabalho ou nas relações interpessoais e, sobretudo, quando se encontra numa situação que lhe é desconhecida. O fundamento da vida e o comportamento característico do ser humano são e sempre foram idênticos, mesmo quando variam segundo os indivíduos. É isto que nos permite compreender os legados das gerações humanas que nos precederam.
Estes legados ancestrais, arquetípicos, aparecem nos sonhos, quando o sonhador se encontra numa situação que não se prende apenas com questões pessoais. Quando temos de nos confrontar com os nossos assuntos quotidianos, fazemo-lo através do sonho quotidiano. É óbvio que os arquétipos não se pronunciam sobre uma oferta de emprego ou um projecto de férias.
O inconsciente colectivo nada tem a ver com a data do nosso casamento ou com uma mudança de casa. Competirá à consciência lidar com estes assuntos de somenos importância. No entanto, as imagens arcaicas surgirão quando estiverem em causa problemas humanos fundamentais e quando o desenvolvimento da personalidade está em causa.
Surgem quando uma etapa superior deve ser atingida ou quando uma dificuldade acaba de ser ultrapassada com sucesso. Estes acontecimentos internos têm lugar na maior parte dos indivíduos e são acompanhados por essas imagens eternamente jovens.
Todos estes símbolos são originais. Quando chegamos a um lugar perigoso, seja dentro de nós, seja fora de nós, quando a nossa conduta é perturbada por conflitos profundos ou somos assaltados por uma imensa alegria, os sonhos espelham as imagens arcaicas, as rotas seguidas por uma humanidade que sempre encontrou o seu caminho através da escassez e das catástrofes. Comunicamos com o seu saber milenar através de símbolos e não de enunciados racionais e claros.
Aquilo que é universal e originalmente humano em cada indivíduo exprime-se em imagens simbólicas acessíveis ao bom senso.
É corrente em psicologia considerar que a linguagem e o conteúdo dos grandes sonhos são extremamente análogos à linguagem e ao conteúdo dos mitos e lendas. Estes fazem parte da experiência humana formada e transmitida ao longo dos séculos. Era através deles que se transmitia a sabedoria e a experiência. A única diferença reside no facto de o sonho não nos ser tão imediatamente acessível como um mito ou uma lenda. Compreenderemos melhor o que os grandes sonhos querem transmitir-nos se conhecermos a mitologia dos povos, as lendas gregas e germânicas, os contos europeus e asiáticos, ou quando penetramos no mundo mágico dos povos primitivos.
Convém mencionar também a leitura da vida dos santos, pertençam eles ao hemisfério psíquico ocidental ou oriental, bem como das obras dos grandes poetas. Estas representam o destino humano, cuja encarnação individual se faz na figura do herói. A poesia conta o que pode suceder-nos entre a vida e a morte. Daí os dicionários de símbolos serem por vezes exaustivos, explicando o símbolo à luz das mais diversas culturas, na literatura, etc, etc.
Nunca apreciaremos o quanto o mundo dos arquétipos é importante. É um espólio imenso que encerra todas as situações essenciais da nossa existência. Se tentássemos desfazer-nos deste fundo da nossa alma, o nosso eu ficaria reduzido a um conjunto de recordações meramente pessoais. Viveríamos desligados do passado e estaríamos desarmados diante de um futuro hostil.
A voz dos arquétipos é a voz do género humano.
* * *
Na interpretação de um sonho temos, então, os seguintes símbolos:
Símbolos naturais – derivados dos conteúdos inconscientes da psique individual.
Símbolos culturais – símbolos usados para expressar “verdades eternas”. São imagens colectivas aceites pelas sociedades civilizadas.
Símbolos arquetípicos ou Arquétipos – símbolos comuns a todos nós desde os primórdios da humanidade.
Como foi dito acima, o sonho não pode nunca ser separado de quem o sonhou. Só essa pessoa sabe o significado dos símbolos – o que cada símbolo representa para si. Um mesmo símbolo (natural) pode ter significados diferentes para duas pessoas.
Seguem-se os símbolos culturais. É preciso saber, grosso modo, o significado do símbolo. Por exemplo, o pão. Depois, pensar no significado que o pão tem para si. O que é que o significado do símbolo pão pode ter em particular para a pessoa que o sonhou.
Por último, os arquétipos. Insere-se num símbolo arquetípico?
Há determinadas regularidades simbólicas com matizes para cada pessoa.
De forma geral, não se encontra a resposta num livro banal. “Sonhar com X quer dizer Y.” Tem de procurar-se sempre o significado do símbolo ou do arquétipo e reflectir no que isso pode significar para nós. O mesmo sonho sonhado por duas pessoas não tem forçosamente de transmitir a mesma mensagem.
 
Deixe o seu comentário
Publicado por  em 2007 in arquétipossímbolossonhos
 

Os arquétipos

Ernest Aeppli
Les rêves et leur interprétation
Paris, Payot, 2002
Excertos adaptados
Os arquétipos
“Porquê tanto barulho a propósito do que é novo? Os valores mais antigos são mais importantes do que os valores mais modernos!” Esta afirmação foi feita num artigo recentemente publicado numa revista cultural. O mais antigo e o mais recente são dois pólos que habitualmente se opõem. No entanto, aquilo que existe em nós de mais passado reflecte sempre o que nos acontece no presente.
As imagens humanas mais antigas, guardadas no nosso inconsciente colectivo, isto é, comum a todos, estão sempre disponíveis para serem utilizadas. Além do mais, contêm a semente e o símbolo da vida presente e da vida futura. Este aspecto do nosso passado aparece nos sonhos e permite-nos estabelecer uma ligação entre o nosso presente e o nosso futuro.
Estas reflexões ajudam-nos a ver a importância do que a psicologia complexa chama de situação arquetípica e símbolo arquetípico. A interpretação dos sonhos só se torna possível se partirmos da realidade fundamental destes fenómenos psíquicos.
Os factos e as imagens deste mundo estão à disposição de cada indivíduo e conformam a sua experiência, sendo uma das grandes fontes das quais o sonho se serve. A outra fonte é o mundo íntimo da nossa alma, oinconsciente colectivo, no qual estão mergulhadas as raízes do nosso eu.
O inconsciente colectivo pertence a todos nós e prolonga-se em cada um dos nossos seres. Contudo, não nos movimentamos totalmente à vontade neste mundo, uma vez que ele próprio nos resiste, mesmo que a sua riqueza esteja presente dentro do nosso próprio inconsciente pessoal, da nossa imaginação e dos nossos sonhos. Esse mundo influencia igualmente o nosso eu.
É este mundo, simultaneamente pessoal e colectivo, que constitui o outro reservatório ao qual o sonho vai buscar o seu material maravilhoso. Este material toma corpo numa imagem arcaica que apelidamos dearquétipo.
Mas a existência desta realidade, atestada pela psicologia moderna, não nos dispensa da obrigação de explicar a origem e a natureza deste material onírico primitivo. Devemos aceitar estes aspectos do nosso inconsciente, já que a sua forma mutável e o seu conteúdo rico só podem ser apreendidos intuitivamente.
Nestas imagens arcaicas, como lhes chamou Jung, utilizando uma expressão de Jakob Burckhardt, estão contidas todas as experiências feitas pelo psiquismo humano desde as suas origens: o crescimento e o declínio; a felicidade; os perigos; os confrontos com as forças da natureza; os animais e os seres humanos.
Os arquétipos contêm igualmente as imagens tradicionais e as imagens perdidas, que simbolizam as relações humanas com os poderes do alto e com os poderes do mundo subterrâneo. Estamos aqui perante os grandes símbolos religiosos. O ser humano sempre se confrontou com a luz diurna e com a obscuridade nocturna, e esta alternância incessante marcou profundamente a sua alma.
Os homens conheceram as estações ricas e as estações pobres. Ficaram profundamente ligados à transformação da vegetação. Dominaram o fogo e domaram os animais, a fim de os colocarem ao seu serviço e, durante milénios, recearam o inverno e os animais selvagens.
No seio da comunidade familiar, do clã ou da tribo, o homem encontrava-se rodeado pela vida e pela morte dos parentes, pela juventude e pela velhice. Tomava contacto com a sua tendência sexual e com a sua relação de dependência no seio do casal. A maternidade e a paternidade eram formas de vida importantes e aceites, como tal, pela comunidade. O milagre que a criança representava e o desabrochar dos jovens enchiam os adultos de felicidade.
A comunidade, bem como a luta dos indivíduos e das grandes associações espontâneas, criava incessantemente situações nas quais se começava a desenhar um certo comportamento humano típico. A cultura emergente difundia-se através da invenção da roda e da utilização do animal. As barcas e os navios atravessavam águas revoltas e construíam-se pontes sobre os rios. Formas de vida surgiam e conservavam-se através dos tempos, mesmo que sujeitas a modificações superficiais.
Poderíamos multiplicar os exemplos, embora não indefinidamente, uma vez que só existe um número limitado de acontecimentos humanos fundamentais, à semelhança do que acontece com as experiências de cada indivíduo. Estas agrupam-se em arquétipos, que são como que o núcleo de tudo o que existe, de tudo o que se produziu e virá ainda a produzir-se. Dir-se-ia que a repetição incessante destes padrões fez com que as imagens arcaicas se carregassem de uma energia interna, que ajuda a transmiti-las de geração em geração.
O número de arquétipos é limitado. Mas isso não os torna menos capazes de gerarem energia. Num comentário breve, Jung falou da analogia entre as formas típicas do inconsciente e a repetição morfológica ou funcional de certas semelhanças no domínio da natureza. À primeira vista, trata-se de “normas biológicas da actividade psíquica.”
O eu não dispõe delas como lhe aprouver. São-nos dadas como uma herança ancestral e atemo-nos às suas regras, mesmo sem o sabermos. E fazemos bem. Tanto o nosso funcionamento corporal como a nossa vida mental estão traçados desde tempos imemoriais e tentar escapar às suas leis só pode ocasionar problemas.
Grosso modo, fazemos o que o homem sempre fez – desde as origens – em situações de desgosto ou alegria, no trabalho ou nas relações interpessoais e, sobretudo, quando se encontra numa situação que lhe é desconhecida. O fundamento da vida e o comportamento característico do ser humano são idênticos, mesmo quando variam segundo os indivíduos. É isto que nos permite compreender os legados das gerações humanas que nos precederam.
Estes legados aparecem nos sonhos, quando o sonhador se encontra numa situação que não se prende apenas com questões pessoais. Quando temos de nos confrontar com os nossos assuntos quotidianos, fazemo-lo através do sonho quotidiano. É óbvio que os arquétipos não se pronunciam sobre uma oferta de emprego ou um projecto de férias.
O inconsciente colectivo nada tem a ver com a data do nosso casamento ou com uma mudança de casa. Competirá à consciência lidar com estes assuntos de somenos importância. No entanto, as imagens arcaicas surgirão quando estiverem em causa problemas humanos fundamentais e quando o desenvolvimento da personalidade está em causa.
Surgem quando uma etapa superior deve ser atingida ou quando uma dificuldade acaba de ser ultrapassada com sucesso. Estes acontecimentos internos têm lugar na maior parte dos indivíduos e são acompanhados por essas imagens eternamente jovens. Assim, a criança (o arquétipo da criança) simboliza sempre a sobrevivência e as possibilidades futuras.
As mulheres são conduzidas ao seu ser mais profundo quando sonham que vão ter um filho (veremos mais adiante como o mesmo pode acontecer com os homens). Em todas as épocas, as mulheres prodigalizaram carinho e cuidados e continuaram a sentir-se ligadas ao que nascia delas. Assim se imortalizou a figura universal da grande mater (mãe).
Em todas as épocas, o guerreiro aceitou, ou teve de aceitar, a morte, e o nómada errou pelos caminhos ou pelas comunidades. Fomos sempre jovens e fomos sempre velhos. Sempre convivemos com a miséria e o medo, bem como com os frutos da vida. Construímos a casa e o fogo destruiu-a. O rio e o mar foram sempre símbolos da existência.
Todos estes símbolos são originais. Quando chegamos a um lugar perigoso, seja dentro de nós, seja fora de nós, quando a nossa conduta é perturbada por conflitos profundos ou somos assaltados por uma imensa alegria, os sonhos espelham as imagens arcaicas, as rotas seguidas por uma humanidade que sempre encontrou o seu caminho através da escassez e das catástrofes. Comunicamos com o seu saber milenar através de símbolos e não de enunciados racionais e claros.
Frequentemente, é só com a ajuda de um intérprete que podemos ter acesso aos nossos conteúdos internos. No entanto, a sua energia é-nos facultada de igual modo. Segundo Nietzsche, que apenas pressentia a existência e a profundidade de certas relações, é através do sono e do sonho que refazemos certas tarefas dos nossos antepassados.
Aquilo que é universal e originalmente humano em cada indivíduo exprime-se em imagens oníricas acessíveis ao bom senso. Não é um homem em particular que simboliza o nómada, mas antes uma figura cinzenta embrulhada num manto e com um chapéu de abas largas. O nómada mexe com o nosso lado que prefere a preguiça e a comodidade. Talvez nunca tenhamos estado em determinados locais ou situações.
Porém, no sonho, as ondas embatem furiosamente contra o nosso navio; atravessamos desfiladeiros e perdemo-nos numa paisagem glaciar; estamos no meio de uma batalha e não sabemos se escaparemos com vida; catedrais magníficas rodeiam-nos e o rosto de um deus sorri-nos, mesmo que nunca tenhamos estado numa igreja. Qual de nós já encontrou um tesouro? Ei-lo nos nossos sonhos, guardado por um gigante ou um monstro aterradores.
É corrente em psicologia considerar que a linguagem e o conteúdo dos grandes sonhos são extremamente análogos à linguagem e ao conteúdo dos mitos e lendas. Estes fazem parte da experiência humana formada e transmitida ao longo dos séculos. A única diferença reside no facto de o sonho não nos ser tão imediatamente acessível como um mito ou uma lenda.
A linguagem que utilizam é a mesma, mas a causalidade dos fenómenos é apresentada de forma diferente. Compreenderemos melhor o que os grandes sonhos querem transmitir-nos se conhecermos a mitologia dos povos, as lendas gregas e germânicas, os contos europeus e asiáticos, ou quando penetramos no mundo mágico dos povos primitivos.
Convém mencionar também a leitura da vida dos santos, pertençam eles ao hemisfério psíquico ocidental ou oriental, bem como das obras dos grandes poetas. Estas representam o destino humano, cuja encarnação individual se faz na figura do herói. A poesia conta o que pode suceder-nos entre a vida e a morte.
Nunca apreciaremos o quanto o mundo dos arquétipos é importante. É um espólio imenso que encerra todas as situações essenciais da nossa existência. Se tentássemos desfazer-nos deste fundo da nossa alma, o nosso eu ficaria reduzido a um conjunto de recordações meramente pessoais. Cada ser humano seria apenas uma unidade minúscula, isolada dos seus semelhantes. Viveríamos desligados do passado e estaríamos desarmados diante de um futuro hostil.
Não podemos deixar de referir que há pessoas que se outorgam uma importância desmedida, e que crêem que antes delas nada de significativo se passou, e que nada de significativo ocorrerá após a sua morte. Outras há, aparentemente desprovidas de orgulho, que acreditam que os seus problemas individuais se revestem de uma gravidade imensa. Nunca ninguém amará ou odiará mais do que elas. O que lhes acontece é exclusivo.
Estes indivíduos terão provavelmente sonhos nos quais se confrontarão com imagens sombrias. Cabe-lhes aceitar ou não o significado dessas imagens. Muito ganhariam em inscrever o que se passa com eles no quadro da existência colectiva do ser humano. Carl Jung observa, enquanto médico:
Os arquétipos foram e são as grandes forças vitais do psiquismo e evidenciam-se da forma mais inusitada. Sempre nos trouxeram segurança e salvação e ignorá-los equivale a incorrermos nos perigos da alma. Podem também desencadear, infalivelmente, problemas neuróticos ou mesmo psicoses, comportando-se como órgãos ou sistemas funcionais negligenciados ou maltratados.
A voz dos arquétipos é a voz do género humano. Sentir-nos-emos bem quando a nossa vida consciente responder de forma adequada ao que os arquétipos têm para nos dizer. Quando os símbolos ancestrais nos aparecerem em sonhos, isso será sinónimo de uma maturidade acrescida.
O sonho traz à superfície o que alma tem de mais íntimo, a fim de que possamos abrir uma nova página na nossa vida. Dessa forma, vamos ao encontro do que nos pertence e somos reconduzidos à totalidade do nosso ser.
 
Deixe o seu comentário
Publicado por  em 2007 in arquétipossonhos
 

A função dos símbolos

Carl G. Jung (org.)
O Homem e os seus Símbolos
Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1987
Excertos adaptados
A função dos símbolos
Quando um psicanalista se interessa por símbolos, ocupa-se, em primeiro lugar, dos símbolos naturais, distintos dos símbolos culturais. Os primeiros são derivados dos conteúdos inconscientes da psique e, portanto, representam um número imenso de variações das imagens arquetípicas essenciais. Em alguns casos, pode-se chegar às suas origens mais arcaicas – isto é, a ideias e imagens que vamos encontrar nos registos mais antigos e nas sociedades mais primitivas. Os símbolos culturais, por outro lado, são aqueles que foram empregados para expressar “verdades eternas” e que ainda são utilizados em muitas religiões. Passaram por inúmeras transformações e mesmo por um longo processo de elaboração mais ou menos consciente, tornando-se assim imagens colectivas aceites pelas sociedades civilizadas.
O homem moderno não entende o quanto o seu racionalismo (que lhe destruiu a capacidade para reagir a ideias e símbolos numinosos) o deixou à mercê do submundo psíquico. Libertou-se das superstições (ou pelo menos pensa tê-lo feito), mas, neste processo, perdeu os seus valores espirituais numa escala positivamente alarmante. As suas tradições morais e espirituais desintegraram-se e, por este motivo, paga agora um preço elevado em termos de desorientação e dissociação universais.
Os antropólogos descreveram, muitas vezes, o que acontece a uma sociedade primitiva quando os seus valores espirituais sofrem o impacto da civilização moderna. A sua gente perde o sentido da vida, a sua organização social desintegra-se, os próprios indivíduos entram em decadência moral. Encontramo-nos agora em idênticas condições. Mas, na verdade, nunca chegamos a compreender a natureza do que perdemos, pois os nossos líderes espirituais, infelizmente, preocuparam-se mais em proteger as suas instituições do que em entender o mistério que os símbolos representam.
Na minha opinião, a fé não exclui a reflexão (a arma mais forte do homem); mas, desafortunadamente, numerosas pessoas religiosas parecem ter tamanho medo da ciência (e, incidentalmente, da psicologia) que se conservam cegas a estas forças psíquicas numinosas que regem, desde sempre, os destinos do homem. Despojamos todas as coisas do seu mistério e da sua numinosidade; e nada mais é sagrado.
Em épocas recuadas, enquanto os conceitos instintivos ainda se avolumavam no espírito do homem, a sua consciência podia, certamente, integrá-los numa disposição psíquica coerente. Mas o homem dito civilizado já não consegue fazê-lo. A sua consciência “avançada” privou-o dos meios de assimilar os contributos complementares dos instintos e do inconsciente. Estes meios de assimilação e de integração eram, exactamente, os símbolos numinosos tidos como sagrados por um consenso geral.
Hoje, por exemplo, fala-se da “matéria”. Descrevemos as suas propriedades físicas. Procedemos a experiências de laboratório para demonstrar alguns dos seus aspectos. Mas a palavra “matéria” permanece um conceito seco, inumano e puramente intelectual, e que para nós não tem qualquer significação psíquica. Como era diferente a imagem primitiva da matéria – a Grande Mãe – que podia conter e expressar todo o profundo sentido emocional da Mãe Terra! Do mesmo modo, o que era espírito identifica-se, actualmente, com intelecto e, assim, deixa de ser o Pai de Todos; degenerou até chegar aos limitados conhecimentos egocêntricos do homem. A imensa energia emocional expressa na imagem do “Pai Nosso” desvanece-se na areia de um verdadeiro deserto intelectual.
À medida que aumenta o conhecimento científico, diminui o grau de humanização do nosso mundo. O homem sente-se isolado no cosmos porque, já não estando envolvido com a natureza, perdeu a sua “identificação emocional inconsciente” com os fenómenos naturais. E os fenómenos naturais, por sua vez, perderam aos poucos as suas implicações simbólicas. Esta enorme perda é compensada pelos símbolos dos nossos sonhos. Eles revelam-nos a nossa natureza original, com os seus instintos e a sua forma peculiar de raciocínio. Lamentavelmente, no entanto, expressam os seus conteúdos na própria linguagem da natureza que, para nós, é estranha e incompreensível.
As palavras tornam-se fúteis quando não se sabe o que representam. Isto aplica-se especialmente à psicologia, onde se fala tanto de arquétipos como a anima e o animus, o homem sábio, a Grande Mãe, etc. Pode-se saber tudo a respeito dos santos, dos sábios, dos profetas, de todos os homens-deuses e de todas as mães-deusas adoradas pelo mundo fora. Mas se são meras imagens, cujo poder numinoso nunca experimentámos, será o mesmo que falar de um sonho, pois não se sabe do que se fala. As próprias palavras que usamos serão vazias e destituídas de valor. Elas só ganham sentido e vida quando se tenta levar em conta a sua numinosidade – isto é, a sua relação com o indivíduo vivo. Apenas então se começa a compreender que todos aqueles nomes significam muito pouco – o que importa é a maneira como estão relacionados connosco.
Reminiscências de memórias de infância e reproduções de comportamentos psíquicos, expressos por meio de arquétipos, podem alargar os nossos horizontes e aumentar o campo da nossa consciência – sob a condição de que os conteúdos readquiridos sejam assimilados e integrados na mente consciente. Como não são elementos neutros, a sua assimilação vai modificar a personalidade do indivíduo, já que também eles vão sofrer algumas alterações. Neste estado a que chamamos o processo de individuação, a interpretação dos símbolos exerce um papel prático de muito relevo, pois os símbolos representam tentativas naturais de reconciliação e união dos elementos antagónicos da psique.
Segue: Ensaio sobre o inconsciente V - A psique fala-nos?
 
Deixe o seu comentário
Publicado por  em 2007 in arquétipossímbolossonhos
 

A importância dos sonhos – Carl G. Jung

Carl G. Jung (org.)
O Homem e os seus Símbolos
Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1987
Excertos adaptados
Ensaio sobre o inconsciente I
A importância dos sonhos
Aquilo a que chamamos símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais para além do seu significado evidente e convencional. Implica algo de vago, desconhecido ou oculto para nós.
Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto mais amplo, que nunca é definido de uma única forma ou explicado totalmente, nem podemos ter esperanças de a definir ou explicar. Quando a mente explora um símbolo, é conduzida em direcção a ideias que estão fora do alcance da nossa razão.
Por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana é que utilizamos frequentemente termos simbólicos como representação de conceitos que não podemos definir ou compreender integralmente. Esta é uma das razões por que todas as religiões empregam uma linguagem simbólica e se exprimem através de imagens. Mas este uso consciente que fazemos dos símbolos é apenas um aspecto de um facto psicológico de grande importância: o homem também produz símbolos, inconsciente e espontaneamente, em forma de sonhos.
Há ainda certos acontecimentos de que não tomamos consciência. Permanecem, por assim dizer, abaixo do limiar da consciência. Aconteceram, mas foram absorvidos subliminarmente, sem o nosso conhecimento consciente. Só podemos percebê-los em algum momento de intuição ou por um processo de intensa reflexão que nos levem à subsequente compreensão de que devem ter acontecido. E, apesar de termos ignorado originalmente a sua importância emocional e vital, mais tarde brotam do inconsciente como uma espécie de segundo pensamento.
Este segundo pensamento pode aparecer, por exemplo, sob a forma de um sonho. O aspecto inconsciente de um acontecimento é-nos revelado, geralmente, através de sonhos, onde se manifesta, não como um pensamento racional, mas como uma imagem simbólica. Do ponto de vista histórico, foi o estudo dos sonhos que permitiu, inicialmente, aos psicólogos, a investigação do aspecto inconsciente de ocorrências psíquicas conscientes.
Fundamentados nestas observações é que os psicólogos admitem a existência de uma psique inconsciente, apesar de muitos cientistas e filósofos lhe negarem existência. Argumentam ingenuamente que uma tal pressuposição implica a existência de dois “sujeitos” ou, em linguagem comum, de duas personalidades dentro do mesmo indivíduo. E estão inteiramente certos: é exactamente isto o que ela implica. Esta divisão de personalidades é, com efeito, uma das maldições do homem moderno. Não é, de forma alguma, um sintoma patológico: é um facto normal, que pode ser observado em qualquer época e em quaisquer lugares. O neurótico cuja mão direita não sabe o que faz a sua mão esquerda não é caso único. Esta situação é um sintoma de inconsciência geral, que é, inegavelmente, herança comum de toda a humanidade.
Aquele que nega a existência do inconsciente está, de facto, a admitir que, hoje em dia, temos um conhecimento total da psique. É uma suposição evidentemente tão falsa quanto a pretensão de que sabemos tudo a respeito do universo físico. A nossa psique faz parte da natureza e o seu enigma é, igualmente, sem limites. Assim, não podemos definir a psique nem a natureza. Podemos, simplesmente, constatar o que acreditamos que elas sejam e descrever, da melhor maneira possível, como funcionam. No entanto, fora das observações acumuladas em pesquisas médicas, temos argumentos lógicos de bastante peso para rejeitarmos afirmações como “não existe inconsciente”, etc. Aqueles que fazem este tipo de declaração estão a expressar um velho misoneísmo – o medo do que é novo e desconhecido.
Sigmund Freud foi o pioneiro, o primeiro cientista a tentar explorar empiricamente o segundo plano inconsciente da consciência. Trabalhou baseado na hipótese de que os sonhos não são produto do acaso, mas que estão associados a pensamentos e problemas conscientes. Esta hipótese nada apresentava de arbitrário.
Segue: Ensaio sobre o inconsciente II – A função dos sonhos
 
6 Comentários
Publicado por  em 2007 in arquétipossímbolossonhos
 
Etiquetas: 

Nenhum comentário:

Postar um comentário